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Revisado por Ana Paula



A Alquimia do Amor

(Mystique)

Amanda Quick



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   Captulo 1
   
   Alice se orgulhava de sua inteligncia e de ter recebido uma boa educao lgica. Era uma dama que nunca tinha dado muito crdito s lendas. Mas era porque jamais 
tinha precisado que uma lenda a ajudasse at pouco tempo atrs.
   Essa noite, desejava acreditar e, de fato, havia uma lenda vivente sentada  cabeceira da mesa, no salo do Lingwood Manor, a propriedade familiar.
   O sombrio cavalheiro ao que chamavam Hugh o Implacvel, jantava sopa de legumes e salsicha de porco, como se fosse um homem comum. Alice deduziu que at uma lenda 
tinha que comer.
   Essa ideia prtica lhe deu nimos enquanto descia as escadas da torre. Colocou o seu melhor vestido para to importante ocasio, feito de veludo verde escuro, 
e debruado com cinta de seda. Tinha o cabelo preso com uma fina rede de contas de ouro que tinha sido de sua me, e fixado com uma delicado presilha de metal dourado. 
E calava sandlias de couro verde. Alice no podia estar mais disposta para sair ao encontro de uma lenda.
   Entretanto, a cena com que se deparou  ao final das escadas, a fez vacilar.
   Talvez Hugh o Implacvel comesse como um homem qualquer, mas a terminava a semelhana. Percorreu-a um pequeno estremecimento, em parte de temor, em parte de 
expectativa. Todas as lendas eram perigosas, e sir Hugh no era a exceo.
   Deteve-se no ltimo degrau, as saias presas com as mos, e contemplou inquieta o salo lotado. Sentiu uma sensao de irrealidade e, por um momento, imaginou 
que tinha entrado na oficina de um feiticeiro.
   Embora estevesse cheio de gente, no recinto reinava uma estranha quietude. O ar era pesado, como carregado de sombrias maravilhas e lgubres advertncias. Ningum 
se movia, nem os criados.
   O harpa do trovador silenciou. Os ces se escondiam sob as mesas largas, sem fazer caso dos ossos que estavam no cho. Os cavalheiros e soldados sentados nos 
bancos pareciam feitos de pedra.
   
   As chamas do salo principal se agitavam inutilmente para as sombras que pareciam mexer e turvar o ambiente.
   Era como se tivessem lanado um feitio sobre o salo, antes familiar, convertendo-o em um lugar estranho e antinatural. "No teria que me surpreender -pensou 
Alice-. Hugh o Implacvel tem uma reputao mais aterradora que a de qualquer mago."
   No final das contas, este era o homem em cuja espada estava gravada, conforme diziam, a expresso Provocadora de Tormentas.
   Alice contemplou as feies obscurecidas do Hugh atravs de todo o salo, e se convenceu de trs coisas com total certeza. A primeira, que as tempestades mais 
perigosas eram as que se agitavam dentro do indivduo, e no as que lhe atribuam  espada. A segunda, que continha os ventos sinistros que uivavam dentro dele com 
vontade inflexvel e deciso frrea.A terceira, que soube em um nico olhar, foi que Hugh sabia como usar essa reputao em seu prprio benefcio. Embora na aparncia 
era um convidado, dominava a todos os presentes no salo.
   - lady Alice?
   Hugh falou do fundo dessas sombras opressivas, e sua voz soou como se viesse do fundo de um profundo lago, no interior de uma cova muito profunda.
   Os rumores que o precediam no exageravam. O sombrio cavalheiro estava vestido totalmente de negro, sem adornos, nem bordados. Tnica, cinturo, botas... toda 
da cor de uma noite sem estrelas.
   -Eu sou Alice, meu senhor. -Fez uma profunda reverncia, pois as boas maneiras nunca fariam mal  prpria causa. Quando ergueu a cabea, viu Hugh olhando-a, fascinado 
- Ordenou que me buscassem, senhor.
   -Sim, senhora. Por favor, aproxime-se para que possamos falar. -No era uma petio-. Tenho entendido que voc tem em seu poder algo que me pertence.
   Era o momento que Alice tinha estado esperando. Levantou-se lentamente depois do gracioso gesto de submisso. Avanou entre as filas de largas mesas, esforando-se 
por recordar tudo o que tinha averiguado sobre o Hugh nos ltimos trs dias.
   No melhor dos casos, a informao era escassa e se apoiava, mais que nada, em intrigas e mitos. No lhe bastava esse conhecimento. Tinha querido saber mais porque 
muitas coisas dependiam de como tratasse esse homem nos prximos minutos. .
   
   Mas o tempo tinha terminado. Teria que aproveitar ao mximo os dados fragmentados que conseguiu reunir entre os falatrios que percorriam a aldeia e o salo do 
tio.
   O suave murmrio de suas saias sobre as tbuas do cho e o ranger do fogo foi o nico som que se ouviu no grande recinto. Sobre o lugar pendia uma atmosfera de 
terror e excitao.
   Alice lanou um olhar a seu tio, sir Ralf, que estava sentado junto ao perigoso hspede. A cabea calva do tio tinha um filete de suor. A figura rolia, embelezada 
com uma tnica de cor escura que enfatizava o corpo gordo, estava perdida nas sombras que pareciam emanar do Hugh. Uma das mos gordinhas de Ralf, carregada de anis, 
rodeava uma jarra de cerveja, mas no bebia.
   
   Pelas atitudes altissonantes e fanfarronas do tio, Alice sabia que estava ansioso ao ponto de sentir um puro terror. Os joviais primos da Alice, Gervase e William, 
tambm estavam assustados. Sentados rgidos a uma das mesas mais baixas, tinham os olhos fixos em Alice. A moa percebia o desespero, e entendia o motivo. Frente 
a eles, com semblante srio, estavam sentados os homens do Hugh, endurecidos nas batalhas, enquanto que o fogo fazia brilhar os punhos de suas espadas.
   Alice tinha a misso de aplacar Hugh. Dependia dela que essa noite no corresse sangue.
   Todos sabiam por que Hugh o Implacvel tinha ido ao Lingwood Hall. S os habitantes sabiam que o que procurava no estava ali, e o que fazia tremer os joelhos 
de todos era a possvel reao do sujeito quando se inteirasse da novidade.
   Decidiu-se que Alice teria que lhe explicar a situao. Nos ltimos trs dias, desde que se soube que o aterrador cavalheiro se aproximava, Ralf se queixava em 
voz alta perante todos, de que o desastre iminente seria culpa apenas de Alice.
   O tio insistia em que a sobrinha tinha que se encarregar do peso de tratar de convencer Hugh de no destruir  o feudo em retalhao. Alice sabia que seu tio estava 
furioso com ela. Tambm sabia que estava muito assustado... e tinha razo.
   Lingwood Manor contava com um pequeno e matizado contingente de homens armados, mas que em seu interior eram mas bem granjeiros que guerreiros. Faltava-lhes experincia 
e instruo apropriadas. No era nenhum segredo que a propriedade seria incapaz de resistir a um possvel assalto do legendrio Hugh o Implacvel. Em menos tempo 
que tem contado, ele e seus homens converteriam o lugar em runas.
   Ningum achou estranho que Ralf esperasse que a sobrinha assumisse a responsabilidade de acalmar Hugh. Mais at: quase todos ficariam supresos se tal no tivesse 
ocorrido. No feudo, todos sabiam que Alice no era fcil de intimidar, nem por uma lenda.
   Aos vinte e trs anos, era uma mulher com idias prprias, e poucas vezes vacilava em mostr-las. Sabia que seu tio se queixava de que fosse to decidida e que, 
a suas costas, chamava-a de bruxa, salvo quando necessitava de algumas das poes que preparava a moa para aliviar as articulaes doloridas.
   Alice se considerava resolvida mas no tola: tinha conscincia dos perigos desse momento. Mas tambm sabia que a chegada do Hugh significava uma oportunidade 
que no podia perder. Se no, ela e seu irmo ficariam presos para sempre em Lingwood Manor.
   Deteve-se frente  cabeceira da mesa e olhou ao homem carrancudo, sentado na melhor cadeira de carvalho esculpida do salo. 

   
   Dizia-se que, at sob a melhor luz, Hugh o Implacvel no tinha aparncia agradvel, mas essa noite, a combinao de chamas e sombras conferia a suas feies 
o aspecto ameaador do diabo.
   Tinha o cabelo mais negro que o corvo, penteado, caiam em ondas sobre a fronte. Os olhos, de um estranho matiz dourado ambarino, brilhavam de inteligncia e impiedade. 
Era evidente como tinha conquistado o apelido de Implacvel. Alice soube imediatamente que esse homem no se deteria diante de nada para obter seus fins.
   Embora sentisse um calafrio, a deciso da Alice no vacilou.
   -Lady Alice, decepcionou-me que preferisse no comer conosco -disse Hugh lentamente-. Disseram-me que voc fiscalizou a preparao.
   -Sim, milorde. -Dedicou-lhe seu sorriso mais luminoso. Um dos dados que conseguiu descobrir foi que ao Hugh gostava dos pratos bem preparados. Estava segura de 
que a comida tinha estado alm de toda crtica-. Gostou?
   -Interessante pergunta. -Pensou um momento, como se fosse um problema de filosofia ou de lgica-. No encontrei problemas no sabor nem na variedade de pratos. 
Confesso que comi at me fartar.
   
   O sorriso da Alice se evaporou. Irritaram-na a mesura das palavras e a bvia falta de entusiasmo. Esse dia, tinha passado horas nas cozinhas controlando os preparativos 
do banquete.
   -Alegra-me saber que no encontrou nenhum problema nos pratos, milorde.
   Pela extremidade do olho percebeu que seu tio se encolhia diante do tom cortante da sobrinha.
   -No, no havia nada de mau na comida --concedeu o cavalheiro--. Mas devo admitir que quando uma pessoa se inteira de que a pessoa que fiscalizou os preparativos 
decide no com-la, no pode descartar a possibilidade de que haja veneno.
   -Veneno! - indignou-se. -A mera idia de acrescentar condimento  comida, no  assim?
   Ralf se encolheu como se Hugh acabasse de tirar a espada. De onde estavam os criados emergiu uma exclamao de horror. Os soldados se mexeram, inquietos. Alguns 
dos cavalheiros colocaram as mos nos punhos das espadas. Gervase e William pareciam a ponto de adoecer.
   -No, milorde -apressou-se a balbuciar Ralf-, asseguro-lhe que no h o menor motivo para suspeitar que minha sobrinha possa ter envenenado a sua comida, eu juro, 
senhor, por minha honra, ela no seria capaz de fazer algo assim.
   -Como ainda estou aqui, e muito bem depois de ter jantado soberbamente, inclino-me a estar de acordo com voc --disse Hugh-. Mas no pode deixar de entender minha 
cautela, diante dessas circunstncias.
   -E que circunstncias seriam essas, milorde? -perguntou Alice.
   Quando o tom de Alice passou de cortante a grosseiro, viu que Ralf fechava com fora os olhos, desesperado. Ela no tinha a culpa de que a conversao no tivesse 
comeado com um tom amigavl. Quem lhe infundiu antagonismo foi Hugh, no ela.
   Veneno, caramba! Como se pudesse ocorrer-lhe semelhante coisa! 
   Teria podido usar uma das receitas mais insalubres de sua me s como ltimo recurso e, se um de seus informantes a tivesse convencido de que Hugh era estpido, 
cruel, um tipo brutal,  carente de inteligncia. "E at nessas condies -pensou, cada vez mais indignada-, no me ocorreria mat-lo."
   Limitaria-se a usar uma das preparaes inofensivas cujo nico efeito seria deixar a ele e a seus homens to sonolentos ou nauseados que fossem incapazes de matar 
aos habitantes da casa a sangue frio.
   
   Hugh observou a Alice. E ento, como se lhe lesse os pensamentos, sua boca desenhou um sorriso perverso que no tinha nem um pingo de bondade, s uma grande ironia
   -Senhora, culpa-me por ser cauteloso? Recentemente soube que voc estuda textos antigos.  bem sabido que os antigos tinham grande inclinao para os venenos. 
Alm disso, inteirei-me de que sua prpria me era uma perita nas ervas estranhas e pouco comuns.
   -Senhor, como se atreve? -J estava furiosa, e esqueceu qualquer idia de tratar a esse homem com cuidado e circunspeo-. Sou estudiosa, no envenenadora. Estudo 
matrias de filosofia natural, no de magia negra. Em efeito, minha me era uma perita herbanria e grande curadora. Mas jamais teria usado suas habilidades para 
machucar a ningum.
   -Certamente, alivia-me sab-lo.
   -Eu tampouco tenho intenes de matar pessoas -continuou Alice-. Nem sequer a hspedes grosseiros, ingratos como voc, milorde.
   A Jarra de cerveja tremeu na mo de Ralf. 
   -Alice, pelo amor de Deus, cale-se.
   A sobrinha no lhe fez caso e olhou ao Hugh com olhos entreabertos.
   -Pode estar seguro de que nunca em minha vida matei  ningum, senhor. Mas, no  uma afirmao que se possa fazer com respeito a voc.
   O silncio mortal se quebrou pelas exclamaes cheias de horror de vrios dos presentes. Ralf gemeu e colocou a cabea entre as mos. Gervase e William estavam 
chocados.
   Hugh era o nico no salo que permanecia imperturbvel. Contemplou Alice com expresso pensativa:
   -Temo que esteja certa, senhora -disse em tom suave-. No posso afirmar isso.
   A simplicidade da admisso teve para Alice o efeito de ter se chocado contra uma parede de tijolos. interrompeu-se de repente.
   Piscou e recuperou o equilbrio.
   -Sim, bom, a est.
   Os olhos ambarinos brilharam de curiosidade. -Senhora, onde estamos, exatamente? 
   Enchendo-se de atitude, Ralf tratou de deter a espiral descendente da conversao. Levantou a cabea, secou-se a fronte na manga da tnica, e olhou ao Hugh com 
expresso de splica:
   -Senhor, rogo-lhe entenda que minha sobrinha no quis ofend-lo.
   
   O aludido comps uma expresso dbia. -No?
   -Claro que no -exclamou Ralf-. No h motivos para suspeitar dela s porque preferiu no jantar conosco. Para falar a verdade, Alice nunca janta aqui no salo 
principal, com o resto dos habitantes da casa.
   -Que estranho -murmurou Hugh. Alice tamborilou com a ponta da sandlia. -Senhores, estamos perdendo o tempo. Hugh lanou um olhar para Ralf.
   -Afirma que... bem, prefere a solido de seu prprio quarto -apressou-se a explicar Ralf. 
   -E, por que?
   Hugh se concentrou outra vez em Alice.
   Ralf resmungou:
   -Diz que, para ela, aqui no salo principal o nvel... bem... do discurso intelectual, como o chama,  muito pobre.
   -Entendo.
   Ralf lanou a sua sobrinha um olhar hostil, acalorando-se com uma antiga queixa.
   -Ao que parece, a conversao que sustentam na mesa os cavaleiros honestos, de coraes rebeldes no  elevada o bastante para as exigncias de milady.
   Hugh ergueu as sobrancelhas.
   -Como? A lady Alice no gosta de ouvir detalhes da prtica matinal de tiro dos homens nem dos xitos na caa?
   Ralf suspirou:
   -No, milord, lamento dizer que no manifesta interesse em tais assuntos. Em minha opinio, minha sobrinha  o exemplo perfeito para mostrar a estupidez de educar 
s mulheres. As deixam obstinadas. Faze-as acreditar que deveriam vestir calas. O pior  que gera ingratido e falta de respeito pelos pobres, desventurados homens 
encarregados de protege-las, que tm a triste responsabilidade de aliment-las e as vesti-las.
   Zangada, Alice lhe lanou um olhar fulminante. -Tio, isso  mentira. Sabe bem que estou muito agradecida pelo amparo que brindou a meu irmo e a  mim. Onde estaramos 
se no fosse por voc?
   Ralf se indignou.
   -Vamos, Alice, j  suficiente.
   -Direi onde estaramos Benedict e eu se no tivesse sido por seu generoso amparo. Estaramos sentados em nosso prprio salo, jantando em nossa mesa.
   
   -Pelo sangue dos Santos, Alice, ficou louca? -Olhou-a com crescente horror-No  momento de discutir esse assunto. 
   -Certo. -Esboou um sorriso amargo-. Mudaremos de assunto. Prefere que falemos de como calculou tudo para gastar o pouco que restava de minha herana que eu consegui 
preservar, depois que deu  a propriedade de meu pai a seu filho?
   -Maldio, no  uma mulher de hbitos baratos. -Por um momento, a inquietao do Ralf pela presena do Hugh cedeu passo  larga lista de queixas que tinha contra 
Alice- Esse ltimo livro que quis comprar custou mais que um bom co de caa.
   -Era um importante escrito do bispo Marbode do Rennes -replicou Alice-. Estabelece as propriedades de todas as gemas e pedras, e foi uma compra excelente.
   -Ah, sim? -resmungou Ralf-. Bom, me deixe dizer no que outra coisa se poderia ter gasto melhor essa soma.
   -Basta.
   Hugh tomou sua taa com uma mo grande e bem formada.
   Embora o gesto fosse mnimo, ao vir das profundidades do vasto poo de quietude que o rodeava, sobressaltou a Alice, que retrocedeu um passo sem querer.
   Ralf se apressou a esconder qualquer outra acusao que queria lhe fazer.
   Alice se ruborizou, zangada e envergonhada da estpida discusso. "Como se no tivssemos questes mais importantes que tratar -pensou-. Este carter feroz  
minha runa."
   Por um instante, perguntou-se com certa inveja como teria obtido Hugh um domnio to grande de seu prprio temperamento. Pois no hvia dvida de que o continha 
com mo de ferro. Era uma das caractersticas que o faziam to perigoso
   Quando a olhou, os olhos do Hugh refletiam as chamas da lareira.
   -Vamos interromper esta disputa familiar que, sem dvida,  de longa data. No tenho tempo nem pacincia para resolv-la. Lady Alice, sabe para que vim aqui esta 
noite?
   -Sim, milorde. -Decidiu que no tinha sentido lhe dar voltas  questo-. Buscar a pedra verde.
   -Estive atrs da pista desse maldito cristal a mais de uma semana, senhora. No Clydemere me inteirei de que a tinha comprado um jovem cavalheiro de Lingwood Hall.
   
   -De fato, assim foi, milord -disse Alice com vivacidade.
   Estava to impaciente por resolver o assunto como ele. -Para voc?
   -Correto. Meu primo Gervase descobriu que um vendedor a tinha na Feira do Vero do Clydemere. -Viu que, ao ouvi-la mencionar, Gervase se sobressaltava-. Meu primo 
sabia que eu acharia a pedra muito interessante, e teve a gentileza de me traze-la.
   -Disseram-lhe que, depois, encontraram o vendedor com a garganta cortada? -perguntou Hugh, com tom indiferente.
   A boca de Alice secou.
   -No, senhor.  evidente que Gervase no estava informado da tragdia.
   -Assim parece. 
   O cavalheiro lanou ao Gervase um olhar de caador. Gervase abriu e fechou a boca duas vezes, at que conseguiu dizer:
   -Juro que no sabia quo perigoso era o cristal, senhor. No era muito caro, e acreditei que seria divertido para Alice.  muito aficionada s pedras pouco comuns 
e coisas assim.
   -O cristal verde no tem nada de divertido. -Hugh veio um pouco para frente, modificando o desenho de luzes e sombras sobre suas feies rudes, que se tornaram 
mais demonacas-. Para falar a verdade, quanto mais o persigo, menos divertido me parece.
   Alice franziu o cenho quando algo lhe ocorreu. -Est seguro de que a morte do vendedor estava relacionada com o cristal, milorde?
   Hugh a olhou como se lhe tivesse perguntado se saa o sol pela manh.
   -Dvida de minha palavra?
   -No, claro que no. -Abafou um pequeno gemido. Os homens eram to suscetveis no que se referia a suas capacidades lgicas  que no vejo a relao entre a pedra 
verde e o assassinato de um vendedor.
   -Srio?
   -Sim. At onde sei, a pedra verde no  especialmente atrativa nem valiosa. De verdade, em comparao,  um cristal bem feio.
   -Certamente, aprecio sua opinio de perita. Alice no fez caso da ironia, pois sua mente avanava seguindo a lgica do problema.
   -Admito que um ladro cruel poderia ter assassinado para obter a pedra se tivesse a impresso equivocada de que tinha valor. Mas, na realidade, era bastante enganosa, 
pois do contrrio Gervase jamais a teria comprado. Alm disso, por que teriam que assassinar o pobre comerciante quando j tinha vendido a pedra? No tem sentido.
   
   -Em semelhante situao, o assassinato  muito lgico tratando de cobrir os rastros -disse Hugo com muita suavidade-. Asseguro-lhe que homens mataram e foram 
assassinados por motivos muito menores.
   -Sim, pode ser. -Apoiou o cotovelo na mo e tamborilou com os dedos no queixo-. Por todos os Santos, juro que os homens so muito hbeis para fazer uso de violncia 
desnecessria.
   -Costuma acontecer -admitiu Hugh.
   -De todos os modos, salvo que tenha evidncia concreta que assinale uma relao clara entre o assassinato do comerciante e o cristal verde, no sei como pode 
chegar  concluso certa de que h uma relao, senhor.
   -Assentiu uma vez, satisfeita de seu prprio raciocnio-.  possvel que o vendedor fosse assassinado por outros motivos, sem conexo com isto.
   Hugh no disse nada, observou-a com curiosidade arrepiante, como se uma criatura desconhecida se materializasse diante dele. Pela primeira vez, lhe viu um tanto 
desconcertado, como se no soubesse o que fazer com ela.
   
   Ralf gemeu, triste:
   -Alice, em nome de Deus, por favor no discuta com o senhor Hugh. No  momento de praticar suas habilidades retricas. 
   Diante da injusta acusao, Alice se ofendeu:
   -No me comporto com falta de cortesia, tio. S tento assinalar ao senhor Hugh que no pode deduzir algo to srio como um motivo para assassinar sem ter provas 
concretas.
   -Lady Alice, deve aceitar minha palavra a respeito -disse o convidado-. O vendedor est morto por culpa do maldito cristal. Acredito que estaremos de acordo em 
que seria melhor que no morra mais ningum por causa dele, no?
   -Sim, milorde. Espero que no seja falta de boas maneiras,  que me pergunto...
   -Ao que parecer, tudo -terminou a frase.
   Alice o olhou, carrancuda:
   -Senhor?
   -Acredito que j  perguntou tudo, lady Alice. Talvez em outro momento esse costume me parea interessante, mas esta noite no estou com nimo para semelhante 
entretenimento. S estou aqui com um propsito: quero o cristal verde.
   Alice ficou tensa.
   
   -No queria ofend-lo, milorde, mas queria assinalar que meu primo me comprou a pedra. De fato,  de minha propriedade.
   -Maldio, Alice -gemeu Ralf.
   -Alice, pelo amor de Deus, tem que brigar com ele? -sussurrou Gervase.
   -Estamos perdidos -murmurou William.
   Hugh no lhes deu ateno, e seguiu concentrado em Alice. -O cristal verde  a ltima das Pedras do Scarcliffe, senhora. Eu sou o novo amo de Scarcliffe. O cristal 
me pertence.
   A moa clareou a voz e disse, escolhendo com cuidado as palavras:
   -Compreendo que, talvez, em outra poca a pedra lhe pertenceu, milorde. Mas conforme acredito, agora se poderia dizer, em termos restritos, que j no lhe pertence.
   -Ah no? Ento, alm de estar preparada em filosofia natural, tambm sabe de leis
   A jovem lhe lanou um olhar furioso. -Gervase me conseguiu a pedra em um transao perfeitamente legal. Logo, passou para mim como presente. No sei como poderia 
reclam-la agora.
   S uma inspirao coletiva cortou o silncio sobrenatural que dominou o salo. Em alguma parte, uma jarra de cerveja caiu no cho. O choque do metal contra a 
pedra ressoou em todo o recinto. Uivou um co.
   Ralf soltou uma exclamao surda e a olhou com olhos exagerados:
   -Alice, o que est fazendo?
   -S reafirmo meu direito ao cristal verde, tio.
   -Olhou ao Hugh aos olhos-. ouvi dizer que Hugo o Implacvel  um homem duro mas honrado. No  assim, milorde?
   -Hugh o Implacvel-disse o cavaleiro em tom detestvel-,  um homem que sabe como manter o que lhe pertence. Senhora, asseguro-lhe que considero a pedra minha. 
   -Senhor, esse cristal  muito importante para minhas investigaes. Na atualidade, estudo vrias pedras e suas respectivas propriedades, e esta me parece muito 
interessante
   -Acredito lhe haver ouvido dizer que  feia.
   -Sim, milorde. Mas segundo minha experincia, a falta de encanto e atrativo aparentes freqentemente ocultam segretos de grande interesse intelectual.
   -Essa teoria, tambm se aplica s pessoas? 
   Pareceu confusa.
   -Milorde?
   
   -Poucas pessoas me achariam encantador ou atrativo, senhora. Perguntava-me se voc me acha interessante.
   -Ah.
   -Em sentido intelectual, quero dizer.
   Alice tocou os lbios com a ponta da lngua. -Ah, bom, quanto a isso, milorde, sem dvida poderia descreve-lo como interessante. 
   Certamente. "Uma descrio mais precisa seria fascinante", pensou.
    -Fico encantado. E certamente estar ainda mais interessada em saber que no recebi meu apelido por acaso. Chamam-me Implacvel porque tenho o costume de insistir 
em meu encargo at ter xito.
   -No duvido nem por um momento, senhor, mas no posso lhe conceder direito sobre minha pedra verde. -Dedicou-lhe um sorriso luminoso-. Possivelmente, no futuro, 
possa lhe emprestar. 
   -V procurar a pedra -disse Hugh, em um tom de calma aterradora-. J!.
   -Milorde, voc no compreende.
   -No, senhora,  voc que no compreende. J me cansei desse jogo que a voc tanto agrada. Me traga a pedra agora, ou aguente s conseqncias.
   -Alice! -chiou Ralf-. Faa algo.
   -Sim -confirmou Hugh-. Faa algo, lady Alice. me traga j a pedra verde.
   Alice se ergueu e se preparou para lhe dar a m notcia.
   -Temo-me que no posso, milorde.
   -No pode ou no quer? -perguntou com suavidade. Alice encolheu os ombros.
   -No posso. Recentemente, sofri o mesmo destino que voc, sabe?
   -Em nome de Deus, de que fala? 
   -Faz uns dias, roubaram-me o cristal verde, milorde. -Por Deus -murmurou Hugh-. Se quer provocar minha ira com um monto de falsidades e palavras enganosas, est 
a ponto de obter, senhora. Mas lhe advirto que no lhe agradaro as conseqncias.
   -No, milorde -apressou-se a dizer Alice-. Digo-lhe a verdade. A pedra desapareceu de meu quarto de trabalho h menos de uma semana.
   Hugh dirigiu um olhar frio e interrogante a Ralf, que assentiu com lentido. Hugh voltou seu perturbador olhar outra vez para a Alice, e a cravou sem piedade.
   -Se isso for verdade -disse com voz fria-, por que no me informou assim que cheguei?
   Alice voltou a esclarec-lo.
   
   -Na opinio de meu tio, como a pedra era de minha propriedade, eu teria que ser quem lhe informaria de sua perda.
   -E, ao mesmo tempo, apresentar sua reclamao?
   O sorriso do Hugh tinha uma aparncia cortante. No tinha sentido negar o bvio:
   -Sim, milorde.
   -Imagino ento que decidiu a atrasar a informao da perda at que eu tivesse jantado bem.
   -Sim, milorde. Minha me sempre dizia que os homens eram mais sensatos depois de uma boa comida e bem, alegre-se em saber que tenho um plano para recuperar a 
pedra.
   Hugh no pareceu escutar, mas perdeu-se em seus prprios pensamentos.
   -Acredito que jamais conheci  uma mulher como voc, lady Alice.
   Por um momento, ela se distraiu. Sentia que um prazer inesperado a enfraquecia por dentro.
   -Acha-me interessante, milorde? -se atreveu a adicionar-: Em sentido intelectual.
   -Sim, senhora. Muito interessante.
   
   
   Alice se ruborizou. Nunca tinha recebido semelhante elogio de um homem. Nunca lhe tinham feito nenhum elogio. Provocou-lhe uma intensa excitao. Era quase assustador 
que Hugh a achasse to interessante como ele a ela. Esforou-se por deixar de lado a inslita sensao para voltar aos assuntos prticos.
   -Obrigado, milorde -disse, imaginando que conservava uma elogivel compostura dadas as circunstncias-. Como lhe dizia, quando soube que voc nos visitaria, me 
ocorreu um plano pelo que poderamos recuperar o cristal, juntos.
   Ralf a olhou fixo:
   -Alice, do que est falando?
   -Logo explicarei tudo, tio. -Olhou ao Hugh, radiante-. Estou certa de que lhe interessar escutar os detalhes, milorde.
   -At agora, foram poucos, muito poucos os homens que tentaram me enganar.
   Alice ficou carrancuda.
   
   -Engan-lo, milorde? Aqui ningum tenta engan-lo.
   
   -Agora, esses homens esto mortos.
   -Senhor, acredito que temos que voltar para o tema que nos ocupa -disse Alice com vivacidade-. Como os dois temos interesse na pedra verde, o mais lgico  que 
unamos foras.
   -Lamento dizer que tambm houve uma ou duas mulheres que jogaram perigosamente comigo. -Fez uma pausa-. Mas no acredito que lhe agrade inteirar-se de quais foram 
seus destinos. 
   -Milorde, estamos nos afastando do tema. 
   Hugh passou os dedos pela borda de sua taa.
   -Mas agora que penso outra vez naquelas mulheres que puseram a prova minha pacincia com jogos estpidos, acredito que poderia dizer com alguma certeza que no 
se pareciam com voc absolutamente.
   - obvio que no. -Estava zangada outra vez-. No estou jogando com voc, senhor. Ao contrrio. Unir minha inteligncia com suas habilidades de cavalheiro para 
encontrar juntos a pedra poderia ser proveitoso para os dois.
   -Lady Alice, isso seria difcil de obter, pois no tenho provas de sua inteligncia. -Fez girar a taa entre os dedos-. Pelo menos, em nenhum sentido que no 
seja vo.
   Alice se indignou.
   -Milorde, est voc me insultando do pior modo.
   -Alice, ser a morte de todos ns -sussurrou Ralf, desesperado.
   Hugh no lhe deu ateno e continuou observando Alice.
   -No a insulto, senhora, limito-me a assinalar um fato indiscutvel. Deve ter perdido o juzo se acredita que pode livrar-se assim de mim. Uma mulher realmente 
inteligente teria compreendido faz momento que est pisando em gelo muito fino.
   -Milorde, j estou farta deste absurdo.
   -Eu tambm.
   -Quer ser sensato e escutar meu plano, ou no?
   -Onde est a pedra verde?
   Alice esgotou sua pacincia:
   -Havia lhe dito que me roubaram -disse, em voz muito alta-. Acredito que sei quem  o ladro, e estou disposta a ajud-lo a descobrir seu paradeiro. Em compensao, 
queria fazer um trato com voc. 
   -Um trato? Comigo? -No olhar do homem brilhava um perigo infinito-. Deve estar brincando, senhora.
   
   -No, falo a srio.
   -No acredito que lhe agradem os termos de um trato comigo.
   Alice o olhou, inquieta.
   -Por que no? O que implicaria?
   -Provavelmente, sua alma -respondeu Hugh. 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Captulo 2
   
   -Parece um alquimista observando um crisol, milorde. -Dunstan deu rdea solta ao velho hbito de cuspir pela borda do obstculo mais prximo. Neste caso, era 
o velho muro que rodeava Lingwood Manor-. No me agrada. Por minha experincia, essa expresso conduz problemas para meus velhos ossos.
   -Seus ossos sobreviveram a coisas piores que um cenho franzido.
   Hugh apoiou os antebraos na borda da parede e olhou a paisagem iluminada pela luz do amanhecer.
   
   Levantou-se meia hora antes, o sonho perturbado por uma inquietao familiar. Conhecia bem esse estado de nimo. As tormentas que trancava no mais profundo de 
si estavam agitando-se. Moviam-se e giravam seguindo novos rumos. Cada vez que sua vida ia dar um giro, sempre acontecia.
   A primeira vez que Hugh viveu essa sensao foi quando tinha oito anos. Foi o dia em que seu av o convocou junto ao leito de morte e lhe disse que o mandaria 
viver na fortaleza de Erasmus do Thornewood.
   -Sir Erasmus  meu suserano. -Os olhos claros de Thomas ardiam no rosto magro, devastado. -Aceitou tom-lo a seu servio. Ocupar-se de que lhe eduquem e instruam 
como cavalheiro. Entende?
   -Sim, av.
   Submisso e angustiado, Hugh estava de p a um lado da cama. Contemplava ao av em silencioso pavor, sem poder acreditar que esse homem velho e frgil que jazia 
s portas da morte fosse o mesmo cavalheiro feroz e amargo que o tinha criado desde a morte de seus pais.
   -Erasmus  jovem, mas forte. Um guerreiro excelente e destro. Faz dois anos foi s Cruzadas, e retornou com muita glria e riquezas. - Thomas fazia uma pausa, 
interrompido por uma tosse dilaceradora-. Ensinar o que precise saber para poder se vingar contra a casa de Rivenhall. Compreende-me, moo?
   -Sim, av.
   -Estuda bem. Aprende tudo o que possa enquanto esteja aos cuidados de Erasmus. Quando for um homem saber o que fazer e como faz-lo. Recorda tudo o que havia 
dito sobre o passado.
   -Recordarei, av.
   -Acontea o que acontecer, tem um dever para a memria de sua me.  o nico que resta, rapaz. O ltimo em sua linha de descendncia, mesmo nascido bastardo.
   -Entendo.
   -No dever descansar at ter encontrado um modo de se vingar dessa casa, da qual saiu a vbora que seduziu a minha inocente Margaret.
   
   Ao pequeno Hugh no tinha parecido justo procurar vingana contra a casa de seu prprio pai, face ao que lhe ensinaram com respeito  natureza malvada do cl 
Rivenhall. A final de de contas, o pai estava morto, igual  me. Era claro que se havia feito justia.
   Mas essa justia no satisfazia ao av de Hugh.
   Nada poderia satisfazer a sir Thomas.
   O pequeno Hugh de oito anos afastou o momento de dvida. Estava em jogo a honra, e nada era mais importante que sua prpria honra e a do av. Isso o assimilou 
por completo. 
   Desde que nasceu, ensinaram-lhe a importncia da honra, pois era o que restava a um bastardo, como estava acostumado a dizer sir Thomas.
   -No descansarei, av -tinha prometido Hugh com o ardor que s podia manifestar um menino de oito anos.
   -Te assegure de que assim seja. Nunca esquea que a honra e a vingana so o principal.
   
   
   
   
   
   A Hugh no surpreendeu que seu av morresse sem palavras de carinho, nenhuma bno pstuma ao nico neto. Nunca houve muito afeto nem carinho da parte do Thomas. 
A clera que lhe provocou a vil seduo, a traio e a morte de sua filha bem amada tingiu todos os sentimentos do ancio.
   No era que Thomas no se importasse seu neto. Hugh sempre soube que era de vital importncia para seu av, mas porque era o nico meio de vingana. Thomas morreu 
com o nome da filha nos lbios ressecados.
   -Margaret. Minha bela Margaret. Seu bastardo a vingar.
   
   Para sorte do filho bastardo de Margaret, Erasmus do Thornewood compensou em grande medida o que Thomas no foi capaz de dar o Hugh. Perspicaz, inteligente, e 
dono de uma spera bondade, Erasmus tinha menos de vinte e cinco anos quando Hugh foi viver com ele. Acabava de retornar triunfante da Terra Santa, e cumpriu para 
o menino o papel de pai. Esse menino lhe entregou todo seu respeito e sua infantil admirao.
   J homem, Hugh dava ao suserano sua absoluta e firme lealdade. No mundo em que Erasmus se movia, era uma espcie estranha e apreciada.
   Dunstan envolveu melhor na capa cinza de l seu corpo robusto, e observou Hugh pela extremidade do olho. O senhor sabia o que estava pensando: Dunstan no aprovava 
que fosse em perseguio a pedra verde. Considerava a ao uma perda de tempo.
   Tentou lhe explicar que o valioso no era o cristal em si mesmo e sim o que representava: a maneira mais segura de apropriar-se de Scarcliffe. Mas Dunstan se 
impacientava com essas idias. Pensava que um bom ao e um slido bando de homens armados eram as chaves para manter Scarcliffe.
   
   Era quinze anos mais velho que Hugh, veterano cheio de cicatrizes, obtidas na mesma Cruzada em que tinha triunfado Erasmus. 
   As feies rudes, gastas, refletiam a dureza daquele tempo. Diferente de Erasmus, Dunstan voltou da prova sem glria nem ouro que compensasse seus esforos.
   Embora as habilidades de caador deDunstan fossem teis para o Erasmus, todos, em especial este ltimo, sabiam que a mpar habilidade do Hugh para urdir estratagemas 
constitua a base do sereno poder de Erasmus. Este premiou a seu leal partidrio com Scarcliffe, uma posse que em outro tempo pertenceu  famlia de Hugh. Dunstan 
decidiu ir com o Hugh  nova propriedade.
   
   -No se ofenda, Hugh, mas seu cenho no  como o de outros. -Lanou uma risada breve, exibindo os buracos entre os dentes manchados-. Provoca um clima de ameaa. 
s vezes, at me impressiona. Talvez tenha aperfeioado muito bem sua lenda de cavalheiro sinistro e perigoso.
   -Engana-se. -Hugh esboou um sorriso desinteressado-. A julgar pela reao de ontem  noite de lady Alice, no aperfeioei o suficiente.
   -Sim. -Dunstan adotou uma expresso sombria-.  evidente que no se encolheu nem se acovardou como deveria. Talvez no tenha muito boa viso.
   -Estava muito concentrada em fazer um trato comigo para perceber que minha pacincia estava esgotando-se.
   A boca de Dunstan se curvou em um sorriso amargo: -Estou seguro de que esta senhora no retrocederia nem diante do demnio.
   -Uma mulher muito singular.
   -De acordo com minha experincia, as mulheres ruivas sempre trazem problemas. Uma vez, em uma taverna de Londres, conheci uma ruiva. Encheu-me de cerveja at 
que ca em sua cama. Quando despertei, j no estavam nem ela nem meu dinheiro.
   -Tratarei de me lembrar de vigiar meu dinheiro. 
   -Ser melhor que o faa.
   Hugh sorriu e no disse nada. Ambos sabiam que no lhe daria trabalho vigiar o dinheiro e as contas. 
   Tinha talento para os negcios. Poucos de seus conhecidos se ocupavam de assuntos to mundanos. Esbanjavam, e para voltar a encher suas arcas dependiam das fontes 
usuais: resgate, justas, e os afortunados que possuam terra, o ingresso de propriedades mau dirigidas. Hugh preferia algo mais direto para assegurar um ingresso.
   Dunstan moveu a cabea com ar triste:
   - uma pena que a pista do cristal verde nos tenha levado at algum como lady Alice. No sair nada bom disso.
   -Admito que tudo seria mais fcil se me deixasse intimidar, mas no estou convencido de que esta mudana dos fatos seja desafortunado -disse, marcando as palavras-. 
estive pensando-o quase toda a noite. Dunstan, aqui h possibilidades. Interessantes possibilidades.
   -Ento, estamos condenados -reps Dunstan, filosfico-. Cada vez que pensa muito em algo, topamo-nos com problemas.
   -Ter notado que tem olhos verdes.
   
   -Ah, sim? -disse Dunstan, carrancudo-. No posso afirmar que tenha notado a cor de seus olhos. O cabelo vermelho j me parece bastante mau pressgio.
   -Um matiz de verde muito especial.
   -Como os de um gato, diz?
   -Ou os de uma desgraada princesa duende.
   -Vamos de mal a pior. Os duendes praticam um tipo de magia muito fugidio. -Dunstan fez uma careta-. No lhe invejo por ter que tratar com uma pequena bruxa de 
cabelo vermelho e olhos verdes.
   -Para falar a verdade, ultimamente tenho descoberto que eu gosto do cabelo vermelho e os olhos verdes.
   -Ora. Sempre preferiu as mulheres de cabelos e olhos escuros. Em minha opinio, lady Alice no  especialmente bela. Acontecesse  que est apanhado por sua estranha 
audcia. Diverte-lhe a coragem que demonstrou ao lhe desafiar.
   Hugh encolheu os ombros.
   -No  mais que uma novidade passageira, milorde -assegurou-lhe Dunstan-. Passar logo, como a ressaca depois de beber muito vinho.
   -Sabe dirigir uma casa -prosseguiu Hugh, pensativo-. O banquete que ofereceu ontem  noite no desmereceria  esposa de um grande baro. Poderia servir-se em 
qualquer salo da nobreza. Necessito de algum que possa organizar um lar com semelhante destreza. 
   Dunstan comeou a alarmar-se.
   -Que diabos est dizendo? Pense em sua lngua, milorde. Foi to aguda como minha adaga.
   -Quando decidiu mostrar, suas maneiras foram os de uma grande dama. Poucas vezes vi uma reverncia to graciosa. Poderamos ficar orgulhosos da recepo que daria 
aos convidados.
   -Pelo que vi ontem  noite e por todos os rumores que escutei desde que chegamos aqui, tenho a impresso de que no decide mostrar essas deliciosas maneiras com 
muita freqncia -precipitou-se a dizer Dunstan.
   -Tem idade suficiente para saber o que faz. No a vejo  com uma inocente de olhos midos a que ter que proteger e cuidar.
   Dunstan girou a cabea com os olhos muito abertos. -Pelos pregos de Cristo, no falar a srio.
   -Por que no? Depois de que recuperar o cristal verde, estarei muito ocupado. H muito que fazer em Scarcliffe. No s tenho que atender os problemas de minhas 
novas terras mas tambm arrumar o velho castelo.
   
   -No, milorde. -Parecia que Dunstan estava sufocando-. Se for dizer o que eu acredito, rogo-lhe que o pense melhor
   - evidente que est bem preparada na arte de dirigir um lar. Sabe que sempre me guiei pelo princpio de que  mais proveitoso empregar bons peritos, Dunstan.
   -Talvez esse princpio lhe tenha servido para escolher serviais, ferreiros, e tecedores, milorde, mas agora est falando de uma esposa.
   -E? Pelo sangue do demnio, Dunstan, sou cavalheiro de ofcio. No tenho idia de como organizar uma casa, nem voc tampouco. Nunca pus um p, sequer, na cozinha. 
No sei muito bem o que acontece l. 
   -E isso o que tem isso a ver?
   -Muito, pois eu quero comer bem. E eu gosto da boa comida.
   -Sim, isso se percebe-se. No se ofenda, mas no que diz respeita  comida  muito exigente, senhor. No sei por que no lhe satisfaz um bom assado de cordeiro 
e cerveja.
   -Porque uma dieta de cordeiro assado e cerveja depois de um tempo me aborrece -disse Hugh, impaciente-. Alm da comida, em uma casa h outras coisas importantes. 
Milhares. Ter que limpar sales e dormitrios. Lavar a roupa. Ventilar as camas. Ter que fiscalizar os criados. O que fazer para que a roupa tenha aroma fresco 
e limpo?
   -Para esse problema no tenho soluo.
   No lhe deu ateno.
   -Em sntese, quero que o castelo Scarcliffe esteja bem dirigido, e isso significa que preciso de uma perita, do mesmo modo que para meus outros assuntos. Necessito 
a uma dama que tenha sido bem educada para administrar uma grande casa.
   
   Diante dos olhos de Hugh danou uma viso do futuro. Queria ter um salo prprio, que fosse cmodo. Queria poder sentar-se  cabeceira da mesa, sob o baldaquino 
e jantar pratos bem preparados. Queria dormir entre lenis limpos e banhar-se em gua perfumada. Sobre tudo, queria receber  seu senhor, Erasmus do Thornewood, 
de maneira adequada a sua categoria.
   Esse ltimo pensamento diminuiu o resplendor da viso. Seis semanas atrs, quando Hugh foi convocado  sala de audincias para receber o feudo do Scarcliffe, 
Erasmus no tinha bom aspecto, e era bvio que tinha perdido peso. Tinha o semblante tenso, crispado, e expresso melanclica nos olhos. sobressaltava-se ao menor 
rudo. 
   
   Hugh se alarmou. Perguntou-lhe se estava doente, mas Erasmus se negou a falar do tema.
   Ao partir do castelo de Erasmus, ouviu rumores. Soube que tinham chamado mdicos e que saram murmurando que havia uma enfermidade do pulso e do corao. Hugh 
no confiava nos mdicos, mas naquela ocasio estava preocupado.
   -Milorde, estou seguro de que pode encontrar uma outra dama muito mais adequada que esta para que seja sua esposa -disse Dunstan, desesperado.
   -Talvez, mas no tenho tempo para procur-la. No tenho oportunidade de encontrar outra esposa at a prxima primavera. No quero acampar no castelo de Scarcliffe 
em seu estado atual durante todo o inverno. Quero um salo em bom estado.
   -Sim, mas...
   -Ser muito eficaz e conveniente, Dunstan. Pense. J expliquei que a recuperao do cristal ser muito til para confirmar ao povo do Scarcliffe que eu sou seu 
verdadeiro senhor. Por favor, imagine como os impressionaria se fosse a minhas novas terras com uma esposa.
   -Pensa no que est dizendo, milorde. Hugh sorriu, satisfeito.
   -Sem dvida, conquistar-os para mim. Vero imediatamente que penso me estabelecer ali de forma permanente. Dar-lhes confiana em seu prprio futuro. Se quero 
que Scarcliffe seja rica e prspera, tenho que ganhar seus coraes e sua confiana, Dunstan
   -No o discuto, mas seria melhor conseguir outra mulher. Eu no gosto da aparncia desta, e essa  a pura verdade.
   -Admito que, a primeira vista, lady Alice no parece a mulher mais dcil e amigvel.
   -Alegra-me que notasse isso.
   -De todos os modos -continuou Hugh-,  inteligente e j passou dessa etapa de frivolidade que ataca a todas as moas.
   -Sim, e sem dvida tambm deve ter passado por muitas outras coisas. 
   Hugh fechou os olhos.
   -Sugere que j no  virgem?
   -S lhe recordo que lady Alice  de carter decididamente audaz -balbuciou Dunstan-. Mas bem, no se trata de um tmido e enrubescido casulo sem abrir, milorde.
   -Sim.
   Hugh franziu o cenho.
   
   -O cabelo avermelhado e os olhos verdes indicam paixo, senhor. Ontem  noite teve uma amostra de seu temperamento. No cabe dvida de que, de vez em quando, 
permite-se outras emoes intensas. depois de tudo, tem vinte e trs anos.
   Hugh pensou no que Dunstan dizia. -Evidentemente,  de natureza intelectual. Sem dvida, deve sentir curiosidade por esses temas. Mas acredito que ter sido discreta.
   - de esperar.
   Hugh se livrou de todas as reservas que Dunstantentava trazer a tona.
   -Estou seguro de que ela e eu nos daremos muito bem. 
   Dunstan gemeu.
   -Em nome de Deus, de onde tira essa idia? -J disse,  uma mulher inteligente. -Uma cota a mais de inteligncia e conhecimentos s serve para fazer mais difceis 
s mulheres, se me perguntar isso.
   -Acredito que ela e eu entraremos em um acordo -disse Hugh-. Como  inteligente, aprender rpido.
   -E o que  o que aprender?
   -Que eu tambm sou inteligente. -Esboou um sorriso fugaz-. E que tenho mais vontade e deciso que a que ela possa possuir
   -Se pensa em tratar com lady Alice, o aconselho que demonstre que  muito mais perigoso do que o consideram.
   -Usarei qualquer estratagema que me parea apropriado.
   -No gosto disso, milorde.
   -Sei.
   Dunstan voltou a cuspir por cima do muro. 
   -J vejo que  intil tent-lo fazer raciocinar. Esta questo de assegurar as novas terras est sendo muito mais difcil do que tinha imaginado, no?
   -Sim -concordou Hugh-. Mas este deve ser meu destino na vida. Estou acostumado
   -Certo. Ao parecer, nada  fcil, no? Alguns gostariam que os Santos tivessem piedade de vez em quando.
   -Farei tudo o que deve para reter Scarcliffe, Dunstan.
   
   -No duvido. S lhe peo que seja cauteloso ao tratar com lady Alice. Algo me diz que at o mais vigoroso dos cavalheiros poderia chegar a um mau fim com ela.
   Hugh assentiu, indicando que tomava nota da advertncia mas, para seus pensamentos, relegou-o ao esquecimento.
   Essa manh chegaria a um acordo com a misteriosa e imprevisvel lady Alice. Tinha toda a inteno de que aquela dama, com sua inteligncia e suas maneiras altivas 
descobrisse que tinha obtido mais do que esperava.
   Na noite anterior, ao perceber que talvez estivesse em presena de uma adversria mais formidvel do que antecipava, Hugh anunciou aos presentes no salo que 
no faria acordos em pblico. Disse a Alice que discutiriam a ss naquele  dia.
   Na verdade, havia prosposto a negociao porque queria ter tempo para pensar no novo n que tinha aparecido nesta meada muito enredada.
   Pensou que no curso de sua vida tinha recebido muitas advertncias diretas, mas ningum o advertiu contra Alice.
   
   Recebeu o primeiro exemplo de seu carter nas primeiras horas da noite, quando o tio exalou um longo suspiro antes de cham-la. Ao que parecia, a dama era uma 
dura prova para o tio.
   Pelo pouco que averiguou, Hugh esperava encontrar-se com uma solteirona amarga e petulante, com uma lngua capaz de esfolar vivo  um homem. 
   A nica parte da descrio que foi precisa foi referida  lngua. Ficava claro que Alice no vacilava em expressar sua opinio.
   Deixando de lado esse rasgo de audcia, a mulher que o enfrentou no salo na noite anterior era muito diferente da que Ralf havia descrito.
   Em seguida soube que Alice no era amargurada a e sim segura. Imediatamente reconheceu a diferena. No era petulante a e sim obstinada, e evidentemente muito 
mais inteligente que os que a rodeavam. Possivelmente fosse uma mulher difcil, mas sem dvida interessante.
   Segundo a descrio que Ralf fez de sua sobrinha, Hugh esperava conhecer uma criatura imponente, feita para os mesmos fins que seu cavalo de guerra.
   Mas teve uma surpresa.
   
   Lady Alice era esbelta, elegante e graciosa. No havia nela nada que recordasse  um cavalo de guerra. O longo vestido verde delineava as curvas do corpo flexvel, 
esboando os seios do tamanho de pssegos maduros, a cintura fina, e os quadris de curvas generosas.
   Hugh reconheceu que Dunstan tinha razo em um aspecto. Em Alice havia fogo suficiente para queimar a qualquer homem, e comeava pelo cabelo. As mechas da cor 
das chamas estavam metidos em uma rede dourada que refletia o resplendor do fogo.
   Tinha ossos finos, um nariz firme, queixo decidido e boca expressiva. Os olhos eram enormes, e se inclinavam ligeramente, s tmporas. Sobre eles, arqueavam-se 
delicadas sobrancelhas acobreadas. Na linha dos ombros e no ngulo do queixo se evidenciavam orgulho e nimo. Era um tipo de mulher que atraa o olhar masculino 
no por sua beleza mas sim porque, sem ser feia, chamava a ateno.
   Alice no era mulher para ser ignorada. Se sentia amargura por estar solteira aos vinte e trs anos, como Ralf sugeriu, Hugh no percebeu nenhum sinal disso.
   Na realidade, tinha a forte suspeita de que desfrutava no ter que responder diante de um marido, coisa que poderia representar certo problema para ele. Mas se 
considerava capaz de resolv-lo.
   -Lady Alice quer fazer um trato com voc -disse Dunstan-. O que pensa que pretende em troca de ajud-lo a recuperar a pedra verde?
   -Talvez livros -respondeu, distrado-. Segundo seu tio, gosta de ler.
   Dunstan resmungou.
   -Dar-lhe algum dos seus?
   Hugh sorriu:
   -Talvez lhe empreste alguns de vez em quando. 
   Seguiu contemplando a paisagem. O ar era vivo.
   As granjas e os campos de Lingwood Manor se estendiam serenos sob o cu de chumbo. 
   
   Era o comeo do outono. A colheita estava pela metade, e boa parte da terra estava nua, esperando o iminente frio do inverno. Queria chegar ao Scarcliffe o antes 
possvel. Havia muito que fazer.
   A chave era lady Alice, sentia-o nos ossos.
   Com ela poderia encontrar a maldita pedra verde e assegurar o futuro. Tinha chegado muito longe, esperado muito e desejado muito para deter-se nesse momento.
   Tinha trinta anos, mas nas manhs frias como a presente se sentia com quarenta. As tormentas interiores sopravam com ferocidade, enchendo o de inquietao, de 
uma necessidade incipiente que no compreendia bem.
   Sempre era consciente dessas tempestades que lhe rasgavam a alma, mas s nas horas mais escuras da noite, ou na nvoa cinza do amanhecer podia perceber em realidade 
os ventos tenebrosos que o impulsionavam. Sempre que podia evitava essas ocasies. No queria indagar muito a fundo no corao dessas tormentas.
   Concentrou-se na tarefa que lhe esperava. Tinha suas prprias terras. S precisava as reter, e isso era  a dificuldade.
   Nas ltimas semanas, Hugh comeou a descobrir por que as terras do Scarcliffe tinham passado por tantas mos nos ltimos anos.
   Era um fato  no se recordar de nenhum homem que tivesse tido xito em reter Scarcliffe mais que por um breve tempo para logo perd-la pela morte ou a m sorte. 
Diziam alguns que Scarcliffe estava enfeitiada por maus pressgios, m sorte e uma antiga maldio.
   
   "Que descubra as Pedras e retenha estas terras
   
   O cristal se revelar pelas mos de um guerreiro".
   
   Hugh no acreditava no poder das antigas maldies. Confiava em poucas coisas alm de sua prpria destreza como cavalheiro e a vontade decidida que o tinha levado 
at este ponto. Mas tinha um saudvel respeito pelo poder que s vezes exerciam semelhantes tolices sobre a mente de outras pessoas.
   Sem ter em conta sua prpria opinio sobre a irritante profecia, sabia que o desanimado povo do Scarcliffe acreditava na velha lenda. Seu novo senhor teria que 
demonstrar que possuia o cristal verde.
   Desde que foi tomar posse do feudo, menos de um ms atrs, Hugh descobriu que os habitantes que o chamavam senhor estavam aborrecidos. A boa gente do Scarcliffe 
o obedecia por temor, mas no via nele esperana para o futuro. Seu desnimo se manifestava em tudo o que fazia, da maneira desinteressada em que moa o trigo at 
o modo em que trabalhava os campos.
   Hugh estava acostumado a mandar; tinha sido treinado para isso. 
   
   
   
   
   
   Tinha sido chefe natural de homens durante a maior parte de sua vida adulta. Sabia que podia obter um nvel mnimo de cooperao dos governados, mas tambm sabia 
que isso no bastava.
   
   Necessitava lealdade voluntria de parte do povo para fazer prosperar Scarcliffe pelo bem de todos. O problema radicava em que os habitantes do feudo no acreditavam 
que Hugh durasse muito tempo em sua posio de lorde. Nenhum dos anteriores tinha sobrevivido mais de um ou dois anos.
   A horas, apenas, de sua chegada, ouviu murmrios que vaticinavam iminentes desastres. Uma banda de cavalheiros renegados pisoteava as colheitas. Uma tormenta 
de raios danificava boa parte da igreja. Um monge errante que pregava a condenao e a destruio aparecia na vizinhana.
   Para a gente de Scarcliffe, o roubo da pedra verde da cripta do convento local foi um acontecimento de propores catastrficas. Tambm foi a gota que transbordou 
o copo. Hugh compreendeu que, a olhos do povo, ele no era seu verdadeiro senhor.
   Compreendeu imediatamente que o modo mais rpido para ganhar a confiana do povo era recuperar a pedra verde. E isso era o que pretendia fazer.
   -Tome cuidado, milorde -advertiu-lhe Dunstan-. Lady Alice no  uma donzela temerosa que v assustar-se com a sua reputao. Sem dvida, tratar de pechinchar 
como se fosse um lojista londrino.
   -Ser uma experincia interessante.
   -No esquea que ontem  noite estava mais que disposta a negociar com sua alma pelo que espera de voc.
   -Sim. -Hugh quase sorriu-. Talvez seja precisamente a alma o que lhe pea.
   -Trate de no perder a tua na troca.
   -Supondo que tenho uma alma que perder.
   
   
   A perna manca impediu de Benedict entrar como um furaco no laboratrio de Alice mas, de todos os modos, arranjou um modo para demonstrar seu aborrecimento e 
irritao com o rosto avermelhado e os olhos verdes faiscantes de fria.
   -Alice, isto  uma loucura. -deteve-se frente a mesa de sua irm e guardou a bengala sob o brao-. No pensa seriamente em fazer um trato com o Hugh o Implacvel.
   -Agora se chama Hugh de Scarcliffe -corrigiu-o Alice.
   -Segundo o que ouvi, a palavra Implacvel lhe cai muito bem. O que pensa que que est fazendo? De todo o ponto de vista,  um homem muito perigoso.
   
   -Mas, ao que parece, honesto. diz-se que, se chegar a um acordo, respeitar-o.
   -Estou seguro de que qualquer acordo feito com sir Hugh ser em seus prprios termos -replicou--.Alice, se diz que  muito inteligente e hbil para urdir estratagemas.
   -E? Eu tambm sou bastante inteligente. 
   -Sei que est convencida de que pode manipul-lo como ao tio. Mas homens como Hugh no so fceis de manipular, e menos por uma mulher.
   
   Alice deixou a pluma com que estava escrevendo e contemplou a seu irmo. Benedict tinha dezesseis anos, e ela era a nica responsvel por ele desde que seus pais 
morreram. Tinha conscincia aguda de que tinha falhado, e estava decidida a fazer o que pudesse para compensar o fato de ter deixado que a herana do irmo passasse 
para as mos do tio Ralf.
   
   A me, Helen, tinha morrido h trs anos. O pai, sir Bernard, foi assassinado por um ladro de ruas frente a um bordel de Londres dois anos atrs. Em seguida 
depois de inteirar-se da morte do Bernard, apareceu Ralf. Alice logo se viu envolta em uma desesperada batalha legal para reter a pequena propriedade que constitua 
a herana do Benedict. Fez tudo o que pde para conservar o controle do pequeno feudo mas, apesar de seu crebro de mosquito, nesse terreno Ralf a superou. 
   
   
   Depois de quase dois anos de discusses e persuaso, convenceu Fulbert de Middleton, o suserano de Alice e tambm de Ralf, de que teria que haver um cavalheiro 
devidamente preparado para estar  frente da propriedade. Ralf afirmou que Alice, por ser mulher, era incapaz de faz-lo bem e que Benedict, com sua perna doente, 
no podia ser instrudo como cavalheiro armado. Depois de muita insistncia da parte de Ralf, Fulbert chegou  concluso de que fazia falta um homem armado para 
fazer-se cargo da pequena propriedade que tinha pertencido a lorde Bernard.
   Para fria e desgosto de Alice, Fulbert lhe entregou a propriedade de seu pai a Ralf. Este, a sua vez, deu-lhe a terra a seu filho mais velho, Lloyd.
   Pouco depois, Alice e Benedict se viram obrigados a mudar-se para Lingwood. Uma vez que se assegurou a posse do feudo, Lloyd se casou com a filha de um suserano 
vizinho. H seis meses tiveram um filho. Alice tinha uma mente bastante prtica para compreender que por muito que insistisse reclamando nos tribunais o direito 
de seu irmo, era quase improvvel que recuperasse a herana de Benedict. Saber que no tinha cumprido com a responsabilidade para o Benedict lhe provocava uma profunda 
dor. Poucas vezes deixava de cumprir, sobretudo em se tratando de algo to importante.
   Decidida a reparar esse desastre do nico modo possvel, Alice se props dar a Benedict a melhor possibilidade de progresso no mundo: mandaria-o aos grandes centros 
de ensino que eram Paris e Bolonha, para que aprendesse leis.
   E embora nada possa compens-lo pelas terras perdidas, Alice quis fazer o melhor que podia. Quando ficasse tranqila com respeito s possibilidades de Benedict 
na vida, cumpriria seus prprios sonhos, entrando em um convento que tivesse uma boa biblioteca. Uma vez ali, dedicaria-se ao estudo da filosofia natural.
   Uns dias atrs ambos os objetivos pareciam fora de seu alcance, mas a chegada de Hugh o Implacvel lhe abriu uma nova perspectiva. Estava decidida a aproveitar 
a oportunidade.
   -No te alarme, Benedict --disse com vivacidade-. Estou convencida de que sir Hugh ser um homem razovel.
   -Razovel? -Benedict fez um gesto frentico-. Alice,  uma lenda. As lendas nunca o so.
   -Vamos, no sabe. Ontem  noite, pareceu-me perfeitamente de acordo com um discurso racional.
   -Ontem  noite brincou com voc. Alice, me escute, Erasmus de Thornewood  o suserano de sir Hugh. Sabe o que isso significa?
   
   Alice tomou a pluma e tamborilou, pensativa, com a ponta nos lbios.
   -Ouvi falar de Erasmus. diz-se que  muito poderoso.
   -Sim, e isso faz que Hugh, seu homem, tambm o seja. Deve ser cuidadosa. No cr que poder regatear com sir Hugh como se fosse um vendedor. Isso seria uma loucura.
   -Tolices. -Alice lhe dirigiu um sorriso tranqilizador-. se preocupa muito, Benedict.  um defeito que percebo ultimamente.
   -Tenho motivos para me preocupar.
   -No, no tem motivo. Lembre-se do que digo: sir Hugh e eu nos entenderemos muito bem.
   Uma figura volumosa apareceu na entrada, projetando uma sombra larga e escura sobre o tapete.
   -Voc reflete minhas prprias idias, lady Alice -disse-. Alegra-me saber que pensamos igual a respeito.
   Quando a voz profunda e ressonante encheu o estudio, Alice sentiu que lhe arrepiava a pele, e embora o homem falasse muito baixo, seu som pareceu sobrepor a todos 
os outros. O pssaro que cantava no batente da janela calou. apagaram-se os ecos dos cascos dos cavalos no ptio.
   

   
   Alice sentiu que lhe contraam as vsceras e no pde deixar de olh-lo. Era a primeira vez que o via depois do enfrentamento da noite anterior, no salo. Ansiava 
descobrir se a presena do homem lhe provocava o mesmo efeito estranho que nessa primeira ocasio.
   
   Assim foi contra toda razo e a evidncia de seus prprios olhos, Hugh o Implacvel lhe pareceu o homem mais atraente que tinha conhecido. No era mais bonito 
 luz do dia que a noite anterior, mas algo a impulsionava para ele.
   " como se tivesse desenvolvido outro sentido adicional -pensou-, e o empregasse mais  frente da audio, da viso, do tato, do paladar e do olfato. Em sntese, 
 um interessante problema de filosofia natural", concluiu.
   Benedict deu bruscamente a volta  ao  recm-chegado, e golpeou a mesa de Alice.
   -Milorde. - a mandbula se enrijeceu-. Minha irm e eu sustentvamos uma conversao privada. No o vimos.
   -Dizem que  difcil me passar por alto -disse Hugh-. Voc  Benedict?
   -Sim, milorde. -Endireitou os ombros-. Sou o irmo da Alice e no acredito que deva ficar a ss com ela. No  correto.
   Alice revirou os olhos.
   -Benedict, por favor, isto  ridculo. No sou uma donzela que deva cuidar da reputao. Sir Hugo e eu s queremos conversar de negcios.
   -No  certo -insistiu Benedict.
   Hugh apoiou um ombro no marco da porta e cruzou os braos sobre o peito. -O que acredita que eu poderia lhe fazer?
   -No sei -murmurou-. Mas no o permitirei.
   A irm perdeu a pacincia.
   -J basta, Benedict. Deixe-nos sozinhos agora. Sir Hugh e eu devemos falar de negcios.
   -Mas, Alice...
   -Mais tarde falarei com voc, Benedict.
   O moo ruborizou-se intensamente. Olhou carrancudo para Hugh, que se limitou a encolher os ombros, e se afastou da porta para deix-lo passar.
   -No tema -disse Hugh em tom contido-. Dou-lhe minha palavra de que no violarei sua irm durante este acordo que ela quer fazer comigo.
   Benedict ruborizou-se mais ainda. Lanou um ltimo olhar zangado a Alice, passou junto a Hugh com rudeza, e desapareceu pelo corredor.
   Hugh esperou at que estivesse o bastante longe para no ouvi-los e logo olhou a Alice nos olhos.
   -O orgulho de um jovem  algo difcil e que convm tratar com delicadeza.
   -No se preocupe com meu irmo, senhor.  minha responsabilidade. -Indicou um tamborete de madeira com um gesto-. Sente-se, por favor. Temos muito de que falar.
   -Sim. -Olhou o banco mas no se sentou. Foi at o braseiro e ps as mos em cima para receber o calor das brasas-.  certo. Do que se trata esse acordo que quer 
fazer comigo?
   Alice o olhou com uma ansiedade que no podia dissimular. "Parece bastante sensato", pensou. No havia sinais de que fosse apresentar dificuldades. Era um homem 
sensato, razovel, como tinha deduzido. -Milorde, serei clara.
   
   -Por favor. Prefiro que seja direta. Assim se economiza muito tempo, no?
   -Sim. -Alice uniu as mos sobre a mesa--. Estou disposta a dizer onde acredito que o ladro levou meu cristal verde.
   -O cristal  meu, lady Alice. Acredito que tem o hbito de esquecerr.
   -Em outro momento poderemos discutir os detalhes, milorde.
   Hugh pareceu divertido. -No haver discusses.
   -Excelente. Alegra-me saber que  voc um homem razovel, senhor.
   -Fao o que posso.
   A moa sorriu, aprovadora.
   -Bem, como havia dito, contarei-lhe onde acredito que est o cristal neste momento. Alm disso, at o acompanharei a esse lugar e lhe apontarei o ladro.
   Hugh pensou:
   -Muito til.
   -Alegra-me que o aprove, milorde. Mas h mais em minha parte do acordo.
   -Estou impaciente por ouvir o resto. 
   -No s o ajudarei a encontrar o cristal, mas tambm farei algo mais. -inclinou-se para frente para enfatizar o que ia dizer-. Aceitarei renunciar a meu direito 
a ele.
   -Um direito que no aceito.
   Alice comeou a franzir o cenho.
   -Senhor...
   -E o que pensa me pedir em troca de to magnnimo oferecimento, lady Alice? -interrompeu-a, sereno.
   A moa se armou de coragem.
   -Milorde, em troca lhe pedirei duas coisas. A primeira  que, dentro de dois anos, quando meu irmo tenha idade suficiente, cuide que v a Paris, e talvez a Bolonha, 
estudar. Quero que se prepare nas artes polticas e, em especial, em leis, para que possa obter uma posio de alta fila na corte, ou no servio de um prncipe ou 
um nobre rico.
   
   -O seu irmo quer seguir uma carreira como secretrio ou empregado?
   
   -No acredito que tenha muitas alternativas nesse sentido, milorde. -Apertou os dedos-. No fui capaz de proteger a herana de meu irmo de nosso tio. portanto, 
tenho que fazer o melhor para o Benedict, fora disso.
   Hugh a olhou, pensativo.
   -Muito bem, suponho que isso  assunto dele. Estou disposto a financiar os estudos em troca de recuperar o cristal.
   Alice se tranqilizou. O pior tinha passado.
   -Obrigado, milorde. Alegra-me sab-lo.
   -Qual  a outra coisa que quer de mim?
   -Um pedido muito insignificante, milorde, sem muito peso para algum de sua posio -disse, com suavidade-. Em realidade, atrevo-me a dizer que quase no o notar.
   -Do que se trata, senhora?
   -Peo-lhe que me d um dote.
   Hugh contemplou as brasas como se visse ali algo muito Interessante.
   -Uma dote? Quer casar-se?
   Alice riu.
   -Por todos os Santos, de onde tirou essa idia, milorde? Claro que no quero me casar. Para que quereria um marido? Meu propsito  entrar em um convento.
   Hugh se voltou com lentido para ela. Seus olhos ambarinos a olhavam intensamente: -Posso perguntar por que?
   
   -Para poder continuar meus estudos de filosofia natural,  obvio. Para isso, necessitarei uma grande biblioteca, que s existe nos conventos ricos. -esclareceu-se 
voz com delicadeza-. E para entrar em uma boa casa religiosa, necessitarei de um dote respeitvel.
   -Entendo. -A expresso do Hugh foi do falco que divisa a sua presa-. Que lstima!
   O corao da Alice se oprimiu. Por um momento, olhou-o com franca decepo, pois estava muito segura de que chegariam a um acordo.
   Desesperada, comeou a acumular argumentos.
   
   -Milorde, rogo-lhe que o pense bem.  bvio que o cristal verde  muito importante para voc. Eu posso fazer que o obtenha. Sem dvida, compensar o custo de 
meu dote.
   -Entendeu-me mau, senhorita. Estou disposto a pagar o preo de uma noiva por voc.
   O rosto da jovem se iluminou.
   -Sim. Mas quero que venha acompanhado de uma noiva.
   -O que?
   -Ou, pelo menos, a promessa de uma noiva.
   Alice ficou to estupefata que no podia pensar com claridade.
   -No compreendo, milorde.
   -No?  bem simples. Voc obter deste acordo uma parte do que me pede, lady Alice. Mas, em troca, eu lhe peo que voc e eu nos comprometamos antes de ir procurar 
o cristal verde.
   
   
   
   
   Captulo 3
   
   Hugh no ficaria surpreso se inteirar-se  de que era a primeira vez na vida que Alice ficava sem fala.
   Contemplou divertido e no sem certa satisfao os grandes olhos verdes, os lbios entreabertos e a expresso atnita. Estava convencido de que no haveria muitos 
homens capazes de provocar semelhante efeito na dama.
   Enquanto esperava que Alice recuperasse a fala, passeou pela sala. O que viu no o assombrou. A diferena do resto de Lingwood Hall, esse quarto estava limpo 
e arrumado. O ar cheirava a ervas frescas. Tinha-o imaginado
   
   A noite anterior, enquanto comiam acompanhamentos tais como assado com molho verde frio muito picante, e bolo de legumes, impressionou-o muito a destreza de Alice 
no manejo domstico. Essa manh, no demorou para averiguar quepesar da magia que empregara n o banquete, a mesma no se aplicava ao resto da casa de sir Ralf, a 
no ser nos aposentos daquela ala. Era evidente que Alice as tinha reclamado para ela mesma e para seu irmo.
   Aqui estava tudo imaculado. Por todos lados se via eficincia e ordem, das tapearias cuidadosamentes penduradas nas janelas para barrar as correntes de ar, at 
os chos resplandecentes.
   A luz do dia revelava uma cena diferente no resto da casa de sir Ralf. Chos sem varrer, tapetes esfarrapados e aroma de umidade em quase todos os quartos evidenciavam 
que Alice no se incomodava em estender sua habilidade fora dos limites de seu pequeno mundo.
   Ali, no estudio, Hugh no s descobriu a limpeza que esperava mas tambm uma quantidade de coisas interessantes. O quarto estava cheio de coisas estranhas.
   No lugar de honra de uma prateleira prxima havia um par de cadernos muito usados e dois volumes encadernados em couro.
   Em uma caixa de madeira se exibia uma coleo de insetos mortos. Sobre uma mesa estavam expostos o que pareciam partes e pedaos de espinhos de pescado e uma 
variedade de moluscos. Em uma esquina havia uma terrina de metal fixo sob um abajur sem acender. Na vasilha havia vestgios de um experimento com aspecto de giz.
   
   Hugh estava intrigado, pois a coleo revelava uma mente inquieta e um temperamento inquisitivo.
   -Milorde -disse ao fim Alice-, em nome do Cu, do que est falando?
   Hugh compreendeu que no reagia bem ante a idia de casar-se, e decidiu seguir um caminho menos bvio para seu objetivo. Tinha habilidade para os estratagemas 
e no via por que no podia os empregar para conseguir uma esposa.
   -J me ouviu. Necessito uma dama a que possa considerar minha.
   -Mas...
   -Por um tempo.
   -Bom, senhor, no pode me solicitar. Encontre  outra dama. Estou segura de que no campo haver muitas.
   "Ah, mas nenhuma como voc -pensou Hugh-. No acredito que haja outra como voc em toda a cristandade." -Mas voc me convm, lady Alice. 
   A moa se indignou:
   -Eu no sou conveniente para nenhum homem, senhor. Rogo que pergunte a meu tio quo conveniente sou. Estou segura de que o tirar de seu engano. Considera-me 
uma dura prova.
   -Isso ser sem dvida o que ele tem conseguido de voc. Eu espero que possamos fazer negcios como amigos mais que como adversrios.
   -Amigos -repetiu, cautelosa.
   -Scios -acrescentou.
   -Scios.
   -Sim, scios, tal como voc mesma sugeriu ontem  noite, quando declarou que queria chegar a um acordo comigo.
   -Isto no  o que eu tinha em mente. Talvez conviria que me explicasse melhor o que deseja, milorde.
   -Talvez devesse faz-lo. -Hugh se deteve junto a um complicado instrumento feito com um conjunto de pratos de bronze e uma regra-. De onde tirou este formoso 
astrolbio? No vi nenhum parecido desde que estive na Itlia.
   Alice franziu o cenho:
   - Meu pai enviou-me, o encontrou em uma loja de Londres h alguns anos. Conhece este instrumento?
   Hugh se inclinou sobre o aparelho.
   -Senhora, embora ganhe a vida com a espada, seria um engano deduzir que sou um ignorante. -Provou a mover a regra que formava ngulo com os pratos, trocando a 
posio das estrelas em relao com a Terra-. Geralmente, os que cometeram esse engano, pagam.
   Alice se levantou de um salto e deu a volta a mesa.
   -No  que o ache um ignorante, senhor. Ao contrrio. -deteve-se junto ao astrolbio, carrancuda-. Acontece  que no posso entender como funciona este aparelho, 
e no conheo ningum que saiba um pouco de astronomia. Voc poderia me ensinar a us-lo?
   Hugh se ergueu e olhou a expresso intensa que luzia em seu rosto:
   -Sim. Se hoje chegarmos a um acordo, encarregarei-me de ensinar o uso correto do astrolbio.
   Os olhos de Alice se ilumianaram com um entusiasmo que, em outra o casio, poderia haver-se confundido com paixo. ruborizou-se:
   - muito amvel de sua parte, milorde. Na pequena biblioteca do convento local encontrei um livro que descreve o instrumento, mas no tem instrues para us-lo. 
Asseguro-lhe que  muito frustante.
   -Pode consider-lo como um presente de casamento.
   Imediatamente o brilho se apagou dos grandes olhos, e foi rapidamente substitudo pela cautela:
   -Senhor, com respeito a esse compromisso, repito que deveria explicar-se.
   -Est bem. -Hugh caminhou at uma mesa sobre a que havia uma variedade de pedras e cristais. Levantou uma parte de pedra vermelha e o observou-. Lamento dizer 
que sou vtima de uma fastidiosa maldio.
   -Milorde, sem dvida isso ser por sua culpa -respondeu, zangada.
   - O homem levantou a vista, surpreso pela aspereza do tom:
   -Minha culpa?
   -Sim. Minha me sempre dizia que as enfermidades dessa classe provinham de freqentar os bordis, senhor. Por certo, ter que tomar uma dose de teraca e fazer-se 
sangrar. Possivelmente teria que suportar tambm uma boa purgao, de passagem. Opino que  o que se merece por frequentar esses tipos de lugares.
   Hugh clareou a voz.
   -Voc  perita nessas questes?
   -Minha me era muito perita em ervas. Ensinou-me muitas coisas relacionadas com seu uso para equilibrar os humores do corpo. - olhou, indignada- Por outro lado, 
sempre dizia que era muitssimo mais prudente evitar certas enfermidades em lugar de tratar de cur-las depois que o dano parecia.
   -Estou de acordo com esse princpio. -Olhou-a-. O que aconteceu com sua me?
   Pelo semblante da jovem passou uma sombra. -Morreu h alguns anos.
   -Ofereo-lhe minhas condolncias.
   Alice exalou um leve suspiro.
   -Acabava de receber um carregamento de ervas estranhas e inslitas. Estava ansiosa de experimentar. 
   -Experimentar?
   -Sim. Estava sempre preparando poes. Em cada oportunidade, mesclava algumas das ervas novas segundo uma receita que tinha descoberto h pouco tempo. Acreditava 
que era  boa para tratar as dores intensas de estmago e intestino. Bebeu muito do preparado por acidente, e morreu.
   Hugh sentiu um frio nas vsceras. -Sua me bebeu veneno?
   -Foi um acidente -respondeu Alice precipitadamente, sem dvida alarmada pela concluso do homem-. J lhe disse que nesse momento estava desenvolvendo um experimento.
   -Experimentava com ela mesma? -perguntou, sem poder acreditar.
   -Freqentemente provava os remdios em si mesma antes de dar a um doente.
   -Minha me morreu de um modo bastante similar -disse Hugh, sem poder deter-se ao  pensar na prudncia de semelhante confidncia-. Bebeu veneno.
   Os adorveis olhos da Alice se encheram de compaixo.
   -Sinto-o muito, milorde. Era sua me uma estudiosa das ervas estranhas e coisas desse estilo?
   
   -No. -Deixou a pedra vermelha, zangado por sua prpria falta de discrio. Nunca comentava o suicdio de sua me, nem que tinha administrado o veneno letal a 
seu pai antes de beb-lo ela-.  uma longa histria que no me agrada contar.
   -Sim, senhor. Essas questes so sempre muito dolorosas.
   A simpatia da mulher o irritou, pois no estava acostumado a esse sentimento e no queria estimul-lo. A simpatia implicava debilidade.
   -Interpretou-me mau, senhora. Quando disse que era vtima de uma maldio, no referia a uma enfermidade do corpo.
   Olhou-o intrigada:
   -Refere-se acaso a uma maldio mgica?
   -Sim.
   -Mas essa  uma tolice absoluta -burlou-se Alice-. Por todos os Santos, no tenho pacincia com os que acreditam em magia e maldies.
   -Eu tampouco.
   Deu a impresso de que Alice no o tinha escutado, pois j se lanava a outra admoestao:
   -Asseguro-lhe que estou a par de que homens ilustrados acostumam viajar ao Toledo nestes tempos, em busca de antigos segredos mgicos, mas estou convencida de 
que perdem o tempo. No existe a magia.
   - Estou  de acordo com voc em relao  tolice da magia -disse Hugh-. Mas sou um homem prtico.
   -E ento?
   -E ento, nesta circunstncia, cheguei  concluso de que a maneira mais rpida de obter meus prprios fins  cumprir com as exigncias de uma antiga lenda que 
, em parte, uma maldio. 
   -Uma lenda?
   -Sim. -Levantou uma parte de pedra rosada e a elevou para a luz-. A boa gente do Scarcliffe suportou a vrios amos nos ltimos anos. Nenhum deles conquistou o 
afeto do povo. E nenhum deles durou muito.
   - E suponho que voc pretende ser a exceo. 
   - Sim, senhora. -Deixou a pedra, inclinou-se sobre a mesa e apoiou a mo no punho da espada-. Scarcliffe  minha e a reterei enquanto tenha flego.
   A jovem lhe contemplou a expresso.
   -No duvido de suas intenes, milorde, mas, o que  o que diz exatamente a lenda?
   -Diz-se que o autntico senhor do Scarcliffe deve cumprir duas condies: primeiro, custodiar a ltima pedra que resta de um antigo tesouro. Segundo, descobrir 
a localizao do resto das Pedras de Scarcliffe. Alice piscou:
   -Isso significa que o cristal verde  valioso?
   Hugh encolheu os ombros.
   -Aos olhos do povo, sim. Acreditam que forma parte do que foi, em outra poca, uma coleo valiosa de gemas preciosas. Faz muito tempo que desapareceu tudo, exceto 
o cristal verde. Nos ltimos anos, o convento da regio manteve o cristal. Mas faz duas semanas, desapareceu.
   -Acredita que foi roubado?
   -Sim. E no momento mais imprpio.
   Olhou-o com expresso perspicaz:
   -Pouco depois que voc foi tomar posse do Scarcliffe?
   -Sim. -" rpida", pensou Hugh-. Quero recuper-la, pois ser muito til para acalmar os temores e dvidas de minha gente.
   -Entendo.
   -Se voltar com a pedra e com uma noiva apta, meu povo compreender que estou em condies de ser seu verdadeiro senhor.
   Foi evidente que a moa se inquietou:
   -Quer casar-se comigo?
   -Quero me comprometer com voc. -"Passo a passo", recordou-se. No queria assust-la nesta etapa, pois agora que tinha um plano estava convencido de que sairia 
vitorioso. Mas necessitava a cooperao de Alice porque no tinha tempo de procurar outra noiva-. Por um breve perodo.
   
   -Mas um voto de compromisso  quase to srio como um noivado -protestou Alice-. Mais ainda, alguns estudiosos da religio afirmam que liga s duas pessoas do 
mesmo modo, que no h diferena real entre os dois.
   -Voc sabe to bem como eu que esses estudiosos so minoria.
   
   
   
   
   
   Para falar a verdade, rompem-se compromissos com bastante freqncia, em particular se ambas as partes estiverem de acordo. No vejo problemas.
   
   Alice comps expresso de dvida. Guardou um longo silncio no momento, com as sobrancelhas juntas, refletindo com seriedade. Hugh compreendeu que pensava em 
sua proposta uma e outra vez, procurando possveis armadilhas, e a contemplava, fascinado.
   Com um estranho sobressalto de conscincia, viu que recordava a si mesmo quando planejava algum estratagema. Sabia exatamente o que estava pensando.
   Observ-la em semelhante situao era uma experincia estranha, como se pudesse dar uma olhada fugaz ao interior da mente da Alice. Por um instante, apanhou-o 
uma sensao de estranha familiaridade. Teve a impresso de que conhecia Alice muito melhor do que pensava.
   Saber que a inteligncia da jovem era to aguda quanto a prpria e que possivelmente funcionasse do mesmo modo, desorientou-o. No estava acostumado  idia de 
que poderia ter em comum com outra pessoa algo to importante; menos ainda com uma mulher.
   De repente, soube que sempre se considerou diferente dos outros, afastado de suas vidas, afastado deles embora estivesse misturado. Tinha passado a vida com a 
sensao de que vivia em uma ilha, e todas as demais pessoas moravam no lado oposto.
   Mas por um instante fugaz lhe pareceu que Alice compartilhava a ilha com ele.
   Alice lhe dirigiu um olhar perspicaz: 
   -Pensava ingressar em um convento assim que meu irmo estivesse encaminhado na vida. -
   Hugh afastou a estranha sensao e voltou com esforo ao assunto pendente.

   -No  incomum que uma dama que rompa um compromisso e entre em um convento.
   -Sim.
   No adicionou nada mais. Sem dvida, estava concentrada na reflexo.
   De sbito, Hugh se perguntou se teria essa expresso to apaixonada quando estivesse deitada na cama, debaixo de um homem.
   Isso o levou a pensar se teria deitado com algum homem ou no. Afinal, tinha vinte e trs anos, e Dunstan tinha razo. No a podia qualificar como um casulo tmido, 
sem abrir. "Por outra parte, no  nenhuma coquete", pensou Hugh. A julgar pela coleo de pedras, escaravelhos dissecados, e vrios aparelhos que lotavam o estudio, 
parecia que o entusiasmo de Alice era ligado a questes de filosofia natural que por idias de paixo e pecado.
   
   Alice cruzou os braos debaixo dos seios e tamborilou com os dedos sobre os braos.
   -Quanto tempo duraria esse compromisso para ser til a seus propsitos, milorde?
   -No poderia precisar isso, mas acredito que bastaria uns meses.
   -Uns meses?
   -No  muito tempo --disse em tom agradvel-. Na primavera, deverei ter tudo sob controle em Scarcliffe. -Na primavera, estar casada e a terei deitado ao meu 
lado-. No tem outro lugar aonde ir, no  assim?
   -No, mas...
   -Poderia passar o inverno em Scarcliffe.  obvio, seu irmo tambm poder ir.
   -E se voc se comprometesse com uma mulher com a qual realmente deseje casar-se enquanto eu estiver vivendo sob seu teto
   -Confrontarei esse problema quando surgir.
   -No estou segura.  muito diferente do que tinha planejado.
   Percebendo sua vantagem, Hugh pressionou:
   -Antes de que o perceba, a primavera ter chegado. Se no ficar contente em Scarcliffe, poderemos pensar em outras solues para a situao.
   Alice deu um giro. Colocou as mos s costas e comeou a passear pela habitao.
   -Necessitar permisso de meu tio para comprometer-se comigo.
   -No acredito que apresente a menor dificuldade.
   -Claro. -Fez uma careta-. Est impaciente para se livrar de mim.
   -Reforarei sua impacincia com uma oferta adequada em especiarias.
   Alice lhe lanou outro olhar perspicaz quando se voltou para cruzar outra vez a sala.
   -Tem armazm de especiarias?
   -Sim.
   -Refere-se a especiarias valiosas, senhor, ou s a sal de m qualidade?
   O homem disfarou o sorriso.
   -S as melhores.
   -Canela? Aafro? Pimenta? Sal fino branco? 
   -E mais tambm.
   
   Hugh hesitou, pensando quanto lhe convinha dizer sobre o estado de suas prprias finanas. A maioria dos cavalheiros de xito que no herdaram nada da famlia, 
fizeram fortuna por meio de resgates. Obtiveram riqueza, fosse competindo em torneios ou vendendo suas espadas a senhores generosos que os recompensavam por esses 
servios. No muitos aceitavam rebaixar-se a trabalhar no comrcio.
   Hugh tinha participado de seqestros, ganhara armaduras valiosas e magnficos cavalos de guerra em vrios torneios e, certamente, foi afortunado na escolha de 
senhores. Mas a origem verdadeira de sua riqueza, que se acrescentava com rapidez, era o comrcio de especiarias.
   At esse momento, no lhe tinha importado a opinio de ningum sobre semelhante assunto. Mas de repente compreendeu que no desejava que Alice reprovasse essa 
ocupao.
   Por outro lado, era uma mulher prtica e possivelmente no se importasse. Talvez a certeza de que ele tinha uma fonte de ganhos slida e segura a tranqilizaria 
com respeito a suas Intenes.
   Fez uma rpida especulao e decidiu-se pela verdade.
   -Geralmente, no o mostro -disse com calma-, mas no vivo s de minha espada.
   Olhou-o surpreendida:
   -Senhor, comercializa com especiarias?
   -Sim. Recentemente comecei com o comrcio em grande escala com vrios mercados do Oriente. Se decidir entrar para um convento, quando o fizer estarei em condies 
de sustent-la com uma dzia de dotes respeitveis para voc, senhora.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   -Entendo. -Pareceu preocupada-. Necessitarei de um dote substancioso para ingressar em um bom convento.
   -Claro. Os conventos so to exigentes como os maridos de famlias latifundirias, no  certo?
   -Sobre tudo quanso se espera que passem por cima de uma reputao turva -murmurou Alice-. E se conviver com voc como sua prometida e, por ltimo, no nos casamos, 
a minha ficar arrunada.
   Hugh assentiu.
   -Daro por certo que convivemos como marido e mulher. Mas, como voc diz, um dote apropriad persuadir a qualquer bom convento para que ignore esses detalhes 
insignificantes.
   Alice seguiu tamborilando com os dedos nos braos.
   - O aconselharia que cuide de que sir Ralf no se inteire de que est disposto a pagar uma grande dote por mim, senhor, pois do contrrio tentar engan-lo.
   Um sorriso nasceu das lbios de Hugh, mas se controlou com um esforo.
   -Senhora, no tenho o menor interesse em ser enganado.  No tenha medo, tenho bastante experincia na arte do regateio. Tem minha palavra de que insistirei em 
no pagar muito por voc.
   No muito convencida, franziu o cenho.
   -Sir Ralf no tem escrpulos em questes de negcios. Roubou a herana de meu irmo.
   
   -Ento, eu poderia igualar a situao roubando voc por uma misria.
   Alice calou e seguiu passeando.
   -Faria tudo isto em troca de que o ajude a recuperar a pedra verde e por nosso compromisso temporrio?
   -Sim.  o caminho mais curto e conveniente para meu objetivo.
   -E por isso,  natural que o escolha -murmurou Alice.
   -No me agrada perder tempo.
   - voc um homem corajoso, senhor.
   -Acredito que nisso estamos de acordo-disse Hugo em tom suave.
   Alice se deteve, e seu rosto expressivo se iluminou de entusiasmo renovado.
   -Muito bem, senhor, aceitarei seus termos. Passarei o inverno no Scarcliffe com voc, como sua prometida. Na primavera, reconsideraremos a situao.
   Hugh se surpreendeu com a euforia que o invadiu, e teve que recordar-se que era s um acordo, nada mais. Tratou de controlar sua crescente satisfao.
   -Excelente -disse-. O pacto est selado. -Entretanto, prevejo um grande problema.
   -Do que se trata?
   Alice se deteve junto ao astrolbio.
   -Penso que, embora meu tio fique muito contente de livrar-se de minha presena nesta casa, custar-lhe acreditar em sua boa sorte.

   
   -No se aflija, lady Alice. -Hugh estava impaciente por continuar com os acertos, toda vez que j tinham chegado a um acordo-. Repito-lhe, eu tratarei com seu 
tio.
   -Mas suspeitar de seu sbito desejo de casar-se comigo -insistiu.
   -Por que?
   Hugh franziu o sobrecenho.
   -Se por acaso no  notou -disse com aspereza-, tenho mais idade que a habitual em uma noiva.
   Hugh esboou um sorriso.
   -Uma das razes pelas quais voc  muito apropriada as minhas necessidades , precisamente, que j no seja uma moa frvola e inocente.
   A jovem franziu o nariz.
   -Sim, isso  certo.  fcil acreditar que voc no celebraria um acordo com uma mulher que ainda fosse uma menina, ou que no tivesse experincia na vida.
   -Assim . -Hugh se perguntou quanta experincia de vida teria Alice-. Necessito de uma scia nos negcios, no uma noiva exigente que se zangue e faa caretas 
quando no tenho tempo de acompanhada. Preciso de uma mulher amadurecida e com prtica. Alice adotou uma expresso ardilosa.
   -Uma mulher amadurecida e com prtica. Sim,  uma boa descrio de minha pessoa, senhor.
   -Isso significa que no existem motivos para no confirmarmos nosso acordo.
   Alice vacilou.
   -Volto para o problema de convencer a meu tio do verdadeiro desejo que tem voc de casar-se comigo.
   -J lhe disse que pode ficar tranqila e deixar esse problema em minhas mos.
   
   -Temo-me que no ser to fcil como voc imagina. Pouco depois de haver despejado  meu irmo e a mim de nosso lar, e de trazernos aqui, ao Lingwood Manor, fez 
vrias tentativas de me casar.
   - Pelo que vejo, no teve xito.
   -Sim. Meu tio se desesperou a tal ponto que ofereceu um pequeno dote, mas nem assim conseguiu convencer  nenhum vizinho de me afastar de suas mos.
   -No houve nenhuma s oferta?
   Estava surpreso. Ao final das contas, um dote  um dote, e sempre havia homens pobres que o necessitavam com desespero.
   -Um ou dois cavalheiros com pequenas propriedades prximas chegaram ao ponto de me visitar para me conhecer pessoalmente. Mas quando me conheciam, perdiam rapidamente 
o interesse.
   -Ou os persuadia de que perdessem o interesse? -perguntou com secura.
   Alice se ruborizou um pouco.
   -Bom, no pude tolerar a nenhum deles mais que uns minutos. S idia de me casar com algum deles era suficiente para provocar histeria.
   -Histeria? Voc no me parece o tipo de mulher propensa  histeria.
   Os olhos da Alice brilharam.
   -Asseguro-lhe que tive os ataques mais severos diante dos meus pretendentes. Depois, j no houve mais nenhum.
   -Parecia-lhe prefervel ficar no lar de seu tio que casar-se?
   Encolheu-se os ombros:
   -At agora,  o menor de meus males. Enquanto permaneer solteira, ao menos tenho uma probabilidade de obter meus propsitos. Uma vez que me case, estarei perdida.
   -To terrvel seria o matrimnio?
   -Com qualquer dos caipiras que escolheu meu tio teria sido intolervel--disse convencida-. No s porque eu teria sido infeliz, mas sim porque nenhum deles teria 
pacincia com meu irmo. 
   -Os homens preparados para a guerra tendem a ser cruis e desumanos com jovens que no podem instruir-se como soldados.
   -Admito que tem razo -respondeu, amvel. Compreendeu que a preocupao pelo irmo dominava a maioria das decises da jovem.
   Alice apertou os lbios.
   
   -Meu pai considerou que j no poderia ocupar-se de Benedict desde que caiu do poney e machucou uma perna. Disse que nunca poderia se preparar como cavalheiro 
e, portanto, era um intil. Aps isso, ignorou-o.
   
   - compreensvel que no queira expor Benedict ao mesmo mau trato por parte de outro senhor.
   -Sim. Meu irmo j sofreu bastante ao ser ignorado por nosso pai. Fiz o que pude para compens-lo por esse mau trato, mas no foi suficiente. Como se faz para 
ocupar o lugar de um pai na vida de um rapaz?
   Hugh recordou Erasmus.
   -No  fcil, mas se pode fazer.
   Alice se sacudiu, como se quizesse desfazer-se de ms lembranas.
   -OH, bom, mas no  problema seu. Eu me ocuparei de Benedict.
   -De acordo. Falarei imediatamente com sir Ralf. Hugh se voltou para sair do estudio.
   
   
   Estava muito alegre com os resultados do acordo. Embora s tivesse convencido a Alice de comprometer-se, era o mais prximo possvel a um casamento. Quando estivessem 
sob o teto do castelo do Scarcliffe, preocuparia-se com os detalhes do acordo.
   Alice fez um gesto imperioso para cham-lo: -Um momento, sir Hugh.
   Ele se deteve e voltou-se corts: -O que?
   -Advirto-lhe que no deve despertar as suspeitas de sir Ralf para que no pea um dote principesco por minha mo. Temos que pensar em uma explicao razovel 
para que voc deseje casar-se comigo. Ao final de contas, acaba de me conhecer e no tenho nenhum dote h lhe oferecer.
   -Logo me ocorrer algo.
   Olhou-o intrigada. -Mas, o que?
   Hugh a contemplou um momento, e pensou que  luz matinal, o cabelo tinha um tom encantador. No olhar da Alice havia uma expresso clara e direta que o atraa. 
E as curvas dos seios sob o vestido azul eram muito tentadores. Deu um passo para ela e, de repente, sentiu a boca seca e uma tenso entre as pernas.
   -Salvo essas circunstncias, h uma s explicao razovel para que eu pea a sua mo.
   -Qual, senhor?
   -Paixo.
   Olhou-o como se lhe tivesse falado em um idioma desconhecido para ela.
   -Paixo?
   -Sim.
   
   Deu dois passos para ela, diminuindo a distncia entre os dois.
   Alice abriu a boca e a fechou. 
   -Impossvel. Jamais convencer  meu tio que um cavalheiro legendrio como voc seria to... to imbecil para comprometer-se por uma razo to corriqueira, meu 
senhor.
   Hugh se deteve e rodeou com as mos os ombros frgeis, assombrado de como era agradvel toc-la. Era de ossos finos mas vigorosa.
   Tinha uma flexibilidade e uma fora feminina que o excitavam. Sentia-a muito viva sob as mos. Estava to perto que podia cheirar o perfume de ervas de seu cabelo.
   -Equivoca-se, senhora. -Sentiu a lngua torpe dentro da boca-. A paixo desatada  a nica fora o bastante forte para que um homem renuncie o sentido comum e 
 razo. 
   Antes que Alice pudesse adivinhar a inteno, Hugh a apertou contra o peito e cobriu sua boca com a dele.
   Ento, pela primeira vez, Hugh admitiu que o desejo de beij-la estava nele desde o primeiro momento em que a viu no salo,  luz das chamas. " uma criatura 
mgica e resplandecente", pensou. Nunca havia conhecido uma mulher como aquela. Era uma loucura. No podia permitir que o afetasse daquele modo.
   
   Sabia que a maneira mais fcil de livrar-se da perigosa curiosidade sensual que o assolava era render-se ao impulso. Mas ao sentir o pequeno estremecimento que 
percorria  Alice, perguntou-se se no teria atrado uma fora que seria muito mais difcil de conter do que imaginava.
   Permaneceu muito quieta entre suas mos, como se no soubesse o que fazer. Hugh aproveitou a confuso da jovem para permitir-se saborea-la. Tinha a boca morna 
e mida como figos macerados em mel e gengibre fresco. No se cansava de prov-la.
   Beijar a Alice era mais embriagador que entrar em um armazm repleto de especiarias exticas. Era tudo o que as imagens da noite lhe tinham prometido: doce, suave 
e perfumada. Era clida, tinha esse fogo capaz de inflamar todos os sentidos de um homem.
   Aprofundou o beijo, procurando resposta.
   Alice emitiu um pequeno rudo abafado que no era nem protesto nem grito de temor. Hugh pareceu que sufocava uma exclamao de puro assombro.
   
   Apertou-a mais contra o corpo at que sentiu os seios suaves sob o vestido. Os quadris de Alice se apertavam contra suas coxas. O membro viril se ergueu, faminto.
   Alice gemeu com suavidade. Depois, como se de repente despertasse de um feitio que a mantinha imvel, agarrou-lhe pelas mangas da tnica. Ficou nas pontas dos 
ps e se apertou contra ele. O homem sentiu que seu pulso se acelerava.
   Ento, para  sua satisfao, Alice separou os lbios, e Hugh aproveitou a oportunidade que lhe brindava no momento. De repente, enlouqueceu-se com o desejo de 
possui-la, como se fosse uma especiaria sem nome, extica, impossvel de descrever.

   Hugh conhecia bem os efeitos que as fragrncias particulares das mulheres tinham sobre os sentidos masculinos, e fazia muito tempo  que tinha aprendido a controlar 
e moderar seu apetite por elas. Sabia que um homem que no dominava seus prprios apetites, estava condenado a ser dominado por eles.
   Mas, de repente, foi muito difcil cumprir suas prprias regras. Alice era uma mescla embriagadora. O sabor e o aroma da moa o atraam como nada desde muito 
tempo. 
   Possivelmente, toda a vida. Queria mais. Muito mais.
   -Sir Hugh! -exclamou por fim, Alice.
   Liberou a boca e o olhou com os olhos muito abertos.
   Por um momento, Hugh no pde pensar em outra coisa que em beij-la outra vez. Comeou a inclinar outra vez a cabea.
   Mas Alice ps os dedos sobre seus lbios, e ergueu as sobrancelhas com expresso interrogante.
   -Um momento, por favor, senhor.
   
   Hugh fez um esforo, e inspirou profundamente para serenar-se. Surpreendeu-lhe tremendamente compreender o perto que tinha estado de sacrificar sua prpria regra 
de ferrocom que to bem convivera at aquele momento.
   Desprezou a perturbadora suspeita de que Alice poderia exercer seu poder feminino sobre ele: isso era impossvel. Desde os primeiros dias de sua juventude, no 
era vulnervel a sensualidade feminina e no tinha a menor inteno de permitir que esta mulher quebrasse a armadura de seu controle.
   Recordou-se que cada movimento era calculado.
   
   Beijar Alice no foi mais que uma manobra e, a julgar pelo rubor de suas bochechas, o plano funcionou. A dama no era imune  paixo. 
   -Como havia lhe dito -murmurou Hugh-, acredito poder convencer  seu tio de que me vi assaltado pela paixo.
   -Bom, deixarei a questo em suas mos, senhor. -Tinha as bochechas muito coradas, e se voltou, sem cuidado-. Tenho a impresso de que sabe o que faz.
   -Asseguro-lhe que assim . -Hugh inspirou fundo e se dirigiu  porta-. Ocupe-se dos preparativos para a viagem, voc e seu irmo. Quero estar a caminho ao meio 
dia.
   -Sim, senhor.
   A luz em seus olhos brilharam de prazer feminino e satisfao.
   -H s um pequeno detalhe a mais que teremos que nos ocuparmos antes de partir -disse Hugh. Alice lhe dedicou uma expresso corts e interrogante: -Do que se 
trata, senhor?
   -Esqueceu de me dizer em que direo iremos. hora de que cumpra sua parte do trato, Alice. Onde est a pedra verde?
   -Ah, a pedra. -Soltou uma risada trmula-. Caramba, com tantas coisas, quase esquecia minha parte do acordo.
   -A pedra verde  o principal -replicou o homem com frieza.
   O brilho no demorou para desaparecer dos olhos de Alice.
   - obvio, senhor. Guiarei-o at a pedra.

   
   
   Captulo 4
   
   Sir Ralph se engasgou com a cerveja do caf da manh.
   -Voc quer comprometer-se com minha sobrinha? -Suas feies pesadas se contorciam em uma careta, ao mesmo tempo que tossia e cuspia-. Desculpe, senhor -disse 
com voz entrecortada-. Mas, escutei bem? Quer casar-se com a Alice?
   -A sua sobrinha cumpre os requisitos que procuro em uma esposa.
   Hugh se serve de uma fatia de po velho. O pouco tentador caf da manh que chegou essa manh das cozinhas demonstrava que Alice tinha perdido interesse em assuntos 
culinrios depois do banquete da noite anterior. Uma vez obtido o objetivo, a dama deixou de exercer sua magia.
   
   Hugh se perguntou com amargura o que teria comido a jovem em seus aposentos privados, e suspeitou que devia ser algo mais interessante que cerveja ranosa e po 
velho.
   Ralf o olhou com a boca aberta, sobressaltado. -Cumpre os requisitos? De verdade acredita que Alice seria uma boa esposa para voc?
   -Sim.
   No culpava a Ralf por sua incredulidade, pois sabia que no se beneficiou da mestria domstica de Alice.
   Essa manh, os nicos presentes no grande salo eram Hugh e Ralf, que estava sentado a uma mesa pequena, junto ao fogo, e um grupo de sombrios criados que rondavam 
sem um propsito claro. Os serventes fizeram um esforo no muito entusiamado por limpar depois da festa da noite anterior, mas era evidente que no tinham muito 
interesse na tarefa. Um dava passadas ocasionais com um pano de limpar e o outro fazia tentativas de esfregar as pranchas de madeira. No se via muita gua nem sabo 
participando do processo.
   
   Ainda estavam as gotas de cerveja que cobriam o cho de pedra da noite anterior, junto com restos de comida. Por mais que pulverizassem ervas aromticas, nenhuma 
quantidade poderia dissimular o aroma de carne podre. De qualquer maneira, ningum se incomodava em atirar ervas fragrantes sobre essas sobras em decomposio.
   -O casamento dever ser celebrado em algum momento da primavera. -Hugh contemplou o po ranoso. Tinha fome, mas no tanta para comer outra fatia-. Neste momento, 
no tenho tempo para uma apropriada celebrao.
   -Entendo.
   -E ter que considerar o lado prtico da questo.
    Ralf clareou a garganta.
   -Ah, claro. O lado prtico.
   -Penso que seria melhor que Alice e seu irmo me acompanhem a Scarcliffe, e assim no terei que me incomodar mais adiante em fazer outra viagem para buscar a 
minha prometida.
   -Levar-a hoje com voc? 
   Os olhos de Ralf refletiam um assombro difcil de ocultar.
   -Sim. Indiquei que tanto ela como o jovem Benedict estivessem preparados para partir ao meio dia. 
   Ralf piscou vrias vezes.
   
   -No o compreendo, senhor. me perdoe, no queria me misturar em seus assuntos pessoais, mas no posso menos que me assombrar ante esta reviravolta dos acontecimentos. 
Embora Alice parea mais jovem do que , entende que tem vinte e trs anos?
   -No  grande coisa.

   
   -Mas se bem sabe que uma noiva jovem  mais fcil de treinar que uma de idade mais avanada. As jovens so mais dceis. Fceis de dirigir. Minha prpria esposa 
tinha quinze anos quando nos casamos, e jamais tive problemas com ela.
   Hugh o olhou.
   -No acredito que vou ter dificuldades em dirigir  lady Alice.
   Ralf se encolheu.
   -No, no, claro que no. Ela no se atreveria a contradiz-lo, milorde. -Suspirou com ar lgubre-. De todos os modos, no  assim como se comporta comigo. Alice 
foi uma carga terrvel, sabe? 
   -No me diga?
   -Sim. E com tudo o que tenho feito por ela e por seu irmo estropiado...! -A papada do homem tremeu de indignao-. Dava-lhes teto e alimento depois de que seu 
pai morreu. E que agradecimento recebo por cumprir com meu dever de cristo para os filhos de meu irmo? Nada mais que rixas constantes e exigncias Irritantes.
   Hugh assentiu, srio.
   -Muito difcil.
   -Por Deus,  enfurecedor. -Ralf comps um cenho furioso-. Asseguro-lhe senhor, que no  possvel persuadir Alice de que se encarregue de meu salo, exceto como 
ontem  noite, quando convm a seus prprios propsitos. Mas ter visto que mantm limpos e perfumados seus prprios aposentos.
   -Sim. -Sorriu para si-. Vi-o.
   - como se vivesse em um lar diferente, ali, naquela torre. Jamais adivinharia que est vinculada ao resto do Lingwood Hall.
   -Isso era evidente -disse Hugh num murmrio.
    -No s come com o jovem Benedict na intimidade de seus aposentos, mas tambm d instrues na cozinha com respeito  comida que depois lhe serviro. E lhe posso 
assegurar que  muito diferente da que comemos.
   
   -No me surpreende.
   Ralf no ouviu o comentrio. Estava imerso em justa indignao. 
   -A noite passada foi a primeira comida decente que desfrutei em meu prprio salo desde que minha esposa morreu, h sete anos. Quando trouxe Alice aqui, pensei 
que seria diferente. Acreditei que se faria cargo de suas responsabilidades femininas naturais. Que fiscalizaria as coisas como o fez quando se encarregava da propriedade 
de seu pai.
   -Mas no foi assim, presumo. 
   Hugh suspeitou que Alice exercia sua prpria forma de vingana sobre o tio.
   Ralf suspirou, pesaroso.
   -Culpa-me por tirar  ela e a seu irmo de seu lar, mas eu lhe pergunto, que alternativa eu tinha? Nesse momento, Benedict no tinha mais que quinze anos. E voc 
o viu;  aleijado. No h instruo capaz de convert-lo em um combatente apropriado. No est em condies de defender suas prprias terras. Meu suserano, Fulbert 
do Middleton, esperava que eu defendesse as terras de meu irmo.
   -E decidiu faz-lo instalando ao seu filho como senhor -comentou Hugh, com suavidade.
   -Era a nica soluo, mas essa bruxa de minha sobrinha no o admitiu. -Bebeu cerveja e colocou a jarra sobre a mesa-. Fiz todo o possvel para assegurar-lhe o 
futuro. Tentei lhe achar um marido.
   
   -Quando compreendeu que no pensava encarregar-se do manejo da casa? -perguntou Hugh, com morna curiosidade.
   -Acaso era culpa minha que nenhum de meus vizinhos a quisesse por esposa?
   Hugh recordou a descrio da Alice sobre seus oportunos ataques de histeria.
   -No, sem dvida no foi sua culpa.
   -Nem uma vez me agradeceu os esforos que fiz. O juro, fez tudo o possvel por atrapalhar cada uma das minhas tentativas de cumprir meus deveres para com ela. 
Admito que no tenho provas, mas at hoje estou convencido de que urdiu estratagemas para afastar os pretendentes.
   Indeciso, Hugh decidiu arriscar-se com outra fatia de po velho.
   -Seus problemas terminaram, sir Ralf. J no tem por que preocupar-se mais por sua sobrinha.
   -Ora, diz isso agora, mas no tem suficiente experincia com  Alice. -Entreabriu os olhos-. No, nada de experincia. No sabe como pode ser.
   
   -Arriscarei-me.
   -Srio? E se se arrepende do compromisso?  muito provvel que queira devolv-la depois de umas semanas experimentando sua lngua afiada e suas maneiras exigentes. 
E eu o que faria, ento? 
   -No me arrependerei. Juro.
   Ralf adotou uma expresso ctica.
   -Posso lhe perguntar por que est to seguro de que a moa  apropriada?
   - inteligente, s e conveniente. E embora no queira praticar suas habilidades domsticas nesta casa,  evidente que est bem preparada. Por outra parte, tem 
as maneiras de uma dama elegante. Que mais necessita um homem? Desde meu ponto de vista, parece-me muito eficiente e prtica.
   
   Apesar do que havia dito a Alice, Hugh no pensava usar a paixo como explicao para celebrar esta unio to apressada. Tanto ele como Ralf eram homens do mundo 
e ambos sabiam que a luxria era um motivo absurdo para contrair uma obrigao to importante quanto um  matrimnio.
   Evocando o incidente no estudio da Alice, no sabia bem por que abordou, sequer, a possibilidade de usar a paixo como desculpa. Franziu o cenho, perguntando-se 
como lhe colocou a idia na cabea. Nunca se deixava levar pela paixo.
   Ralf o olhou com expresso inquieta.
   -Milorde, acredita que casar-se com Alice ser uma atitude certa?
   Hugh assentiu com rudeza.
   -Necessito de uma esposa que se ocupe de meu novo lar. Mas no quero perder muito tempo nem esforo na tarefa de encontr-la. Voc sabe quo complicado pode ser. 
As negociaes podem continuar durante meses, inclusive anos.
   - certo, e entretanto, Alice  um tanto peculiar, e no s pela idade.
   -No importa. Estou seguro de que o far muito bem. E tenho muitas tarefas que requerem minha ateno imediata para perder tempo procurando outra noiva.
   -Entendo, senhor, de verdade. Um homem de sua posio no querer muito escndalo para conseguir uma noiva.
   -Sim.
   
   
   
   
   
   -No se pode negar que um homem necessita de uma esposa. E suponho que quanto antes, melhor. Algum tem que ocupar-se dos herdeiros e das terras. 
   -Sim -disse Hugh-. Herdeiros e terras. 
   -Bem. De modo que Alice lhe parece conveniente. 
   -Muito.
   Ralf manuseou um pedao de po. Lanou um olhar ao rosto impassvel do outro, e o afastou rapidamente.
   -Ah, rogo-lhe que me perdoe, senhor, mas devo lhe perguntar se falou disto com a mesma Alice.
   Hugh elevou uma sobrancelha.
   -Preocupam-no os sentimentos de sua sobrinha?
   -No, no se trata disso -apressou-se a afirmar-.  que, segundo minha experincia, para comear,  muito difcil persuadir  Alice de participar de um plano se 
no lhe agrada, entende o que lhe digo? Ao  que parece, esta mulher sempre tem seus prprios planos.
   -No tenha temores nesse sentido. A sua sobrinha e eu j chegamos a um acordo.
   -Srio?
   Isso deixou atnito o tio.
   -Sim.
   -E est seguro de que aceita este plano?
   -Sim.
   -Surpreendente. Muito surpreendente.
   Pela primeira vez nos olhos do Ralf apareceu uma cautelosa chama de esperana.
   Hugh desistiu de mastigar a dura casca e atirou o po.
   -Vamos, nos concentremos nos negcios que temos por diante.
   Velozmente, a expresso do Ralf se voltou ardilosa.
   -Est bem. Qual  seu preo? Advirto-lhe que no posso dar um dote muito grande por Alice. Este ano, a colheita foi bastante pobre.
   
   -De verdade?
   -Sim, muito pobre. Por outra parte, ter que ter em conta os gastos derivados da manuteno de Alice e de seu irmo. Reconheo que Benedict no  um grande problema, 
mas lamento dizer que Alice  bastante custosa de manter. .
   
   -Estou disposto a lhe oferecer um cofre de pimenta e um de bom gengibre como presente de compromisso.
   -Sempre est pedindo dinheiro para seus livros, sua coleo de pedras e outros elementos inteis... -Quando compreendeu o que o outro dizia, interrompeu-se, atnito-. 
Um cofre de pimenta e um de gengibre?
   -Sim.
   -Senhor, no sei o que dizer.
   -Que aceita o presente nupcial, de modo que eu possa dar por terminada esta questo. J estou atrasado. 
   -Deseja me dar uma dote por Alice?
   - o que se acostuma fazer, no?

   -No quando a noiva  entregue a seu senhor sem outra coisa que a roupa que leva no corpo -replicou Ralf-. Entende voc que no lhe contribuir com terras, verdade, 
senhor?
   -Tenho as minhas.
   -Bom, se compreende a situao, est bem. -A expresso do Ralf era de absoluta confuso-. Senhor, para ser sincero, esperava que me pedisse um grande dote para 
me livrar dela.
   -Estou disposto a tomar a Alice tal como est. -permitiu-se acentuar as palavras com um sotaque de impacincia-. Estamos de acordo?
   -Sim -apressou-se a responder o tio-. Sem dvida. Alice  sua em troca da pimenta e do gengibre. 
   -Chame o sacerdote da aldeia para que seja testemunha dos votos de compromisso. Quero seguir viagem o mais cedo possvel.
   
   -Ocuparei-me disso imediatamente. -Ralf comeou a levantar da cadeira seu grande corpo, mas vacilou na metade do movimento-. Ah, desculpe, sir Hugh, h outro 
ponto que eu gostaria de esclarecer antes de seguir adiante com este compromisso.
   -Do que se trata?
   Ralf passou a lngua pelos lbios. Olhou ao redor para certificar-se de que nenhum dos criados podia ouv-lo e logo disse, baixando a voz:
   -Se decidisse no seguir adiante com as bodas, querer voc que lhe devolva os bas de pimenta e de gengibre?
   -No. Seja qual for o resultado deste acordo, as especiarias so suas.
   -Tambm tenho sua palavra a respeito?
   
   -Sim. Tem a palavra de Hugh o Implacvel. 
   Ralf riu aliviado e esfregou as mos rolias. -Bom, ento, prossigamos. No h por que demorar, no  certo? Em seguida mandarei um criado procurar o sacerdote.
   Voltou-se e foi mais alegre do que estava desde que Hugh chegou.
   Um movimento na porta atraiu a ateno de Hugh. Dunstan, com o rosto marcado por linhas de preocupao, entrou no salo. Deteve-se diante da mesa a qual estava 
assentado Hugh. Tinha uma expresso sombria de desagrado.
   -Temos um problema, milorde.
   Hugh o olhou pensativo.
   -Por sua expresso, deduzo que estamos a beira do abismo. O que acontece, Dunstan? Estamos sitiados?
   Dunstan no fez caso do comentrio.
   -H alguns minutos, lady Alice fez dois dos homens irem aos seus aposentos para que carreguem seus pertences nas carroas.
   -Magnfico. Agrada-me que no tenha demorado para preparar a bagagem.
   -Acredito que no estar to feliz com ela quando vir com o que pensa contribuir  carga.
   -E bem? No me deixe em suspense, Dunstan. O que  que leva que te irrita tanto?
   
   -Pedras, senhor. -A mandbula de Dunstan ficou tensa-. Dois bas cheios. E no s teremos que carregar pedras suficientes para construir o muro de um jardim, 
mas nos deu a entender com clareza que tambm deveremos levar outro ba cheio de livros, pergaminhos, plumas e tinta. 
   -Entendo.
   -E um quarto cheio de estranhos aparelhos de alquimia. -O rosto do homem se encheu de manchas de indignao-. Alm disso, esto as roupas, sapatos e artigos pessoais.
   - Lady Alice tm muita quantidade de tnicas e vestidos? -perguntou Hugh, um pouco surpreso.
   -No, mas o que tem basta para encher outro ba. Milorde, voc afirmou que temos por diante uma misso de extrema importncia. Disse que a velocidade era fundamental. 
Que no h tempo a perder. 
   - verdade.
   -Pelos dentes do diabo, senhor, somos uma companhia de soldados, no um grupo de vagabundos. -Dunstan elevou as mos-. Pergunto-lhe, o que faremos para irmos 
com pressa com nosso assunto se vamos carregados com uma srie de carroas de bagagem cheias de colees de pedras e elementos de alquimia de uma mulher?
   -Essa mulher  minha futura esposa -disse Hugh, sem alterar-se-. Obedecer suas ordens como se fossem as minhas.
   Dunstan o olhou, confuso.
   -Mas eu acreditei...
   - Se cupe dos preparativos para a viagem, Dunstan.
    Ouviu-se chocar os dentes de Dunstan.
   --Sim, milorde. Posso perguntar qual  nosso destino? 
   -Ainda no sei. Saberei depois de tomar os votos de compromisso.
   -No se ofenda, mas tenho a desagradvel suspeita de que, seja qual for a direo que tomemos, estaremos condenados a um s destino.
   -Que destino? -perguntou o senhor, corts. 
   -Problemas -murmurou Dunstan.
   
   -Sempre  bom estar em territrio conhecido, verdade?
   Dunstan no se dignou responder. Murmurando ameaador, girou sobre os ps e encaminhou-se para a porta.
   Hugh deu uma olhada ao redor. No havia um s relgio de gua nem de areia para marcar a hora. Ao parecer, Ralf no tinha interesse em artefatos to convenientes 
e eficientes.
   Hugh iniciou o movimento para levantar-se da cadeira com a inteno de sair para ver a posio do sol, mas o rudo de passos e o  arrastar de uma varinha de madeira 
pelas escadas da torre o fizeram deter-se. 
   Apareceu Benedict. Era evidente que o jovem estava ansioso mas decidido. Aproximou-se de Hugh com os ombros rgidos.
   Pensativo, Hugh o contemplou. Salvo pela perna aleijada, o irmo de Alice era alto e bem formado. A falta de desenvolvimento muscular nos ombros e o peito indicava 
que nunca tinha sido instrudo nas armas.
   O cabelo do rapaz era um pouco mais escuro que o glorioso tom da irm, quase castanho escuro. Os olhos eram quase da mesma cor verde pouco comum que os de Alice, 
e tambm os iluminava a mesma intensa inteligncia.
   -Milorde, devo falar com voc imediatamente.
   Hugh se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaando os dedos.
   
   
   
   
   
   -Do que se trata, Benedict?
   O rapaz lanou um olhar rpido ao redor, e logo se aproximou mais, como para no ser ouvido.
   -Acabo de falar com minha irm -sussurrou-. Falou-me deste acordo absurdo que os dois acabam de fazer. Diz que estar prometida a voc at a primavera, e que 
esse compromisso se romper quando convier a seus propsitos.
   -Ela usou essas palavras? Conveniente a meus propsitos?
   Zangado, Benedict encolheu os ombros.
   -Disse algo parecido, sim. Disse que voc  uma pessoa que aprecia a eficincia e a convenincia.
   -Sua irm  de natureza prtica. Esclareamos j mesmo uma coisa, Benedict. Quem fala de romper o compromisso na primavera  lady Alice.
   Benedict franziu o cenho. -O que importa quem o disse?  evidente que no  um compromisso verdadeiro se ir romper-se dentro de uns meses.
   -Devo supor que tem objees a este acordo.
   - obvio que sim. -A expresso do moo se tornou feroz-. Acredito que pretende voc aproveitar-se de minha irm, senhor.  evidente que pensa us-la para seus 
prprios fins.
   -Ah.
   -Pensa seduzi-la e ter as vantagens que oferece uma esposa at a primavera, no  assim? Depois, abandon-la.
   -Tendo em conta o preo que paguei por ela, no acredito -murmurou -. Eu no gosto de desperdiar dinheiro.
   -No zombe disto -enfureceu-se Benedict-. Sou seja aleijado, mas no tolo. E sou irmo de Alice. Tenho a obrigao de proteg-la.
   Hugh o observou por um momento. -Se no aprovar nosso acordo, h uma alternativa.
   -Qual?
   -Convencer a sua irm de que me d a informao que procuro sem lhe pr um preo.
   Benedict bateu com o punho na mesa. -No acha que no tentei convenc-la de que seja sensata.
   -Voc sabe onde est a pedra?
   
   -No, Alice diz que ela o deduziu faz uns dias. No me disse isso porque nesse momento soubemos que voc estava procurando-a. -O semblante do Benedict ficou sombrio--. 
Imediatamente, comeou a fazer planos.
   -Certamente.
   - muito hbil fazendo planos, sabe? Quando soube que voc procurava a pedra, comeou a urdir um ardil para que ns dois pudssemos sair de Lingwood Manor.
   
   -Isso no  a nica coisa que me pediu -disse Hugh-. Me fez prometer que ofereceria um dote substancial para o convento que escolhesse e que enviaria voc a Paris 
e a Bolonha para estudar leis.
   -No quero estudar leis -respondeu Benedict-.  idia de minha irm.
   -Mas deseja se liberar de seu tio, no?
   -Sim, mas sem arriscar a reputao de Alice. 
   Hugh suspirou. -Comigo, sua irm est a salva.
   
   -No se ofenda-replicou o moo entre os dentes-, mas no o chamam de Hugh, o Implacvel por nada. -diz-se que  muito perspicaz em urdir estratagemas. Temo-me 
que tem intenes secretas para com a minha irm. No posso permitir que lhe faa mal.
   Hugh estava impressionado.
   -No h muitos indivduos capazes de me desafiar como o voc.
   Benedict se ruborizou.
   -Admito que no tenho habilidade com as armas e que no sou desafio para voc, sir Hugh. Mas no posso ficar de braos cruzados e ver como se aproveita de minha 
irm.
   -Dissiparia seus escrpulos de irmo saber que no tenho intenes de machucar lady Alice?
   -E isso o que significa?
   -Que cumprirei meus votos de compromisso. Do momento que Alice fique sob minha custdia, cumprirei com todas minhas obrigaes para com ela.
   -Mas isso significaria casar-se com ela -protestou Benedict-. E ela no quer casar-se com voc.
   -Esse  um problema de sua irm, no  verdade? 
   Benedict adotou um ar abatido.
   -No o compreendo, senhor. No querer dizer que realmente deseja casar-se com ela.
   
   -Sua irm est satisfeita com o acordo. Temo que, por agora, voc ter que se conformar. A nica coisa  que  possolhe  oferecer  meu juramento de que a cuidarei 
como  devido.
   -Mas, milorde...
   -Digo que pode contar com meu juramento -repetiu Hugh, em tom suave-. Geralmente, considera-se uma segurana muito apropriada.
   O rosto do Benedict se tingiu de um vermelho intenso. -Sim, senhor.
   -No dever comunicar suas suspeitas a seu tio, compreende-me? Seria intil. Sir Ralf no o escutar, e Alice ficar muito perturbada. -Hugh sorriu-. Para no 
falar de minha prpria reao.
   Benedict vacilou. Mas logo apertou os lbios, em muda rendio.
   -Sim, sir Hugh. Compreendo-o muito bem.
   -Benedict, trate de no ficar ansioso. Sou muito bom idealizando estratagemas. Este funcionar. .
   -Eu s gostaria de saber no que consiste -resmungou.
   
   Trs horas depois, Alice sentiu uma estranha inquietao quando Hugh a ajudou a acomodar-se na montaria. Seu plano tinha resultado: ela e Benedict por fim se 
veriam livres de sir Ralf.
   De repente, pela primeira vez em meses, o futuro parecia carregado de promessas. Uma brisa vivaz agitava as dobras da capa de viagem. O potro cinza sacudia a 
desgrenhada cabea, como se estivesse impaciente por empreender a viagem.
   Pela extremidade do olho, Alice viu seu irmo montar . Embora a perna m o estorvava e tambm a bengala, Benedict tinha inventado um mtodo muito eficiente, embora 
fosse estranho, de montar sem ajuda. Os que o conheciam desde muito tempo j sabiam que no deviam oferecer-lhe ajuda.
   Alice viu que Hugh o observava com dissimulado interesse, enquanto o moo subia no cavalo. Dedicou-lhe um sorriso de agradecimento. O homem assentiu e se moveu 
ligeiramente em sua prpria montaria.
   Hugh entendia. O breve intercmbio silencioso provocou em Alice uma curiosa onda de calor.
   
   
   
   
   
   Tinha conscincia aguda de que Benedict no estava muito satisfeito com a sbita mudana no destino de ambos. Embora estivesse to ansioso quanto ela para  escapar 
de Lingwood Manor, estava seguro de que tinham saltado da frigideira ao fogo.
   Alice tinha uma viso muito mais otimista. "Tudo est muito bem", disse-se.
   
   Todas as suas posses neste mundo, junto com as do Benedict, foram seguindo em uma das carroas para bagagem de Hugh. Houve uns instantes de preocupao quando 
sir Dunstan se queixou dos bas com pedras e equipamentos, mas isso se solucionou. Alice no sabia bem por que o obstinado Dunstan tinha deixado de se queixar da 
bagagem, mas estava contente com os resultados.
   Os votos no levaram mais que uns minutos, repetidos diante do sacerdote da aldeia. Um pequeno estremecimento a percorreu quando Ralf colocou sua mo na de Hugh, 
mas o atribuiu  excitao e ao fato de no estar acostumada ao contato com um homem.
   "Como tampouco estou acostumada ao beijo de um homem", recordou-se. face  frescura do dia, o corpo se aqueceu com a lembrana do beijo de Hugh.
   -Est bem, senhora? -Hugh a olhou enquanto lhe entregava as rdeas. Tinha a frente da capa entreaberta, deixando ver o punho da espada. O sol resplandecia no 
anel de nix negro-. chegou o momento de que comece a cumprir sua parte do acordo. Qual ser nosso destino?
   Alice inspirou profundamente.
   -A Ipstoke, milorde, onde se celebraro justas e uma festa dentro de um dia.
   -Ipstoke? -Hugh franziu o cenho-.  a menos de dois dias de caminhada daqui.
   -Sim, senhor. Um trovador chamado Gilbert me roubou o cristal verde. Acredito que assistir  feira.
   -Um trovador roubou a pedra? Est segura?
   -Sim, senhor. Gilbert permaneceu um tempo no salo de meu tio. -Apertou os lbios-. Era um canalha e um tolo. Enquanto esteve aqui, tratou de seduzir vrias criadas. 
Cantava mal, e no podia jogar uma boa partida de xadrez.
   -Autenticamente, um pobre trovador. Hugh a observou com um olhar to intenso que a perturbou.
   
   -Sim. Tambm resultou ser ladro. Inventou um pretexto para visitar meu estudio e viu a pedra verde. Perguntou-me por ela. Pouco depois, partiu de Lingwood Manor, 
e ento senti a falta da pedra.
   -Por que acredita que a levar a feira do Ipstoke? Alice sorriu, satisfeita com a lgica de sua deduo.
   -Uma noite, enquanto estava brio, murmurou algo a respeito de ir ao Ipstoke a tocar essas estpidas canes para os cavalheiros que se reuniriam para as justas.
   -Entendo.
   -No h motivo para dvidas.  muito razovel que um trovador faa algo assim. Haver muitos cavalheiros procurando jogos no Ipstoke, no  certo?
   -Sim -admitiu Hugh-. Se haver uma justa, reuniro-se muitos cavalheiros e lutadores.
   -Precisamente -dedicou-lhe um sorriso doce-. E onde h cavalheiros procurando jogos e a possibilidade de fazer dinheiro por meio de resgates no campo, h trovadores 
procurando entret-los. No  certo?
   -Sim.
   -Alm da possibilidade de ganhar uma moeda cantando, suspeito que Gilbert pensa vender meu cristal na feira.
   Hugh guardou silncio por um momento, e logo assentiu. -Sua lgica  slida, senhora. Muito bem, ento, iremos ao Ipstoke.

   
   - provvel que Gilbert ignore que voc procura minha pedra -disse Alice_. Mas se descobrisse que est seguindo a pista, no ficaria muito tempo no Ipstoke.
   -Nesse caso, cuidaremos de que no saiba que estou procurando-a at que seja muito tarde para que fuja. H outra coisa, senhora.
   -O que?
   -Parece-me que adquiriu o costume de esquecer que eu sou o autntico dono da pedra verde. A jovem se ruborizou.
   -Isso  questo de opinio, milorde.
   -No, senhora.  um fato. A pedra  minha. Nosso trato est selado.
   Hugh elevou a mo fazendo um sinal a seus homens. Alice olhou por cima do ombro enquanto a companhia passava pelos portes de Lingwood Hall. Viu  Ralf e  seus 
primos de p nas muralhas. Saudou a Gervase, o nico pelo que sentia certo carinho. Lhe devolveu a saudao.
   
   Ao comear a girar a cabea, viu que Ralf sorria. Seu tio estava muito satisfeito consigo mesmo, e uma suspeita inquietante a assaltou.
   -Espero que o rumor que ouvi a respeito de meu dote seja uma simples intriga -disse ao Hugh, que guiava seu enorme potro negro junto ao dela.
   -Eu no dou ouvido a intrigas.
   Olhou-o de soslaio, avaliando-o.
   -Talvez no o acredite, senhor, mas se dizia no salo que voc prometeu a meu tio dois bas de especiarias. 
   -Dois?
   -Sim, um de pimenta e um de gengibre. -Alice riu por esse comentrio absurdo--. Sou consciente de que esse comentrio desmesurado  evidentemente falso, milorde. 
Entretanto, preocupa-me pensar que o tenham enganado. O que  o que deu a sir Ralf como dote?
   -No se preocupe com esses detalhes, minha senhora. No tm muita importncia.
   -No me agradaria saber que o extorquiram, milorde.
   A boca do Hugh se curvou em um sorriso.
   -No tema, sou um homem de negcios. Faz muito tempo que aprendi a obter o que ofereo em um transao.
   
   
   
   
   Captulo 5
   
   Ipstoke se apresentava como uma cena extraordinaria e colorida. At o nimo sombrio de Benedict se aliviou ao ver as bandeiras de brilhantes cores e as tendas, 
as raias que salpicavam os campos que rodeavam as velhas muralhas. Mercadores e vendedores de bolos de todas as descries imaginveis se mesclavam com acrobatas, 
trovadores, cavalheiros, soldados e granjeiros. Os meninos corriam daqui para l, gritando de jbilo.
   
   Slidos cavalos de guerra se erguiam ultrapassando os asnos de largas orelhas e os robustos poneis de transporte. As carroas de bagagem, carregadas de armaduras, 
avanavam dando trombadas junto a carros cheios de verduras e l. Os trovadores e acrobatas rondavam entre a multido.
   
   -Juro que nunca em minha vida vi tanta gente em um s lugar. -Benedict olhou ao redor, maravilhando-. Poderia imaginar que toda a populao da Inglaterra est 
aqui.
   
   -Nem tanto--disse Alice. Estava de p junto a Benedict, sobre uma suave elevao do terreno onde Hugh ordenou que ficassem embaixo da tenda negra. Por cima de 
sua cabea, balanavam bandeirolas negras. A cor de Hugh formava um ntido contraste com os chamativos vermelhos, amarelos e verdes das lojas e as bandeiras vizinhas-. 

   Espero que quando viajar a Paris e a Bolonha encontre com espetculos mais maravilhosos que este.
   Parte da excitao se dissipou da expresso do moo.
   -Alice, preferiria que no falasse de minha ida a Paris e a Bolonha como se fosse algo concreto.
   -Nada disso. -Alice sorriu-. Agora,  bastante concreto: sir Hugh se ocupar disso.  parte de nosso acordo, e todo mundo afirma que cumpre com seus acordos.
   -No me agrada esse acordo que fez com ele.  certo que no gosto muito do tio, mas prefiro tratar com conhecido no amigvel que com um indivduo de reputao 
como a de Hugh o Implacvel.
   Alice franziu o cenho.
   -Agora, seu nome  Hugh do Scarcliffe. No o chame o Implacvel.
   -Por que no? Assim o chamam seus homens. estive falando com sir Dunstan. Disse-me que  um nome bem posto. Dizem que nunca abandona uma causa.
   
   -Tambm dizem que sua palavra  to slida quanto uma cadeia feita de ao espanhol, e para mim isso  o mais importante. -Desprezou o tema com um gesto-. Basta 
de tanto falatrio. Tenho que cumprir com a minha parte do trato.
   Benedict a olhou, atnito.
   -O que quer dizer? trouxeste sir Hugh a Ipstoke e lhe deste o nome do trovador que roubou o cristal verde. No tem que fazer nada mais.
   -No ser to simples. Se esquece que voc e eu somos os nicos que podemos identificar Gilbert. Ningum da companhia de Hugh o conhece.
   Benedict encolheu os ombros.
   
   
   
   -Sir Hugh far averiguaes. Logo encontraro Gilbert.
   -E se estiver usando outro nome?
   -Por que faria algo semelhante? -perguntou-. No tem forma de saber que sir Hugh veio aqui para busc-lo.
   -No podemos estar seguros. -Pensou um momento-. No, o modo mais rpido de encontr-lo ser que eu me coloque entre a multido e o busque. Tem que estar aqui, 
em algum lugar. S espero que ainda no tenha vendido minha pedra verde. Isso poderia complicar as coisas.
   Benedict a olhou de cima a baixo. -Procurar  Gilbert por sua conta?
   -Se quiser, pode me acompanhar.
   -Esse no  o problema. Comentou-lhe este plano a sir Hugh?
   -No, mas no vejo por que  to importante.
   Alice se interrompeu ao ver Dunstan cruzar um terreno gramado e aproximar-se -Sir Dunstan -murmurou-. Parece que iro a guerra.
   Pde constatar que Dunstan parecia muito mais alegre nesse momento do que o viu at ento. O rosto, geralmente turvo, estava reavivado por uma expresso de entusiasmo 
e expectativa. Andava com galhardia. Usava a cota e levava um elmo recm limpo sob um brao.
   -Milady -saudou-a, com brusca formalidade. Cada vez era mais evidente que Alice no lhe agradava muito.
   -Sir Dunstan -murmurou-. Parece que vai  guerra.
   -Nada to aborrecido. A uma justa.

   Alice se surpreendeu. 
   -Participar de uma justa? Mas estamos aqui por um assunto especfico.
   -Houve mudana de planos.
   -Mudana! -Olhou-o, perplexa-. Sabe sir Hugo sabe desta mudana?
   -Quem acredita que fez a mudana? -perguntou Dunstan, secamente. voltou-se para Benedict-. Necessitamos algo de ajuda com as armaduras e os cavalos. Sir Hugh 
sugeriu que nos desse uma mo.
   -Eu? -sobressaltou-se Benedict.
   Alice ficou carrancuda.
   -Meu irmo no recebeu instruo para dirigir armaduras, armas e cavalos de guerra.
   Dunstan deu uma palmada no ombro do moo.
   - Sir Hugh disse que j  hora de que treine nessas questes.
   
   Benedict cambaleou e recuperou o equilbrio ajudando-se com a bengala.
   -No tenho muito interesse em aprender essas coisas.
   Dunstan riu.
   -Pois inteira-se de uma coisa, jovem Benedict. Agora,  homem de sir Hugh, j seu novo senhor no lhe parece conveniente ter entre seus pessoal, homens que no 
estejam devidamente instrudos e com os que no se possa contar em caso de invaso.
   
   -Uma invaso! -horrorizou-se Alice-. Espere um momento. No quero que meu irmo se exponha a sofrer ferimentos.
   Benedict a olhou furioso.
   -No necessito de bab, Alice.
   - obvio que no, moo. -Dunstan olhou a Alice, sorridente, e por sua expresso, soube que tinha ganho essa pequena batalha-. Logo, o seu irmo ser um homem. 
J  hora de que aprenda como atuam os homens.
   -Mas tem que estudar leis --exclamou, indignada. 
   -E? Acredito que um homem que estudar leis ter particular necessidade de cuidar-se. Ter muitos inimigos.
   -Olhe -comeou furiosa-. No aceitarei... 
   Dunstan a ignorou.
   -Vamos, Benedict. Levarte-ei s lojas e o apresentarei aos escudeiros.
   No de todo convencido, o moo respondeu: -Est bem.
   -Benedict, no se mova daqui, ouve-me? -ordenou Alice.
   Dunstan riu com malcia.
   -Quem sabe, Benedict? Sir Hugh pensa sair ao campo em pessoa. Possivelmente permita ajud-lo com sua prpria armadura pessoal.
   -Voc acha? -perguntou o jovem.
   
   -Por todos os Santos. -Alice no podia acreditar no que ouvia-. No me diga que sir Hugh pensa perder o tempo em uma estpida justa.
   Dunstan lhe dirigiu um sorriso luminoso.
   -Lady Alice, voc tem tanto que aprender como seu irmo.  obvio que sir Hugh sair em combate. Vincent do Rivenhall est aqui.
   -Quem  Vincent do Rivenhall? -Perguntou Alice-. O que ele tem a ver com isto?
   Dunstan levantou as sobrancelhas grossas.
   
   -Sem dvida, seu senhor prometido  explicar muito em breve, milady. No me corresponde faz-lo. E agora, rogo-lhe que me desculpe. Benedict e eu temos coisas 
a fazer.
   Alice transbordava de ira. -No gosto do rumo que tomaram os acontecimentos.
   -Dever levar a insatisfao e as queixa a sir Hugh -murmurou Dunstan-. Vamos, Benedict. 
   -Espere -ordenou Alice-. Necessito da ajuda de meu irmo.
   -Mas, Alice... --disse o moo, decepcionado.
   -Esta tarde, no o necessitar para nada -assegurou-lhe Dunstan.
   Olhou-o, carrancuda.
   -Rogaria-lhe que me diga como sabe, sir Dunstan. 
   -Bom,  bvio -dirigiu-lhe um sorriso inocente-. Estar ocupada com assuntos muito mais importantes.
   -Que assuntos? -perguntou, em tom gelado.
   - muito claro. Como acontece com todas as damas recm comprometidas, sem dvida querer ver seu futuro senhor luzir suas habilidades no campo de combate.
   -No tenho a menor inteno de fazer semelhante coisa.
   -Impossvel. s senhoras adoram ver os Jogos.
   Antes de que Alice pudesse dar vazo ao resto da clera, Dunstan se apressou a arrastar a Benedict para uma das tendas. J se tinham erguidos esses refgios nos 
extremos opostos do enorme campo. Os cavalheiros, escudeiros e soldados se reuniam embaixo deles, preparando-se para as justas do dia.
   Alice estava furiosa. No podia acreditar que Hugh tivesse trocado os planos para encontrar a pedra verde s por um torneio. No tinha sentido.
   
   Quando Dunstan e Benedict desapareceram entre a multido, deu a volta e se encaminhou para a tenda negra. Procuraria a Hugh e lhe diria exatamente o que pensava 
da situao. Era absurdo que participasse de um torneio quando tinham coisas muito mais importantes de que ocupar-se.
   Deteve-se com brutalidade quando encontrou o caminho bloqueado por um enorme cavalo de guerra. Reconheceu-o imediatamente. No havia modo de confundir os grandes 
cascos, a cabea larga, os ombros musculosos, e a vigorosa silhueta do potro preferido de Hugh. Assaltou ao nariz o aroma de ao bem engordurado e do couro.
   
   Alice piscou  vista das botas de Hugh nos arreios. Pareciam muito grandes. Levantou lentamente os olhos. Era a primeira vez que o via com a cota de malha. Os 
finos elos brilhavam ao quente sol da tarde. Tinha o elmo metido sob o brao.
   Em geral, a figura de Hugh intimidava, mas assim preparado para a guerra, o Implacvel era, na verdade, uma apario aterradora. Alice se protegeu os olhos com 
a mo enquanto o olhava.
   

   -Inteirei-me que h um novo costume entre as damas elegantes, que consiste em dar a seus cavalheiros favoritos algo que goste muito para usar no torneio -disse 
o cavalheiro, com calma.
   Alice conteve o flego e se apressou a juntar energias. recordou-se que estava furiosa.
   -Milorde, no me diga que participar das justas.
   -Chamaria muito a ateno que no o fizesse. No quero despertar suspeitas quanto a minha verdadeira razo para estar aqui, no Ipstoke. Recorde que o plano consistia 
em misturar-se com a multido.
   -No vejo a necessidade de que se perca tanto tempo entregando-se a estpidos jogos a cavalo esta tarde, quando poderia estar rastreando ao trovador Gilbert.
   -Jogos estpidos?
   -Para mim o so.
   -Entendo. H muitas damas que gostam de ver os torneios. -Fez uma pausa significativa-. Sobre tudo se participarem seus prprios senhores.
   -Bom, nunca me interessaram muito. 
   -Dar-me um objeto?
   Alice o olhou, suspicaz.
   -Que classe de objeto?
   -Ser suficiente um leno. 
   -Certamente, no h aqui onde conseguir elementos de vestimenta, verdade? -Assombrada, meneou a cabea-. Dar a um homem um pedao de tecido limpo em perfeitas 
condies, ou uma fina fita de seda enquanto brinca de correr pelo barro...! O objeto, como voc a chama, ficar imprestvel.
   -Pode ser. -Olhou-a com expresso inescrutvel-. De todos os modos, acredito que seria prudente que me desse esse objeto, Alice.
   Alice o olhou confusa.
   
   -Para que, senhor?
   - o que se espera -disse, com calma-. Ao final das contas, estamos comprometidos.
   -Quer ento que eu participe desse ritual para convencer a todos de que, na verdade, estamos prometidos?
   -Sim.
   -E o que me diz da pedra verde?
   -Tudo a seu tempo -disse Hugh com suavidade. 
   -Achava que a pedra era muito importante para voc.
   -Ainda , e a recuperarei antes de que termine o dia. Mas ocorreu outra coisa. Algo de igual  importncia.
   -Do que se trata?, diga-me por favor.
   - Vincent do Rivenhall est presente e pensa participar da justa.
   A voz do homem estava vazia de toda emoo, e essa mesma qualidade atemorizava.
   -E qual  o problema? -perguntou Alice, inquieta-. Por todos os Santos, senhor, acreditei que estaria disposto a esquecer um pouco os jogos para recuperar a pedra.
   -Asseguro-lhe que a oportunidade de sair ao campo contra Vincent do Rivenhall  quase to importante quanto recuperar a pedra.
   -No imaginava que voc julgaria necessrio provar-se contra outro cavalheiro, meu senhor -resmungou Alice-. Mas bem acreditava que estava por cima dessas coisas.
   -Alice, acredito que seria prudente de sua parte no imaginar muitas coisas a meu respeito.
    moa ficou com a boca seca, mas se conformou com um olhar furioso.
   -Est bem, milorde, daqui em diante, no imaginarei mais nada.
   -Fique tranqila, que mais adiante lhe explicarei esta questo de sir Vincent. -Estendeu-lhe a mo--, Neste momento, tenho pressa. Por favor, o objeto.
   -Na realidade, isto  muito. -olhou-se as roupas-. Poderia tomar a fita que borda minha manga, se acreditar que  imprescindvel,
   -.
   -Trate de no suj-la, certo? As boas fitas so caras.
   -Se estragar, comprarei-lhe outra. Posso me permitir isso 
   Alice sentiu que corava sob o olhar zombador. Ambos sabiam que uma fita nova no significaria nada para ele.
   
   -De acordo.
   -Obrigado. -Se abaixou para tomar a fita de seda verde-. Pode ver o torneio da tenda amarela e branca, no outro extremo do campo. Ali  onde se sentam as damas.
   - No tenho intenes de ver as justas, senhor -replicou, acalorada-. Por minha parte, tenho melhores coisas para fazer.
   -Melhores coisas?
   -Sim, senhor. irei procurar ao Gilbert. No tem sentido que os dois percamos a tarde.
   Hugh apertou a fita verde no punho coberto de malha.
   -No se incomode com o trovador, Alice. Logo o encontraremos. Enquanto isso, presenciar as justas com outros espectadores.
   Sem esperar resposta, Hugh fez um gesto invisvel ao enorme cavalo. O animal girou com assombrosa agilidade e partiu ansioso em direo ao campo de combate.
   Os grandes cascos faziam estremecer a terra.
   -Mas, sir Hugh, acabo de dizer que no tenho interesse pelo torneio...
   Interrompeu-se desgostosa ao dar-se conta de que estava falando com os quartos traseiros do cavalo que se afastava.
   Pela primeira vez, sentiu certos escrpulos com respeito ao acordo que tinha feito com Hugh. Era evidente que seu novo scio no compreendia o significado verdadeiro 
da igualdade.
   
   
   
   Captulo 6
   
   A confeiteira de bochechas rosadas entregou a Alice uma torta de frango
   -Sim, h muitos trovadores por aqui. Mas no recordo ter visto um que levasse uma tnica amarela e alaranjada. -A mulher recebeu a moeda que lhe dava Alice e 
a meteu na bolsa que tinha no cinturo-. E agora, minha senhora, deseja algo mais?
   -No.
   A vendedora sacudiu os farelos das mos e virou parar atender ao prximo cliente.
   -Aqui, meu bom moo, o que vai levar? Tenho excelentes bolos de fruta, e tambm cordeiro muito saboroso. Escolha.
   
   Alice olhou desgostosa a torta enquanto se afastava da barraca. Era a quarta que comprava em uma hora. No se sentia capaz de com-la.
   Tinha pensado em empreender a busca do Gilbert de maneira sistemtica, mas estava sendo muito difcil. At esse momento, s tinha percorrido um tero da feira. 
Demorava muito tempo encontrar a um trovador em particular nesse lugar lotado.
   
   Tentou travar vrias conversaes casuais em diferentes barracas e tendas, mas logo descobriu que ningum tinha vontade de perder o tempo em bate-papos ocasionais. 
Ao verificar que os vendedores e mercadores toleravam melhor suas perguntas cuidadosamente expressas se acreditassem que lhes compraria algo, Alice comeou a faz-lo, 
embora no muito convencida. Para seu desassossego, j tinha gasto quase todo o contedo da bolsa e no encontrou nada. No transcurso, viu-se obrigada a consumir 
trs bolos e duas jarras de cidra.
   Ao final de uma fileira de tendas raiadas de cores vivas, vacilou, perguntando-se o que fazer com esse ltimo bolo. Detestava atir-lo. Qualquer classe de desperdcio 
a ofendia.
   - Senhora. Aqui.
   Alice levantou a vista do bolo e viu um moo de uns dezesseis anos, que parecia flutuar  sombra de um toldo prximo. Na cara suja apareceu um sorriso.
   -Excelentes preos, milady. Deve ver.
   O jovem lanou um olhar rpido por cima do ombro e mostrou uma pequena adaga por debaixo da tnica manchada.
   Alice abafou uma exclamao e retrocedeu. Nas feiras, a ameaa de ladres e ladres de carteira era constante. Recolheu-se as saias e fez gesto de correr.
   -No, no, no tema, boa senhora. -Os olhos escuros transbordavam de alarme-. No penso lhe fazer mal. Chamam-me Fulk. Ofereo-lhe em venda esta formosa adaga. 
V?  feita com o melhor ao espanhol.
   Alice se relaxou.
   -Sim,  formosa, mas preciso dela.
   -No a quer dar de presente-lhe a seu senhor? -Sugeriu Fulk, com um brilho decidido no olhar-. Um homem sempre gosta de uma boa adaga.
   -Sir Hugh j tem armas suficientes-respondeu Alice.
   
   Ainda ressentia-se pelo fato de que Hugh tivesse preferido perder a tarde no campo decombate.
   -Ningum tem ao suficiente. Aproxime-se mais senhora, e observe o trabalho.
   Observou-a sem muito interesse.
   -Onde a conseguiu?
   -Meu pai vende adagas e facas em um posto do outro lado da feira -disse Fulk-. Eu o ajudo me colocando entre a multido para procurar clientes.
   -Moo, conte outra estria.
   
   -Est bem -resmungou-. Se insistir em saber a verdade, encontrei-a cada a um lado do caminho. No  uma pena? Acredito que deve pertencer a algum viajante de 
passagem. Deixou cair por acidente.
   -O mais provvel  que tenha sido roubada da barraca de um vendedor de facas.
   -No, no, milady. Juro-lhe que obtive esta faca de maneira honesta. -Girou a arma para mostrar a qualidade-. Veja o belo que . Decorada com pedras estranhas 
e preciosas.
   Alice sorriu, ctica.
   - intil que pratique seus planos comigo, rapaz. S ficam umas poucas moedas e penso em us-las para comprar algo muito mais proveitoso que essa adaga.
   Fulk lhe dirigiu um sorriso de anjo.
   -O que  o que quer comprar, boa senhora? Diga-me e o buscarei. Ento, me pagar. Assim, evitarei-lhe caminhar inutilmente entre a multido.
   Alice o olhou pensativa. -Muito gentil de sua parte.
   O moo fez uma reverncia quase corts. - um prazer servi-la, senhora.
   A Alice ocorreu que poderia ajud-la. -O que preciso  certa informao.
   -Informao? -Colocou de novo a faca dentro da manga com um hbil giro da mo-. Isso no ser nenhum problema. Vendo informao freqentemente. Surpreenderia 
saber quantas pessoas querem compr-la. Bem, que classe de informao necessita?
   Alice recitou o conto que tinha arranjado para vendedores de bolos e camels.
   -Procuro um trovador de cabelo castanho, comprido, uma pequena barba e olhos azul claro. Est acostumado a usar uma tnica amarela e alaranjada. J o ouvi cantar 
antes, e queria ouvir mais de suas canes, mas no posso encontr-lo entre tanta gente. Viu-o?
   
   Fulk inclinou a cabea e a olhou com astcia. -Est apaixonada por este trovador?
   Alice ia protestar indignada, mas se conteve. Em troca, soltou o que supunha um suspiro trmulo.
   - muito galante.
   Fulk assobiou surpreso.
   -No  voc a nica dama que acha isso. Pelos dentes de so Anselmo, no sei o que vem nos trovadores. Todos tm s mulheres desmaiadas a seus ps.
   Alice se imobilizou.
   -Viu-o?
   -Sim. Vi a seu maravilhoso poeta. -Ergueu um ombro em gesto indiferente-. A tnica  muito bonita, tal como voc a descreve. Tambm gosto dessas cores.
   -Onde o viu? -perguntou, ansiosa. 
   -Ontem  noite cantou para um grupo de cavalheiros que se reuniram ao redor de uma fogueira do acampamento. Eu, eeeh, estava perto por acaso, e o ouvi. 
   -Foi nesse momento que topou com a adaga perdida? -perguntou com cortesia.
   -De fato, assim foi. -Fulk no se afligiu pela deduo da mulher-. Os cavalheiros so pessoas descuidadas, sobre tudo depois de beber muito vinho. Sempre perdem 
as adagas, as bolsas, e coisas assim. E agora, quanto me pagaria por achar ao galante trovador?
   
   Alice apalpou a bolsa quase vazia.
   -S ficaram umas poucas moedas. Suponho que esta informao vale uma delas. Talvez duas, se o fizer rpido.
   -Feito. -Fulk sorriu outra vez-. Venha comigo, senhora. Sei onde encontrar ao trovador.
   -Como  que est to seguro disso?
   -Havia dito que voc no era a nica mulher apaixonada por ele. Ontem  noite, ouvi-o combinar com uma certa dama loira que se encontrariam hoje enquanto o senhor 
da dama se batia no campo.
   -Por todos os Santos -murmurou Alice-. De verdade,  uma fonte de informao, Fulk.
   -J o havia dito, a informao se vende to bem como qualquer outra coisa, e no traz consigo muito risco.
   
   Deu-se a volta e avanou entre o labirinto de barracas com passo gil.
   Alice atirou o bolo sem comer e correu atrs dele.
   Quinze minutos mais tarde, estava nos subrbios da feira. Olhou atrs inquieta enquanto Fulk a precedia, junto ao antigo muro de pedra que rodeava o feudo do 
Ipstoke. Tinham deixado atrs a multido. Estava sozinha com  Fulk.
   Subiram uma suave costa. Quando chegaram ao topo, Alice olhou outra vez atrs. Descobriu que podia ver por cima das tendas e os galhardetes, at o campo de batalha 
ao longe.
   Juntou-se uma turma de espectadores para ver a briga. A brisa levava at a Alice os rudos do torneio. Havia dois grupos rivais de cavalheiros que lutavam um 
contra outro, dos extremos opostos do campo.
   
   Quando chocaram, Alice se encolheu. Vrios cavalos e homens caram em uma tremenda confuso. As armaduras brilhavam ao sol e os cavalos se debatiam. Sem querer, 
surpreendeu-se procurando o familiar galhardete negro, mas foi impossvel identificar a Hugh nem a seus homens dessa distncia.
   -Por aqui, senhora _murmurou Fulk. Rodeou uma das runas-. Depressa.
   Alice se disse que Hugh era muito inteligente e habilidoso para ficar ferido. Os cavalheiros de sua categoria triunfavam nos combates de exibio. estremeceu-se; 
era um caso similar ao de seu prprio pai. 
   Sir Bernard tinha passado boa parte de sua vida no norte da Frana na procura de glria e riqueza, atravs da interminvel ronda de torneios. "Mas tambm procurava 
algo muito diferente -pensou Alice com amargura-. Escapar as suas responsabilidades de marido e pai."
   No tinha mais que lembranas dispersas de seu pai. Essas lembranas, pulverizavam-se atravs dos anos como prolas de um colar quebrado.
   Bernard foi um homem galante, de risada contagiosa, barba vermelha e frisada, e vivazes olhos verdes. Era vivido, fanfarro e transbordava entusiasmo pela caa, 
as justas, e segundo Helen, a me da Alice, os bordis londrinos.
   Bernard permanecia ausente a maior parte do tempo, mas suas visitas  propriedade eram acontecimentos memorveis na infncia da Alice. Assaltava a casa com presentes 
e relatos. Elevava a Alice em seus braos e a levava pelo imenso salo. Enquanto estava no lar, a menina parecia que tudo, incluindo a sua me, resplandeciam e brilhavam 
de felicidade.
   
   Mas muito em breve, voltava a partir para um torneio em algum lugar longnquo, ou a uma longa viajem a Londres. Em muitas lembranas da infncia aparecia sua 
me chorando depois de uma das freqentes partidas de seu pai.
   Por um tempo, quando nasceu o filho e herdeiro de Bernard, a famlia o viu com mais freqncia. 
   Nessa poca, Helen estava radiante. Mas quando Benedict ficou ferido para sempre ao cair do cavalo, Bernard voltou para os antigos costumes. As viagens a Londres 
e ao norte da Frana se fizeram outra vez prolongadas e freqentes.

   
    medida que passavam os anos, Helen reagia s ausncias de seu marido passando cada vez mais tempo com o livro de apontamentos ou misturando ervas e poes. 
Afastou-se dos filhos, aparentemente obcecada com os estudos.
   Nos ltimos anos, Helen j no recebia as breves visitas de Bernard com os olhos brilhantes de felicidade. O positivo da situao, pensava Alice, era que j no 
chorava durante horas ao v-lo partir.
   Ao mesmo tempo que a me se fechava no estudio por perodos cada vez mais longos, Alice foi ocupando-se das mltiplas responsabilidades que implica o manejo de 
uma casa e um feudo. Tambm assumiu a tarefa de criar a Benedict, embora temeu no ter muito xito em ser para o irmo o pai e a me ao mesmo tempo. No pde compens-lo 
pela dor que lhe causou o negligente desprezo de Bernard. Ainda a fazia chorar o silencioso ressentimento que aparecia no olhar do Benedict cada vez que se mencionava 
o pai.
   
   Mas no tomou conscincia da medida em que tinha fracassado at que provocou a perda da herana de Benedict.
   -Senhora? 
   Afastou as tristes lembranas. 
   -Aonde vamos, Fulk?
   -Silncio. -Fez-lhe um gesto frentico-. Quer que a ouam?
   -Quero saber aonde me leva.
   Rodeou um velho abrigo para armazenar madeiras, e o viu abaixar-se ao lado de um arbusto de espessa folhagem.
   -Ontem  noite, ouvi que o trovador dizia  dama loira que se encontrariam aqui, entre os arbustos que h junto ao abrigo.
   -Est certo?
   
   -Se no estiver aqui, no ter que me pagar -disse o moo, magnnimo.
   -Est bem. Leve-me.
   Fulk se enfiou entre as folhas que ocultavam o abrigo da vista. Alice suspendeu as saias e o seguiu com cautela. ""Estragaram-se minhas botas de couromacio", 
pensou.
   
   Um momento depois, a deteve um grito alto e agudo. Agarrou o brao do Fulk.
   -O que  isso? -sussurrou, espantada.
   -Certamente, a loira -murmurou o moo, sem dar amostras de confuso.
   -Algum est atacando-a. Temos que ir em sua ajuda.
   Fulk piscou e a olhou como se estivesse louca. -No acredito que deseje nenhuma ajuda de estranhos como ns.
   -Por que no?
   -Por isso oua, seu formoso trovador est dedilhando muito bem as cordas da harpa.
   Ao longe soou outro grito feminino.
   -Dedilhando a harpa? No entendo. Algum est machucando a essa mulher. Devemos fazer algo.
   Fulk revirou os olhos. -O trovador est girando entre as ervas altas, milady.
   -Girando? Como se fosse uma bola, quer dizer? Por que faz algo semelhante?
   O moo se queixou em surdina
   -No compreende, milady? Esto fazendo amor. 
   
   -Aqui, entre os arbustos?
   Alice estava to impressionada, que tropeou com um ramo e esteve a ponto de cair.
   -E onde, se no? -Fulk a sustentou-. No podem usar a tenda do senhor, verdade? E o trovador no tem sua prpria tenda.
   Alice sentiu um calor que a assolava. Era inquietante saber que este moo, no maior que Benedict, sabia muito mais destas questes que ela mesma.
   -Entendo. Tratou de falar em tom indiferente.
   O evidente desconforto da mulher comoveu ao Fulk.
   -Quer esperar aqui at que terminem? 
   -Bom, seria melhor. Certamente, eu no gostaria de interromp-los.
   
   -Como quizer. -Estendeu-lhe a mo-. Cumpri minha parte do trato. Se fosse to amvel de pagar-me, partirei-me. 
   Alice franziu o sobrecenho.
   -Est seguro de que  Gilbert, o trovador, que est com essa dama?
   -Veja.
   Indicou para um monte de roupa amarela e alaranjada que estava jogada no cho, sob os ramos caidos de uma rvore.
   Alice seguiu o olhar do moo.
   -Parece ser a tnica de Gilbert. E acredito que vejo seu alade.
   No mesmo instante em que Alice entregava ao Fulk sua ltima moeda, ressonou um spero grito masculino entre a folhagem.
   
   -Pelo que ouo, acredito  que agora o trovador est tocando seu prprio instrumento,. -Fulk apertou a moeda-. Mas no se aflija, senhora. Ouvi que dizia a loira 
era hbil para mais de uma cano.
   Alice franziu outra vez o cenho.
   -No sei se compreendo...
   Mas Fulk j tinha desaparecido entre a mata.
   Alice duvidou, sem saber como proceder. Tinha pensado em dirigir-se a Gilbert e lhe exigir que lhe entregasse a pedra verde. Mas nesse momento, perguntou-se pela 
primeira vez se admitiria t-la. O que faria se negasse possuir a pedra?
   E, por outra parte, estava o delicado assunto da dama loira. O que dizia a um homem que acabava de lhe fazer amor a uma mulher? Sobre tudo, em se tratando de 
um adultrio, como era evidente.
   Viu-se obrigada a chegar  concluso de que Gilbert era muito mais audaz do que ela acreditava. Ao atrever-se a seduzir  uma mulher casada, expor-se  castrao, 
ou inclusive  morte as mos do marido. Um homem que se atrevia a tanto por paixo, riria de Alice quando lhe pedisse que devolvesse a pedra verde.
   Lhe ocorreu que, nessa circunstncia, as coisas seriam muito mais simples se Hugh a tivesse acompanhado. Ele no teria tido escrpulos em desafiar ao Gilbert.
   "Para confiar em um homem que lutava em um de campo de batalha, enquanto havia assuntos muito mais importantes que resolver!", pensou, irritada.
   Outro gemido rouco a sobressaltou. 
   
   
   
   
   
   Este era mais forte que o anterior, como se estivesse aproximando-se de certo clmax ou obstculo. Compreendeu que no tinha idia de quanto tempo se demorava 
para fazer amor. Podia acontecer que Gilbert e sua dama sassem de entre os arbustos em qualquer momento. E a veriam ali, com aspecto de tola.
   
   Se pensava atuar, teria que faz-lo em seguida. Aspirou uma profunda baforada de ar para serenar-se, e partiu decidida para o monte de roupa jogada. Quando chegou, 
viu que Gilbert no s tinha deixado o alade mas tambm tambm um pequeno saco de lona perto da tnica. Era do tamanho adequado para levar uma pedra grande.
   
   Alice hesitou outra vez, at que recordou que Gilbert lhe tinha roubado o cristal. Tinha direito a recuper-lo.
   
   Abriu depressa a boca do saco. Dentro havia um objeto do tamanho aproximado do da pedra envolto em um trapo velho.
   Com dedos trementes, tirou-o da bolsa e apartou um pouco o trapo. O conhecido brilho mate do estranho cristal verde nublado pareceu lhe piscar os olhos. As facetas 
planas e largas captaram a luz, mas no a refletiram com muita fora.
   Sem lugar a dvidas, era a pedra verde. Percorreu-a uma onda de satisfao. No era uma pedra atrativa, mas a fascinava. Nunca tinha visto uma pedra nem um cristal 
assim. Sentia que continha segredos, embora no breve tempo que a teve em suas mos no pde deduzir quais fossem.
   Fez-a sobressaltar um grito rouco nas imediaes. Deu um salto, com a pedra na mo. Ento, ouviu a voz do Gilbert.
   -Querida minha, esta noite, quando cantar junto  fogueira do acampamento para os homens de seu senhor, saber que a dama da cano  voc. Ruborizar-te?
   -Claro, mas na escurido, quem me ver? -A mulher riu-. No cabe dvida de que  um descarado, senhor trovador.
   
   -Obrigado, senhora. -Gilbert soltou umas risadas-. Cantarei seus seios de alabastro e suas coxas leitosas e o mel que achei hoje entre essas coxas adorveis. 
Seu senhor no saber nada.
   -Faria melhor em rogar que meu senhor no me reconhea em seu poema -replicou com secura-, pois do contrrio se ver privado de seu belo alade.
   Gilbert riu a gargalhadas.
   -No haveria prazer se no houvesse risco. Alguns homens preferem lutar nas justas. Eu, prefiro faz-lo entre as coxas suaves de suas mulheres.
   Alice j no duvidou. Apertou a pedra envolta no trapo e fugiu, rogando que Gilbert no ouvisse seus passos na terra branda.
   No estava muito longe quando ouviu seu grito irado, e soube que tinha descoberto a perda.
   Correu mais rpido. No acreditava que Gilbert a tivesse visto.
   Quando chegou ao muro de pedra do velho feudo, respirava agitadamente. ocultou-se depois de um pequeno abrigo de madeira enquanto se detinha recuperar o flego. 
Em uns minutos, estaria a salvo entre a multido da feira; tranqilizou-se. Gilbert jamais poderia encontrada.
   Deu um profundo suspiro. Com o pulso acelerado, saiu do incerto amparo do abrigo e correu a campo aberto, por volta da primeira fileira de tendas.
   Dois homens armados com adagas se interpuseram em seu caminho. Algum lhe sorria com sua boca desdentada. O outro, levava uma venda no olho direito.
   Deteve-se horrorizada.
   -O que temos aqui: uma fina senhora com uma interessante objeto nas mos. Ao parecer, o moo nos vendeu a informao correta, Hubert.
   O homem da venda no olho sorriu sem humor. - certo. Talvez deveramos t-lo pago por seus servios.
   
   -Sempre o digo. Nunca pague o que pode obter de graa. -O sem dentes avanou, e esticou a mo livre-. nos d a pedra, senhora, e no haver problemas.
   Alice se ergueu muito rgida e lhe cravou um olhar furioso.
   -Esta pedra me pertence.
   .Venda olho gracejou:
   -Fala como uma dama fina e correta, no? Sempre quis uma.
   -Pode tome-a -balbuciou o sem dentes-. Assim que tenhamos acabado nosso negcio.
   
   Alice apertou a pedra e abriu a boca para gritar pedindo ajuda. Sabia, com uma sensao de desespero, que no havia ningum perto que pudesse auxili-la.
   
   -Voltou Benedict?
   Hugh contemplou o extremo oposto do campo. Via as bandeiras de Vincent ondulando na brisa. O encheu de expectativa.
   No o esquecerei, av.
   -No, milord -Dunstan seguiu o olhar do Hugh. Em seus olhos apareceu uma expresso perspicaz-. Bom, bom, bom. Vejo que, por fim, Vincent do Rivenhall se prepara 
para sair ao campo.
   -Sim, j era hora. -Hugh lanou um olhar para as tendas, procurando ao Benedict: no havia rastro dele-. Pelo sangue do demnio, onde est esse moo? Teria que 
ter voltado j com notcias de sua irm.
   Quando se fez evidente que no estava entre os espectadores, Hugh ordenou a Benedict procurar  Alice. Por uma razo desconhecida, primeiro se decepcionou e depois 
se enfureceu ao verificar que no estava entre o pblico. Tratou de convencer-se de que tinha direito de zangar-se. Ao final de contas, deu-lhe instrues muito 
claras, e a mulher as ignorou. Mas tinha a inquietante sensao de que a questo era mais profunda.
   Sem dvida, pareceu-lhe conveniente no lhe fazer caso, pois no o considerava seu verdadeiro senhor.
   -Pode ser que no lhe interessem os jogos. -Dunstan cuspiu no cho. Contemplou a colorida multido de mulheres que se sentavam sob o toldo de amarelo brilhante 
em um lateral do campo-. Depois de tudo,  um jogo de homens.
   -Sim.
   Hugh voltou a observar a multido no refgio tratando de ver ao Benedict.
   -Lembrasse a poca em que no se podia incomodar s damas para que viessem aos jogos -disse Dunstan-. Mas agora, converteram-no em uma moda. Basta para fazer 
chorar a um cavalheiro vigoroso.
   -No posso esperar mais -disse Hugh-. Vincent j est quase preparado. Traga-me  o cavalo.
   -Sim, milorde.
   Dunstan fez um sinal ao escudeiro que sustentava as rdeas do cavalo negro.
   Hugh lanou um olhar aos espectadores. Seguia sem haver rastro da Alice.
   
   -Por Deus. Esta senhora tem muito que aprender.
   Um homem de largos ombros e barba comprida, de olhos pequenos e resplandecentes, saiu do refgio.
   
   -Sir Hugh. Inteirei-me que estava aqui. No pde resistir em  atirar Vincent de Rivenhall do cavalo, no?  
   Hugh olhou ao recm-chegado sem muito entusiasmo.


   -Dizem que hojefoi bem, Eduard.
   -Ganhei-lhe um bom cavalo de guerra e partes da armadura de Alden de Granthorpe. -Eduard rompeu em gargalhadas-. Deixei sir Alden debatendo-se no barro com uma 
perna torta. Foi divertido. Parecia uma tartaruga ao reverso.
   Hugh no disse nada. Eduard no lhe agradava. 
   Contava com vrios anos mais que ele, e era um mercenrio duro que vendia a espada a qualquer um que pagasse bem. Isso em si no era nenhum crime. Hugh sabia 
bem que se o destino no o tivesse feito cair na casa de Erasmus de Thornewood, ele mesmo teria escolhido essa carreira.
   
   Em seu desagrado intervinham outros fatores. Embora o mercenrio fosse um guerreiro habilidoso, era grosseiro e de maus modos. Hugh conhecia desagradveis falatrios 
a respeito da tendncia desse homem a ser violento com as mulheres jovens, como o caso de uns meses atrs, em que uma empregada de taverna de doze anos morreu por 
causa da rude luxria de Eduard. No sabia se o rumor era certo, mas no lhe custava acredit-lo.
   -Preparado, senhor.
   O escudeiro tranqilizou ao cavalo impaciente.
   -Muito bem.
   Hugh se voltou para Eduard.
   -Meu senhor Hugh.
   Benedict dobrava coxeando a esquina da tenda ao mesmo tempo em que Hugh apoiava uma bota no estribo. Ofegava.
   -Milorde, no consigo encontr-la.
   Hugh se deteve.
   -No est na tenda?
   
   -No, milorde. -Benedict deteve-se e se apoiou na bengala-. Possivelmente esteja percorrendo os postos dos vendedores. No gosta muito dos torneios e essas coisas.
   -Indiquei-lhe que visse o jogo junto com as outras damas.
   -Sei, senhor. -O moo parecia ansioso-. Dever ser paciente com minha irm, senhor. No est acostumada a aceitar ordens. Prefere fazer as coisas a seu modo.
   -Assim parece.
   Hugh se acomodou nos arreios e inclinou-se para tomar a lana que lhe estendia um de seus homens. Olhou o frgil pedao de fita verde que ondulava perto da ponta 
da lana.
   -Milorde, rogo-lhe que seja tolerante com ela -suplicou Benedict-. Nunca aceitou bem as ordens. Menos, as dos homens.
   -Ento,  hora de aprender.
   Hugh lanou um olhar para a extenso do campo. Vincent do Rivenhall montava sob sua bandeira vermelha.
   Apesar de irritado com Alice, Hugh comeava a inquietar-se cada vez mais. O comicho que sentia na nuca no se devia  impacincia pelo iminente choque com Vincent.
   Algo mau acontecia.

   Imaginou que Alice no estava entre o pblico por puro rancor. Compreendia que no lhe agradava que fosse obrigada a assistir s justas. Tranqilizou-se pensando 
que estaria zangada, e decidida a discutir a questo em outro momento. Depois que ele tivesse lutado com Vincent de RivenhalI.
   A Hugh e a Vincent estava proibido gozar a satisfao da agresso mtua, pela aliana de ambos com Erasmus de Thornewood. Erasmus no pensava permitir que seus 
melhores cavalheiros desperdiassem a energia e esbanjassem seus ganhos lutando entre si. Os dois estavam obrigados a limitar a competncia s estranhas ocasies 
em que coincidiam em um torneio. Nessas circunstncias, podia-se desafogar o antigo rancor sob a aparncia de um jogo.
   A ltima vez que se travaram em combate de exibio, Hugh derrubou Vincent com um s golpe da lana. Como a justa era um acontecimento importante promovido por 
dois grandes bares, no havia limite  lana. Os cavalheiros triunfantes eram livres para reclamar algo que pudessem obter de suas vtimas.
   
   Todos esperavam que Hugh pusesse um preo elevado  derrota de Vincent de RivenhalI. Pelo menos, poderia ter reclamado o custoso cavalo de guerra e a armadura 
do rival.
   Mas no tomou nada disso. Em troca, foi do campo deixando Vincent no cho como se no tivesse importncia. O insulto foi escandaloso e inconfundvel. Cantaram-se 
baladas relatando-o, e a lenda de Hugh o Implacvel enriqueceu-se com outra anedota.
   
   Ningum mais que Hugh e seu nico confidente, Dunstan, sabiam a verdade. No era necessrio despojar  Vincent da armadura e do cavalo. Hugh tinha pensado uma 
estrategia muito mais sutil e eficaz contra ele que se desenvolveria com o tempo. Em uns seis meses, no mximo a um ano.
   O triunfo final seria completo. Hugh estava convencido de que isso acalmaria os ventos tormentosos que agitavam sua alma. E ao fim, teria paz.
   Enquanto isso, esses encontros ocasionais em torneios serviam para saciar o apetite da Provocadora de Tormentas.
   Hugh colocou o elmo sob o brao e olhou Benedict.
   -Pegue dois rapazes e procure  sua irm entre as tendas dos mercadores.
   -Sim, senhor. -Benedict comeava a partir, mas vacilou-. Senhor, devo lhe perguntar o que pensa fazer com Alice quando a encontrarmos.
   -Esse  problema da Alice, no seu.
   -Mas, milorde...
   -Digo que isso  entre eu e Alice. V, Benedict. Tem uma tarefa por diante.
   -Sim, senhor.
   Com inapetncia, Benedict se voltou para abrir-se passo entre a multido de homens perto dos abrigos.
   Hugh se preparou para se dirigir  pequena companhia que cavalgava sob sua bandeira negra. Olhavam-no impacientes. Quando saam ao campo com Hugh o Implacvel, 
sempre havia dinheiro a ganhar.
   
   Fazia muito tempo que Hugh tinha descoberto que havia um segredo para ganhar tanto torneios como batalhas. Era a disciplina e uma boa estrategia. Nunca deixava 
de assombr-lo que to poucos homens praticassem essas artes.
   Por natureza, os cavalheiros eram pessoas precipitadas e entusiastas, que se lanavam ao campo ou a um combate real sem pensar em nada que no fosse a glria 
individual e a lana. Os cavaleiros eram incentivados a comportar-se assim, buscando a honra e os lucros, pelos trovadores que cantavam suas faanhas. E alm disso, 
 obvio, pelas damas, que preferiam outorgar seus favores aos heris das baladas.
   Na opinio de Hugh, essa conduta indisciplinada servia de inspirao a poemas cmicos, e alm disso convertiam a vitria em uma brincadeira, ou o combate verdadeiro 
em um fato infeliz.
   Hugh preferia que fossem previsveis. 

   
   A disciplina e a adeso a uma estrategia, determinada antes do conflito, eram o que dava previsibilidade. Tinha-as convertido na base em que se apoiavam as tcnicas 
com que instrua a seus homens.
   Os soldados e cavalheiros que antepunham sua avidez de glria e riquezas ao desejo de seguir as ordens do Hugh, no duravam a seu comando.
   -Mantero filas ordenadas, e seguiro o plano que fizemos -disse aos homens-. Est claro?
   Dunstan riu, enquanto colocava o elmo.
   -Sim, senhor. No tema, estamos preparados para seguir o plano.
   Os outros sorriram, afirmando.
   -Recordem -advertiu-lhes Hugh-. Vincent de Rivenhall  meu. Ocupem-se de outros homens.
   Assentiram com seriedade. Todos os homens conheciam o ressentimento que existia entre seu senhor e Vincent de Rivenhall. O conflito no era secreto. 
   Satisfeito de que tudo estivesse preparado, Hugh comeou a montar o cavalo. Depois, ocuparia-se de Alice.
   -Espere, senhor -gritou Benedict. Hugh olhou para trs, impaciente e viu o temor refletido no rosto do moo.
   -O que acontece?
   -Esse moo, Fulk, diz que sabe onde est Alice. -Apontou  um jovem poeirento, de idade similar  sua-. Diz que dois homens com adagas estavam perseguindo-a. Diz 
que nos dir onde encontr-la. Se lhe pagarmos.
   Tardiamente, Hugh pensou que o motivo pelo que Alice no estava entre o pblico era que tinha ido procurar Gilbert, o trovador.
   " impossvel que seja to audaz."
   Mas embora tratasse de se tranqilizar, sentia um frio que lhe gelava as vsceras. Por um momento, nublou-lhe a viso a imagem do desventurado vendedor de Clydemere, 
que jazia em um atoleiro de sangue; com a garganta cortada.
   
   Hugh olhou o sorridente Fulk.
   - verdade?
   -Sim, meu bom senhor. -O sorriso do Fulk se alargou-. Sou comerciante, entende? Vendo informao, ou qualquer outra coisa que encontre. Terei muito gosto em dizer 
onde est a dama de cabelos vermelhos. Mas ser melhor que se apresse se quer resgat-la antes de que esses dois salteadores de estrada a alcancem.
   Hugh conteve sem piedade a fria e o medo que ameaavam invadi-lo, e afastou de sua mente e de sua voz todo indcio de emoo:
   -Fale.
   -Bom, senhor, quanto a mim, primeiro costumo fixar um preo.
   -O preo -disse Hugh em voz baixa-,  sua vida. Diga a verdade ou se prepare para pagar.
   Fulk deixou de sorrir.
   
   
   
   
   Captulo 7
   
   Alice correu para o abrigo. Sua nica esperana era chegar antes de que os dois ladres a alcanassem. Se podia chegar  porta, poderia esconder-se dentro.
   -Pegue-a -gritou o homem do tapa olho ao companheiro-. Se perdermos a maldita pedra desta vez, nunca nos pagaro.
   -A dama corre como uma lebre -ofegou o outro-. Mas no escapar.
   O tamborilar surdo dos ps dos perseguidores, calados com botas, era o rudo mais aterrador que jamais tinha ouvido . O abrigo parecia muito longe. Atrapalhava-se 
com o peso da pedra e suas prprias saias.
   
   Os dois ladres aproximaram-se. Alice estava a trs passos da pequena construo quando ouviu o trovo, que sacudiu at o cho que pisava.
   Com parte de sua conscincia, Alice advertiu que o sol seguia brilhando. Nem rastros de tormenta. O trovo era um detestvel tambor a suas costas. E ento ouviu 
o grito de um dos perseguidores. O espantoso alarido a fez deter-se, cambaleante. Girou sobre si mesmo e viu que o ladro desdentado caa sob os cascos de um cavalo 
negro de guerra. O animal no pareceu notar esse obstculo insignificante e seguiu avanando em busca de novas presas.
   
   Alice tensa observou a grande besta de guerra e ao cavalheiro sem elmo que ia montado. As mechas negras do cavalo e cavaleiro ondulavam do mesmo modo no vento. 
O ao faiscava ao sol.
   A jovem agarrou a pedra e contemplou o espetculo incrvel que tinha adiante. Ao longo de sua vida havia visto muitos cavalheiros e cavalos de guerra, mas nunca 
um to aterrador como este.
   Hugh o Implacvel, e o monstro destruidor avanaram como uma s coisa, uma enorme mquina blica que nada podia deter.
   
   O caolho gritou, e desistiu rapidamente da perseguio, procurando refgio entre os arbustos que rodeavam o abrigo. No tinha possibilidades de escapar do cavalo 
e, ao compreend-lo, voltou-se, impotente, para enfrentar-se a seu destino.
   
   Alice comeou a fechar os olhos para no ver a cena inevitvel de morte e destruio. Mas no ltimo instante, o animal bem treinado, obediente  ordem invisvel 
do cavaleiro, mudou o rumo. A enorme besta passou junto ao ladro sem toc-lo.
   O cavalo se deteve, estremecido, girou sobre os quartos traseiros e retrocedeu at onde estava o caolho, encolhido. O potro sacudiu a cabea, soprou com fora 
e chutou com um de seus grandes cascos, como protestando pelo final da caa.
   O homem de um s olho caiu de joelhos, apavorado.
   Hugh olhou a Alice:
   -Est bem?
   Alice no pde falar. Tinha a boca seca. Assentiu.
   Satisfeito com a resposta, Hugh concentrou a ateno no ladro. Quando falou, o fez com voz de aterradora suavidade:
   -Ento perseguia  dama como um gavio a uma lebre.
   -No me mate, milorde -suplicou o caolho-. No queramos lhe machucar. S brincavamos com a garota. S queramos assust-la. O que tem que mau nisso?
   -A garota -disse Hugh com deliciosa delicadeza-,  minha prometida.
   O olho do ladro se arregalou, como se visse que o cho se abria sob seus ps. Era evidente que o aguardava o inferno. Fez um intento mais de defender-se. .
   
   -Mas, como podia sab-lo, milorde? Tem a mesma aparncia de qualquer outra dama. A vimos vindo dos arbustos, sim. Como  natural, pensamos que procurava um pouco 
de ao.
   -Silncio -ordenou o cavalheiro-. Ainda est vivo porque preciso lhe fazer perguntas. Se no controlar a lngua, poderia decidir que no necessito de respostas.
   O ladro estremeceu.
   -Sim, senhor.
   
   Apareceu Dunstan dando a volta  esquina do muro de pedra. Benedict, movendo-se em surpreendente velocidade ajudado pela bengala, seguia-o de perto. Os dois estavam 
sem flego e com o rosto avermelhado.
   -Alice -vociferou o moo-. No est ferida?
   -No.
   Alice percebeu que estava tremendo. No olhou para o homem cado sob os cascos do cavalo.
   Hugh lanou um olhar a Dunstan.
   -Se ocupe do que est no cho. Caiu sob a carga de Storm, e deve estar morto.
   
   -Sim, senhor. -aproximou-se do cado. Empurrou o corpo inerte com a ponta da bota e cuspiu sobre a grama_. Acredito que tenha razo, senhor. -inclinou-se para 
olhar melhor o objeto que havia sob o homem-. Levava uma linda adaga.
   
   - tua, se a quiser -disse, desmontando-. Com isso, todo o resto que encontre.
   -Isso no ser muito.
   De longe, chegou um grito coletivo. O vento trazia os rudos do ltimo choque no campo de combate. Dunstan e Benedict olharam para trs, para o campo onde se 
desenvolvia o torneio.
   
   Alice percebeu uma aguda tenso.
   -Penso que Vincent  de Rivenhall ter sado ao campo - disse Hugh depois de uma pausa.
   
   -Sim, senhor -disse Dunstan, com um suspiro de pesar-. Assim . Ao que parecer, enfrentou Harold de Ardmore. Esse no ser um grande combate. Vincent cavalgar 
em cima do jovem Harold.
   
   A mandbula de Hugh se tensionou, mas a voz permaneceu serena como se tivesse estado falando das ltimas tcnicas de cultivo.
   -Lamento que hoje tenha que se conformar com o que encontre com os dois ladres, Dunstan.  bvio que, como resultado de certos feitos recentes, no teremos a 
oportunidade de gozar de vitrias mais lucrativas nas justas.
   Dunstan lanou um olhar rancoroso a Alice. -Sim, milorde.
   
   Hugh atirou as rdeas do cavalo para Benedict. -Procura o oficial, e lhe diga que depois quero interrogar este homem.
   -Sim, senhor.
   Benedict tomou as rdeas de Storm. O potro lhe dirigiu um olhar inexpressivo.
   Hugh olhou Alice com expresso inescrutvel. -Est segura de que no est machucada?
   -Sim -murmurou. Por algum motivo absurdo, sentia-se a ponto de chorar. Tinha o desejo ridculo de jogar-se nos braos do Hugh-. Salvou-me a vida, milorde.
   -Isso no teria sido necessrio se tivesse obedecido minhas indicaes de assistir s justas.
   A voz do homem carecia de inflexes. Alice sentiu frio. "Possivelmente seja certo o que dizem dele-pensou-. Talvez Hugh o Implacvel no tenha sentimentos." A 
pedra envolta em um trapo lhe pesava nas mos. Ento, recordou que a tinha.
   
   -Encontrei a pedra verde, milorde -disse, esperando que a novidade quebrasse a malha invisvel de ao com que o homem embainhava suas emoes.
   -Ah, sim? -Lanou um olhar fugaz ao objeto-. No me agrada o preo que esteve a ponto de pagar por ela.
   -Mas...
   -J fiz averiguaes sobre o paradeiro do trovador Gilbert. Esta noite, estava contratado para divertir  uns cavalheiros e suas damas. Pela manh, a pedra estaria 
em minhas mos, sem riscos. No havia necessidade de que ficasse em perigo.
   O precrio equilbrio do nimo da jovem sofreu um abalo.
   -Teria que me haver comunicado o plano antes de ir s justas, milorde. Somos scios, recorda-o? Fizemos um trato.
   
   -Nosso trato, como voc o chama, no tem nada que ver com o fato de que espero obedincia quando dou ordens.
   -Por todos os Santos, senhor, isso  muito injusto. 
   -Injusto? -Avanou para ela-. Acredita que no tenho sentido de justia que me oponho a que corra riscos inteis?
   Olhou-o, aturdida.
   -Est zangado.
   -Sim, senhora.
   -Quero dizer, muito zangado -murmurou-. Simplesmente porque eu me arrisquei?
   -No me parece um assunto simples, senhora. Embora a expresso ameaadora de Hugh tivesse que hav-la assustado, no foi assim. Dentro da Alice, nasceu uma diminuta 
chama de esperana.
   -Acredito que, na realidade, est mais preocupado por mim que pela pedra verde, senhor.
   - minha prometida -respondeu, com calma-. Como tal,  minha responsabilidade.
   Alice esboou um sorriso trmulo. -Milorde, acredito que voc , em certo modo, um impostor. No  to frio como a gente afirma. Hoje me salvou a vida, e eu no 
o esquecerei enquanto viva.
   Deixou a pedra no cho, ergueu-se e correu para os braos de Hugh. Para seu assombro, fecharam-se so seu redor. Sentiu a malha de ao da cota de Hugh dura e fria, 
mas a fora do homem lhe brindou um estranho consolo. agarrou-se a ele.
   -Depois seguiremos falando -disse-lhe Hugh com a boca contra o cabelo.
   Hugh esperou que preparassem o jantar, e que o comessem junto ao fogo, e ento foi  tenda de Alice.
   " uma tenda muito elegante", pensou, irnico. Grande, espaosa, cmoda. At tinha uma diviso no meio. Era a nica que tinham transportado na viagem.
   Era a de Hugh.
   Destinou-a a Alice sem lhe perguntar sequer se seria to amvel de compartilhar seu interior com ele. Sabia de antemo qual seria a resposta a semelhante pergunta.
   A noite anterior, dormiu junto ao fogo, com seus homens. Esta noite, tinha toda a inteno de voltar a faz-lo enquanto Alice desfrutava do luxo e da intimidade 
relativas da tenda.
   
   At ento, Alice no s tinha dormido sozinha na tenda, mas tambm comido dentro. Como comentou amargamente o tio, ao parecer, no tinha nenhum interesse na conversao 
de cavalheiros e soldados.
   Hugh imaginou deitada sob as mantas, e teve que abafar um gemido. Na parte baixa do corpo, se aninhou um desejo profundo e inquietante. Fazia muito que no ficava 
com uma mulher. Como homem disciplinado que era, negava-se a deixar-se dominar pela luxria, mas pagava um preo por isso.
   Conhecia muito bem a mordente dor do desejo sexual insatisfeito. Durante anos, tinha-o experimentado com bastante freqncia. alegrava-se pensando que seria diferente 
quando tivesse uma esposa.
   Naturalmente, esse pensamento derivou  bvia observao de que j quase a tinha. Para a maioria dos casais, o compromisso era um voto to prximo ao matrimnio 
que muitos no objetariam a consumao da unio. De fato, a consumao assegurava que as bodas se celebrariam.
   
   Era desafortunado que Hugh estivesse prometido a uma dama que se considerava a si mesmo scia nos negcios mais que futura esposa. perguntou-se o que faltaria 
para convenc-la de que o matrimnio era uma alternativa prefervel ao convento.
   O problema o afligia. Ao princpio, pareceu muito simples, mas agora comeava a duvidar.
   "Tenho muitas habilidades -pensou-. No me falta inteligncia." Erasmus de Thornewood se ocupou de minha educao, e Hugh sabia que era muito mais instrudo que 
a maioria dos homens. Mas no que se referia a entender s mulheres, sobre tudo s que eram como Alice, sentia que lhe faltava capacidade.
   -Milorde? -Benedict, que estava sentado junto ao fogo, levantou-se e se aproximou depressa de Hugh-. Posso falar um minuto com voc?
   -Se se tratar de sua irm, no.
   -Mas, milorde, queria que a entenda melhor antes de reunir-se com ela. Esta tarde, no queria perjudic-lo.
   Hugh se deteve.
   -Hoje, quase lhe cortam o pescoo. Acaso quer que a deixe cometer semelhantes loucuras?
   -No, senhor, mas estou seguro de que no voltar a fazer nada precipitado. Tenho que lhe assinalar que obteve o que queria. Est outra vez na
 posse da pedra verde. No poderia esquecer o resto?
   
   -No. -Observou o semblante preocupado do moo, onde brincavam as sombras vacilantes da fogueira-. se acalme, moo. No maltrato mulheres. No machucarei  sua 
irm.
   Benedict no se convenceu. -Sir Dunstan comentou que voc estava zangado por no ter podido competir com Vincent de Rivenhall nas justas desta tarde.
   -E teme que desconte minha irritao sobre Alice?
   -Sim, isso  o que temo. Alice est acostumada a irritar os homens que tentam lhe dar ordens, milorde. Meu tio sempre perdia a pacincia com ela.
   Hugh se imobilizou.
   -Sir Ralf lhe bateu alguma vez?
   -No. -Esboou uma meio sorriso-. No acredito que se atrevesse, pois sabia que minha irm se vingaria de algum jeito imprevisvel.
   -Claro. -relaxou-. Tive a impresso de que Alice intimidava um pouco a seu tio.
   -Em certas ocasies, eu acreditava que, na realidade, tinha medo dela-disse Benedict em voz baixa-. Segundo Alice, isso se devia  reputao de nossa me.
   -Sua me?
   -Sim. Era uma grande estudiosa das ervas, sabe? Uma verdadeira senhora no reino das ervas. -Vacilou-. Conhecia as propriedades de muitas espcies estranhas e 
pouco comuns, as que curavam tanto como as que matavam. E ensinou Alice a us-las desde muito pouca idade.
   Hugh sentiu uma sensao gelada na pele dos braos.

   -Em outras palavras, sir Ralf temia que Alice tivesse aprendido com sua me o suficiente para envenen-lo,  assim?
   -Minha irm seria incapaz de fazer algo to terrvel. -Era evidente que a idia horrorizava  Benedict-. Minha me lhe ensinou a curar, no a fazer mal.
   Hugh estendeu a mo e apertou o ombro do jovem. -Olhe-me, rapaz.
   Os olhos ansiosos de Benedict encararam Hugh. -Sim, senhor?
   -H coisas que devem ficar muito claras entre Alice e eu. Entre elas, o fato de que, como minha futura esposa, deve obedecer minhas ordens. No as dou por capricho, 
mas sim pela segurana daqueles que esto ao meus cuidados.
   -Sim, senhor.
   - provvel que Alice e eu discutamos sobre isto, mas lhe dou minha palavra de que jamais maltratarei  sua irm. Dever se conformar com isso.
   Benedict examinou por um momento o rosto de Hugh, tentando v-lo com clareza. Ento, parte da tenso abandonou seus ombros jovens.
   
   -Sim, senhor.
   Hugh o soltou.
   -Terminar por entender que, enquanto estiver sob meus cuidados, dever me obedecer tal como o faz qualquer dos que esto a meu comando.
   Por desgraa, haver ocasies, como hoje, em que a vida depender de sua obedincia.
   Benedict, resmungou;
   -Desejo-lhe sorte para convenc-la a disso, milorde.
    Hugh sorriu, ligeiramente.
   -Obrigado. Suspeito de que precisarei.
   
   Deu a volta e seguiu andando para a tenda negra. " uma  bela noite ", pensou. Fresca, mas no fria. As fogueiras clareavam a escura paisagem que rodeava Ipstoke. 
No ar do anoitecer flutuavam os rudos da farra dos bbados, risadas estrepitosas e fragmentos de canes.
   Era o anoitecer caracterstico de um dia de justas. Os senhores e cavalheiros triunfantes celebravam as vitrias com msicas e contos. Os perdedores negociavam 
os resgates que pediriam, que costumavam ser amistosos mas caros.
   Os sucessos desse dia empobreceriam a mais de um. Vrios estariam curando os machucados e outros os ossos quebrados.
   Mas quando terminasse a feira no Ipstoke, a maioria tanto de ganhadores como perdedores, correriam s prximas justas, em qualquer lugar que se celebrassem. Para 
muitos, esses encontros constituam um modo de vida. E o fato de que na Inglaterra fossem tecnicamente ilegais, no apagava o entusiasmo por esse jogo.
   Hugh estava entre os poucos que no desfrutava muito dos torneios. Em grande medida, permitia-se participar s quando desejava dar a seus homens o treinamento 
a que davam lugar esses torneios.
   Ou nas escassas oportunidades em que estava seguro de que Vincent de  Rivenhall seria seu rival.
   A luz que saia da tenda negra lhe disse que Alice tinha um pequeno braseiro aceso para aquecer o ambiente, e uma vela para iluminar-se. Abriu a lona e se deteve 
na entrada, quieto. Alice no o ouviu entrar. Estava sentada sobre um pequeno tamborete dobrvel, o nico que tinham transportado.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Alice estava de costas ao recm-chegado. A linha da coluna era reta e profundamente feminina. A cabea estava inclinada sobre um objeto que tinha no colo.
   O cabelo acobreado estava recolhido em uma rede para cabelo. Resplandecia com tons mais ricos que as brasas do braseiro. As saias caam em dobras elegantes em 
torno das pernas do tamborete.
   Minha prometida. Hugh aspirou uma suspiro profunda, enquanto uma onda de intenso desejo o assaltava. Os dedos que sustentavam a abertura da tenda se tensionaram. 
A desejo.
   
   Por um momento, no pde pensar em outra coisa que em sua prpria reao dessa tarde, quando Alice se lanou nos seus braos. As emoes desse momento oscilavam 
sobre um abismo imprevisto. Sentiu-se esmigalhado entre a clera pelo risco que tinha corrido e a compreenso de que esteve a ponto de morrer. Quase a perdeu.
   A sensao de posse foi to intensa que sua mo tremeu.
   Como se tivesse percebido sua presena, de sbito Alice virou a cabea para olh-lo. Piscou, e Hugh quase pde ver o que pensava, com o movimento da cabea de 
um objeto a outro. Ento, sorriu-lhe, e Hugh teve que apertar os punhos para no toc-la.
   -Milorde. No o ouvi entrar.
   - evidente que estava concentrada em certas questes.
   Hugh fez uso at da ltima partcula de autodomnio que pde reunir. Deixou cair a lona da porta com gesto vagaroso.
-Sim, milorde.
   O homem cruzou o tapete da tenda e observou o objeto que Alice tinha no colo.
   -Vejo que ainda examina o meu cristal.
   -Ainda examino meu cristal, senhor. -Acariciou a pedra verde lavrada com a gema de um dedo-. Tentava compreender por que era to valioso para Gilbert o trovador 
e para esses dois ladres.
   
   -No averiguaremos muito pelo trovador. Gilbert desapareceu.
   Essa novidade, foi uma nova fonte de irritao nesse dia. "Ao que parece -pensou-, nada sai bem."
   -No me surpreende --disse Alice-. Era um sujeito escorregadio. Nunca gostei nem dele nem de suas canes. 
   Hugh contemplou o rosto da moa  luz das velas.
   -Disseram-me que s mulheres parece atraente. 
   Alice lanou um bufo feminino.
   -Pois, a mim no. Uma noite, enquanto estava na casa de meu tio, tentou me roubar um beijo.
   -Srio? -perguntou com suavidade.
   -Sim. Foi muito atrevido. Derrubei-lhe uma jarra de cerveja sobre a cabea. Depois disso, no falou comigo.
   -Imagino.
   Alice levantou o olhar.
   -Soube um pouco sobre o outro ladro?
   -Muito pouco. -Era intil procurar outro tamborete, e Hugh se sentou em um dos pesados bas de madeira que continham a coleo de pedras-. Falou pelos cotovelos, 
mas o nico que sabia era que o companheiro tinha feito um trato com algum para recuperar o cristal. Acredito que o caolho e seu cmplice mataram ao vendedor de 
CIydemere.
   
   -OH! -exclamou, com voz trmula.
   -Por desgraa, o sujeito que caiu sob os cascos do Storm foi o que, em realidade, fez o trato. Est morto e, portanto, no pode contar nada.
   -Entendo.
   Hugh entreabriu os olhos.
   -Esses dois sujeitos a teriam assassinado sem pensar duas vezes.
   A jovem lhe dedicou um sorriso luminoso. -Mas me salvou, senhor.
   -Isso no  o que quero destacar.
   Alice fez uma careta.
   -J sei o que quer destacar, milorde. Mas olhe o aspecto positivo. Um dos assassinos est morto, e o outro est sob custdia do oficial. Ns dois estamos a salvo 
e recuperamos a pedra. 
   -Esquece uma coisa.
   -O que?
   
   -Quem  que contratou os dois sujeitos para encontrar o cristal est ainda solto em algum lugar, e no temos nenhuma pista de sua identidade.
   Os dedos de Alice se apertaram em volta do cristal.
   -Mas seja quem for, deve saber que seus intentos de roubar a pedra fracassaram. Agora, est outra vez nas suas mos, milorde. Ningum se atreveria a tirar-lhe 
-Alice...
   -Aprecio sua confiana -murmurou Hugh-, mas no acredito que devamos dar por certo que todos os ladres potenciais tero a mesma f em minhas habilidades.
   -No  duvide. Meu tio afirmava que voc  quase uma lenda, senhor.
   -Alice, lamento lhe informar que essa lenda em lugares pequenos, como Lingwood Manor ou Ipstoke, no significa mais que uma reputao moderada em qualquer outro 
lugar.
   -No acredito nisso nem por um momento, senhor -replicou, em uma inesperada mostra de lealdade-. Vi como tratou hoje a esses ladres. Quando chegar a notcia 
 pessoa que os contratou, sem dvida o pensar duas vezes antes de tratar de roubar novamente a pedra. Estou convencida de que presenciamos o ltimo intento.
   -Alice...
   A jovem tamborilou sobre o cristal com o dedo indicador. As sobrancelhas se uniram lhe dando uma expresso reflexiva.
   -Sabe, senhor?, para comear, eu gostaria muito descobrir por que algum roubou esta pedra.
   Por um instante, a ateno do homem se concentrou no feio cristal.
   - possvel que algum, equivocadamente, considere-a uma gema valiosa. depois de tudo, diz-se que  a ltima pea de um grande tesouro.
   A moa olhou a pedra com evidente ceticismo.
   -A julgar pelo preo que lhe outorgou, o vendedor que a vendeu a meu primo Gervase no a acreditava valiosa. S a considerava um objeto fora do comum. Uma quinquilharia 
que podia interessar unicamente a um naturalista.
   -Suspeito que a motivao do ladro radicava em que a pedra tem um tipo de valor muito diferente.
   Alice levantou o olhar de repente.
   -Que tipo de valor, senhor? 
   
   
   
   
   
   -J lhe disse que a posse do cristal est vinculada a uma lenda e a uma maldio sobre o senhorio do Scarcliffe.
   -Sim. E ento?
   Hugh encolheu os ombros. .
   -Possivelmente h algum que no quer que me converta no novo Senhor de Scarcliffe.
   -Quem poderia ser?
   O homem tamborilou distrado com os dedos sobre a coxa.
   -Talvez j seja hora de que lhe fale de Vincent de Rivenhall.
   -O indivduo que procurava para competir nas justas de hoje? Meu irmo me disse que voc se zangou muito ao ver-se obrigado a perder essa luta. Sei bem que foi 
por minha culpa que tivesse que deixar de lado as justas.
   -sta  certs.
   Alice lhe dirigiu um sorriso de feiticeira. -Mas deve admitir que, ao fim, o importante era recuperar a pedra, milorde. E o temos feito, no  verdade? Tudo est 
bem, de modo que podemos esquecer os penosos incidentes do passado imediato.
   No muito convencido, Hugh decidiu que tinha chegado o momento de lhe dar uma pequena lio de obedincia.
   -Senhora, no  meu estilo esquecer incidentes penosos do passado imediato, como voc os chama. Em realidade, estou convencido de que algum deve aproveit-los 
como importantes lies. 
   -Fique tranqilo, senhor, que aprendi -lhe assegurou, em tom alegre.
   -Eu gostaria de poder acredit-lo. Mas algo me diz...
   -Silncio. -Levantou a mo para faz-lo calar-. O que  isso?
   Hugh ficou carrancudo.
   -O que?
   -Um trovador canta uma balada. Escute. Acredito que se refere a voc, milorde.
   As estrofes da cano cantada com vigorosa voz masculina entraram flutuando na tenda negra.
   
   Diz-se que o cavalheiro Implacvel valoroso se mostrou.
   Mas eu lhes digo que hoje, de sir Vincent escapou.
   
   -Sim, refere-se para mim -resmungou Hugh. "Vincent encontrou uma forma de vingar-se",
   
   Pensou, Esse era o preo que se pagava por estar prometido a uma mulher como Alice.
   
   Alice deixou a pedra e se levantou de um salto.
   -Milorde, algum trovador bbado est caluniando-o.
   -Isso no faz mais que demonstrar o que havia dito antes. O que em alguns lugares representa uma pequena e agradvel lenda, em outras no  outra coisa que uma 
triste brincadeira.
   
   Uma vez sir Hugh fez que tremessem e se acovardassem audazes cavalheiros.
   Mas aps, deixou que o dominasse sua natureza covarde.
   
   -Isso  revoltante. -Alice foi at a porta da tenda-. No o suportarei. Hoje voc perdeu essa estpida justa porque estava ocupado atuando como um autntico heri. 
   Hugh compreendeu tarde que Alice tinha intenes de enfrentar o trovador.
   -No, Alice, espere. Volte aqui.
   -Retornarei em seguida, milorde. Primeiro, tenho que corrigir esses tolos versos. Deslizou para fora da tenda, deixando cair a lona.
   -Pelos pregos de Cristo.
   Hugh se levantou do ba de madeira e cruzou o cho da tenda com grande rapidez. Chegou  porta e a abriu com brutalidade. 
   Viu a mulher  luz da fogueira. segurava as saias com as mos enquanto avanava a passo vivo para o acampamento vizinho. O queixo tinha uma inclinao decidida. 
Os homens de Hugh a olhavam, consternados.
   O trovador, sem adivinhar o iminente embrulho, continuou com os seguintes versos:
   
   Possivelmente sua bela dama procurar outro cavalheiro forte que a agrade.
   
   Pois o Provocador de Tormentas se abrandou, agora  lasso como brisa estival.
   
   -No, senhor trovador! -vociferou Alice-. Deixe de cantar essa cano tola imediatamente, oua-me!
   
   O trovador, que tinha estado vagando pelo acampamento, detendo-se para cantar a cano em qualquer lugar que o convidassem a faz-lo, interrompeu-se de repente.
   
   A Hugh pareceu que, de repente, a noite ficava inusitadamente calada. Seus prprios homens no era os nicos que olhavam atnitos a jovem. Contava com a ateno 
de todos os que se reuniam nas fogueiras prximas.
   
   O trovador fez uma profunda reverncia quando Alice se deteve diante ele.
   
   -Me perdoe, milady -murmurou com zombadora cortesia-, lamento que minha cano no lhe agrade. Foi composta esta tarde, a pedido do mais nobre e valente cavalheiro.
   - Vincent de Rivenhall, suponho.
   -Sim. -O homem riu-. Claro, foi sir Vincent de Rivenhall o que me pediu uma cano para celebrar sua grande vitria no campo de batalha. Negar-lhe o direito 
a ter uma balada de heri?
   -Sim, isso farei. Porque ele no foi o campeo do dia. Foi sir Hugh o verdadeiro heri galante.
   -Quando se negou a sair ao campo Contra sir Vincent? -O trovador riu-. Me perdoe, mas  um estranho conceito de heri, senhora. 
   
   - evidente que nem voc nem sir Vincent esto inteirados dos fatos verdadeiros que ocorreram esta tarde. -Fez uma pausa para olhar, carrancuda, ao pblico que 
tinha incitado-. Me escutem, todos, e escutem bem, porque lhes direi o que, em realidade, aconteceu hoje. Sir Hugh se viu obrigado a perder o torneio de hoje, porque 
teve que ocupar-se de uma tarefa de heri.
   Um homem alto, de tnica vermelha, entrou no crculo da luz do fogo. As chamas revelaram suas feies aquilinas. Ao reconhecer o recm-chegado, Hugh gemeu.
   -Que tarefa herica afartou a sir Hugh do campo de honra, milady? -perguntou com cortesia o homem alto.
   Alice girou e se dirigiu a ele.
   -Devo lhe fazer saber que esta tarde sir Hugh me salvou de dois cruis ladres, enquanto sir Vincent lutava. Os ladres teriam me matado a sangue frio, senhor.
   
   -E quem  voc?
   -Sou Alice, a noiva de sir Hugh.

   Uma onda de murmrios interessados recebeu o anncio, mas Alice no fez conta.
   -Srio? -O indivduo a observou  luz do fogo-. Que interessante.
   Alice lhe cravou um olhar contido.
   -Sem dvida, estar de acordo em que salvar minha vida foi muito mais herico que participar de uns jogos sem sentido.
   O olhar do homem passou de Alice a Hugh, que estava a pouca distancia atrs dela. Este sorriu fracamente ao topar-se com uns olhos quase da mesma cor que os seus, 
como bem sabia.
   O homem alto voltou-se para Alice, e lhe dedicou uma reverncia zombadora.
   -Minhas desculpas, senhora. Lamento que a cano do trovador a tenha ofendido. E me alegra saber que sobreviveu ao encontro com os ladres.
   -Obrigado -disse Alice com gelada cortesia. 
   - evidente que voc  uma inocente, senhora. O homem retrocedeu, saindo da luz.
   -Ser divertido comprovar quanto tempo ver Hugh o Implacvel como um heri.
   
   Alice lhe lanou um olhar furioso, e se dirigiu outra vez ao trovador.
   -Cante outra coisa.
   -Sim, senhora.
   Os olhos do sujeito brilharam divertidos quando fez uma nova reverncia a Alice.
   Esta girou sobre os ps e encaminhou-se outra vez ao acampamento de Hugh. Deteve-se ao v-lo lhe obstruindo o passo.
   -Ah, est aqui, milorde. Agrada-me lhe dizer que j no teremos que nos preocupar outra vez por essa ridcula balada que fala de Vincent de Rivenhall, conforme 
acredito.
   -Obrigado, senhora. -Agarrou-a pelo brao para lev-la de volta a tenda-. Agradeo-lhe que se preocupe comigo.
   -No seja ridculo. Eu no podia permitir que esse idiota seguisse cantando mentiras sobre voc, senhor. No tem por que transformar em heri a sir Vincent de 
Rivenhall, quando o verdadeiro heri  voc.
   
   -Os trovadores tm que viver do modo que podem. Certamente, sir Vincent pagou bem pela balada.
   
   -Claro. -O rosto se iluminou de sbito entusiasmo-. Acaba de ocorrer-me algo, senhor. Poderamos pagar ao trovador para que invente uma cano sobre voc, milorde.

   -Prefiro que no -disse Hugh, com muita clareza-. Tenho coisas melhores em que gastar o dinheiro que em uma balada que me elogie.
   -Est bem, se insistir... -Suspirou-. Suponho que deve ser muito custoso.
   -Sim.
   -De qualquer maneira, seria uma cano encantadora, estou segura. Valeria o que custasse. 
   -Esquea, Alice.
   Fez uma careta.
   -Sabe quem  o homem alto que se aproximou da fogueira?
   -Sim. Era Vincent de Rivenhall.
   -Sir Vincent? -Alice se deteve de repente e o olhou, atnita-. Havia algo nele que me recordava um pouco  voc, sabe, senhor?
   - meu primo. Meu pai era seu tio Matthew. 
   -Seu primo.
   Parecia perplexa.
   -Meu pai era herdeiro de Rivenhall. -Hugh sorriu com a irnica diverso que tinha aprendido a aplicar a esse tema-. Se sir Matthew no se negasse a casar com 
minha me depois que a deixou grvida, seria eu e no sir Vincent o herdeiro das terras de Rivenhall.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Captulo 8
   
   Alice teve conscincia aguda dos olhares divertidos dos homens de Hugh. Voltou para a tenda a passo vivo, sabendo que vrios dos reunidos em volta do fogo escondiam 
amplos sorrisos. At Benedict a olhava com expresso estranha, como se tivesse dificuldades para conter a gargalhada.
   -Se os ouvidos no me enganarem -comentou Dunstan, em voz o bastante alta para ser ouvido do outro lado da fogueira-, parece que o trovador descobriu uma nova 
cano.
   
   Hugh o Implacvel pode abandonar a espada,
   Pois est prometido a uma dama que defende a seu senhor.
   
   -Sim -disse algum, satisfeito-.  muito mais divertida que a outra.
   As gargalhadas ressoram no ar.
   Alice fez uma careta e olhou por cima do ombro. O trovador que Vincent pagou para que cantasse a maliciosa balada a respeito d Hugh, tocava uma nova melodia com 
o alade. Percorria o acampamento, obsequiando a cano a todos.
   
   Lhe deu um dote mais valioso que as terras,
   Pois, ao parecer, a honra de sir Hugh est a salvo em
   Suas mos.
   
   Elevaram-se exclamaes de aprovao. Alice ruborizou-se intensamente ao ver quem era o novo personagem dos versos. Olhou inquieta para Hugh, para ver se estava 
envergonhado.
   - Wilfred tem razo -disse o homem com calma-. A nova cano  muito mais divertida que a anterior.
   Benedict, Dunstan e outros uivaram de risada.
   -Pode ser que sir Vincent tenha triunfado nas justas desta tarde -declarou um-, mas esta noite foi completamente derrotado.
   Alice agradeceu imensamente a escurido da noite por ocultar as manchas vermelhas em que se converteram suas bochechas. Cravou um firme olhar em um dos escudeiros.
   -Por favor, pode trazer um pouco de vinho a minha tenda? 
   -Sim, milady.
   O homem abafou uma risada e se levantou de um salto.
   
   Comeou a caminhar para a carroaa de armazenagem, que estava perto, na escurido.
   -J que est ai, pode trazer uma taa para mim, Thomas -exclamou Hugh-. Leva-a a minha tenda.
   

   -Sim, milorde.
   O sorriso de Hugh relampejou fugaz enquanto levantava a porta da tenda.
   -No  freqente que tenha a oportunidade de brindar pelas derrotas de sir Vincent.
   -Na verdade, senhor, voc vai muito longe. -Alice passou pela abertura  relativa intimidade da tenda-. Eu no derrotei sir Vincent. Limitei-me a corrigir os 
enganos com respeito aos fatos de hoje.
   -No, senhora. -Hugh soltou a porta-. No se equivoque.  uma derrota, e muito decisiva. E com a nova cano do trovador, certamente muitas pessoas se inteiraro. 
Digo-lhe que  to satisfatria como se o tivesse derrotado no campo de de batalha.
   A moa girou e o olhou de frente. - uma brincadeira bastante m.
   Hugh encolheu os ombros.
   -Talvez tenha exagerado um pouco. Atirar do cavalo a meu primo teria sido algo mais prazeiroso, admito-o. Mas no muito. -O sorriso gelado apareceu e se foi-. 
No muito.
   -Milorde? -Apareceu Thomas, levantando a porta da tenda-. Trago o vinho para o senhor e para a senhora.
   Apresentou-lhe uma bandeja com duas taas e uma jarra. 
   -Muito bem. -Tomou a bandeja das mos do homem-. Isso bastar, por agora. Deixe-a, assim poderei homenagear a minha nobre defensora como  devido.
   -Sim, senhor.
   Lanando um ltimo olhar a Alice, Thomas se foi fazendo reverncias.
   Enquanto Hugh enchia as taas de vinho, Alice ficou carrancuda.
   -Milorde, eu gostaria que deixasse de divertir-se com este desagradvel incidente.
   -Ah, mas voc no sabe quo divertido .
   Entregou-lhe uma taa e logo levantou a sua.
   -To importante  para voc ver sir Vincent humilhado  ?
   
   -Tudo o que me permite meu suserano  saborear de vez em quando a humilhao de Vincent.
   -No compreendo o que quer dizer, senhor.
   -Erasmus de Thornewood proibiu Vincent e a mim tomar as armas um contra o outro, salvo em uma justa. Afirma que seria um desperdcio que no pode permitir-se.
   -Erasmus de Thornewood  um homem muito inteligente.
   --o -admitiu-. Mas a idia dele da economia de recursos me deixa faminto. Esta noite, senhora, voc foi como um prato bem preparado para mim. Ter que me deixar 
desfrut-lo por inteiro.
   Mesmo assim, no  essa excelente preparao o que me parece to divertido.
   Alice comeava a impacientar-se com essas respostas irnicas.
   -O que  o que tanto o diverte, milord? 
   Hugh lhe sorriu por cima da taa, e os olhos ambarinos resplandeceram como os de uma guia que acaba de comer a uma pomba.
   -Sou consciente de que esta noite  a primeira vez em minha vida que algum sai em minha defesa. O agradeo, senhora.
   O vinho tremeu na taa da Alice.
   -Era o mnmo que podia fazer. Esta tarde, voc me salvou a vida.
   -Eu diria que nossa sociedade funciona muito bem, no v? -perguntou com suspeita brandura.
   A expresso de seus olhos ameaou destruir a postura da Alice. "Isto  absurdo -pensou-. "O que acontece  que hoje me aconteceram muitas coisas."
   Desesperada, procurou em sua mente um modo de trocar de tema, e disse o que lhe ocorreu primeiro:
   -Ouvi dizer que  voc bastardo.
   Uma quietude letal se apoderou do homem, e a diverso morreu em seus olhos.
   -Sim,  verdade. Incomoda-lhe saber que seu prometido  um bastardo, senhora?
   Alice desejou ter mantido a boca fechada. Que estupidez! No que estava pensando? Para no falar de suas maneiras.
   -No, senhor. S era para lhe fazer notar que conheo muito pouco de sua histria familiar.  voc um mistrio para mim. -Fez uma pausa-. Por opo, suponho.
   
   -Descobri que quanto menos conhecemos a verdade, mais tendemos a acreditar em lendas. O que  mais, pelo geral, preferem a lenda  verdade. -Hugh bebeu o vinho 
com ar pensativo-. Em ocasies,  conveniente. s vezes, como no caso desta maldita pedra verde,  um estorvo.
   Alice apertou com fora a taa.
   -Sou estudiosa da filosofia natural. Como tal, procuro respostas sinceras. Prefiro saber a verdade que  lenda.
   -Sim?
   Fortaleceu-se com um gole pequeno de vinho. -Esta noite, aprendi algumas coisas a mais sobre voc, mas ainda sinto que h muito mais que no conheo. 
   -Voc  muito curiosa, e isso pode ser perigoso. 
   -Em uma mulher? -perguntou, cortante.
   -Tanto em um homem como em uma mulher. O mundo  mais simples e, sem dvida, mais seguro para aqueles que no fazem muitas perguntas.
   -Poderia ser verdade. -Alice fez uma careta-. Mas, por desgraa, a curiosidade  meu principal defeito.
   -Sim, assim parece. -Contemplou-a por um momento com o ar de quem debate consigo mesmo. Continuando, foi at o ba de madeira e sentou-se nele. Embalou a taa 
nas mos e observou o contedo, como se fosse a mistura de um alquimista-. O que quer saber?
   Alice se assustou, pois no esperava que lhe oferecesse informao. Sentou-se lentamente no tamborete dobrvel.
   -Responder as minhas perguntas?
   -A algumas. No todas. Pergunte, e eu decidirei a quais responderei e a quais no.
   Alice tomou flego.
   -Nem voc nem sir Vincent so responsveis pelas circunstncias de seus respectivos nascimentos. Por m sorte voc nasceu bastardo e, em conseqncia, no herdou 
as terras de Rivenhall.
   Hugh encolheu os ombros.
   -Sim.
   
   -Mas no vejo por que culpa a seu primo desses fatos. 
   E no me parece o tipo de homem que mantivesse vivo o rancor contra um inocente. Ento, como  que voc e sir Vincent se converteram em inimigos jurados?
   
   Hugh guardou silncio um momento. Quando falou, sua voz carecia de qualquer inflexo reveladora de sentimentos ou emoes. Era como se estivesse relatando a histria 
de outra pessoa, no a prpria.
   - bastante simples. A famlia de Vincent odiou  minha com paixo constante. A minha, devolveu-lhe o favor. Tanto nossos pais como o resto dessa gerao esto 
mortos, e portanto, s ficamos meu primo e eu para continuar com o conflito.
   -Mas, por que?
   Hugh fez girar a taa entre as grandes mos.
   - uma longa histria.
   -Eu gostaria muito de escut-la, milorde.
   -Est bem. Contarei-lhe a maior parte. Dadas as circunstncias, o devo.
   Fez outra pausa, como reunindo as idias guardadas em algum lugar profundo e oculto.
   Alice no se moveu. Sentia como se um estranho feitio se instalasse dentro da tenda. A vela estava baixa, e as brasas do braseiro, amortecidas. Fora, as risadas 
e as canesforam diminuindo, como se viessem de muito longe. As sombras pareciam congelar dentro da tenda, girando ao redor de Hugh.
   -Meu pai se chamava sir Matthew de Rivenhall -disse-. Dizem que era um cavalheiro respeitado. Seu suserano lhe deu de presente vrias propriedades excelentes.
   -Por favor, continue -respirou a jovem com suavidade.
   -A famlia arrumou um matrimnio para ele. A dama era uma herdeira. considerava-se uma unio conveniente e sir Matthew estava agradado em todo sentido. Mas isso 
no impediu que deitasse com a jovem filha de um de seus vizinhos. O pai possua o feudo de Scarcliffe. Meu av quis proteger a sua nica filha, mas sir Matthew 
a convenceu de que se encontrasse com ele em segredo.
   -Essa mulher era a sua me?
   -Sim. chamava-se Margaret. -Fez girar a taa entre as mos-. Matthew de Rivenhall a seduziu e a deixou grvida. E depois, foi servir a seu suserano. Eu nasci 
enquanto ele estava na Normanda. 
   -O que aconteceu?
   -O de sempre. -Fez um gesto negligente-. Meu av estava furioso. Foi a Rivenhall e exigiu que obrigassem a Matthew a casar-se com minha me quando voltasse da 
Normanda.
   -Queria que rompessem o compromisso de sir Matthew?
   
   -Sim. A famlia de sir Matthew deixou bem claro que no pensava permitir que o herdeiro se desperdiasse com uma jovem que no podia lhe oferecer mais que uma 
propriedade pequena, mas bem pobre, como dote.
   -E como se sentia a prometida de sir Matthew?
   -A famlia dela desejava tanto esse matrimnio como o prprio sir Matthew. Como havia dito, considerava-se uma unio muito conveniente.
   Alice assentiu, indicando que compreendia.
   -Isso significa que ningum queria romper esse compromisso, certo?

   -Sim. -Hugh lhe lanou um olhar, e depois o fixou nas brasas -. Matthew de Rivenhall, menos que ningum. No tinha intenes de abandonar  rica herdeira por 
minha me. 
   Mas foi v-la uma vez quando retornou da Normanda.
   -Para dizer-lhe que a amava, e que sempre a amaria embora tivesse que casar-se com outra? -apressou-se a perguntar.
   A boca do homem se curvou em um sorriso carente de humor.
   -Pretende dar um final feliz a esta histria?
   Alice se ruborizou.
   -Acredito que sim. Foi assim?
   -No.
   -Bom, e ento? O que foi o que Matthew de Rivenhall disse a sua me quando foi v-la e se inteirou de que tinha um filho?
   -Ningum sabe. -Bebeu outro gole de vinho -. Mas fosse o que fosse, ao que parece, minha me no gostou. Assassinou-o, e depois se suicidou.  manh seguinte, 
acharamos os dois mortos.
   Alice ficou com a boca aberta. Teve que fazer vrios tentativas para poder falar. Quando o fez, saiu-lhe algo assim como um chiado.
   -Sua me matou a seu pai?
   -Isso dizem.
   -Mas, como? Se ele era um grande cavalheiro, como pde faz-lo? No h dvida de que no foi capaz de defender-se de uma mulher.
   Hugh a olhou com expresso turva.
   -Usou uma arma feminina.
   -Veneno?
   -O ps no vinho que lhe serviu nessa noite. -Por Deus. -Contemplou o vinho vermelho que tinha na taa e, por algum motivo, j no sentiu mais vontade de beber-. 
E depois, ela tambm bebeu o vinho?
   
   -Sim. O pai de Vincent, irmo mais novo de Matthew, converteu-se em herdeiro das propriedades de Rivenhall. Mataram-no trs anos depois. Agora, Vincent  senhor 
de Rivenhall.
   -E odeia a voc porque acredita que sua me matou ao tio dele?
   -Ensinaram-lhe a me odiar desde que nasceu, embora por causa da ao de minha me se converteu em senhor de Rivenhall. Para ser sincero, me ensinaram a lhe retribuir.
   -Quem criou voc?
   -Os primeiros oito anos de minha vida, meu av. Quando morreu, enviaram-me a viver na casa de Erasmus de Thornewood. Tive sorte de no me converter em renegado. 
   -Mas lhe negaram seus direitos de nascimento -murmurou Alice.
   - certo que perdi Rivenhall, mas a mim isso j no importa. -A boca de Hugh desenhou uma fria careta de satisfao-. Agora tenho minhas prprias terras. Graas 
a sir Erasmus, o imvel de meu av  meu. 
   Alice recordou como tinha perdido a herana de Benedict, e abafou um pequeno suspiro.
   -Me alegro por voc, senhor. Hugh no pareceu ouvi-la.
   -Scarcliffe sofreu muito com a morte de meu av, faz vinte e dois anos. Para falar a verdade, comeou a declinar antes de que morresse. Mas tenho intenes de 
que volte a ser rica e prspera.
   - um objetivo que vale a pena.
   -Sobre tudo, manterei-a para meus herdeiros.
   -A mo que sustentava a taa se apertou-. Pelo sangue do diabo, juro que Vincent no poder fazer o mesmo com o Rivenhall.
   O tom gelado da voz ps tensa a Alice. 
   -Por que? 
   -No presente, o imvel de Rivenhall est em condies lamentveis. J no  a terra rica e prspera que foi uma vez. Por que voc acha que Vincent entra em todas 
as justas e todos os torneios que pode? Trata de ganhar suficiente dinheiro para salvar as suas terras.
   -O que lhes passou?
   -O pai de Vincent no tinha o menor sentido de responsabilidade. Esbanjou os ganhos das terras de Rivenhall para financiar uma viagem a Terra Santa.
   -Foi s Cruzadas?
   
   -Sim. Como tantos outros, morreu em algum deserto longnquo, mas no por uma espada, e, sim por uma infeco intestinal grave.
   
   Alice franziu o cenho.
   -Acredito que minha me escreveu algo a respeito das enfermidades sofridas pelos que foram s Cruzadas.
   Hugh deixou a taa vazia, apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaou as mos.
   -Dizem que o pai de Vincent foi alvoroado e temerrio desde que nasceu. No tinha sentido dos negcios, nem apego ao dever para sua prpria famlia.
   Havia um motivo para que as pessoas do povoado se sentissem to desolados pela perda de meu pai, d-se conta? Todos sabiam que o irmo arruinaria as terras e 
quase o fez. Por desgraa, morreu antes de poder terminar a tarefa.
   -E agora, sir Vincent se desespera para salv-las. 
   -Sim.
   -Que triste.
   -Adverti-lhe que no tinha um final romntico. 
   - certo.
   Hugh a olhou de soslaio.
   -Em certo sentido, no  mais triste que a sua histria.
   -O que aconteceu conosco, foi por minha culpa --disse Alice, pesarosa.
   A expresso de Hugh se escureceu.
   -Por que diz que foi sua culpa? Foi sir Ralf que privou Benedict da sua herana. 
   -Pde faz-lo porque eu no soube defender o imvel de meu pai. -levantou-se, desassossegada, e se aproximou mais do braseiro-. Fiz tudo o que pude, mas no foi 
suficiente.
   - muito dura consigo mesma.
   -Sempre me perguntarei se no poderia ter feito algo mais. Possivelmente poderia lhe haver expresso meus argumentos a lorde Fulbert com mais astcia. Ou achar 
o modo de convenc-lo de que poderia defender as terras de meu irmo at que Benedict tivesse idade suficiente.
   -Acalme-se, Alice. Quem tomou as terras de seu irmo foi seu tio, assim que se inteirou da morte de seu pai. E, sem dvida, Fulbert se alegrou muito de que o 
fizesse. Voc no poderia ter feito nada.
   -No entende. Minha me confiou em que eu protegeria a herana de Benedict. Disse que, contra o que acreditava meu pai, algum dia Benedict demonstraria que  
um digno herdeiro. -Entrelaou os dedos diante de si-. Mas fracassei em dar a meu irmo uma oportunidade. Fracassei!
   
   Hugh se levantou, atravessou o tapete e se deteve detrs da mulher. Alice tremeu quando as mos fortes lhe tocaram nos ombros. Sentiu um desejo quase incontrolvel 
de jogar-se outra vez nos braos dele como tinha feito essa tarde. Teve que esforar-se para no faz-lo.
   -Alice, tem voc um esprito valente e audaz, mas at os mais valentes e audazes perdem algumas batalhas.
   -Fiz tudo o que pude, mas no bastou. Senti-me to sozinha...
   Com uma pequena exclamao, girou e afundou a cara no amplo peito de Hugh. Em silncio, caram as lgrimas molhando a tnica negra. Os ombros se sacudiam.
   Era a primeira vez que chorava da morte de sua me.
   Hugh calou. limitou-se a abra-la. dentro da tenda, a vela se consumia e as sombras se espessavam.
   Em certo momento, as lgrimas cessaram, e Alice ficou esgotada. Mas, para sua prpria surpresa, sentiu-se mais serena e em paz consigo mesma do que h muito tempo.
   -Perdoe-me, milorde -murmurou contra a tnica-. No estou acostumada a me permitir o pranto, mas temo que foi um dia longo e difcil.
   -Sim, assim . -Levantou-lhe o queixo com o canto da mo. Contemplou o rosto como se Alice fosse um livro misterioso que estava decidido a decifrar-. E muito 
instrutivo.
   Alice fixou a vista nos olhos escurecidos, e viu tanto a dor como a frrea deciso que essa dor lhe tinha ensinado. Nesses olhos ambarinos se via uma verso mais 
lgubre, feroz e imensamente mais perigosa que a dor e a deciso impressos na alma de Alice. Ventos de tormenta.
   Ansiou meter-se dentro dele e aquietar essas tempestades selvagens, mas no soube como faz-lo e ento, de sbito, Alice compreendeu que queria que Hugh a beijasse. 
Desejava-o mais que nenhuma outra coisa em toda sua vida. Nesse momento, suspeitou que seria capaz de vender a alma sem remorsos por esse beijo.
   Como se lhe lesse os pensamentos, Hugh inclinou a cabea e cobriu a boca da jovem com a sua.
   Alice esteve a ponto de desmaiar. Se Hugh no a tivesse segurado com tanta firmeza, teria cado no tapete.
   A inquietante energia masculina a penetrou como uma fora que era mais pavorosa pelo controle que o homem exercia sobre ela. Reanimou o nimo de Alice como uma 
chuva faz renascer a erva ressecada.
   
   A excitao que sentiu a primeira vez que o beijou, voltou para ela com clida precipitao. A sensao parecia mais forte, mais vibrante, como se o primeiro 
beijo a tivesse sintonizado para este. O desejo que sentiu irradiar do homem acendeu uma tocha nos sentidos da mulher.
   Gemeu brandamente, e algo cedeu em seu interior. No momento, ficaram para trs a dor e a derrota do passado. O perigo dessa tarde foi uma lembrana longnqua. 
e o futuro, era uma bruma desconhecida que no importava muito.
   Nada importava, salvo este homem que a abraava com uma fora que afligia Alice e, ao mesmo tempo, a fazia sentir-se incrivelmente poderosa.
   Rodeou o pescoo de Hugh com os braos e se estreitou contra ele.
   -Escolhi bem -murmurou Hugh.
   Alice quis lhe perguntar o que queria dizer, mas no pde falar. O mundo girava ao redor. Fechou os olhos com fora, enquanto Hugh a levantava do cho.
   Um momento depois, sentiu a maciez das mantas de pele debaixo de si. Abafou uma exclamao quando Hugh se colocou por cima, e seu peso a esmagou contra o leito. 
Sentiu que a perna do homem deslizava entre as suas, e compreendeu, aturdida, que lhe erguia as saias por cima dos joelhos.
   Sabia que devia estar horrorizada, mas por alguma razo, se regozijou.
   A curiosidade dominou sobre a sensatez e o decoro. A necessidade de saber aonde a levaria essa sensao dolorosa, crescente de plenitude, era muito intensa para 
ignor-la. Certamente, tinha direito a sondar essas exultantes sensaes.
   
   -Jamais sonhei que pudesse acontecer isto entre um homem e uma mulher -disse, contra o pescoo d Hugh. 
   -E ainda no experimentou nem a metade -assegurou-lhe.
   A boca do homem moveu-se sobre a da mulher, ensinando, exigindo. E Alice no pde fazer outra coisa que no responder. Sentiu as mos sobre as tiras do vestido, 
mas no lhes deu ateno. Estava concentrada em saborear o calor e o aroma do homem. Depois, Hugh lhe tocou o seio nu com uma mo grossa, por anos de segurar o punho 
da espada.
   Por um instante, Alice no pde respirar. Abriu a boca e lanou um grito de surpresa. Nenhum homem a havia tocado de um modo to ntimo. 
   Era emocionante.
   Era indecoroso.
   Era a coisa mais excitante que lhe tinha acontecido.
   
   -Calma. -apressou-se a colar sua boca com a dele, abafando a exclamao-. Estamos rodeados por meus homens e os outros acampamentos. Os doces gritos de uma amante 
voariam pelo ar da noite como se tivessem asas.
   Os doces gritos de uma amante?
   Alice abriu os olhos de repente.
   -Pela capa de so Bonifacio, milorde, se  verdade o que diz. Devemos nos deter.
   -No. -Hugh elevou um pouco a cabea para olh-la. Passou o dedo spero pelalateral da face, como se acariciasse uma seda estrangeira-. No  necessrio que nos 
detenhamos. S devemos ser cuidadosos.
   -Mas, milorde...
   -E silenciosos. Feche os olhos, Alice. Eu me ocuparei de tudo.
   Alice suspirou e fechou os olhos, entregando o controle daquele momento de um modo como nunca tinha sido capazem toda sua vida.
   De sbito, sentiu-se como o aprendiz de um alquimista que conhecia o segredo de como transformar o metal em ouro. Estava a beira de fabulosas descobertas.
   Estudaria reinos inteiros de filosofia natural que, at ento, estiveram fechados para ela. Aprenderia verdades que, at o momento, tinham estado to ocultas 
que no adivinhou sequer sua existncia.
   
   Hugh tomou com delicadeza um mamilo entre polegar e o indicador, e Alice estremeceu de prazer. Deslizou a palma para baixo, at encontrar a perna nua. Alice se 
encolheu e, por instinto, dobrou o joelho.
   Hugh percorreu com a mo o interior da coxa e Alice se arqueou para ele com tanta fora que acreditou que o deixaria marcado. E Hugh no afastou a boca da de 
Alice, tragando cada exclamao abafada como se fosse um extico e doce licor.
   Quando tocou o centro quente e mido entre as pernas, Alice acreditou que enlouqueceria. Quase no podia respirar. Ardia-lhe todo o corpo como se tivesse febre. 
Dentro de si, sentia uma estranha tenso que clamava por soltar-se.
   -Silncio -disse Hugh com um sussurro aveludado que a excitou e a atormentou tanto como as carcias-. Nenhuma palavra, nem um rudo, meu amor.
   Saber que no podia expressar essas assombrosas sensaes no fez mais que intensific-las. Alice estremeceu uma e outra vez enquanto Hugh a tocava.
   
   
   Abriu-a cuidadosamente com os dedos, e a mulher conteve o flego. 
   Lhe escapou um gemido imperioso.
   -Tome cuidado -murmurou o homem sobre sua boca-. Recorda que, esta noite, o silncio  fundamental.
   Colocou um dedo dentro de Alice e logo o retirou.
   Alice quis gritar. Segurou-lhe a cabea e se colou contra a boca de Hugh com muita fora. Pareceu-lhe ouvir que ria em surdina, mas no lhe prestou ateno.
   Hugh moveu uma vez mais a mo contra a suavidade de Alice, acariciando-a, e esta sentiu que a noite explodisse ao seu redor. Nada importava, nem saber que os 
homens de Hugh poderiam ouv-la, ou que houvesse acampamentos rodeando-os por toda parte.
   Estava perdida por completo na sensao que a dominava. Nesse instante, a nica pessoa do mundo que lhe importava era Hugh.
   Acreditou que gritava, mas no ouviu nada. Entendeu de maneira difusa que o homem devia ter absorvido o grito, como tinha feito com os outros.
   -Pelo sangue dos anjos...
   O brao de Hugh lhe segurou enquanto se convulsionava.
   Alice quase no o ouviu. Lanou um profundo suspiro e flutuou com suavidade para a terra. Uma deliciosa sensao de prazer enchia todo o seu interior.
   Abriu os olhos com ar sonhador, e olhou para Hugh. Tinha o rosto marcado por linhas duras, e os olhos brilhavam.
   -Milorde, foi... -Faltaram-lhe as palavras-. Isto foi...
   -O que? -Seguiu o contorno da boca da moa com o dedo spero-. Como foi?
   -Muito educativo -ofegou Alice.
   Hugh piscou.
   -Educativo?
   -Sim, senhor. -mexeu-se, preguiosa-. Uma experincia muito diferente de todo aquilo com o que me deparei em minhas investigaes de filosofia natural.
   -Alegra-me que o ache educativo -murmurou-. Teve alguma outra experincia educativa similar?
   -No, milorde, esta foi a nica.
   -Educativa e nica -repetiu, cauteloso-. Bem. Tendo em conta suas caractersticas to especiais, suponho que deverei me conformar com isto.
   A moa compreendeu que o homem no parecia de todo satisfeito. Entrelaou os dedos nos cabelos negros:
   
   -Milorde, acaso o ofendi?
   -No. -Sorriu, apenas, e trocou de posio-.  que tambm me pareceu educativo e nico fazer amor. Estou seguro de que nos dois temos muito o que aprender.
   -Fazer amor? -Alice se paralisou, e esticou os dedos entre os cabelos de Hugh-. Por todos os Santos. Isso foi o que fizemos, no ?
   -Sim. -Fez uma careta e retirou com suavidade os dedos de Alice do seu cabelo-. E no precisa me arrancar os cabelo por isso.
   -OH, me perdoe, milord. -Lutou  para se tranquilizar-. No quis machuc-lo.
   -Menos mal.
   -Mas temos que parar isto imediatamente. Empurrou-o pelos ombros largos.
   Hugh no se moveu.
   -Porqu?
   -Por que? -Abriu os olhos, atnita-. Voc me pergunta isso?
   -Nas atuais circunstncias, parece-me uma pergunta razovel.
   -Senhor, talvez eu no tenha muita experincia pessoal com esta classe de coisas, mas sou uma mulher instruda. Sei muito bem o que aconteceria se continussemos 
como at agora.
   -O que aconteceria?
   -Ficaria furioso consigo mesmo e comigo se o deixasse terminar o que comeamos.
   -Srio?
   - obvio. -Tratou de sair debaixo do pesado corpo, retorcendo-se-. E sabendo a classe de homem que , se me seduzisse em semelhantes circunstncias, a honra o 
obrigaria a seguir adiante com o casamento.
   -Alice...
   -No posso permitit, senhor. De verdade, no o permitirei.
   -No?
   -Senhor, fizemos um acordo. Devo-lhe impedir que o rompa.
   Hugh se apoiou nos cotovelos.
   -Asseguro-a que controlo por completo minha paixo. 
   
   -Talvez ache que isso  certo, senhor, mas  evidente que no est completamente controlado. Olhe-se. Se estivesse exercendo seu habitual domnio de si, se teria 
detido faz vrios minutos.
   -Por que? -perguntou, em tom neutro. 
   -Porque no quereria cair em uma armadilha -espetou-lhe, irritada.
   

   -Alice --disse com mal dissimulada impacincia-, o que lhe pareceria se eu lhe dissesse que desejo seguir adiante com o matrimnio?
   -Isso  impossvel.
   -D-me uma boa razo para que seja impossvel -resmungou.
   Alice lhe dirigiu um olhar irado. -Me ocorrem centenas, e a mais bvia  que seria uma esposa terrvel.
   Hugh ficou imvel. Depois, sentou-se ao Iado d Alice, com grande lentido. 
   -Em nome do diabo, por que diz algo assim? 
   -No tenho nada do que voc necessita em uma esposa, milorde. -arrumou a roupa- Ambos sabemos.
   -Ah, sim? Eu no estou de acordo. No acredito que ambos pensemos isso. -Colocou-se sobre a mulher-. Para falar a verdade, acredito que um de ns est confuso.
   -Sei, milorde, mas no se aflija muito por isso. Logo recuperar a sensatez.
   -Eu no sou o confuso, Alice.
   Olhou-o com cautela.
   -No?
   -No. -Hugh a observou com frieza-. por que pensa que no seria uma boa esposa para mim?
   A inslita pergunta a abateu.
   - evidente, milorde.
   -Para mim, no.
   Sentiu que o desespero se apropriava dela.
   -No posso lhe dar nada. Como dono de um imvel, tem a possibilidade de casar-se com uma herdeira.
   Hugh deu de ombros.
   -No precido de  uma herdeira.
   -Senhor, acaso est me fazendo certo tipo de brincadeira sem graa?
   -No brinco. Acredito que ser uma boa esposa para mim, e estou desejoso de converter nosso acordo em um compromisso verdadeiro. Qual  o problema?
   Compreendeu de repente, e fechou os olhos:
   -Senhor, adota essa deciso s porque sou conveniente?
   -Essa  s uma de vrias razes -assegurou-lhe.
   Alice teve um forte impulso de lhe dar um tapa, mas se conteve com esforo pois, tendo em conta as posies respectivas, no seria muito prtico.
   
   -Poderia me dizer, por favor, quais so as outras razes? -perguntou entre dentes.
   O tom da Alice no chamou a ateno de Hugh, e tomou a pergunta em sentido literal.
   -Por isso observei os ltimos trs dias,  evidente que tem uma profunda compreenso do que  a lealdade, o dever e a honra.
   -O que  que lhe deu essa idia?
   -O modo como lutou pelo futuro de seu irmo. 
   -Ah. Algo mais?
   - inteligente, e de natureza prtica. Admiro essas qualidades em uma mulher. Ou em qualquer pessoa. 
   -Por favor, senhor, continue.
   -Tenho a impresso de que  muito versada nas artes domsticas. -Era claro que estava animando-se com o tema-. Valorizo muito a habilidade profissional de qualquer 
classe. Estou convencido de que o melhor  empregar s aos mais talentosos artesos e serviais, por exemplo.
   -Siga, senhor. -Custava-lhe falar-. Isto  fascinante.
   -Sem dvida,  s e forte e isso, certamente,  Importante.
   -Sim. -"Estrangularei-o", decidiu-. Que mais? 
   Hugh encolheu os ombros.
   -Acredito que isso  tudo. Se descontarmos que est livre para se casar, como eu. E j estamos prometidos. Isso faz que tudo seja mais simples e direto. . 
   -Eficincia e convenincia.
   -Sim.
   Hugh se mostrou satisfeito com a rpida compreenso da mulher.
   -Milorde, quero que saiba que no me parece grande coisa me casar s porque sei dirigir uma casa, e porque estou disponvel.
   Hugh ficou carrancudo. -Por que no?
   "Porque se me caso, quero que seja por amor", disse o corao de Alice, mas ela reprimiu uma resposta to carente de lgica, pois Hugh jamais a compreenderia.
   -Parece-me muito frio.
   -Frio? -Pareceu perplexo-. No.  um enfoque muito sensato.
   -Sensato?
   -Sim. Parece-me que voc e eu estamos na situao pouco comum de poder decidir por ns mesmos nesta questo. Ser uma deciso apoiada no conhecimento prtico 
do temperamento e as habilidades do outro. Pensa-o como uma continuao de nosso acordo, Alice.
   Alice sentiu que era hora de falar.
   -Mas tinha pensado ingressar em um convento. Pensava me dedicar  investigao da filosofia natural.
   -Sendo minha esposa, poder estudar filosofia natural -disse Hugh em tom baixo e sedutor-. Ter o tempo e os recursos com que financiar suas investigaes Se 
casando comigo.
   -Voc acha?
   -Pense, Alice -disse-lhe, como se lhe oferecesse um cofre cheio de jias-. Ter possibilidades sem limites para comprar livros, astrolbios e aparelhos de alquimia. 
Poder colecionar todas as pedras estranhas que lhe chamem a ateno. Obter qualquer quantidade de insetos dissecados. Empilh-los at o teto em seu estudio, se 
quiser.
   -Milorde, no sei o que dizer. Tudo me d voltas na cabea. Acredito que ainda no me recuperei de seus beijos. Acredito que ser melhor que parta.
   Tenso, Hugh vacilou um instante. Alice conteve o flego, percebendo a luta que se travava dentro dele. " um homem apaixonado", pensou. Mas controlava por inteiro 
a paixo.

   -Como quizer. -levantou-se da pele com a graa de um predador-. Pensa no que falei, Alice. Voc e eu combinamos muito bem. Posso te oferecer at mesmo o convento, 
e muito mais.
   -Milorde, rogo-lhe que me d tempo suficiente para pensar nesta proposta. -Brincou com o vestido enquanto se arrumava. Sentia-se desalinhada, despenteada e bastante 
exasperada-. Isto me pegou de surpresa.
   Hugh entreabriu os olhos e adotou um ar beligerante. Mas roou apenas a boca da moa com a sua. No instante desse contato fugaz, Alice percebeu o potente esforo 
que fazia para controlar-se, e tremeu.
   -Muito bem. -Hugh elevou a cabea-. No  necessrio que me d sua resposta esta mesma noite. Pode pensar.
   -Obrigado, senhor.
   Perguntou-se se advertiria o sarcasmo e a irritao de seu tom.
   -Mas no demore muito -aconselhou-lhe Hugh-. No tenho muito tempo a perder em uma questo to simples. H muito que fazer em Scarcliffe. Necessito de uma esposa 
que tambm seja uma scia em que possa confiar.
   
   Partiu antes de que Alice pudesse lhe jogar na cabea o que ficava no frasco de vinho. Consolou-se ao pensar em que, sem dvida, haveria outras oportunidades.
   
   
   
   
   
   Captulo 9
   
   At que, trs dias depois, Hugh entrou cavalgando na aldeia de Scarcliffe com Alice ao lado, no tinha idia de quo melanclica era. Era o lugar onde nasceu. 
E onde agora queria lavrar um futuro para ele e seus descendentes. No lhe pareceu to triste quando saiu em busca do cristal verde, pouco tempo atrs.
   
   A imagem de Scarcliffe que tinha ardido em sua mente durante semanas, era a que teria no futuro. Tinha planos para o imvel. Grandes planos. Ao trmino de um 
ano ou dois, Scarcliffe comearia a brilhar como uma jia fina. Os campos estalariam pela abundncia das colheitas. A l das ovelhas seria grosa e suave. As cabanas, 
todas e em boas condies. Os aldeos, contentes, prsperos e bem alimentados.
   Mas no presente momento se viu obrigado a v-lo atravs dos olhos de Alice. Teve que admitir que a aldeia, mas bem parecia um pedao de carvo que uma gema resplandecente. 
A Hugh, que pelo geral no dava muita ateno a inconvenientes menores, como o clima, irritava-o ver que a pouco tinha chovido. O cu plmbeo, ameaador, no contribua 
aos discutveis encantos de Scarcliffe.
   O castelo mesmo, que se localizava alm da aldeia, estava escondido entre retalhos de nvoa cinza.
   Hugh lanou a Alice um olhar inquieto para ver como reagia ante as novas terras, mas ela no o demonstrou. 
   Via-a esbelta e graciosa sobre a arreios. O cabelo vermelho ardia; era como uma chama alegre que afastava a nvoa cinza. Atenta ao que a rodeava, as feies inteligentes, 
srias e estudiosas, observavam a aldeia.
   
   Como sempre, manifestava curiosidade, embora Hugh no soubesse o que estaria pensando a respeito do que via. Perguntou-se se sentiria preocupada, desgostosa ou 
desdenhosa.
   Tendo em conta o aspecto lgubre de Scarcliffe, o mais provvel era que sentisse as trs coisas.
   Afinal, era uma dama muito melindrosa para comer no salo principal, com os homens. Ordenava que lhe preparassem a comida especialmente e a roupa que usava parecia 
sempre limpa e perfumada.
   No cabia dvida de que a pequena aldeia e os campos ermos deviam lhe parecer desagradveis.
   Hugh teve que admitir que o descuidado punhado de cabanas desmanteladas, quase todas necessitadas de um bom reparo, no apresentava uma viso alentadora com seu 
acompanhamento de currais de cabras e chiqueiros. A atmosfera da tarde era pesada, e estava carregada com o inconfundvel aroma ranoso da sarjeta da aldeia onde 
se apodreciam o lixo de anos. 
   O muro em runas que rodeava ao pequeno convento e a igreja dava mostras de abandono prolongado. E a chuva recente no fez nada para limpar Scarcliffe a no ser, 
mas bem, aumentou o barro na nica rua.
   
   Hugh apertou os dentes. Se  Alice no tivera uma boa impresso do que via da aldeia e os campos circundantes, ao ver o castelo de Scarcliffe ficaria abatida.
   Pensou que seria melhor preocupar-se com isso depois. Enquanto isso, tinha que fazer um anncio, e pretendia que fosse espalhado atravs de suas prprias terras 
e chegasse aos sales dos vizinhos. Todos saberiam que Hugh o Implacvel tinha retornado com a prova de que era o autntico senhor de Scarcliffe.
   Tinha apressado a companhia, para chegar a Scarcliffe em dia de mercado. Tal como o previu, quase todos os que habitavam o feudo e as granjas vizinhas estavam 
reunidos na estreita rua para presenciar a volta triunfal do novo senhor.
   "Este devia ser um momento de enorme satisfao", pensou Hugh. Tinha-o tudo. Recuperou a pedra verde, e tinha como prometida uma dama. Estava preparado para se 
instalar como senhor de Scarcliffe.
   
   Mas as coisas no saam to bem como as tinha planejado, e isso o inquietava. O conhecia como um indivduo habilidoso para urdir estratgias. Alguns afirmavam 
que tinha o talento de um mago para essas coisas. Mas algo saiu muito errado a noite passada, quando tentou convencer a Alice de que se comprometessem de verdade.
   Ainda lhe ardia o golpe que lhe tinha dado sem sab-lo. Atuou como se preferisse o convento a compartilhar com ele o leito conjugal.
   No aceitou bem essa noo, sobre tudo sabendo que ele mesmo se sentia capaz de descer aos infernos se isso lhe desse a oportunidade de terminar o que comeou 
entre essas coxas suaves.
   Cada vez que recordava como Alice estremecera entre seus braos, o corpo se punha tenso e duro. Como passou boa parte da viagem ruminando essas lembranas, sentiu-se 
quase todo o tempo incmodo.
   Deixar a Alice sozinha na tenda as trs ltimas noites foi um esforo mais herico que doze ataques em um campo de combate. O que mais o irritava era compreender 
que, em sua inocncia, Alice no valorizava o grau de domnio que Hugh se viu obrigado a aplicar.
   Para falar a verdade, a fora explosiva de seu prprio desejo o inquietava profundamente, mas no fazia nada por atenu-lo.
   Uma das Coisas mais difceis que teve que fazer foi reconhecer sua prpria voracidade pelo corpo doce, morno de Alice.
   Passou trs noites contemplando as estrelas enquanto inventava desculpas para o feroz desejo de faz-la sua. Existiam razes para que o sangue o inflamasse e 
o desejo o atormentasse, e as enumerou, como se somasse com instrumentos.
   Fazia muito tempo que no estava com uma mulher.
   Sempre o atraa o inslito, e Alice era uma mulher nica.
   A promessa de paixo que ofereciam esses olhos verdes era suficiente para atrair a qualquer homem com capacidade de perceb-la.
   E toc-la foi algo muito parecido a tocar o centro de uma tormenta.
   Sim, existiam razes para explicar por que terminou uma longa jornada a cavalo em um estado prximo  ereo.
   Mas a diferena dos intrumentos, que sempre lhe dava uma resposta satisfatria, nenhuma das razes expostas fez muito por aliviar o nimo turvo de Hugh. Mas bem, 
deixaram-no mais pesaroso.
   Embora considerasse a situao de maneiras muito diferentes, sempre se via obrigado a chegar  mesma concluso. Queria a Alice com um desejo que beirava o perigoso. 
E adiante, teria que ter mais cuidado.
   
   Tambm teria que achar a maneira de convenc-la a de que o compromisso fosse real.
   
   -Uma dama. Traz para uma dama elegante consigo.
    -Possivelmente seja uma esposa.
   -No acreditava que voltssemos a v-lo. Pensei que o tinham matado, como passou com todos os outros.
   
   O murmrio excitado da multido interrompeu o sonho de Hugh. Muitas pessoas olhavam entre si, e lanavam exclamaes sobressaltadas, como se estivessem presenciando 
uma grande maravilha mais que a simples volta de seu senhor.
   A madre e um grupo de freiras saram  entrada do convento, e seus olhares posaram diretamente em Alice. Uma das mulheres se inclinou para diante e murmurou algo 
no ouvido  freira alta que estava junto  madre Joan. A mulher alta assentiu. Era a nica que no parecia alegre com a volta da companhia.
   Hugh lhe lanou um olhar fugaz e reconheceu  curandeira, uma mulher chamada Katherine. Era uma pessoa de semblante sombrio e melanclico que, por sua aparncia, 
devia ter pouco menos de cinqenta anos. Tinha-a conhecido a noite que a madre Joan a ordenou procur-lo para lhe informar da perda da pedra verde.
   Hugh rogava no ter que empregar nunca seus servios profissionais. No era muito alentadora a perspectiva de ser atendido por uma curandeira que, por sua expresso, 
parecia no confiar muito no resultado.
   Ergueu uma mo para fazer deter os homens. 
   Quando se aquietaram o repico de cascos e os chiados das rodas das carroas, fez avanar lentamente o cavalo para a madre, Joan o aguardava com um sorriso que 
expressava ao mesmo tempo alivio e boas-vindas.
   Hugh estava a uns passos da entrada do convento quando uma silhueta ossuda e corpulenta, embainhada em uma roupa castanha de monge se separou da multido.
   Embora o capuz lhe ocultasse o rosto, Hugh abafou uma maldio ao reconhecer ao Calvert do Oxwick.
   
   
   
   
   Esperava que o monge vagabundo estivesse em outra aldeia quando retornasse com sua companhia.
   -Milorde, dou as boas-vindas a Scarcliffe -pronunciou Calvert com uma voz to spera que arrepiava os nervos-. Dou graas a Deus por lhe haver permitido retornar 
vivo.
   -No pensava em voltar de nenhuma outra maneira, monge. -Hugh freou ao cavalo e esperou at contar com a ateno de todos-. Sir Dunstan, exiba a pedra para que 
todos possam ver que voltou para o Scarcliffe.
   -A pedra -murmurou algum-. encontrou a pedra.
   Um silncio de expectativa se apropriou da multido.
   -Sim, milorde.
   Dunstan adiantou-se. Sobre o alto dos arreios balanava um pequeno cofre de madeira. Entre os curiosos se estendeu uma exclamao de impacincia. Todas os olhares 
estavam cravadas no cofre. Com a pompa correspondente, Dunstan o abriu, levantou a tampa e mostrou o contedo.
   O feio cristal verde mostrou seu brilho apagado sob a luz cinzenta.
   Uma grande exclamao quebrou o intenso silncio, e chapus voaram pelo ar.
   -Eu sabia que era nosso verdadeiro senhor.
   O ferreiro balanou a bigorna contra a forja, e o estrpito se mesclou com o tangido dos sinos da igreja.
   -Sim,  o cristal-lhe disse sorridente John, o moleiro, a sua esposa-. Lorde Hugh a traz de novo, como diz a lenda.
   O filho menor, um menino de quatro anos chamado Jovem John, deu saltos, aplaudiu e disse:
   -Encontrou-a. Lorde Hugh a encontrou.
   -Lorde Hugh recuperou a pedra -comentou-lhe, alegre, outro menino a um amigo-. Agora, tudo sair bem, como disse meu pai.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   No meio da euforia, a irm Joan saiu da sombra da porta. Era uma mulher de mdia idade, de feies fortes e bem definidas, e olhos azuis de expresso clida e 
alegre.
   -Milorde, alegra-me muito saber que obteve seu propsito de recuperar a pedra.
   -Ouam-me, meu bom povo de Scarcliffe -exclamou Hugh em voz alta o bastante para que o ouvissem na cabana do cervejeiro, no outro extremo da rua-. A lenda se 
cumpriu. Recuperei o cristal verde, e prometo cuid-lo. Do mesmo modo, cuidarei para que o castelo de Scarcliffe e seu povo estejam seguros.
   Elevaram-se gritos de jbilo.
   -A pedra no  a nica coisa que trago -continuou-, mas tambm a lady Alice, minha prometida. Peo-lhes que lhe dem as boas-vindas. Agora, meu futuro e o de 
vocs esto ligados ao dela.
   Alice se crispou, lanou a Hugh um olhar suspicaz, mas no disse nada. Qualquer palavra que houvesse dito se perderia entre os rugidos de aprovao da multido.
    sombra do capuz, brilharam os olhos ardentes de Calvert, mas Hugh no fez conta. Estava mais preocupado com a reao de Alice ante este recebimento clamoroso.
   A jovem no demorou para recuperar-se e dedicou  multido um sorriso de genuna graa.
   -Agradeo sua amabilidade -disse, com grande formalidade.
   Calvert jogou o capuz para trs deixando descoberto sua tez cadavrica e os febris olhos escuros. Ergueu a bengala reclamando ateno.
   -Oua-me, filha de Eva. -Cravou em Alice um olhar cheio de fogo-. Orarei para que seja uma esposa completa e correta para lorde Hugh. Como no h sacerdote na 
aldeia, eu mesmo assumirei a tarefa de instrui-la e guia-la em seus deveres de noiva.
   -No ser necessrio -respondeu Alice com frieza.
   Calvert no fez conta, e a apontou com um dedo esqueltico.
   -Sob minha direo, se converter na mais apreciada das esposas, que nunca seria briguenta nem difcil. Uma esposa recatada no vestir e humilde no falar. Que 
ocupe seu lugar aos ps do marido. Que se sinta honrada humilhando-se ante seu amo e senhor.
   
   Hugh ia fazer calar ao irritante monge, mas lhe ocorreu uma estratgia muito mais interessante: deixaria que Alice enfrentasse ao Calvert.
   
   Uma mulher do carter de Alice precisava poder exercitar seus variados talentos e habilidades pois, do contrrio, sentiria-se insatisfeita e desventurada. Hugh 
tinha a forte suspeita de que um dos motivos pelos quais Alice causou tantas dificuldades ao tio no Lingwood foi que Ralf nunca compreendeu a verdadeira amplitude 
da inteligncia e as capacidades da sobrinha, nem lhe deu oportunidade de exerce-las. Em lugar de respeit-la, tentou trat-la como se fosse uma criada, Hugh no 
pensava cometer o mesmo engano. Tinha o costume de empregar os indivduos mais aptos e depois lhes dava a autoridade para cumprir com suas tarefas. A estratgia 
sempre tinha funcionado bem para ele at o momento, e no via motivo para no aplic-lo a uma esposa.
   Preparou-se com entusiasmo para a resposta de Alice. -Agradeo-lhe a generosidade de sua oferta, monge -disse Alice, em tom gelado, mas corts-, embora tema que 
j sou muito velha e tenho costumes fixos para aprender essas coisas. Lorde Hugh dever me aceitar como sou.
   -As mulheres de cabelo vermelho e olhos verdes sempre tm lnguas afiadas -espetou-lhe Calvert-.  preciso lhes ensinar a control-las.
   -S um covarde teme  lngua de uma mulher -replicou a moa, com excessiva suavidade-. Monge, asseguro-lhe que lorde Hugh no  covarde. Atreve-se a dizer o contrrio?
   A suave provocao foi recebida com uma exclamao abafada mas audvel, e os curiosos se aproximaram mais.
   
   Calvert empalideceu. Lanou a Hugh um olhar assustado, e voltou para o discurso.
   -No distora minhas palavras, milady. Est comprovado que as mulheres de cabelo vermelho tm temperamentos de bruxas.
   -Ouvi dizer que, embora fosse difcil excitar a fria de Hugh, uma vez que se irrita  como a mais terrvel das tormentas -murmurou Alice-. Sem dvida, um homem 
com semelhante carter no precisa evitar o mau humor de uma dama.
   Calvert cuspiu, furioso. Parecia ter grande dificuldade em achar as palavras.
   Hugh decidiu que a briga j tinha durado muito: o monge no tinha possibilidades de ganhar de Alice.
   -Tem o direito, senhora -disse com simplicidade-. Mais at, quero que saiba que h outras partes de minha pessoa que podem excitar-se e exasperar-se com muito 
menos esforo que minha fria. Confio que descobrir que so muito mais interessantes.
   Entre a multido se estenderam as gargalhadas.
   Confusa, Alice franziu o cenho. Sem dvida, no compreendeu imediatamente o que dizia.
   Logo, seu rosto se pintou com um formoso rubor.
   -Vamos, milorde -murmurou, Contendo-se. 
   Calvert, enquanto isso, adquiriu um interessante tom prpura. Por um momento, Hugh acreditou que fossem saltar seus olhos das rbitas.
   O monge olhou furioso para Alice, e logo girou para Hugh.
   -Tome cuidado com uma mulher que no se submete ao guia dos homens, milorde. Uma mulher assim no trar mais que problemas a sua casa.
   Hugh riu.
   -No se aflija, monge. No temo  lngua de minha prometida. Mas bem, sua maneira de falar me parece... interessante.
   Entre os aldeos se escutaram mais risadas.
   Mas Calvert no se divertia. Brandiu o cajado diante de Hugh.
   -Milorde, me preste ateno. Falo como conselheiro religioso. Se pensa casar-se com esta mulher, primeiro ter que aprender a control-la. A sua vida se converter 
em um inferno se no ensinar a esta senhora a comportar-se como  devido; o asseguro.
   Alice revirou os olhos.
   Hugh a olhou e elevou a voz para que todos pudessem ouvi-lo.
   -Estejam seguros de que estou disposto a aceitar a minha prometida tal como . Mais ainda, estou impaciente por faz-lo na primeira oportunidade.
   Houve mais risadas, desta vez, principalmente masculinas. Hugh acreditou ver a madre superiora conter um sorriso. Quase todas as freiras reunidas detrs dela 
sorriam sem disfarces. Katherine era a exceo, e ele duvidava de que algo fosse capaz de mudar a expresso solene da mulher.
   Foi Joan que atraiu a ateno geral. Ergueu uma mo e os aldeos calaram-se.
   -Bem-vinda, milady -disse a Alice em voz clara e serena-. Sou a madre do convento. O bem-estar da casa religiosa est ligado a do feudo. Alegra-me saber que o 
novo senhor de Scarcliffe adotou medidas para garantir o futuro destas terras.

   
   Alice desceu do cavalo sem advertncia. Antes que Hugh compreendesse sua inteno, caminhava para Joan. O homem desmontou lentamente, perguntando-se o que faria. 
"Alice nunca ser previsvel", pensou.
   Alice passou diante de Calvert como se este fosse invisvel. Depois, para surpresa de Hugh e de todos outros, ajoelhou-se com graa no barro diante de Joan.
   -Obrigado por suas amveis boas-vindas, milady -disse-. Peo-lhe a bno para sir Hugh e para mim, e para todos os habitantes destas terras.
   Hugh ouviu um murmrio de aprovao dos que o rodeavam.
   Joan fez o sinal da cruz.
   -Dou-lhe minha bno e minha promessa de ajud-la em suas novas responsabilidades, aqui no feudo, lady Alice.
   -Obrigado, senhora.
   Levantou-se, sem fazer o menor caso do barro que manchava a capa de viagem.
   Quando se adiantou para tomar o brao de Alice, Hugh viu que o rosto de Calvert se convertia em uma mscara de fria. Era indubitvel que a nova senhora do feudo 
o tinha desprezado diante de todos.
   O triunfo de Alice foi completo. Ps em evidncia que, no que a ela se referia, a pessoa com verdadeira autoridade religiosa em Scarcliffe era  Joan.
   A nenhum dos pressente lhe escapou esse fato. 
   Joan olhou a Hugh com certa preocupao refletida em seus olhos de suave expresso.
   -Milorde, voltar a deixar a pedra verde no tesouro do convento?
   -No. Eu sou quem tem o dever de proteg-la.
   Levarei-a ao castelo de Scarcliffe, onde me sentirei tranqilo de que estar a salvo.
   -Uma idia excelente, milorde. -Joan no tentou dissimular o alvio-. Regozija-me comprovar que o cristal verde est aos cuidados de seu prprio guardio.
   Hugh agarrou com firmeza o brao de Alice.
   -Tivemos uma longa viajem. Devo levar a minha senhora a seu novo lar.
   -Sim, meu senhor.
   Joan se refugiou outra vez na entrada.
   Hugh ajudou a Alice a montar outra vez e depois o fez ele mesmo. Levantou uma mo, indicando  companhia que continuassem em direo ao castelo.
   
   
   
   -Foi muito bem -disse, para que s o ouvisse Alice-. A madre  a nica habitante destas terras em que os habitantes depositam certa confiana. Ela e as demais 
freiras se ocuparam das necessidades bsicas do povo, enquanto os senhores anteriores a mim vinham e partiam.
   -Acredito que gostarei dela -disse a moa-. Mas no diria o mesmo do monge.  possvel que seja um homem de Deus, mas o acho extremamente desagradvel.
   -No  a nica. Acredito que tampouco gosta muito  madre Joan, embora por sua posio, tem que toler-lo. Calvert tem certa obsesso por lecionar s mulheres 
a respeito de seus deveres e debilidades, no te parece?
   -Ora, j conheci a outros similares! No  a salvao das almas femininas o que lhe interessa. O que acontece  que teme s mulheres, e procura debilitadas esmagando 
seus espritos com recriminaes e discursos amargos.
   Hugh sorriu.
   -Sem dvida.
   Alice franziu o cenho, pensativa.
   -Penso que contentou ao povo com o modo em que cumpriu as predies da lenda, senhor.
   -Sim, foi uma chatice, mas se acabou -alegrou-se--. Agora, posso continuar com assuntos mais importantes.
   -Uma chatice, senhor? -Elevou as sobrancelhas-. Preocupa-me sab-lo. Recordo-lhe que se no tivesse estado obrigado a procurar a pedra verde, no me teria conhecido. 
E eu tinha a impresso de que estava bastante satisfeito de ter achado uma prometida eficaz e conveniente.
   Hugh fez uma careta.
   -No quis diz-lo desse modo. Referia a esse maldito cristal, no a voc.
   -Isso significa que, ao final das contas, sou eficaz e conveniente? -Os olhos lhe brilharam de malcia-. Alivia-me muito sab-lo. Eu no gostaria de pensar que 
fracassei em cumprir minha parte do acordo. .
   -Alice, acredito que est tratando de me apanhar, do mesmo modo que um pequeno sabujo provocaria a um urso. Advirto-a que  um jogo perigoso.
   Alice  pigarreou.
   -Sim, bem,h outro detalhe da lenda que eu gostaria de lhe perguntar.
   -Do que se trata?
   -Voc disse que, alm de proteger a pedra verde, o verdadeiro senhor de Scarcliffe dever descobrir o resto do tesouro.
   
   -Sim, e ento?
   -No h dvida de que o povo est satisfeito de que voc seja capaz de cuidar da pedra verde. Mas, como far para localizar as Pedras de Scarcliffe que faltam? 
Tem alguma idia de onde possam estar?
   -Duvido de que existam, sequer.
   Alice o olhou compenetrada.
   -E como as encontrar?
   -Essa parte da lenda no me interessa -disse indiferente-. O mais importante era a recuperao da pedra verde. Agora que a trouxe de novo a Scarcliffe, os aldeos 
suporo que, em seu momento, cumprirei o resto da profecia. No h muita pressa.
   -Em algum momento, algum advertir que no teve xito em encontrar as pedras, senhor.
   -Quando o senhorio for prspero e rico,  ningum se importar com essas malditas pedras. Se chegar o instante em que me exigem que mostre um cofre com gemas valiosas, 
farei-o.
   -Mas, como?
   Hugh ergueu as sobrancelhas ante tanta ingenuidade.
   -Bastar-me compr-las,  obvio. Se fizer falta, posso me permitir isso. No custar mais que uns barris de especiarias.
   -Sim, pode ser, mas no sero as verdadeiras pedras de Scarcliffe.
   -Pense, Alice -replicou, paciente-. Nenhuma pessoa que esteja viva atualmente viu jamais as assim chamadas Pedras do Scarcliffe, com exceo do cristal verde. 
Quem reconhecer a diferena entre um punhado de gemas compradas a um comerciante londrino e as da lenda?
   Alice o olhou com uma expresso estranha, mescla de horror e admirao. Para sua surpresa, Hugh descobriu que isso o agradava, por um instante, desfrutou-o.
   -Milorde, s um homem que , em si mesmo, uma lenda, pode ser to arrogante com respeito ao cumprimento dos termos de um mito.
   Hugh riu.
   -Considera-me arrogante? S uma mulher que no teme ao poder de uma lenda se atreveria a fechar um trato com um homem que ache como tal.
   
   -J lhe disse que eu no acredito muito em lendas, senhor. Mas, de todos os modos, estou impressionada por um homem com inteligncia para inventar o que for preciso 
para completar os pedaos que faltam de sua prpria lenda.
   
   -Obrigado. Sempre  agradvel que o admirem a um por sua inteligncia.
   -No h nada que eu admire mais, senhor. -interrompeu-se para olhar adiante, entre a nvoa, e lhe aumentaram os olhos-. Pelos pregos de Cristo, esse  o castelo 
de Scarcliffe?
   Hugh se preparou. Olhou o enorme edifcio de pedra que emergia da penumbra.
   -Sim.  Scarcliffe. -Fez uma pausa para dar mais peso a suas palavras-. Seu novo lar, senhora.
   -Por um tempo -respondeu distrada.
   -Logo se acostuma -assegurou-lhe.
   -?
   Contemplou o castelo com olhar curioso. Hugh tentou ver de maneira objetiva. Tinha nascido ali, mas no guardava lembranas do lugar. Depois que sua filha bem 
amada bebeu veneno, o av do Hugh levou o neto pequeno a viver com uma tia viva no norte. O velho tinha perdido o nimo para dirigir Scarcliffe. Quo nico o obcecava 
era a vingana. Quando morreu, Scarcliffe tinha ido parar em outras mos. Vrias mos.
   Scarcliffe seguiu declinando sob uma sucesso de senhores ambiciosos e negligentes. O castelo mesmo era uma fortaleza de pedra escura que se projetava para fora 
desde quo escarpados o rodeavam e que se abatiam em cima dele. Dizia-se que o dono original teve a inteno de que a estrutura perdurasse at o fim dos tempos, 
e tinha toda a aparncia de ser assim.
   O castelo amuralhado tinha sido construdo com pedras negras pouco comuns. Nenhuma das pessoas s que Hugh interrogou sabia de que pedreira se extraram as pedras. 
Alguns diziam que os enormes blocos de cor nix foram escavadas no labirinto de cavernas perfuradas nos escarpados. Outros, que haviam as trazido de terras longnquas.
   -Quem construiu o castelo? -perguntou Alice em voz fraca, maravilhada.
   -Disseram-me que era um indivduo chamado Le Ronde. 
   -Um antepassado seu?
   -Sim. O av de minha me. Ele foi, conforme contam, quem perdeu as Pedras de Scarcliffe. A lenda afirma que as escondeu nas cavernas, e que depois no pde encontr-las.
   -O que lhe aconteceu?
   -Segundo a histria, entrou muitas vezes nas cavernas em busca do tesouro. -ergueu os ombros-. A ltima vez, no saiu mais.
   - um castelo incomum -disse Alice, corts.
   
   Hugh o contemplou orgulhoso.
   -Uma fortaleza bela e slida, capaz de suportar uma invaso.
   -Me faz lembrar aos castelos mgicos que se mencionam nos poemas dos trovadores. O tipo de lugar que sempre aludiam os cavalheiros da grande Tvola Redonda em 
meio de bosques encantados. Certamente, tem o aspecto de um castelo que esteve sob o feitio de um feiticeiro.
   "Odeia-o", pensou Hugh. E essa idia o afligiu. 
   
   
   Captulo 10
   
   Na manh seguinte, Alice tirou o p da nova mesa e sentou-se atrs dela. Passeou o olhar ao redor com satisfao.
   A cmara que escolheu como estdio estava no piso mais alto do castelo. Era espaosa e cheia de luz, de propores agradveis  vista. emprestava-se bem s investigaes 
em filosofia natural.
   Os livros e bas com pedras, as bandejas com insetos mortos e os aparelhos de alquimia tinham sido desempacotados e acomodados com esmero em prateleiras e mesas 
de trabalho. O astrolbio estava no batente. A pedra verde, em um local seguro do escritrio.
   Por estranho que parecesse, sentia-se em seu lar. Em todos os meses vividos no Lingwood Manor, nem uma vez experimentou esta sensao, e soube que neste lugar 
poderia ser feliz. Bastava-lhe aceitar o oferecimento de Hugh para que o compromisso fosse verdadeiro.
   Bastava-lhe casar-se com o homem ao que chamavam o Implacvel.
   Bastava-lhe casar-se com esse homem que, sem dvida, valorizava a eficcia e a convenincia muito mais que o amor.
   No estava segura de que Hugh acreditasse, sequer, na existncia do amor.
   Apareceram na mente de Alice imagens de sua me em silenciosa advertncia. Triste, Alice recordou que, em um tempo, sua me acreditou que poderia ensinar ao homem 
a am-la. Equivocou-se.
   Sabia que sua me tinha sido, em outra poca, uma mulher clida e vibrante, apaixonada por seu marido. Mas com o mau trato e negando-se a voltar Bernard acabou 
por  matar esse amor.
   Casou-se com um homem que jamais aprendeu a am-la, e pagou por isso um preo elevado. E tambm os filhos.
   
   Alice lanou uma olhada ao livro de notas que tinha escrito sua me. s vezes, quase o odiava. Continha abundantes conhecimentos, e os resultados de estudos rduos 
e correspondncia com pessoas sbias de toda a Europa. Mas Alice e Benedict sofreram muito por ele.
   Na ltima etapa da vida de Helen, o livro de notas absorveu cada vez mais sua dedicao e ateno, lhe deixando muito pouco para a Alice e para seu irmo.
   Alice se levantou e foi at a janela. Os escarpados de Scarcliffe se abatiam sobre o castelo de uma maneira que podia ver-se como protetora ou ameaador.
   No dia anterior, a primeira viso da imponente fortaleza negra a impressionou. Emanava uma fora escura que prometia amparo, mas o sombrio edifcio no dava sinais 
de calidez nem suavidade. "parece-se muito ao novo amo", pensou. Hugh e o castelo tinham muito em comum.
   Mas, o que acontecia ao corao de Hugh? Era to duro e frio como os muros de pedra da imensa fortaleza? Ou existia certa esperana de que pudesse encontrar doura 
nele?
   Pensamentos to insidiosos faziam perigar a serenidade do esprito da Alice.
   Separou-se da janela, consciente de que seu prprio corao estava em grave risco. Deveria alarmar-se por ter pensado sequer na idia de fazer efetivo o compromisso.
   "Sim, aqui poderia ser feliz", disse-se. Mas a sorte estava contra.
   Seria melhor manter certa distncia. Apartar-se. Guardar as emoes cuidadosamente dentro de si. No devia cometer o mesmo engano que sua me.
   
   
   
   
   Trs dias depois, Hugh levantou o olhar da mesa e viu o novo mordomo que aparecia pela porta.
   -Sim?
   -Lamento incomod-lo, milorde.
   Elbert, um jovem magro e desajeitado, com um temperamento que Hugh considerava nervoso, tragou vrias vezes, tratando de reunir coragem. E animar-se a falar. 
Elbert tinha a desventurada tendncia a gaguejar sempre que estava na presena do amo.
   -O que acontece, mordomo?
   
   Hugh afastou o instrumento e esperou, impaciente.
   Para si, admitia que no sabia muito das qualidades que devia ter um mordomo apropriado. Mas fossem quais fossem, estava convencido de que Elbert carecia delas. 
Era evidente que o novo amo o amendrotava, e estava acostumado a tropear cada vez que o tinha perto.
   Alm desses defeitos, a habilidade de Elbert para dirigir uma casa no era muito impressionante. Embora se ocupasse de que os quartos estivessem limpos, os almoos 
resultavam experincias arrasadoras.
   A comida chegava fria e mau temperada das cozinhas. No havia quantidade suficiente de bandejas de po para servir a todos. O estrpito de jarras de cerveja que 
caam e dos pratos sobrecarregados criava um barulho desagradvel.
   Hugh no esperava impaciente a prxima refeio.
   Notou que Alice evitava o mau momento, pois junto com seu irmo lhes serviam as comidas nos quartos que tinha escolhido para seu uso pessoal.
   Tinha dado indicaes especiais s cozinheiras. Hugh tinha a forte suspeita de que comiam muito melhor que ele.
   
   O nico motivo que Hugh no despediu Elbert do novo posto uma hora depois de ter sido empregado,  porque a mesma Alice o tinha selecionado. Esteve de acordo 
em faz-lo depois que Hugh lhe pediu que se ocupasse do tema.
   Pensou que se faria cargo de todo o manejo da casa. Mas limitou-se a escolher  Elbert, como lhe pediu, e logo voltou para seus prprios aposentos.
   
   As coisas no aconteciam segundo o plano que Hugh urdiu com tanto cuidado. Estava desejoso de dar a Alice a responsabilidade e a autoridade que desejava, mas 
ela no estava preocupada em recebe-las. O fracasso do plano o desanimava e o irritava.
   -E bem? -insistiu-o, ao ver que Elbert no fazia outra coisa que olh-lo com a boca aberta.
   Elbert se apressou a fech-la.
   -Um mensageiro, milorde.
   -Um mensageiro?
   -Sim, milorde. -Endireitou a boina vermelha com gesto desajeitado-. chegou faz uns minutos com uma carta para o senhor. Diz que dever ficar esta noite.
   -Traga-me ele mordomo.
   
   -Sim, senhor.
   Elbert retrocedeu depressa para o corredor, e tropeou. Recuperou o equilbrio, girou e correu pelo corredor. 
   Hugh suspirou e reatou o trabalho com o instrumento. Minutos depois, Elbert fez entrar no quarto  um homem magro e alto, que arrumava-se para parecer elegante 
com uma capa de viagem e umas botas manchadas de barro.
   
   
   

   -Sado-te, Julin -disse Hugh-. Ter tido boa viagem, espero.
   -Sim, senhor. -Fez-lhe uma elegante reverencia e lhe entregou a carta-. Tinha um bom cavalo, e no choveu.
   Certos problemas com um bando de ladres no caminho de Windlesea, mas lhes mostrei o selo do senhor e esse foi o final dos problemas.
   -Fico contente em saber.
   Hugh deu uma olhada  carta.
   Julin pigarreou.
   -Desculpe, senhor, mas me sinto obrigado a assinalar que no teria havido nenhum problema se tivesse tido uma roupa apropriada. Talvez seria bom um traje azul 
e dourado, Com um pouco de galo dourado. 
   -Depois, Julin.
   -Em meu posto, faz falta algo que resplandea a vista. Desse modo, os ladres a veriam imediatamente. Reconheceriam a um homem de sua casa e no se atreveriam 
a incomod-lo.
   Hugh levantou a vista.
   -J discutimos isto antes, mensageiro. Cada ano recebe um traje em boas condies, capa, botas, e um novo moedeiro de couro.
   -Sim, milorde, e  um gesto generoso de sua parte-murmurou-. Mas tudo o que me proporciona  da mesma cor.
   -E?
   -O negro no  uma cor elegante, milorde -disse Julin, exasperado-. Pareo um monge vagabundo pelos caminhos.
   -Oxal viajasse com a mesma frugalidade que se fosse. Seus gastos quinzenais foram escandalosos. Pensava em lhe falar a respeito.
   -Posso justific-los todos -respondeu Julin. 
   -Espero que sim.
   
   -Senhor, a nova roupa.
   -Que nova roupa? -protestou-. Acabo de te dizer que no haver tal coisa.
   Julin ficou aborrecido.
   -Est bem, suponhamos que seguimos com o negro como base.
   -Excelente hiptese.
   -Seria muito mais atraente se me permitisse, ao menos, um pouco de galo dourado.
   -Galo dourado? Para um mensageiro que deve atravessar o barro e a neve? Que loucura.  provvel que lhe assassinem no caminho pelo galo dourado da roupa.
   -Faz menos de trs meses, John de Larkenby deu ao seu mensageiro pessoal um elegante traje novo de cor verde esmeralda -tratou de persuadi-lo-. Debruado de laranja. 
E uma boina fazendo jogo. Muito elegante.
   -Basta de tolices. Alguma novidade sobre a sade de meu suserano?
   O rosto de Julin se escureceu. -Transmiti-lhe as suas saudaes, como me pediu. -Viu sir Erasmus?
   -Sim. Recebeu-me s porque perteno a seu pessoal. Disseram-me que recebe a muito poucos visitantes, ultimamente. Agora,  a esposa a que se ocupa de quase todos 
os assuntos.
   -Que aspecto tinha? -perguntou Hugh.
   -Nota-se que est muito doente, milorde. No fala disso, mas a esposa tem os olhos avermelhados de chorar. Os mdicos acreditam que o corao est falhando. Est 
muito magro. sobressalta-se diante do menor rudo. Parece esgotado e, entretanto, assegura que no pode dormir.
   -Esperava que houvesse melhores notcias. 
   Julin moveu a cabea.
   -Lamento, senhor. Mandou-lhe seus melhores desejos.
   -Bom, o que tem que ser, ser. -Rompeu o selo-. V s cozinhas e pea que lhe dem de comer.
   -Sim, senhor. -Julin vacilou-. A roupa. Sei o que opina dos gastos. Mas me parece que agora que possui terras, e um castelo, querer que os membros de seu pessoal 
se vistam de maneira apropriada. Depois de tudo, senhor, a gente julga a um homem pela roupa que vestem seus criados.
   -Quando descobrir que me preocupo a opinio do povo, comunicarei-lhe isso. V, mensageiro.
   -Sim, senhor.
   
   Fazia tempo suficiente que Julin servia a Hugh para saber que o tinha pressionado bastante. Saiu da habitao fazendo reverncias com suas maneiras elegantes 
e um tanto altivas, e percorreu o corredor assobiando.
   Hugh olhou sem ver a carta que tinha na mo. Erasmus de Thornewood estava morrendo. J no haviam dvidas. Hugh sabia que logo perderia ao homem que tinha sido 
como um pai para ele em mais de um sentido.
   Engoliu em seco para aliviar uma sbita obstruo na garganta, piscou um par de vezes para clarear os olhos, e concentrou-se na carta.
   Provinha do mordomo londrino. Informava-lhe da chegada sem novidades de um navio carregado com especiarias. Em seu acostumado estilo eficiente, o criado dava 
conta de cada ba, do contedo e do valor estimado, adicionando comentrios relacionados com os gastos. Hugh pegou o intrumento.
   -Desculpe-me, senhor -disse Benedict da entrada.
   Hugh levantou a vista:
   -Sim?
   -Sir Dunstan me envia para dizer-lhe que os estbulos j esto limpos e preparados. Quer saber se voc deseja falar com o ferreiro. -Viu o instrumento e se interrompeu-. 
O que  isso, milorde?
   -Chamam-lhe baco. usa-se para fazer clculos. 
   -Ouvi falar dele. -aproximou-se com expresso curiosa, tamborilando o cho com a bengala-. Como funciona?
   Hugh esboou um sorriso lento.
   -Se quiser, ensinarei-te. pode-se somar, multiplicar ou dividir.  mais til que um contvel.
   -Eu gostaria de aprender a us-lo. -Benedict ergueu a vista, com acanhamento-. Sempre me interessaram estes temas.
   -Srio?
   -Sim. Alice me ensinou tudo o que sabe de clculos mas, para falar a verdade, no  um campo que lhe interessou muito. Prefere a filosofia natural.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   -Sei. -Observou a expresso do rapaz-. Benedict, acredito que j  hora de que jante no salo principal, com seu senhor e os outros homens do castelo. Hoje, no 
almoo, apresentar-se aqui em baixo.
   Benedict ergueu o olhar com presteza.
   -Comer com voc, senhor? Mas a Alice acha melhor que comamos em nossas quartos.
   -Alice pode fazer o que gostar. Mas voc  um de meus homens, e comer com todos ns. 
   -Um de seus homens? A idia o assombrou.
   -Sua irm  minha prometida, e vive aqui, em Scarcliffe -reps Hugh, sem muito nfase-. Isso o converte em membro de minha casa, no  assim?
   -No tinha considerado desse modo. -Os olhos do moo expressaram uma tmida ansiedade-. Tem razo. Farei o que me ordenou, senhor.
   -Magnfico. E falando de Alice, onde est sua irm?
   -Foi  aldeia a falar com a madre Joan. Benedict levantou o baco com gesto reverente. 
   -Foi sozinha?
   -Sim.
   -Disse quando voltaria?
   -Disse que demoraria. -Moveu com cuidado uma das contas vermelhas sobre uma magra varinha de madeira.- Parece-me que disse algo de procurar mais pedras para a 
coleo.
   Hugh ficou carrancudo.
   -Pedras?
   -Sim. Pensa que encontrar algumas interessantes nas cavernas do escarpado.
   -Por todos os diabos. -levantou-se de um salto e rodeou o escritrio-. Sua irm vai me deixar louco.
   -O tio Ralf tambm estava acostumado a dizer isso.
   Hugh no lhe deu ateno, pois j estava na metadedo corredor, dirigindo-se  escada.
   
   
   
   
   
   
   
   Captulo 11
   
   -Como ver, lady Alice, h muito que fazer aqui. -Com um gesto, Joan abrangeu no s o jardim do convento onde estavam mas tambm toda a aldeia-
   Durante os trs anos que fui madre fiz o que pude, mas sem um bom amo para governar estas terras, foi difcil.
   -Entendo-o, senhora.
   Alice contemplou os jardins. Vrias freiras regavam e preparavam a terra para o inverno. 
   A caminhada pela aldeia foi uma experincia notvel. Uma ampla variedade de pessoas a tinham saudado. Granjeiros que interrompiam o trabalho para fazer respeitosas 
reverncias. Meninos pequenos que jogavam e lhe sorriam com acanhamento ao passar. A cervejeira saiu  porta da cabana a lhe oferecer uma jarra de cerveja. O ferreiro 
a olhou, radiante, do outro lado da forja incandescente. A esposa do moleiro lhe deu um po, que lhe entregou orgulhoso Jovem John, seu filho.
   Alice percebeu que esse dia, sobre o Scarcliffe, abatia-se uma atmosfera de expectativa. Os habitantes acreditavam que a lenda se tornou realidade ou, ao menos, 
estava em caminho de cumprir-se. O verdadeiro senhor estava com eles. A maldio estava a caminho do fim e tudo iria terminar bem.

   Sentiu  uma ponta de remorso quando, inclusive a sincera e bondosa Joan se dirigia a ela como se, na verdade, fosse a futura senhora do feudo.
   A freira tinha razo: havia muito que fazer ali. E Hugh se ocuparia de que se fizesse. Cuidaria dessas terras, pois seu prprio futuro estava ligado a elas.
   Mas no estava do todo segura de poder arriscar-se a unir seu prprio futuro ao de Hugh e a Scarcliffe. "No se considerava covarde -pensou-. Ah, mas at agora 
nunca tinha estado em jogo meu corao."
   Em um convento grande e fechado, a vida seria muito mais simples e serena. Muito mais propcia para o estudo da filosofia natural.
   -Essa absurda lenda no ajudou em nada. -Joan abriu caminho por um dos atalhos do jardim-. Foi um grande problema t-la pendente sobre nossas cabeas todos estes 
anos. Eu gostaria de dizer um par de coisas ao idiota que a inventou.
   Alice lhe lanou um olhar, surpreendida.
   -Voc no acredita na lenda...
   
   -No, mas sim o povo de Scarcliffe. Admito que, quanto mais tempo passava sem que houvesse um senhor enrgico, mais evidencia tinha a realidade da maldio.
   -D-me a impresso de que as lendas tm sua prpria vida.
   -Sim. -Joan fez uma careta ao deter-se perto da parte dahorta onde trabalhava sozinha a freira alta-. Ao final, comeamos a sofrer os ataques de bandidos e ladres, 
pois no havia um senhor que contasse com um grupo de cavalheiros fortes para protegernos
   -Agora que lorde Hugh  o amo de Scarcliffe, os bandidos j no causaro problemas -assegurou-lhe Alice, com grande confiana.
   A freira alta interrompeu o trabalho e se apoiou na enxada. Sob a touca, os olhos eram escuros e lgubres.
   -H outras calamidades to ruins como a praga dos ladres. A maldio  real, lady Alice. Lorde Hugh logo saber.
   Joan ps os olhos em branco.
   -No lhe faa caso  irm Katherine, milady. Embora seja uma curadora perita, est acostumada a no ver outra coisa que maus pressgios.
   Alice sorriu para Katherine.
   -Se voc cr na maldio, sem dvida estar contente de que tudo esteja bem outra vez. A lenda se cumpriu.
   -Ora. No me importa nada a lenda do cristal verde ou a das Pedras de Scarcliffe -murmurou Katherine-. Esse  um conto para meninos.
   -E o que  o que a preocupa? -perguntou Alice.
   -A verdadeira maldio sobre estas terras  a inimizade entre Rivenhall e Scarcliffe. A traio e o crime resiste como uma infeco que no pode curar-se.
   -Suponho que se refere  antiga inimizade entre os dois feudos -disse Alice.
   Katherine vacilou, evidentemente surpreendida. -Voc sabe?
   -Sim, lorde Hugh me contou essa triste histria. Mas se teme que haja uma guerra entre Rivenhall e Scarcliffe por causa dessa inimizade, pode ficar tranqila. 
No haver violncia entre ambos os feudos.
   Katherine sacudiu a cabea com ar sombrio.
   -As sementes da vingana se plantaram no passado, e deram origem a uma erva daninha que envenena estas terras.
   
   
   
   
   
   -No. -Alice comeava a irritar-se com a viso pessimista da -. Acalme-se, irm. Lorde Hugh me assegurou que no haveria violncia. Disse-me que tanto ele como 
sir Vincent emprestaram juramento ao mesmo suserano, Erasmus de Thornewood. Este lhes proibiu que se lanassem em qualquer briga mais sangrenta que uma justa ocasional.
   
   -Dizem que Erasmus de Thomewood est morrendo. -A mo de Katherine se apertou ao redor ddo cabo da enxada-. Quando tiver desaparecido, quem conter a sir Vincent 
e a sir Hugh? Tanto Scarcliffe como Rivenhall esto muito longe de seus respectivos centros de poder. Os senhores destas terras ficaro livres, como cachoros quando 
lhes soltaram das correias. Avanaro diretamente um ao pescoo do outro.
   -Esse  um bom argumento da irm Katherine. -Joan franziu o cenho-. Sempre pensei que o fato de estar to afastados era uma das poucas coisas boas destas terras. 
 mais seguro viver longe de homens que dirigem exrcitos e que se preocupam com quem est no trono. Mas isso significa que dependemos de lorde Hugh para manter 
a paz.
   -Ele o far -insistiu Alice.
   No sabia por que se sentia impulsionada a defender as boas intenes de Hugh. Talvez fosse porque o conhecia melhor que estas mulheres, e queria que lhe tivessem 
confiana.
   -Nunca haver paz entre Scarcliffe e Rivenhall -murmurou Katherine.
   Alice pensou que era hora de trocar de tema.
   -Irm,  este sua plantao de ervas?
   -Sim.
   -Faz muitos anos que a irm Katherine est conosco -disse Joan-.  perita em ervas. Todos, em algum momento, tivemos motivos para lhe dar obrigado por seus tnicos 
e poes.
   -Minha me era curandeira -comentou Alice-. Era uma grande estudiosa do saber relativo s ervas. Tinha muitas ervas estranhas no jardim.
   Katherine no fez conta, mas a olhou de frente.
   -Quanto faz que est prometida a Hugh o Implacvel?
   -No muito. E j no se chama Hugh o Implacvel. Agora  Hugh de Scarcliffe.
   -Quando se casaro?
   
   -Na primavera -respondeu. 
   -Por que esperar tanto?
   Joan a olhou com recriminao.
   -Os planos de bodas de lady Alice no so assunto nosso, irm.
   Katherine apertou a fina boca.
   -Um compromisso  fcil de romper.
   -No  verdade. -Joan estava francamente zangada-. O compromisso  um voto solene e srio. 
   -Mas no  um voto conjugal-replicou Katherine. 
   -Basta, irm -disse Joan com severidade. Katherine calou-se, mas seguiu olhando com fixao a Alice.
   Alice se ruborizou ante esse olhar.
   -Lorde Hugh queria esperar at a primavera para casamos porque tem muitos assuntos importantes que deve atender imediatamente.
   
   
   -Muito compreensvel -disse Joan, com ardor-. Por favor, volte para suas tarefas, irm. Lady Alice e eu seguiremos percorrendo os terrenos do convento. -Comeou 
a caminhar por outro atalho, levando consigo a Alice-. Venha, mostrarei-lhe as oficinas onde fabricam vinho. Depois, gostaria de ver a biblioteca?
   O rosto da Alice se iluminou. -OH, sim, eu adoraria!
   -Espero que a aproveite. -Quando estavam fora do alcance dos ouvidos de Katherine, acrescentou em voz baixa-: Perdoe  curadora.  muito boa no seu, mas a melancolia 
a faz sofrer muito.
   -Entendo.  uma pena que no possa curar-se a si mesmo.
   -Toma um tnico feito de papoulas quando est de muito mau humor, mas alm disso diz que no pode fazer-se muito mais por essa doena.
   Alice franziu o sobrecenho.
   - preciso usar com cuidado as poes que se fazem com papoula.
   -Sim. -A freira a olhou de soslaio, com interesse-. D-me a impresso de que conhece bem o tema. Seguiu voc os passos de sua me, milady?
   -Estudei a respeito de ervas, e conservei o livro de notas de minha me, mas quando ela morreu, voltei-me para outras coisas.
   -Entendo.
   -Considero-me uma estudiosa da filosofia natural. -deteve-se e contemplou os imponentes escarpados que se elevavam detrs da aldeia-. 
   
   Csualmente nas  ltimas horas desta manh, decidi seguir adiante com minhas investigaes nesse tema.
   Joan lhe seguiu o olhar.
   -Pensa em explorar as cavernas?
   -Sim. Nunca vi nenhuma. Deve ser muito interessante.
   -Desculpe-me, senhora, mas no acredito que seja uma idia sensata. Lorde Hugh sabe?
   -No. -Comps um sorriso radiante-. Estava ocupado com negcios esta manh. Preferi no incomod-lo.
   -Entendo. -A freira vacilou como se visse obrigada a dizer mais sobre o tema, mas logo desistiu-. Disse  irm Katherine que estava convencida de que no haveria 
guerra entre os feudos do Rivenhall e Scarcliffe.
   -Sim, o que acontece?
   -Est segura? Estas terras sofreram muito, milady. No sei se poderiam sobreviver a semelhante desastre. Alice riu.
   -No tema, lorde Hugh proteger a Scarcliffe. 
   -Confio que tenha razo.
   Interrompeu-se de repente, e olhou a um ponto por atrs de Alice.
   Nesse instante, Alice ficou alerta. Sem voltar-se, soube que Hugh estava no jardim.
   -Alegra-me muito saber que tem tanta f em minhas habilidades, senhora -disse, com tom impassvel-. E eu gostaria de poder ter a mesma f em seu bom sentido. 
O que  isso que ouvi de que pensa explorar as cavernas de Scarcliffe?
   Alice girou e o encontrou no atalho, detrs dela, grande e slido como o mesmo castelo de Scarcliffe. O cabelo negro estava revolto pelo vento. Os ltimos trs 
dias, tinha-o visto muito pouco, mas cada vez que o encontrava tinha a mesma reao.

   
   Cada vez que se topava com ele, at por um instante, sofria um forte impacto em seus sentidos. Seu  pulso se acelerava e algo se enroscava no estmago. A lembrana 
da noite no Ipstoke, quando a acariciou de maneira to ntima, fazia arder cada parte de seu corpo.
   Pensando nesse apaixonado momento, no podia dormir bem. A noite anterior preparou uma beberagem quente de camomila para aquietar os sentidos. Pde dormir, mas 
sonhou. Como sonhou...!
   
   -Assustou-me, milorde. -Para dissimular a reao, olhou-o com ferocidade-. No o ouvi entrar no jardim. Acreditava que esta manh estava ocupado com as contas.
   -Estava muito ocupado, at que soube que pensava se nefiar nas cavernas. -Saudou com um gesto a Joan-. Bom dia, senhora.
   -Bom dia, senhor. -Joan passou o olhar do rosto severo de Hugh ao carrancudo de Alice, e outra vez a Hugh. Clareou a voz-. Possivelmente seja melhor que tenha 
vindo, senhor. Eu tambm estava um pouco preocupada com os planos de lady Alice.  nova aqui, e ainda no conhece os perigos do lugar.
   -Claro -disse Hugh-. E no momento, o perigo maior ao que se enfrenta sou eu. -Ps os braos na cintura-. Por todos os diabos, o que acha que est fazendo?
   Alice no se deixou intimidar. -S queria procurar pedras interessantes. 
   -No tem que entrar sozinha nas cavernas. Nunca. Entende?
   Alice segurou-lhe o brao, Como para acalm-lo.
   -Acalme-se, milorde. Sou  bastante treinada no estudo da filosofia natural. Faz anos que coleciono espcimes interessantes. No sofrerei nenhum dano.
   Hugh enganchou os polegares no cinturo de couro. -Escute-me, Alice. No pode sair sozinha dos limites da aldeia.A probo.
   -Incomodaria-lhe me acompanhar? Seria bom um homem robusto para me ajudar a transportar os objetos interessantes que possa descobrir.
   Por um par de segundos, o convite o deixou perplexo. Mas recuperou-se imediatamente e lanou ao cu plmbeo um olhar desalentador.
   -Logo chover.
   -No acredito. -Alice tambm olhou-. S est um pouco nublado.
   Nos olhos do Hugh apareceu um brilho especulativo.
   -Est bem, senhora, como  voc a perita em filosofia natural, inclinarei-me ante seu julgamento. Acompanharei-a na expedio.
   Dentro de Alice se agitou o regozijo, mas tratou de parecer indiferente, como se a deciso de Hugh no lhe importasse muito.
   Joan pareceu aliviada.
   -Tome cuidado de no esbarrar com o monge vagabundo enquanto percorre os arredores dos escarpados. Disseram-me que acampa em uma das cavernas.
   Enquanto pegava Alice pelo  brao, Hugh franziu o cenho.
   -Por que Calvert do Oxwick dorme nas cavernas?
   Embora mantivesse o rosto sereno, os olhos de Joan chisparam, divertidos.
   
   -Porque eu me neguei a lhe dar uma cela no convento, sem dvida. Na realidade, no h um lugar onde ele possa estender uma pele, exceto no castelo de Scarcliffe. 
   Parece que no se atreve a lhe impor hospitalidade, milorde.
   -Melhor -protestou Alice-. Eu no gostaria que o castelo de Scarcliffe desse albergue a esse homem odioso.
   Hugh ergueu as sobrancelhas mas no fez nenhum comentrio. Ento, Alice pensou que as decises relacionadas com a hospitalidade do castelo correspondiam, por 
direito, a Hugh. Ela no era nem a verdadeira prometida. E tinha prometido a si mesmo que no se meteria nos assuntos domsticos. 
   -Bom -disse com vivacidade-. Ser melhor que saiamos, milorde. O dia avana, no?
   As primeiras gotas de chuva caram quando comeavam a ascender a costa rochosa por debaixo das cavernas.
   -Por todos os Santos. -Alice colocou o capuz do manto-. Se no procurarmos refgio nas cavernas, encharcaremos-nos.
   -Disse que choveria. Agarrou-a pela mo e a arrastou rapidamente por volta da primeira abertura praticada nos escarpados.
   -Voc tem o costume de apontar quo infalvel  em cada ocasio em que acerta em sua apreciao de uma situao?
   Teve que correr ao mesmo tempo.
   -No. -A expresso de Hugh tornou-se suave e ria enquanto pocisionava  Alice para que ficasse sob o teto de uma grande caverna-. Como quase sempre acerto, seria 
muito pouco agradvel que o mencionasse cada vez que fica comprovado.
   Olhou-o carrancuda um momento, at que prendeu sua ateno no cabelo de Hugh molhado pela chuva. Por algum motivo, ao v-lo revolto, emoldurado contra o crnio 
bem formado, pareceu-lhe que sua aparncia era muito diferente. Mais jovem, at um pouco vulnervel.
   Ao sentir uma louca e sbita esperana, Alice conteve o flego. Se, de verdade, havia no Hugh certa ternura, certo grau de suavidade e vulnerabilidade, talvez 
pudesse aprender a am-la.
   A chuva comeou a cair com toda sua fora. ao longe, soou um trovo. Como se quizesse esmagar qualquer falsa iluso de gentileza oculta, Hugh passou os dedos 
pelo cabelo molhado. Acomodou-o com descuido atrs das orelhas, deixando ao descoberto a testa alta, e as linhas severas das mas do rosto. Em uma piscada, voltou-se 
outra vez o homem capaz de suportar o peso de uma lenda.
   
   Alice sorriu pensativa.
   -Voc  impossvel, senhor.
   Na boca de Hugh apareceu um ar de diverso. Olhou com curiosidade ao redor.
   -Est aqui sua caverna, senhora.
   Alice seguiu o olhar do homem e tremeu um pouco.
   -Est um pouco escuro, no?
   -As cavernas costumam ser lugares escuros -disse com secura.
   A caverna era grande. As profundidades se perdiam na escurido que cobria o extremo mais afastado. A luz cinzenta do dia chuvoso no chegava muito longe no interior 
da caverna. O lugar tinha uma atmosfera sempre mida. Em algum lado, gotejava gua sobre uma pedra.
   -A prxima vez, tenho que me lembrar de trazer uma tocha -disse Alice.
   -Sim. No podemos ver muito sem uma, no?
   -No. -negou-se a admitir que a alegrava ter uma boa desculpa para no internar-se mais-.  uma pena que hoje no possamos prosseguir as investigaes, mas no 
podemos evit-la.
   Hugh apoiou uma mo contra a parede rochosa, e dirigiu o olhar para a aldeia e os campos de Scarcliffe.
   -H um belo panorama daqui, at quando chove.
   Alice viu o orgulho da posse nos olhos de matizes dourados.
   -Nos dias claros, deve ver-se at muito longe.
   -At Rivenhall.
   A enganosa suavidade do tom inquietou  Alice, e recordou as palavras da curadora: "As sementes da vingana foram plantadas no passado, e deram origem a uma erva 
daninha que envenena esta terra".
   Tentou se convencer de que no acreditava em lendas.
   Contemplou a chuva e se perguntou por que essas palavras da curandeira soavam verdadeiras.
   -E bem, Alice? -disse Hugh depois de uma pausa.
   No deu a volta para olhar, concentrado na paisagem que se estendia ante ele.
   -E bem, o que, milorde?
   Alice se inclinou para observar uma parte da pedra escura.
   -Parece-me que j teve tempo suficiente tempo para a observao. Qual  sua concluso?
   
   Quando compreendeu o significado do que lhe dizia, imobilizou-se sobre a pedra escura. Abafou uma exclamao de desalento e se refugiou em um fingido mal-entendido.
   - uma pedra interessante, mas no acredito que seja pouco comum. Eu gostaria de encontrar uma amostra da que se usou para construir o castelo. Essa sim que  
interessante. Nunca vi nenhuma.
   -No referia a essa maldita pedra, e sabe bem. -Dedicou-lhe um olhar breve e impaciente-Decidiu casar comigo?
   -Por todos dos Santos, milorde, faz s trs dias que me perguntou isso. E devo assinalar que ns dois estivemos muito ocupados nestes dias.
   -Ocupados? No tem feito grande coisa, salvo escolher aquele mordomo desajeitado.
   -Elbert se converter em um excelente mordomo -respondeu-. E como se atreve a me acusar de preguia? Quase no tive tempo de pensar, para no mencionar um assunto 
to importante como o matrimnio.
   Por um momento, Hugh no disse nada. Depois, sentou-se em uma pedra, e apoiou os cotovelos nos joelhos. Manteve a vista fixa nas longnquas terras de Rivenhall, 
veladas pela chuva.
   -Voc odeia estas terras, Alice?
   A pergunta a alarmou.
   -Scarcliffe? No, milorde, no as odeio.
   -Parecem-lhe feias.
   -No, no  assim. Admito que no  uma paisagem suave, mas sim interessante e variada.
   -Logo, Scarcliffe florescer, eu me ocuparei de que assim seja.
   -No duvido, milorde.
   -E o que me diz do castelo? Desagrada-te? 
   -No. Como ter visto, tem aparncia de fora.  fcil de defender. -Fez uma pausa, pensando aonde quereria chegar-. E, para ser sincera,  mais cmodo por dentro 
do que parece.
   -De modo que no tem objees a faze-lo seu lar?
   -Bom como j disse, no h nada que objetar no castelo.
   -Alegra-me sab-lo. -Levantou uma pedra e a jogou com descuido pela costa. Era um surpreendente gesto brincalho, que no combinava com o aspecto severo do homem-. 
E depois, se descobrir que h algum problema com o castelo, me dir e eu procurarei que resolva imediatamente.
   -Sim, milorde, obrigada.
   
   Viu que jogou outra pedra pela ladeira molhada. Perguntou-se que tipo de infncia teria vivido Hugh. Sem dvida, foi breve, como a sua prpria. Um bastardo costumava 
assumir muito cedo a dignidade.
   -De modo que o terreno no a desagrada, e o castelo a conforma -concluiu. .
   -Sim, milorde -admitiu cautelosa-. Estou conformada.
   -Ento, no h motivos para romper o matrimnio, no ?
   Exasperada, Alice levantou as mos.
   -Senhor, comeo a entender por que o chamam Hugh o Implacvel.
   -Eu no gosto de perder tempo inutilmente.
   -Asseguro-lhe que no estou perdendo o tempo, pois preciso aproveitar cada minuto. -sentou-se em um penhasco grande, perto da entrada da caverna, e abriu a bolsa 
que lhe tinha dado o filho do moleiro-. Quer um pouco de po fresco?
   Hugh olhou carrancudo o po que Alice tirava do saco. -Est tentando mudar de assunto.
   -Muito observador.        
   -Alice, no sou um homem muito dado a demoras nem hesitaes.
   -Estou verificando essa verdade, senhor. -Cortou uma parte do po e o deu-. Mas nesta questo, temo-me que ter que ter pacincia.
   Hugh lhe cravou um olhar de caador enquanto recebia o po.
   -Quanto tempo levar para decidir?
   -No tenho idia.
   Mordiscou, decidida, sua poro de po.
   Hugh arrancou um grande pedao e o mastigou irritado.
   Fez-se silncio. E a chuva seguiu caindo pesada.
   Depois de um momento, Alice relaxou. Ao que parecia, Hugh estava disposto a deixar de lado o tema do matrimnio, ao menos no momento.
   Alice comeu outro bocado do po e se permitiu desfrutar da companhia de Hugh. Era bom estar ali, s com ele, fingir que eram amigos e scios, e que compartilhariam 
o futuro. No havia nada de mau nessa fantasia. 
   -Elbert est fazendo um desastre no castelo -disse Hugh depois de um longo intervalo-. Talvez pudesse  escolher a outro para fazer esse trabalho?
   Alice afastou o sonho.
   -Elbert aprender rpido. Eu entrevistei a vrios candidatos para o posto e ele foi, com muito, o mais inteligente e disposto. D-lhe tempo, milorde.
   - fcil para voc diz-lo. Como janta sozinha em seu quarto, ainda no experimentou a aventura de comer no salo principal com todos ns. Asseguro-o que a superviso 
de Elbert o converte em um sucesso inesquecvel.
   Alice o olhou.
   -Se lhe desagrada jantar no salo principal, por que no faz como eu? Faa que lhe levem a comida a seu prprio dormitrio. -Vacilou, mas logo adicionou-: Ou 
poderia faz-lo comigo, milorde.
   -Isso no  possvel.
   Alice sentiu que corava.
   -Perdoe-me por sugeri-lo. No quis intrometer-me.
   Lanou-lhe  um olhar irritado.
   -No compreende que um senhor deve fazer suas refeies em companhia de seus homens?
   Alice estremeceu.
   -No vejo por que. A conversao vulgar e as brincadeiras grosseiras so suficientes para acabar com qualquer comida. No tenho interesse no bate-papo odioso 
sobre armas e justas, nem sobre as glrias de batalhas passadas ou de caa.
   -No  compreende. Um dos modos em que um senhor reafirma os vnculos entre ele e os que o servem  comer junto com eles. -Mastigou o po-. Um senhor forte, est 
to ligado aos que dependem dele como eles do lorde. Tem que lhes demonstrar que os respeita e que valoriza sua lealdade.
   -E isso faz comendo com eles?
   -Sim.  uma das maneiras de obt-lo.
   -Ah, entendo. -Sorriu, porque tinha compreendido de repente-. Perguntava-me como um homem inteligente como voc podia tolerar as maneiras rudes to habituais 
nos grandes sales. 
   -Acabamos nos acostumando.
   -Acredito que eu nunca me acostumaria a comer qualquer comida com semelhantes conversaes e atividades. Deve ser muito difcil para voc confrontar o futuro 
sabendo que ter que fazer o mesmo sacrifcio todos os dias de sua vida.
   Por um instante, a raiva chispou nos olhos do Hugh.
   -No  considero um grande sacrifcio. Nem todos tem a sua fina sensibilidade. Para um cavalheiro, o bate-papo sobre armas e armaduras no  aborrecido.  trabalho.
   -E as brincadeiras grosseiras, as gargalhadas e as maneiras lamentveis de seus companheiros? Tambm desfruta com isso?
   -Quando os homens se renen em volto da comida e da bebida, so bastante normais.
   
   - certo.
   Mordeu outro bocado.
   -Como j disse, comer no salo grande  uma questo de respeito e lealdade. -Hugh fez uma pausa-. Em quase todos os lares, a senhora come na mesa.
   -Isso eu sei, mas no acredito que agrade a nenhuma dama.
   -Faz-o por motivos similares aos que obrigam o senhor a jantar com sua gente.
   Hugh falava entre dentes.
   Alice deixou de mastigar.
   -Por respeito e lealdade?
   -Sim. senta-se junto ao senhor em presena do povo, para que todos vejam que ela o respeita e lhe  leal.
   Alice inspirou e tratou de comer o bocado ao mesmo tempo, mas terminou cuspindo, ofegando e tossindo.
   Hugh adotou uma expresso preocupada, e lhe deu umas enrgicas palmadas nas costas.
   -Est bem?
   -Sim -conseguiu dizer. Recuperou o flego e tragou vrias vezes para livrar do bocado desviado-. Estou bem.
   -Me alegro.
   Outra vez se fez silncio. Mas nesta ocasio, Alice no sentiu alvio, a no ser um estranho desassossego.
   
   Talvez Hugh acreditasse que se negava-se a comer no grande salo por falta de respeito a ele. Perguntou-se se os homens de Hugh e outros habitantes do castelo 
a considerariam desleal.
   -Alice, preciso que me diga com exatido por que no se decide  casar comigo.  o mais razovel, prtico e lgico.
   Alice fechou os olhos.
   -Acreditava que, por hoje, tnhamos terminado com esse tema.
   -Se me disser quais so suas dvidas, poderei fazer algo para modific-las.
   Era muito, e perdeu a pacincia:
   -Est bem, milorde, serei concisa. Se me casar, prefiro que seja por verdadeiro afeto, no por eficcia e convenincia.
   Hugh ficou imvel, e seus olhos se cravaram nos da jovem.
   -Afeto?
   
   -Sim. Afeto. Minha me se casou com um homem que no queria dela mais que um herdeiro e algum que dirigisse os assuntos domsticos. Esteve condenada a uma grande 
solido, e no teve outra coisa que os estudos para consolar-se.
   -Tinha  seu irmo e a voc.
   -No lhe bastvamos -disse com amargura-. Dizem que morreu pelo veneno mas, na realidade, acredito que morreu porque tinha o corao partido. No cometerei o 
mesmo engano que ela.
   -Alice...
   -Prefiro a paz e a tranqilidade do convento a um matrimnio vazio de carinho. Agora entende minhas dvidas, milorde?
   Olhou-a, preocupado.

   -Quer que eu a corteje? Est bem, senhora, tentarei cortej-la como  devido, mas advirto que no tenho muita experincia nessas questes.
   Alice ficou de p, totalmente exasperada.
   -Milorde, est equivocado. No quero um cortejo fingido. Pode guardar as flores e os poemas. Refiro-me ao amor. Isso  o que quero. Amor.
   A compreenso iluminou os olhos do homem. Levantou-se e aproximou-se dela.
   -Ento, ao final das contas, o que quer  paixo. Fique tranqila: isso no te faltar.
   Cobriu a boca de Alice com a sua antes de que pudesse comear a exort-lo com respeito a este grave equvoco.
   Por uns segundos, Alice ficou em silncio, at que de repente entendeu que a paixo bem poderia ser o que Hugh estava em condies de lhe dar nesse momento.
   Tambm podia ser a emoo que o levasse ao amor. Colocou os braos em seu pescoo e respondeu ao beijo com todo o amor que tinha florescido em seu corao na 
primeira noite em que o conheceu.
   
   
   Captulo 12
   
   Ao perceber que Alice se acalmava, Hugh sentiu que o regozijo o golpeava como uma enorme onda marinha. "Minha viso da situao era correta: a paixo  a chave 
para render a doce fortaleza", pensou. Alice o desejava. O desejo feminino era a especiaria mais rica e embriagadora.
   
   Ajustou as mos s curvas das ndegas firmes e redondas, e a ergueu alto, Contra seu peito. Sentiu que os braos da mulher lhe rodeavam o pescoo e a ouviu suspirar. 
Apertou-a com fora contra si, para que sentisse sua masculinidade ereta.
   -Milorde, tem um efeito surpreendente sobre meus sentidos. -Alice lhe beijou o pescoo-. Juro que no o entendo.
   -Isso  o que os poetas chamam amor. -Retirou a rede tecida que lhe prendia o cabelo, deixando que as mechas acobreadas caissem pelos ombros-. 
Quanto a mim, sempre pensei que paixo  um termo mais honesto para expressar essa sensao.
   Alice levantou a cabea do ombro dele, e os olhos de ambos se encontraram um instante. Hugh acreditou que se afogaria nas profundidades esmeralda.
   -Est equivocado. A experincia de minha me me ensinou que a paixo somente, no  amor. Mas comeo a acreditar que podem estar vinculados.
   Hugh esboou um sorriso desdenhoso. -Confesso que no me interessa me enredar em uma discusso sobre o tema neste momento, Alice. 
   -Mas  uma distino muito importante, milorde. 
   -No, no tem a menor importncia.
   Silenciou-a com sua prpria boca.
   No a soltou at que os lbios se abriram sob os seus, e Alice se pressionou a ele to intensamente que acreditou que no poderia separar-se por sua vontade. 
S ento se afastou o suficiente para soltar a correia da espada e a tnica negra.
   Enquanto deixava a tnica perto, Alice o observava com olhos brilhantes. Hugh se afligiu ao ver que lhe tremiam um pouco as mos. Respirou profundamente para 
serenar-se, e estendeu a tnica no cho de pedra.
   Essa simples tarefa lhe requereu uma enorme concentrao e, quando terminou, ergueu-se e olhou a Alice do outro lado da cama improvisada. Viu as sombras nos olhos 
da moa, e um medo terrvel retorceu as vsceras
   Mas logo, Alice lhe estendeu a mo com um sorriso trmulo.
   Hugh lanou um suspiro cheio de satisfao e alvio. Deitou-se sobre a tnica negra e puxou com suavidade Alice para ele. As saias se estenderam como espuma pelas 
coxas quando Alice se acomodou, morna e excitante sobre o peito do homem.
   Enquanto o fazia, tinha os olhos cheios de preocupao.
   
   
   -Milorde, ficar esmagado contra a pedra dura.
   O homem riu.
   -Nunca tive um colcho to macio.
   Alice lhe tocou a face com as pontas dos dedos, e ficou mais cmoda. Hugh gemeu quando as coxas redondas se apertaram mais contra seu membro rgido.
   De repente, o desejo que havia nele se transformou em uma chama ardente. Sentiu que essa chama devorava os ltimos vestgios de domnio que lhe restavam.
   Alice o queria, e era sua prometida. Nada se interpunha. Nada importava mais que isso.
   Hugh se submeteu  tormenta de fogo que ele mesmo tinha aceso. Apanhou o rosto dae Alice entre as mos e a beijou com um ansia que j no podia dissimular. Para 
seu deleite, ela respondeu com entusiasmo embora desajeitada ao beijo abrasador. Ouviu uma exclamao abafada e quase riu quando os dentes de Alice se chocaram com 
os seus.
   -Tranqila, meu amor --disse dentro de sua boca-. No faz falta que me trague inteiro. Ter tudo o que desejas de mim antes de que tenhamos terminado.
   Alice gemeu e afundou os dedos no cabelo do homem.
   Hugh acomodou a cabea feminina em uma das mos e com a outra lhe ergueu a saia. Deslizou a palma por toda a coxa nua at as curvas suaves mais acima.
   Encontrou o vale que dividia as duas coxas e seguiu seu curso at a cascata quente que o aguardava.
   -Hugh!
   Acariciou-a com esmero, preparando-a para a penetrao. Queria que delirasse de desejo para que no sentisse dor quando a possusse, se acaso a machucasse. Queria 
que tudo fosse perfeito. 
   Um trovo estremeceu os cus. A chuva era uma cortina cinza frente  boca da caverna.
   Quando Hugh desajeitadamente tirava a tnica de baixo e afrouxava os cales, Alice levantou um instante a cabea para contempl-lo com olhos nublados de paixo.
   Por um momento, Hugh acreditou que ia lhe pedir que parasse, e seu corao quase parou. Com estranho desespero, perguntou-se se ao faz-lo no o mataria imediatamente.
   -Hugh.
   
   Ouvir seu nome na voz doce fez seu  sangue pulsar. A excitao o imundou. "A paixo mtua a seduziu por completo", pensou.
   
   Seria uma boa estrategia fazer Alice acreditar que estava apaixonada.
   Gemendo, esmagou-lhe a boca com a sua prpria e moveu a mo entre as coxas da mulher. Os murmrios extasiados de Alice eram mais doces que as tmaras embebidas 
em mel; mais potentes que o elixir de um alquimista. quanto mais a saboreava, mais a desejava. Estava imerso em um desejo insacivel.
   Levantou as saias de Alice at a cintura e lhe separou as pernas de modo que ficasse encaixada sobre ele. A fragrncia desse corpo o encheu de uma ansiedade aterradora.
   Livrou-se por completo dos cales e empurrou, at encontrar as ptalas midas e turgentes que ocultavam a entrada da cidadela secreta. Penetrou-a com um cuidado 
que levou ao limite o domnio de si. Sentiu-a iincrivelmente apertada ao redor de si. Foi como se abrisse passagem pela entrada estreita passo a passo de uma caverna.
   Tal como supunha, Alice era virgem.
   "Tenho que ser cuidadoso -disse-se-. No devo me apressar para invadir este castelo."
   O esforo para se  controlar o fez apertar a mandbula.
   Atravessou lentamente mas com firmeza as frgeis barreiras, at que os dois corpos ficaram midos de transpirao. As unhas de Alice cravaram-se na tnica.
   -Est bem?-disse, em um murmrio rouco-. Lhe causo dor?
   -Sim, um pouco.
   Hugh fechou os olhos reunindo foras, reprimindo-se.
   -No quero que seja assim. Quer que me detenha?
   -No.
   Exalou um breve suspiro de alvio. Para ser franco, no estava seguro de ter  vontade suficiente para interromper o que tinha comeado.
   -Avanarei devagar -prometeu.
   Alice afastou a abertura do pescoo da tnica de Hugh e lhe mordeu brandamente o ombro.
   -No quero que v devagar. Quero terminar rpido com isto.
   Hugh gemeu.
   -Supe-se que tem que ser algo prazeiroso, no algo que exija coragem.
   -Interromper-o quando lhe ordenar isso?
   
   Hugh flexionou as mos sobre os quadris da mulher.
   -Possivelmente tenha razo. Ser menos doloroso se o fizermos rpido.
   -Ento, faa-o.
   Sem aviso, Alice afundou os dentes em seu ombro.
   "Por todos os diabos!" Sobressaltado pela dor breve, aguda, e totalmente inesperada, Hugo a apertou sem avis-la e, contendo o flego, empurrou para baixo.
   Alice lanou um grito, mas o homem no podia retroceder embora tivesse querido. Os ltimos restos de domnio sobre si foram feitos em pedaos igualmente  frgil 
barreira que guardava a castidade de Alice.
   
   Soltas as amarras com que controlava boa parte de sua vida, Hugh penetrou profundamente , e esta se apertou com ferocidade ao seu redor, estreita e quente.
   L fora, a tormenta chegou ao clmax. Ao longe, piscou um relmpago. A chuva rugia sobre os escarpados de pedra. O mundo se reduziu  caverna onde esse homem 
e essa mulher jaziam juntos. "No h nada mais que importasse-pensou Hugh-. Nada."
   Ouviu que Alice gemia baixinho. Colocou a mo entre os dois corpos, encontrou o diminuto casulo tenso de carne feminina, e o tocou.
   A moa ficou tensa e gritou. Delicados tremores a estremeceram.
   
   
   Hugh se elevou uma e outra vez, afundando-se na estreita passagem, at que sentiu que o mundo girava ao redor. Um trovo sacudiu os escarpados, um alvio percorreu 
o interior do homem. Era uma liberao muito diferente de todas as que tinha experimentado. Pela primeira vez em seus trinta anos, soube o que era consumir-se de 
paixo. Entendeu por que os poetas queriam dar outro nome mais glorioso a essa intensa sensao.
   Por um breve instante, acreditou compreender por que o chamavam amor.
   Muito depois, Alice se moveu. Percebeu um definido ardor entre as pernas, mas sentiu um estranho contentamento. Uma parte dela contemplava o futuro com nova esperana.
   Esse dia, com o Hugh, viajou a uma terra nova, fascinante. Estava segura de que a experincia que acabavam de compartilhar os ligaria. Abriu os olhos e o achou 
contemplando-a com olhar fixo. Parte do regozijo se esfumou, e compreendeu imediatamente que os sinais de ternura e vulnerabilidade que acreditou ter descoberto 
nele se evaporaram. O sombrio cavalheiro voltava a cobrir-se com o manto de sua prpria lenda.
   Os sonhos flamejantes do futuro se apagaram dolorosamente. "Devo ter pacincia -disse-se-. Hugh no  o tipo de homens capaz de mudar da noite para o dia."
   
   Tentou pensar em algo brilhante e fascinante que dizer, o que poderia dizer uma mulher em sua situao, uma mulher que acabasse de compartilhar um momento apaixonado 
com um cavalheiro legendrio. Algo que lhe tocasse o corao, algo mgico. 
   Clareou a voz.
   -Acredito que parou de chover, milorde. 
   -Est bem?
   -Claro que sim. Por que no ia estar? Que pergunta mais tola.
   A boca dura se curvou um pouco em um sorriso.
   -Pareceu-me que, nestas circunstncias, era correto perguntar.
   A moa pensou que no devia ser muito mais perito que ela neste tipo de conversaes, e isto a alegrou.
   -Como meu comentrio a respeito da chuva?
   A expresso do homem se suavizou.
   -Sim. -Fez-a sentar-se junto a ele, e franziu o cenho ao ver que fazia uma careta-. Alice!
   -No  nada, milorde. Tratou, com estupidez, de arrumar o vestido, mas antes de que pudesse acomodar as saias, Hugh lhe tocou a parte interna da coxa. ruborizou-se, 
envergonhada, quando retirou os dedos manchados de uma substncia avermelhada.
   Hugh olhou a mo.
   -Alice, temos que conversar.
   -Da chuva ou de minha sade?
   -Do matrimnio.
   Alice interrompeu a tarefa de acomodar o vestido.
   -Isto  muito, senhor. Uma coisa  que o chamem o Implacvel, e outra muito diferente sentir-se obrigado a merecer o apelido a todo momento.
   -Alice...
   -Como te ocorre estragar um momento to agradvel voltando para nossa velha discusso, antes de que possa arrumar as saias?
   
   
   
   
   
   -Um momento to agradvel? Isso foi para voc?
   Ruborizou-se.
   -No, milorde, mas imaginei que para voc no representava outra coisa. No me dir que  a primeira vez que faz o amor com uma mulher. -interrompeu-se. A possibilidade 
de que fosse a primeira vez para os dois a alagou de uma felicidade radiante-. Ou sim?
   Hugh entreabriu os olhos.
   - a primeira vez que fao amor  com uma mulher a que estou prometido.
   -Ah. -" obvio que no  virgem -pensou-. Tem trinta anos, e  homem. E no est obrigado  castidade pela honra" -. Bom, no vejo por que tem que ser to diferente.
   Hugh lhe agarrou o queixo com o punho.
   -Em momentos como este, a maioria das mulheres se alegrariam de falar de matrimnio.
   -Eu preferiria falar do tempo.
   - uma pena, porque vamos falar de matrimnio.
   "At que aprenda a me amar, no", prometeu-se para si.
   -Senhor, recordo-o que temos feito um trato.
   -O que acaba de passar aqui o modificou, Alice. Est em jogo a honra.
   Alice conteve o flego ao ver que a deciso resplandecia nos ambarinos olhos. No manifestava emoes tenras, no falava de amor, nem mesmo de paixo. como sempre, 
Hugh escolhia o caminho mais direto para um objetivo. No permitiria que nada se interpor, e menos at o corao de uma mulher. Seu esatmago se contraiu.
   -Senhor, se pensou em fazer o amor comigo, como armadilha para me obrigar casar, cometeu um grave engano.
   O homem pareceu alarmar-se, mas logo relampejou a clera em seus olhos.
   -Era virgem!
   -Sim, mas isso no muda nada. Como nunca pensei em me casar, no tinha a obrigao de guardar minha virgindade para meu marido.  Sou to livre como voc, senhor, 
e hoje decidi exercer essa liberdade.
   -Maldio,  a mulher mais obstinada que conheci -explorou-. Talvez voc seja livre, mas eu no. Nesta questo, estou obrigado por minha honra.
   -O que tem que ver com isto a honra?
   
   - minha prometida. -Fez um gesto de indignao masculina-. E acabamos de consumar este matrimnio.
   -Em minha opinio, no. A lei cannica no  muito clara neste aspecto.
   -Pelos ossos do diabo, mulher! -vociferou-. No me fale como se tivesse estudado os detalhes mnimos da lei em Paris e Bolonha. Pelo que falamos aqui  de minha 
honra. Neste sentido, tenho que aplicar meu prprio julgamento.
   Alice piscou.
   -De verdade, senhor, comporta-te como se estivesse muito alterado. Estou segura de que quando tiver podido acalmar os nervos...
   
   -Meus nervos esto bem, obrigado. O que tem que preocupar-se,  minha clera. me escute bem, Alice. Cruzamos o rio que separa o compromisso do matrimnio. J 
no h margem que distinguir entre ambas as situaes.
   -Bom -replicou com recato-, quanto  legalidade, acabo de dizer que a lei  um tanto vaga neste sentido.
   -No, senhora, no  vaga absolutamente. Mais ainda, se pensa levar este assunto ante as Cortes da Igreja, asseguro-a que  isso que acontecer.
   -Meu senhor,  evidente que est muito excitado.
   -E mais -acrescentou, com ameaadora suavidade-, o diabo ter sua parte muito antes de que a Igreja comece a tratar seu caso. Explico-me com clareza?
   Ante a franca ameaa, a deciso da Alice fraquejou. Tragou saliva e tentou reunir coragem.
   -Senhor, advirto-lhe, no aceitarei que me intimide ou me obrigue a casar.
   - tarde para retroceder, Alice. Temos que seguir adiante com esta mudana de situao.
   -No, o trato se mantm. Ainda no me decidi. Mais ainda...
   Algo se moveu na penumbra, ao outro extremo da caverna. Alice olhou por cima do ombro do Hugh, e o protesto morreu em sua garganta. Por um instante, o puro terror 
a deixou muda. 
   -Hugh!
   
   Em uma piscada, estava de p. O ao vaiou contra o couro quando tirou a espada da bainha e voltou-se para enfrentar-se  ameaa que se materializou atrs dele. 
Cobriu-o uma capa invisvel de tenso prpria do homem disposto para a luta.
   
   Alice ficou de joelhos e espiou alm de Hugh. Da escurido de um tnel dissimulado emergiu uma silhueta encapuzada. Levava na mo uma tocha quase apagada.
   -Sado-o, lorde Hugh -disse Calvert do Oxwick com essa voz rouca.
   Hugh guardou de repente a espada na bainha. -Monge, que diabos est fazendo aqui?
   
   -Estava ocupado com minhas preces. -Os olhos do sujeito ardiam nas sombras--. Ouvi vozes e vim ver quem tinha invadido as cavernas. Temia que fossem ladres.
   -Estava orando? 
   -Enfiou a tnica pela cabea e ajeitou a correia da espada com movimentos prticos e velozes
   - Em uma caverna?
   Calvert deu a impresso de meter-se mais dentro do capuz.
   -Encontrei um lugar no fundo destas cavernas, onde se pode orar sem as distraes do mundo exterior. Uma humilde cmara de pedra que se adapta bem s modificaes 
da carne.
   -Parece um lugar muito agradvel -replicou Hugh, com secura-. Por minha parte, prefiro um jardim, mas cada um  livre. No tema, monge. Minha prometida e eu no 
interromperemos mais suas preces.
   Agarrou o brao de Alice e a tirou da caverna com a mesma graa arrogante que podia ter usado para acompanh-la ao sair da cmara de audincias real.
   Calvert no disse nada enquanto os via sair. ficou onde estava, na penumbra. De todo o corpo esqueltico emanava a recriminao como um vapor quase evidente. 
Alice sentia seu olhar, ardendo de indignao, como se lhe queimasse as costas.
   
   
   
   
   
   -Ter-nos visto fazendo amor, milorde? -perguntou, ansiosa.
   -No importa.- Claramente, a ateno de Hugh estava concentrada em escolher um caminho seguro para descer a ladeira. Dava a impresso de no conceder a menor 
importncia a Calvert.
   -Mas seria muito desagradvel que difundisse falatrios.
   
   -Se esse monge tiver um pingo de prudncia, deixar a lngua quieta. -Guiou a Alice ao redor de um grupo de matas-. E at se falasse do que nos aconteceu, quem 
se importaria? Estamos prometidos. apresentariam-se dificuldades s se negasse a cumprir a promessa definitiva de matrimnio.
   -No desperdia nenhuma oportunidade de perseguir sua meta, no  assim?
   -Faz muito compreendi que a deciso e a vontade so os nicos meios de chegar a meus objetivos. -Sustentou-a com firmeza quando as botas brandas escorregaram 
sobre umas pedras-. A propsito, tenho que viajar a Londres por questes de negcios. Estarei fora uns dias, no mximo, uma semana.
   -A Londres? -deteve-se de repente-. Quando parte?
   -Amanh pela manh. 
   -Ah. Alice sentiu uma inesperada pontada de desiluso. Ante ela se estendia, aborrecida, uma semana inteira sem o Hugh. No haveria ferozes briga, nem momentos 
arrebatados de paixo, nem excitao.
   -Como minha prometida, ficar encarregada dos assuntos aqui, em Scarcliffe, enquanto eu permanea ausente. 
   -Eu?
   Olhou-o atnita.
   -Sim. -A expresso de Alice  o fez sorrir -. Deixarei tudo em suas mos. Estar segura. ficaro aqui Dunstan e todos meus homens menos dois para cuidar do castelo 
e as terras. Julin, meu mensageiro, tambm ficar. Se precisar me fazer chegar alguma  mensagem, pode envi-lo a Londres.
   -Sim, milorde.
   De repente, com o peso inesperado de novas responsabilidades, sentiu que a cabea lhe dava voltas. Hugh lhe confiava o cuidado de seu prezado Scarcliff.
   -Como  nos casaremos quando eu voltar -adicionou Hugh, como quem no quer nada-, tambm poderia aproveitar o tempo e preparar para celebrar as bodas.
   -Por todos os Santos, senhor, quantas vezes devo te dizer que no me casarei s porque este matrimnio lhe parea eficaz e conveniente?
   -Senhora, acredite em mim, a eficcia e a convenincia no so seus pontos mais fortes. Ah, outra coisa.
   -O que, milorde?
   Hugh se deteve. tirou-se do dedo o anel de nix negro.
   -Levar isto.  o emblema de minha autoridade. Ao lhe dar isso quero que compreenda que confio em voc  e a apio como uma verdadeira esposa...
   -Mas, Hugh...
   
   -Ou uma scia comercial slida -terminou, com uma careta-. Tome, Alice. -O ps na mo e lhe dobrou os dedos sobre a jia. Por um instante, agarrou-lhe o pequeno 
punho-. Quero que lembre-se de algo que  de igualmente importante.
   O corao da Alice deu um salto.
   -O que
   
   -Jamais deve entrar sozinha nestas cavernas. Entendeu?
   Alice franziu o nariz.
   -Sim, senhor. Deixe-me te dizer que fez bem em escolher a carreira de cavalheiro. No teria xito como poeta nem como trovador, pois no tem talento para as belas 
palavras.
   Hugh ergueu os ombros. -Se necessitasse delas, recorreria a um poeta ou a um trovador talentosos.
   -Sempre recorre ao mais perito, n, milord? No  essa sua regra preferida?
   -Alice, queria te perguntar uma coisa. Olhou-o.
   -O que?
   -Recentemente me disse que, como no pensava em se casar nunca, no se sentia obrigada a conservar a virgindade para um marido.
   Alice contemplou a paisagem de  Scarcliffe.
   -E ento?
   O rosto duro do Hugh estava crispado.
   -Se no achava motivo para evitar a intimidade fsica, por que a evitou at agora?
   -Por uma razo bvia, claro -respondeu, a contra gosto.
   A expresso do Hugh era desconcertada.
   -Qual  a razo bvia?
   -At agora no encontrei a um homem que me atrasse. Afastou-se colina abaixo, deixando que Hugh a seguisse.
   
   Alice dava voltas ao cristal verde entre as mos. Pela centsima vez, observou como a luz que entrava pela janela do estudio se movia pela superfcie lavrada. 
Como sempre, teve a sensao de que havia algo nessa pedra que no compreendia.
   Era como se albergasse um segredo que esperasse ser descoberto por ela.
   A mesma sensao tinha com respeito a Hugh.
   
   "Teria que me alegrar de me liberar de sua presena por uns dias -disse-se-. Poderei pensar em paz e com tranqilidade, e talvez possa chegar a uma sbia deciso."
   Tirou-a dos pensamentos um golpe brusco na porta do estudio.
   -Entre.
   -Alice? -Apareceu a cabea de Benedict pela porta. Tinha o semblante radiante de excitao-. No imagina o que passou.
   -O que?
   -Vou viajar a Londres com sir Hugh. -A bengala tamborilou o cho com impacincia  medida que Benedict entrava na habitao. Levava o baco de Hugh metido em 
um saco, no cinturo-. Londres, Alice!
   -Invejo-o. -Alice compreendeu que fazia meses que no via resplandecer desse modo o rosto de seu irmo. e tambm que essa mudana sbita se devia ao Hugh-.  
muito afortunado. Ser uma experincia maravilhosa.
   -Sim. -Balanou o fortificao e se esfregou as mos contente--. Devo ajudar a lorde Hugh nos negcios.
   Alice estava atnita.
   -De que maneira? No sabe nada de negcios.
   -Disse que me ensinar tudo o que se refere ao comrcio de especiarias. Serei seu assistente. -Assinalou o baco-. J comeou a me ensinar a usar este instrumento 
assombroso. Pode-se somar, subtrair e at multiplicar e dividir com ele.
   -Quando disse lorde Hugh que o levaria com ele a Londres? -perguntou-lhe, marcando as palavras.
   -Recentemente, quando estvamos jantando no salo.
   -Entendo. -recordou algo-. Benedict, queria te perguntar algo, e tem que me responder com franqueza.
   -Sim.
   -No salo principal, comentou-se algo a respeito de que eu no janto ali?
   Benedict ia falar, mas mudou de idia. -No.
   -Est seguro? Ningum disse que era uma falta de respeito para lorde Hugh que eu no comesse com outros?
   Benedict se removeu, incmodo.
   -Sir Dunstan me disse que ontem um homem fez um comentrio a respeito. Lorde Hugh o ouviu e o tirou do salo.
   Sir Dunstan diz que ningum mais se atrever a falar mais disso.
   Alice apertou os lbios.
   -Mas, sem dvida, pensaro-o. Hugh tinha razo. 
   -No que
   -No importa. -levantou-se-. Onde est?
   -Quem, lorde Hugh? Acredito que est em seus aposaentos. Disse algo a respeito de se despedir do Elbert, o novo mordomo.
   -Disse isso? -Alice esqueceu a inteno de desculpar-se ante o Hugh por qualquer humilhao que pudesse lhe haver infligido-. No pode faz-lo. No o permitirei. 
Elbert chegar a ser um mordomo perfeito.
   Benedict fez uma careta.
   -Hoje, ao servir a lorde Hugh, conseguiu derrubar uma jarra de cerveja em seu  colo.
   -Sem dvida foi um acidente. -Deu a volta a mesa e foi para a porta-. Tenho que solucionar isto.
   -Alice, possivelmente faria bem em deix-lo tranqilo. Ao final de contas, o amo aqui  lorde Hugh.
   Alice no fez caso da advertncia de seu irmo. recolheu as saias e correu pelo corredor para a escada. Quando chegou ao piso inferior, girou rapidamente e foi 
diretamente pelo corredor ao quarto  onde Hugh atendia os assuntos comerciais.
   Alice se deteve na entrada e olhou no interior do aposento. Elbert estava ante a mesa de Hugh, tremendo. Tinha a cabea encurvada; um gesto que refletia a reprimenda 
sofrida.
   -O p-peo perdo, milorde -murmurou Elbert-. Esforcei-me muito por cumprir minhas tarefas como me ensinou lady Alice. Mas no sei o que me passa cada vez que 
estou em sua presena.
   -Elbert, eu no quero lhe  tirar de seu posto -disse Hugh com firmeza-. Sei que lady Alice o escolheu. Mas j no suporto mais sua estupidez.
   -Milorde, se me desse outra oportunidade... -comeou a dizer. .
   -Acredito que seria uma perda de tempo. 
   

   -Mas, senhor, desejo muito ser mordomo. Estou sozinho no mundo, e preciso ter uma carreira.
   -Entendo. Mas de todos os modos...
   -Este castelo  meu nico lar. Minha me viveu aqui, em Scarcliffe, quando meu pai morreu. Queria entrar em um convento, sabe? Encontrei lugar nesta casa com 
o ltimo amo, sir Charles. Mas o mataram, e veio voc, e...
   Hugh interrompeu a explicao.
   -Sua me est no convento da regio? 
   -Estava. Morreu no inverno passado. No tenho onde ir.
   -No ser obrigado a partir de Scarcliffe -tranqilizou-o-. Encontrarei outro posto. Possivelmente, nos estbulos.
   -Os est-estbulos? -Elbert se mostrou abatido-. Mas tenho medo dos cavalos, milorde.
   -Ser melhor que domine logo essa ansiedade -respondeu, sem a menor simpatia-. Pois os cavalos percebem o medo.
   -Sim, milorde. -Os ombros de Elbert estavam cansados-. Tentarei-o.
   -No, no far tal coisa, mordomo. -agarrando as  saias, Alice entrou em pernadas na habitao-. Cobre todos os requisitos para o posto atual, e isso  o que 
far. S necessita um pouco de prtica e experincia.
   Elbert virou-se para ela, com expresso de medo nos olhos.
   -Lady Alice.
   Hugh a olhou.
   -Eu me ocuparei disto, senhora.
   A moa foi at a mesa e se inclinou tanto que o vestido se penseu sobre o cho de pedra.
   Fez uma graciosa reverncia de splica.
   -Milorde, rogo que d tempo a Elbert para adaptar-se a suas tarefas antes de despedi-lo.
   Hugh levantou uma pluma e tamborilou distrado com ela sobre a mesa.
   -Senhora, no sei por que, mas cada vez que a vejo desdobrar suas melhores maneiras, ponho-me em guarda.
   A ltima vez que o fez, terminei chegando a um acordo que no me trouxe mais que problemas.
   Alice sentiu que lhe ardiam as faces, mas no se intimidou.
   -Elbert s necessita tempo, milorde.
   -J teve vrios dias para adaptar-se ao trabalho, e no houve muitas melhoras. Assim como vo as coisas, terei que fazer vrias tnicas at que termine o inverno
   -Se fizer falta, eu me encarregarei das novas tnicas, senhor -reps Alice-. O que atrapalha Elbert  o desejo de lhe agradar. -incorporou-se-. Estou segura de 
que necessita um pouco de instruo e mais prtica.
   -Alice-disse Hugh --. No tenho tempo para isto. H muito que fazer aqui. No posso me permitir um mordomo mau preparado.
   
   -Senhor, peo-te que lhe permita familiarizar-se com suas responsabilidades enquanto esteja em Londres. Eu mesma lhe ensinarei a realizar as tarefas. Quando voltar, 
poder avali-lo outra vez. Se ainda o achar deficiente, poder despedi-lo.
   Hugh se reclinou com lentido na cadeira e a contemplou por debaixo das pestanas.
   -Outro trato, senhora?
   Ruborizou-se:
   -Sim, se estiver de acordo.
   -Desta vez, o que tem que oferecer?
   Ao ver o brilho nos olhos do homem, Alice conteve o flego. A indignao arrasou com as boas maneiras.
   -Ofereo formar um bom criado, senhor. Penso que isso  suficiente.
   -Ah. -Esboou um debil sorriso-. Essa atitude se parece mais  dama que conheo. Est bem. Tem os prximos dias para converter ao Elbert em um professor em seu 
ofcio. Quando voltar, espero que esta casa esteja dirigida por um perito. Entendido?
   -Sim, milorde.
   Sorriu confiante.
   -Elbert?-perguntou Hugh.
   -S-im, milord. -Fez vrias reverncias-. Praticarei com empenho, senhor.
   -Esperemos que sim.
   Elbert se ajoelhou ante a Alice, agarrou-lhe a prega da saia e a beijou com ardor.
   -Obrigado, milady. No posso dizer quo agradecido estou a senhora por sua confiana em mim. Esforarei-me ao mximo e terei xito em meu encargo de me converter 
em um grande mordomo.
   -Ser-o -assegurou-lhe Alice.
   -Basta -disse Hugh-. Saia, mordomo. Quero estar a ss com minha prometida.
   -Sim, milorde.
   Elbert se levantou de um salto e foi para a porta fazendo reverncias.
   Quando tropeou com a parede, Alice fez uma careta. Viu que Hugh erguia os olhos ao cu, mas no dizia nada.
   Elbert se endireitou de repente e fugiu.
   Alice se voltou para o Hugh.
   -Obrigado, milorde
   
   
   
   -Trata de impedir que destrua todo o castelo enquanto estou ausente.
   -Estou segura de que o castelo do Scarcliffe estar em p quando voltar. -Alice vacilou-. Inteirei-me que pensa em levar meu irmo.
   -Sim. Acredito que Benedict tem talento para os nmeros. Vem-me bem um assistente com essa destreza.
   -Tinha pensado que estudasse leis -disse Alice lentamente.
   -Ope-te ao interesse de seu irmo pela contabilidade e o comrcio?
   -No. Para ser sincera, fazia muito tempo que no o via to feliz como esta tarde. -Sorriu-.  teu mrito, milorde.
   -No tem muita importncia. Repito-te: convm-me incentivar suas destrezas. Sero-me teis. -Passou a pluma entre os dedos, alisando-a-. Alice, sentir minha 
falta enquanto eu estiver em Londres?
   Adivinhando uma armadilha, Alice retrocedeu rapidamente e lhe dirigiu um radiante sorriso.
   -Isso me recorda a que devo avisar  madre Joan. Quero que na missa de amanh pela manh se digam preces especiais.
   -Preces especiais?
   -Sim, milorde. Por uma boa viagem.
   Deu a volta e saiu do escritrio.

   
   -Parece-me que no presta ateno ao jogo, senhor. Comerei seu bispo.
   Hugh olhou o tabuleiro de cristal negro com expresso pensativa.
   -Isso parece. Foi um movimento ardiloso, senhora. 
   -Foi um jogo de meninos.
   Alice o observou com crescente preocupao,
   Pareceu-lhe que atuava de maneira estranha. Tinha-a convidado para jogar com ele uma partida de xadrez frente  chamin e Alice aceitou entusiasmada. Mas, desde 
a primeira jogada, era evidente que tinha a cabea em outra lugar.
   -Vejamos se posso me recuperar.
   Apoiou o queixo na mo e observou o tabuleiro. -Os preparativos para a viagem esto em ordem. Amanh, poder partir logo depois da missa. O que o preocupa, senhor?
   Hugh lhe lanou um olhar fugaz e ergueu um pouco de ombros.
   -Estou pensando em meu suserano.
   -Sir Erasmus?
   
   -Tenho intenes de visit-lo quando estiver em Londres. Julian me contou que foi ali a consultar a mais mdicos.
   -Sinto muito -murmurou Alice.
   Hugh apertou a mo em um punho.
   -No se pode fazer nada mas, por Deus, faz uns meses parecia to forte e so...
   Alice fez um gesto de simpatia.
   -Sei quanto o sentir falta de.
   Hugh se reclinou e ergueu a taa de vinho especial. Fixou a vista nas chamas.
   -Tudo o que tenho hoje o devo a ele. Meu ttulo de cavalheiro, minha instruo, minhas terras. Como se devolve semelhante favor?
   
   Essa noite, Alice interrompeu o movimento de uma pea de xadrez, de pesada calcedonia negra, e olhou, carrancuda, ao Hugh. 
   -Com lealdade. e todo mundo sabe que a guardas a sir Erasmus, senhor.
   - pouco.
   Bebeu um gole.  luz das chamas, a cara parecia sombria.
   Alice disse em tom dbio:
   -Quais so os sintomas, senhor?
   -O que?
   -Os sintomas da grave enfermidade. Quais so, exatamente?
   Hugh franziu o cenho.
   -No estou muito seguro. Alguns so imprecisos. sobressalta-se com facilidade, como se fosse uma lebre medrosa em lugar de um guerreiro experiente.  o que mais 
me chamou a ateno a ltima vez que o vi. Agora, est sempre ansioso. No pode dormir. Emagreceu. Contou-me que, s vezes, o corao lhe pulsa como se estivesse 
correndo.
   Alice ficou pensativa.
   -Um homem da fama de sir Erasmus deve ter participado de muitas batalhas.
   -Assim , comeando pelas Cruzadas, nas que participou quando tinha dezoito anos. Uma vez me contou que sua viagem a Terra Santa foi o pior de toda sua vida, 
embora lhe brindou glria e riqueza. Disse que viu coisas terrveis ali, coisas que nenhum homem decente deveria ver.
   Alice recordou at muito tarde as palavras do Hugh. Como no podia dormir, levantou-se da cama e colocou o robe.
   
   Acendeu uma vela e saiu da habitao sem fazer rudo. Caminhou brandamente pelo corredor frio at seu prprio estudio e entrou. Apoiou a vela na mesa, perto do 
cristal verde, e estirando-se, tomou o livro de notas de sua me, que estava na prateleira.
   Leu-o uma hora, at que encontrou o que procurava.
   
   
   
   Captulo 13
   
   - a debilidade natural da mulher a que a leva a tentao -vociferou Calvert do plpito da pequena igreja da aldeia  manh seguinte-. Em sua estpida arrogncia, 
procura elevar-se por cima do homem em toda ocasio, e assim pe sua alma em perdio.
   A multido que enchia a igreja se removeu, incmoda. e Alice, em meio desse movimento ondulante, sentiu-se furiosa. No tinha estado to zangada desde o dia em 
que sir Ralf instalou  seu filho mais velho no imvel de sua famlia.
   Esse estpido sermo de Calvert no era o que ela tinha pedido para o servio matinal. No dia anterior, mandou uma mensagem  madre Joan lhe dizendo que queria 
preces especiais dedicadas  viagem de Hugh a Londres.
   Difundiu-se rapidamente a notcia de que o novo lorde e sua prometida assistiriam  missa matinal na igreja da aldeia em lugar da capela privada do castelo. Quase 
toda a populao da diminuta aldeia do Scarcliffe e as freiras do convento pretendiam desfrutar do sucedido. No era todos os dias que podiam rezar em companhia 
do senhor do feudo.
   Alice, sentada junto a Hugh na primeira fila, estava satisfeita com a mudana at que veio o desastre, na forma de Calvert do Oxwick.
   Joan acabava de terminar as primeiras oraes e comeava uma formosa narrativa sobre os perigos do caminho quando o monge irrompeu na igreja.
   Calvert bateu com a bengala no cho de pedra enquanto se abria passo at a frente da multido. A vestimenta castanha ondulou ao redor dos ps calados com sandlias. 
Quando chegou ao plpito, ordenou a Joan que se sentasse junto com as freiras. A madre vacilou, mas depois obedeceu com os lbios apertados. A Igreja insistia em 
que, se havia um homem, fosse ele quem se instalasse depois do plpito.
   
   Calvert se acomodou depois do suporte de livro de madeira e se lanou a um sermo contra os demnios das mulheres. 
   Era um tema bastante trilhado, que era familiar a todos os pressente. Os sacerdotes visitantes e os monges originais eram muito adeptos aos sermes que reprovavam 
s mulheres e advertiam aos homens da tentao que representavam.
   
   -Vocs, frgeis pecadoras, filhas de Eva, saibam que sua nica esperana de salvao consiste em lhes submeter a seus maridos. Devem aceitar o poder deles sobre 
vocs, pois isto  o que ordena o Divino Criador.
   Alice se encolerizou, e olhou ao Hugh de lado. Parecia aborrecido. A moa cruzou os braos e comeou a golpear com o p no cho.
   -Os fogos do inferno queimam mais s mulheres fracas que se atrevem a elevar-se acima dos homens.
   As mulheres suportavam o sermo do monge com desgosto mau encoberto. J o tinham ouvido antes, muitas vezes.
   Joan se moveu um pouco no assento e se inclinou para lhe sussurrar a Alice:
   -Peo-lhe desculpas, senhora. Sei que no  esta a classe de prece que queria esta manh.
   -Atrevem-se a falar em voz alta na igreja -trovejou Calvert-, sem preocupar-se de que os homens virtuosos no querem ouvir o barulho de suas lnguas. Regem as 
casas religiosas assumindo a autoridade, como se tivessem os direitos e privilgios dos homens.
   Alice o olhou com os olhos entreabertos. O sujeito continuou, como se no visse a fria que provocava ou como se no lhe importasse. Seu olhar penetrante se cravou 
nela.
   
   -Algumas, entregam-se a prticas luxuriosas com os cavalheiros mais nobres e fortes. Pobre do homem que escuta os sussurros de semelhante mulher. Descobrir que 
se enfrequece. Descobrir que est a merc dessa fmea, e que isto  trabalho do demnio.
   Alice paralisou ao compreender que o monge fazia aluses pessoais.
   -Empregar as partes sujas de seu corpo pecaminoso para atrair  vtima a lugares ocultos. Ali, cair sobre ele como um morcego na noite.
   -Por todos os Santos -murmurou Alice.
   J havia resposta para uma pergunta: Calvert a tinha visto em cima de Hugh na caverna. A vergonha se perdeu em uma corrente de ira.
   
   -Tomem cuidado. -Calvert olhou para Hugh-. Todos os homens esto em perigo. Para que conserve seu autntico lugar na ordem natural do mundo, ter que estar sempre 
alerta. Dever usar armadura contra as mulheres, do mesmo modo que se veste de ao para ir  guerra.
   -Basta! -Alice se levantou de um salto-. No quero ouvir mais esta estpida mensagem, monge. Pedi preces para a viagem de meu futuro esposo e no este absurdo.
   Entre os presentes correu um murmrio escandalizado. Todas as cabeas se voltaram para Alice. Pela extremidade do olho, viu que Hugh sorria.
   
   -A mulher a que o homem no manda como  devido  uma afronta a todos os homens honestos em qualquer lugar. -Calvert lanou um olhar ao Hugh, como esperando ajuda 
de sua parte-.  dever do marido controlar a lngua da esposa.
   
   Hugh no se moveu. Observava a Alice com enorme interesse e com um olhar de fria diverso.
   
   -Saia do plpito, Calvert do Oxwick -ordenou Alice-. No gostamos de  escutar aqui seus sermes. Difama e critica todas as boas mulheres desta aldeia e do convento 
com o veneno de suas palavras. Calvert a apontou com um dedo acusador:
   -Me escute -exclamou, com voz trmula de ira-. O veneno que menciona  um antdoto contra a maldade de sua natureza feminina. Faria bem em tomar como remdio 
eficaz, e salvar assim sua alma imortal.
   -Confiarei minha alma a aqueles que compreendam o verdadeiro sentido da compaixo divina, monge, no a voc. Quero que se v hoje mesmo desta igreja e desta aldeia. 
No tolerarei estes insultos.
   
   O rosto do Calvert se contraiu de fria. -O cabelo vermelho e os olhos verdes testemunham sua natureza indmita, senhora. S posso rogar que seu futuro amo e 
senhor esmague esse caprichoso temperamento antes de que provoque graves danos a sua casa e a sua alma.
   -Lorde Hugh pode se cuidar sozinho -replicou_. V-se, monge.
   -Eu no aceito ordens de uma simples mulher.
   
   Hugh se moveu. Foi um movimento muito leve, apenas uma mudana de posio dos ombros poderosos, acompanhado de um aumento da frieza nos olhos, mas foi suficiente 
para atrair a ateno de todos os presentes.
   
   -Aceitar as ordens desta mulher -disse com muita calma-.  minha prometida. O anel que leva no dedo  sinal de autoridade. Uma ordem dela  igual a minha.
   Um aaah de satisfao se estendeu pela pequena igreja. O povo de Scarcliffe captou imediatamente o que o senhor queria dizer: o poder de Alice ficou firmemente 
estabelecido.
   
   -Mas... mas... milorde -resmungou Calvert-, no pensar entregar este plpito a uma mulher.
   -J ouviu minha noiva -disse Hugh-. Saia daqui, monge. Minha senhora prefere ouvir outras preces que no sejam as suas.
   Por um momento, Alice temeu que sofresse um ataque. Movia a boca, tinha os olhos esbugalhados e tremia todo o corpo como se se contrasse cada msculo.
   Do pblico se elevou uma onda de expectativa.
   E ento, sem dizer uma palavra, Calvert agarrou o bengala e saiu precipitadamente da igreja. 
   Fez-se silncio. O povo reunido olhava maravilhado, para Alice, que estava de p. Hugh a observava como se tivesse curiosidade por ver o que faria a seguir.
   Alice estava aturdida, no pelo que tinha feito mas sim porque Hugh a tinha apoiado com todo o peso de sua autoridade.
   Compreendeu que essa atitude no constitua uma pequena indulgncia mas sim ia muito mais  frente. Deixou claro a todos que, nesse territrio, Alice tinha poder. 
Era a segunda vez que demonstrava respeito para as decises da jovem. A primeira ocasio foi a tarde do dia anterior, quando permitiu que Elbert seguisse sendo o 
mordomo. E agora, tinha desafiado a um representante da Igreja mesmo para respaldar a escolha de Alice quanto a quem pronunciaria as preces.
   "Demonstrou-me um grande respeito", pensou, eufrica. Por certo, merecer tal grau de respeito de parte de Hugh o Implacvel era um prmio duramente conquistado. 
S o brindava a aqueles nos que, de verdade, confiava.
   -Obrigado, milorde-conseguiu murmurar.
   
   Hugh fez uma leve inclinao de cabea. A luz da manh que entrava em correntes pelas janelas deu calidez aos olhos ambarinos.
   
   -Possivelmente deveramos prosseguir com as preces, senhora. Eu gostaria de partir antes do entardecer.
   Alice se cobriu de um intenso rubor.
   
   -Claro, milorde. -Olhou a Joan-. Por favor, continue, madre. Meu senhor e  companhia os espera uma longa jornada.
   -Sim, milady. -Joan se levantou com uma graa que revelava sua origem nobre-. Terei supremo prazer em rezar para que sir Hugh tenha uma viagem segura. E que retorne 
logo. Estou segura de que todos os presentes sentem o mesmo. 
   Vrias freiras dirigiram amplos sorrisos a Alice enquanto se deixava cair no banco. Quo nica permaneceu sria foi Katherine. Alice pensou por um instante se 
estaria sofrendo um de seus ataques de melancolia.

   Com ar aprazvel, Joan voltou para frente da igreja. Concluiu o breve e alegre sermo aconselhando precauo nos caminhos e terminou com preces para que os viajantes 
chegassem sem contratempos.
   Estas ltimas foram pronunciadas em bom latim. Era muito duvidoso que algum, alm da Alice, Hugh, Benedict e as freiras entendessem o verdadeiro significado, 
mas mesmo assim, os aldeos as desfrutaram.
   Alice fechou os olhos e ofereceu sua prpria prece.
   Senhor Bem amado, cuida destas duas pessoas que amo tanto, e guarde bem aos que viajam com eles.
   Uns minutos depois, deslizou a mo pelo banco de madeira, at tocar a mo de Hugh. Ele no olhou, mas seus dedos se apertaram com fora em volto dos dela.
   
   Instantes depois, os fiis saram pela porta da igreja para ver a partida. Alice ficou na escadaria e viu como montavam Hugh, Benedict e os dois soldados que 
os acompanhavam.
   Distrada pela comoo que provocou Calvert, Alice quase esqueceu o presente de despedida de Hugh. No ltimo momento se lembrou do molho de ervas e das indicaes 
que tinha anotado.
   -Um momento, milorde. -Colocou a mo em um saquinho que se dependurava do cinturo e correu para ocavalo de Hugh-. Quase o esquecia. Tenho algo para que d a 
seu suserano.
   Olhou-a de cima.
   
   -O que ? 
   -Quando me descreveu os sintomas de sir Erasmus a outra noite, resultaram-me familiares. -Alcanou-lhe as ervas e a carta com instrues-. Minha me anotou esses 
sintomas em seu livro.
   -Srio? Recebeu o pacote e o meteu na pequena bolsa que ele levava em seu cinturo.
   -Sim. Uma vez atendeu a um homem com sintomas parecidos. Tinha sofrido grandes penrias em batalha. No posso assegurar que sir Erasmus padea a mesma enfermidade 
que esse homem, mas talvez estas ervas o aliviem.
   -Obrigado, Alice.
   -Diga que tem que ordenar  curadora que siga as indicaes da carta com grande preciso. Ah, e no tem que permitir que os mdicos o sangrem. Compreende?
   -Sim, senhora.
   Alice retrocedeu, e deu  um sorriso trmulo. -Desejo-te boa viagem, milorde.
   -Retornarei dentro de uma semana -prometeu--. Com um sacerdote para celebrar nosso casamento.
   
   -Milorde, asseguro-lhe que no sei quem estava mais perplexo, se Alice ou o monge. -Montado em um robusto potro, Benedict sorriu-. No  fcil surpreender  Alice, 
sabe?
   Hugh sorriu apenas. Pela insistncia de Alice nas complicadas preces, partiram tarde, mas no o lamentava. Valeu a pena saber que lhe importava o suficiente para 
convocar toda a aldeia a pedir o amparo divino para os viajantes. Sabia que, sem dvida, a principal preocupao era para  Benedict, mas resolveu no permitir que 
o incomodasse.
   Foi o tipo de despedida que faz desejar a volta o mais breve possvel a seu lar. Hugh desfrutou ao saber que tinha seu prprio salo. E quase tinha uma esposa 
para completar o quadro. "Logo -disse- Muito em breve. J quase parece."
   Os dois soldados que acompanhavam a Hugh e Benedict cavalgavam para curta distncia detrs deles com os arcos preparados se por acaso topassem com delinqentes. 
Era uma possibilidade remota. At os ladres mais audazes vacilariam em atacar a quatro homens armados e com bons cavalos, um dos quais era, sem dvida, um cavalheiro 
instrudo. Se no os desalentava ver as armas, fariam-no as tnicas negras distintivas d Hugh.
   Os foragidos no s eram covardes por si, alm disso tinham a precauo de escolher a presa mais fcil. 
   
   
   Muito em breve Hugh deixou estabelecido que perseguiria a qualquer que se atrevesse a roubar aos que cavalgavam sob o amparo de sua bandeira ou da de Erasmus 
de Thornewood. Bastaram dois ataques para demonstrar que se podia acreditar nos juramentos do cavalheiro.
   
   -Perguntava-me quanto tempo poderia tolerar sua irm os desvarios de Calvert sem fazer nada -disse Hugh a Benedict-. Em realidade, surpreendeu-me que no falasse 
antes.
   Benedict o olhou sentido saudades.
   -Em outra poca, no teria suportado essa situao nem um momento. Acredito que Calvert durou tanto esta manh porque Alice estava insegura, senhor.
   -Insegura?
   -De suas prerrogativas. -Dava a impresso de que o moo escolhia as palavras com supremo cuidado-. Do grau de poder que tinha por ser sua noiva.
   -Sua irm est acostumada a exercer a autoridade.
   -Isso  verdade. -Fez uma careta que s podia fazer um irmo menor-. Para ser justo, no teve muitas alternativas. Sabe voc que teve que ocupar-se dos assuntos 
de meu pai durante anos.
   -Sei que seu pai no passava muito tempo em suas propriedades. E sua me?
   -Nossa me se conformava prosseguindo seus estudos. Com os anos, os trabalhos com as ervas se converteram no nico que lhe importava. Fechava-se em suas habitaes 
e deixava tudo nas mos de Alice. -e Alice demonstrou ser excelente para desempenhar as tarefas.
   -Sim, embora acredite que, em ocasies, sentia-se sozinha. -Benedict ficou carrancudo-. Acredito que era muito jovem quando sentiu o peso da responsabilidade 
pela primeira vez.
   -E depois ficou com a carga de reter o feudo de seu pai. .
   -Foi a primeira vez que fracassou em cumprir o que considerava seu dever. -A mo do moo se esticou nas rdeas-. No foi culpa dela. Carecia de poder para lhe 
fazer frente a nosso tio. Mas mesmo assim, sentiu-se culpada.
   -Ela  assim.
   
   Corrigiu-se para si: "Ns somos assim. Se eu tivesse tido um fracasso similar, tambm me sentiria arrasado, como me passa com o fracasso em vingar a morte de 
minha me".
   -No est em seu temperamento render-se ao destino. -No, sua irm  muito valente -disse Hugh, satisfeito.
   -Sim, mas s vezes me preocupo muito por ela. -Lanou a Hugh um olhar inquieto-. Em ocasies, a encontro de p diante da janela de seu quarto, olhando para o 
nada. Se lhe perguntar o que lhe passa, s diz que nada, ou que teve um pesadelo durante a noite.
   -No deveria envergonhar-se pela perda do imvel de seu pai. Sir Ralf me disse que liberou uma batalha muito valente para ret-la.
   -Sim. -Recordando-o, Benedict sorriu-. Escreveu muitas cartas de reclamao. Quando teve que aceitar o fracasso, disse que era um ultraje. Mas imediatamente ficou 
a trabalhar para pr em marcha o plano de me mandar a estudar leis e entrar ela mesma em um convento. Como v, Alice sempre tem algum plano.
   -Ela  assim.
   -Parece-me que a compreende bem, senhor.
   -Quem manda a outros deve entender o carter daqueles a quem pretende mandar.
   Benedict lhe lanou um olhar de aprovao.
   -Acredito que Alice estaria de acordo com essa afirmao. 
   Parece-me que no esperava que voc respaldasse sua autoridade como o fez hoje, senhor.
   
   -Sua irm  essa classe de pessoas que no est satisfeita se no tem responsabilidades e a autoridade que as acompanha. Necessita-o tanto como o ar que respira.
   Benedict assentiu.
   -Temos muito mais em comum do que ela supe. Possivelmente quando retornarmos tenha comeado a entend-lo.
   Aos olhos de Benedict apareceu a compreenso.
   -Este viajem a Londres  um de seus ardilosos planos, no  assim, senhor?
   Hugh sorriu, mas no disse nada.
   -Agora fica claro. -Na voz do moo havia um matiz de admirao-. Quer demonstrar a Alice que confia nela, no s para fiscalizar o castelo de Scarcliffe mas tambm 
o imvel. Quer lhe demonstrar que respeita seu talento.
   
   -Sim. -Foi toda a resposta.
   -Tem a esperana de atrai-la ao matrimnio lhe dando uma amostra da autoridade e a responsabilidade que assumir ao ser sua esposa.
   Hugh riu.
   -Benedict, tenho a impresso de que ser um assistente muito inteligente. Tem razo. Quero que Alice chegue  concluso de que encontrar tanta satisfao e prazer 
em seus deveres de esposa como no convento.
   "E muito mais em minha cama."
   -Um plano muito ardiloso, senhor. -Os olhos de Benedict se acenderam de admirao-. Mas conviria que reze para que Alice no adivinhe por si mesma os seus motivos. 
Ficaria furiosa se soubesse que voc a apanhou com outra estrtegia.
   Hugh no se alterou.
   -Confio em que estar muito ocupada encarregando-se dos assuntos do imvel para pensar muito em por que, de repente, decidi viajar a Londres.
   -Claro -admitiu Benedict, pensativo-. Desfrutar da oportunidade para mandar outra vez. Possivelmente, at a faa esquecer que fracassou em reter minha herana.
   
   -Os desafios fazem florescer a sua irm, Benedict. Penso que a tarefa de me ajudar para que Scarcliffe volte a ser um imvel prspero a convencer de casar-se 
com mais eficcia que um cofre transbordante de jias.
   Trs manhs depois, de p junto a Joan, Alice observava como um servente subia a outro telhado para comear a repar-lo.
   -Faltam s trs cabanas, e estaro todas terminadas -comentou, satisfeita-. Se tivermos sorte, estaro prontas para quando retornar lorde Hugh de Londres. Ficar 
contente.
   Joan riu.
   -Por no mencionar s pessoas que vive nelas.
   Logo chegar o inverno. Se lorde Hugh no tivesse feito previses para os acertos, temo-me que muitas destas boas pessoas teriam que enfrentar-se s nevadas com 
os tetos furados.
   -Meu senhor no permitiria que acontecesse algo assim. Cuida do que  dele.
   
   Alice ps-se a andar pela rua para inspecionar o progresso na nova fossa para guas residuais.  medida que foram enterrando o contedo da antiga sob uma grossa 
capa de terra, a pestilncia diminua dia a dia. Joan a olhou.
   
   
   
   
   
   -Voc tem muita f com respeito s intenes de lorde Hugh para estas terras, no  certo?
   -Sim.  muito importante para ele.  um homem incapaz de abandonar seus propsitos ou suas responsabilidades. Contemplou a diminuta aldeia. J tinha uma aparncia 
menos triste. A esperana lhe conferia um resplendor saudvel.
   Para Alice, os ltimos trs dias passaram em um torvelinho de atividades. Assim que Hugh e sua companhia se desvaneceram em uma nuvem de p, lanou-se  tarefa 
de fiscalizar os assuntos do Scarcliffe. Foi revigorante assumir uma vez mais uma grande responsabilidade. Tinha talento para isso.
   
   Pensou que no sentia tal grau de.entusiasmo e regozijo por nada desde que Ralf a tinha arrancado de seu prprio lar.
   "Hugh me deu este presente -pensou-. Ter idia de quanto o valorizo?"
   Duas noites depois, um forte golpe na porta do dormitrio despertou a Alice.
   -Lady Alice -chamou-a uma voz em surdina-. Lady Alice.
   Incorporou-se lentamente. tratou de recuperar a lucidez que um estranho sonho com corredores escuros e uma ameaa invisvel tinham apagado.
   -Lady Alice.
   -Um momento -respondeu.
   Afastou as pesadas cortinas que rodeavam a cama e se estirou para agarrar um roupo. Desceu da alta cama e foi abrir a porta descala, passando pelo tapete.
   Entreabriu, e viu uma jovem donzela que esperava no corredor com uma vela na mo.
   -O que acontece, Lara?
   -Rogo-lhe que me perdoe por despert-la a estas horas, milady, mas h duas freiras do convento da aldeia no vestbulo. Dizem que as enviou a superiora Joan.
   Alice se alarmou. Devia ter acontecido algo terrvel. -Vestirei-me e baixarei em seguida.
   
   -Sim, senhora. -Lara franziu o cenho-. Ser melhor que traga uma capa. Acredito que querem que v com elas  aldeia.
   Abriu mais a porta.
   -Acende uma vela para mim com a sua. -Sim, senhora.
   Lara entrou rapidamente no dormitrio.
   
   Alice se vestiu a toda velocidade. Quando esteva preparada, agarrou a pesada capa de l e correu escada abaixo.
   As duas freiras esperavam perto do salo apagado. Dunstan e seus homens, aos que tinham arrancado dos leitos ao chegar, esperavam tranqilos nas sombras.
   As mulheres levantaram a vista para Alice com expresses aflitas.
   -A superiora nos enviou para lhe pedir que venha  casa do moleiro, milady -disse uma das mulheres-. O menino pequeno est muito doente. A curadeira esgotou os 
remdios e no sabe mais o que tentar. A madre espera que voc possa aconselhar algo.
   
   Alice recordou ao pequeno sorridente de cabelos escuros que tinha visto jogando do lado de fora do moinho.
   - obvio que irei, mas no sei o que poderei fazer. Se a irm Katherine no tiver a soluo, duvido de que eu a tenha.
   

   -A superiora Joan acredita que talvez voc tenha aprendido a preparar algum remdio especial pelas notas de sua me.
   Alice ficou imvel.
   -Minha me era uma mulher muito sbia, mas algumas de suas receitas so perigosas. Capazes de matar.
   -A superiora e a irm acreditam que o Jovem John est morrendo, milady -disse em voz baixa a outra mulher-. Dizem que no tem nada que perder.
   -Entendo. -recolheu-se as saias e deu a volta para subir a escada da torre-. irei procurar o receiturio de minha me para lev-lo comigo.
   Quando voltou, minutos depois, Dunstan emergiu da escurido.
   -Acompanharei-a  cabana do moleiro -disse em tom brusco.
   -No precisa.
   -Precisa -murmurou Dunstan-. Sir Hugh me penduraria das muralhas do castelo se permitisse a senhora sair sozinha de noite.
   
   Pouco depois, Alice entrou correndo na pequena cabana do moleiro, no mesmo momento em que Katherine colocava um pano frio na fronte febril do Jovem John.
   Horrorizou-a a mudana que a enfermidade deixou no corpo do pequeno que tinha visto pular por ai naquela mesma manh. Estava deitado no leito, plido e fraco, 
e de longe se sentia o calor que dele emanava. A respirao era trabalhosa e lhe angustiou. Gemeu, inquieto, uma ou duas vezes, mas no reconhecia aos que se inclinavam, 
ansiosos, sobre ele.
   
   -Eu j no posso fazer nada mais. -Katherine se levantou-. Agora, fica nas mos de Deus.
   O semblante estava mais sombrio que de costume mas, fora disso, no havia mais sinais de emoo em suas feies. "Parece distante, desapegada -pensou Alice-. 
Como se fosse uma curandeira que conhece os limites dos remdios que aplica. Que diferena de minha me." Helen no se rendia at que a morte lhe arrebatava  vtima.
   Joan se fez o sinal da cruz.
   A esposa do moleiro chorava com toda a angstia maternal, e seu pranto se renovou. O marido, um indivduo com torso de barril e rosto bondoso, aproximou-a dele 
com estupidez e lhe deu umas palmadas no ombro.
   
   -Vamos, vamos -murmurou repetidamente, olhando impotente a Alice por cima do ombro de sua esposa. O tambm tinha os olhos midos-. Obrigado por vir, milady.
   -Est bem -respondeu Alice, distrada.
   Estava concentrada no pequeno paciente. aproximou-se do leito. Enquanto observava ao Jovem John, recordou as palavras de sua me: "antes de aplicar um remdio, 
observa todos os sintomas."
   
   Joan falou em voz baixa do outro lado da pele que servia de leito.
   -Sei que no h muito que fazer, mas no podia abandonar toda esperana at hav-la consultado.
   -Conheo todos os remdios correntes para as febres pulmonares -disse Alice em voz baixa-. Igual  irm Katherine. Suponho que lhe deu os apropriados.
   
   -Sim -respondeu Katherine, com ar rgido-. Todos os que conheo. Mas esta febre no responde aos medicamentos.
   
   A me do menino soluou mais forte, e o moleiro fechou os olhos, angustiado.
   O olhar do Joan se encontrou com o de Alice.

   -Voc me contou que sua me era uma boa curandeira, e que preparou muitas poes e tnicos exclusivos. Conhece algum que possamos provar?
   
   Alice apertou com mais fora o livro forrado de couro.
   
   -H um par de infuses que minha me criou para as febres estranhas que acompanham s infeces pulmonares. Mas aconselhou as usar com grande precauo. Podem 
ser muito perigosas.
   -Acaso haver algo mais letal que o que se abate sobre este menino? -perguntou Joan com simplicidade.
   -No. -Alice observou ao pequeno e soube que, nesse mesmo instante, a morte se aproximava com suas mos geladas para arrebat-lo--. Essa erupo no peito...
   
   -O que tem? -apressou-se a perguntar Katherine-. Viu-a antes?
   
   -Eu no, mas possivelmente minha me sim. -ajoelhou-se junto  pele e tomou o pulso ao Jovem John. Era dbil e muito rpido. Olhou ao moleiro-. Me conte tudo 
o que recorda da enfermidade. Quando o atacou, John?
   -Esta tarde, milady -murmurou o moleiro-. Um minuto corria por a, perseguindo os frangos, e ao seguinte no queria sequer um bocado do pudim que tinha feito 
a me.
   Alice abriu o livro de notas e voltou as pginas at encontrar a seo referida s febres pulmonares estranhas. Leu durante um momento. "Enrejecimento do peito. 
Respirao agitada. Muita febre."
   
   -Minha me registrou aqui que uma vez atendeu a um menino pequeno com sintomas similares. Voltou a pgina com expresso concentrada.
   A esposa do moleiro se afastou um pouco do abrao do marido e enxugou as lgrimas.
   -Esse menino viveu?
   
   Alice a olhou. "Deve dar tanto esperanas como remdios -havia dito uma vez sua me-. A esperana  to fundamental para a cura como as corretas ervas."
   -Sim -respondeu com doura-. Viveu.
   -Nesse caso, temos que provar esse remdio -suplicou a mulher-. Por favor, senhora.
   -Faremo-lo -tranqilizou-a Alice. voltou-se para Katherine-. Darei-lhe uma lista das ervas que necessito. Por favor, as traga o mais cedo possvel.
    curandeira tensionou oslbios. -Sim, milady.
   
   Alice se perguntou se teria ofendido  Katherine ao fazer-se cargo da situao. Se assim era, no podia remedi-lo. Olhou a Joan.
   -Necessitarei de um recipiente e gua fresca.
   -Irei busc-los -disse Joan, em seguida.
   -Ponha-os ao fogo.
   A febre do pequeno John comeou a ceder antes do amanhecer. A respirao comeou a normalizar-se rapidamente. Antes de que aparecesse a luz do novo dia, fez-se 
evidente que o menino viveria para continuar perseguindo frangos.
   
   O moleiro e a esposa, sem pudor, choraram de alvio. Alice, esgotada pela longa viglia, se abaixou uma vez mais junto ao leito para controlar o pulso do menino. 
Sentiu-o forte e firme.
   -Penso que logo querer um pouco de pudim -disse em voz baixa.
   -Obrigado, lady Alice -disse Joan com suavidade.
   

   -No me agradea isso. -Olhou o Jovem John.
   O menino tinha boa cor e o sono parecia normal-.  mrito de minha me
   Katherine a contemplou por um momento.
   -Sua me devia ser uma mulher muito instruda.
   -Sim. Mantinha correspondncia com os maiores especialistas em ervas de toda a Europa. Reuniu toda a sabedoria deles e lhe adicionou seus prprios descobrimentos 
e anotou tudo o que sabia neste livro.
   Ao olhar a Alice, os olhos do Joan adquiriram uma expresso clida.
   
   -Esse livro no teria nenhum valor se no o usasse algum com talento para identificar enfermidades por meio da anlise dos sintomas. Tenho descoberto que  um 
talento pouco comum.
   Alice no soube o que dizer.
   -Sua me estaria orgulhosa de voc, milady -prosseguiu Joan com suavidade-. Aprendeu como aproveitar o conhecimento que ela registrou nesse receiturio. E esta 
noite, voc utilizou esse saber para salvar a este menino. O que recebeu de sua me,  um grande dom. Alice contemplou o livro que Helen tinha escrito durante esses 
longos e solitrios anos de matrimnio.
   
   Recordou que, s vezes, a paixo de sua me por seu trabalho lhe causava ressentimento. Houve muitas ocasies em que proporcionou mais distrao  melanclica 
Helen que o que podiam lhe brindar os filhos.
   
   Mas essa noite, o contedo do livro de notas tinha salvado a vida de um menino.
   Um presente to valioso exigia um preo. Alice sabia que, a seu modo, tinha pago parte desse preo. E tambm Benedict. O mais alto, foi o que pagou Helen.
   Entretanto, graas a isso, um pequeno vivia. "E no  o primeiro que se salva graas ao trabalho de minha me", pensou Alice. E no seria o ltimo.
   Em algum lugar, dentro dela, floresceu uma suave certeza onde antes s havia ressentimento e tristeza.
   -Sim. Tem razo. Por algum motivo, at agora no tinha compreendido quo grande  a herana que me deixou minha me.
   O pequeno John se moveu, abriu os olhos e olhou a sua me.
   -Mame? Por que h tanta gente aqui?
   Os pais responderam com gargalhadas, e se ajoelharam junto ao leito.
   Alice apertou o livro, e sentiu que estava a ponto de chorar. "Obrigado", disse para si.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Capitulo 14
   
   De p no centro do salo, Alice se concentrou.
   Embora o fogo ardia no lar, fazia frio.
   -Julian, algo falta neste lugar.
   -Quer dizer que roubaram? -Julian deixou o harpa que tinha estado tocando sem muito interesse-. No acredito. Ningum se atreveria a roubar nada de Hugh o Implacvel. 
Sabe o diabo que o pobre ladro no teria paz.
   
   -No refiro a algo roubado. Algo... que falta. -Com um gesto, assinalou as paredes vazias, e o cho coberto de juncos-.  aqui onde lorde Hugh janta todos os 
dias com seus homens. Onde julga os conflitos legais no Scarcliffe. Onde quer receber os convidados. e falta algo. Necessita algo.
   -Ah, agora a compreendo, milady. -Julian riu--. A palavra que procura voc  elegncia.
   -Elegncia?
   -Sim. A este salo falta elegncia, graa, encanto e moda.
   -Tudo isso?
   Enquanto observava o salo, Alice mordia o lbio. .
   -Tudo isso e mais. Milady, lorde Hugh  muito hbil para muitas coisas, mas no lhe interessam os detalhes de moda e elegncia, e isso se nota, no pretendo ofender.
   -Acredito que est certo.
   -Conforme entendo -continuou Julian-, o problema consiste em que lorde Hugh manda fazer tudo, das botas at as tnicas e as capas de viagem dos mensageiros de 
uma s cor: negro.
   -Compreendo. Acredito que gosta muito. Entretanto, no acredito que se alegre muito se voltar e encontrar tudo da cor azul cu ou laranja.
   
   -No me atreveria a lhe sugerir que despreze tudo o que est de negro. -Julian comeou a passear-se pelo salo, observando-o em detalhe-. De algum jeito, o negro 
fica bem a lorde Hugh. Mas, que tal se o avivamos com outra cor?
   -Que cor sugere?
   -Poderia ser verde ou vermelho. Acredito que o contraste seria muito chamativo. Tambm ficaria bem o branco. Alice se inspirou:
   -Ambar.
   
   -Como, senhora?
   Alice sorriu satisfeita.
   -Os olhos de lorde Hugh so de cor mbar.  um tom adorvel. Quase dourado. Usaremos mbar para fazer contraste com o negro.
   Julian assentiu, pensativo.
   -Um tom mbar intenso iria muito bem nesta habitao.
   -Farei uma toalha dessas cores para colocar em cima da mesa principal. -Alice se entusiasmava cada vez mais com as imagens que iam a sua mente-. E lhe farei fazer 
uma tnica nova, mbar e negro.
   -J  hora de que sir Hugh faa trajes novos para seus homens -disse Julian em tom adulador-. Faz-o todos os anos. Tambm seria uma excelente oportunidade para 
trocar de cor.
   -Certamente. -Alice no era muito versada nesta classe de coisas, mas era evidente que Julian sim-. Te encarregue disso, por favor, Julian.
   Julian fez uma profunda reverncia.
   -Com muito prazer, milady. Quer que faam tambm um vestido para a senhora?
   Alice se imaginou recebendo a Hugh vestida com um traje que tivesse as novas cores.
   -Sim. Ser o mais correto.
   
   
   Em Londres, Hugh procurou fortalecer-se para suportar a atmosfera de melancolia e desespero que parecia emanar dos muros das habitaes de Erasmus.
   -Ah, Hugh. -Erasmus, sentado perto do fogo, ergueu a vista. O sorriso de boas-vindas foi fraco, mas expressava grande prazer-. Que alegria verte. Quem  que est 
com voc?
   
   - Benedict, milorde. -Indicou-lhe ao jovem que se adiantasse-.  o irmo de minha prometida. -Bem-vindo, jovem Benedict.
   -Obrigado, milorde.
   Fez uma impecvel reverncia.
   -Venha aqui, assim posso te conhecer --disse Erasmus--. Me diga o que tm feito voc e Hugh esta manh.
   Enquanto Benedict, obediente, ia para o lugar, Hugh trocou um olhar com a esposa de Erasmus.
   
   Eleanor era uma mulher bela, no muito maior que Hugh. Dirigiu-lhe um sorriso valente enquanto Erasmus conversava tranqilamente com o moo, mas nada dissimulava 
as sombras nos olhos da mulher. Hugh sabia que amava muito a seu marido. Tinham dois filhos, um menino e uma menina.
   -No houve melhora? -perguntou-lhe, em voz baixa.
   -Os ataques pioraram. Despedi os mdicos.
   - uma atitude sensata.
   -Sim. Estou convencida de que, com seus cruis instrumentos, fazem-lhe mais mal que bem. Juro-te que iriam deix-lo seco de tanto sangr-lo. E essas purgaes 
terrveis...! -Eleanor moveu a cabea, desgostosa-. No lhe faziam nada bem. chegou a um ponto em que, a nica coisa que desejava era morrer em paz.
   
   Hugh olhou  Erasmus. Seu suserano tinha envelhecido dez anos nos ltimos meses. A figura forte e atraente que constituiu o centro da vida para ele durante sua 
juventude, e o homem ao que, de adulto, entregou-lhe a lealdade e a espada, estava agora to plido e magro que custava acredit-lo.
   
   -No posso acreditar que estejamos perdendo-o --disse em voz baixa-. No tem mais que quarenta e dois anos, e sempre gozou de boa sade.
   -Quase no dorme de noite -murmurou Eleanor-. E quando consegue dormir, se acorda com terrveis sobressaltos. Levanta-se tremendo, e se anda at o amanhecer. 
Seu maior temor no  morrer e sim enlouquecer.
   
   -Minha prometida enviou estas ervas e uma carta com indicaes. -Hugh tirou o que guardava no saco de couro negro-. No sei se sero eficazes, mas no se perder 
nada provando. Tem certa habilidade com os remdios.
   Eleanor franziu um pouco o cenho.
   -No quero que sofra mais por remdios cruis.
   -Meu senhor  um guerreiro de corao -disse Hugh-. Seja qual for a enfermidade, isso no mudar. Deixa-o lutar a ltima batalha antes de perder toda esperana.
   -Sim, tem razo, sir Hugh.
   Eleanor apertou com muita fora o molho de ervas e a carta.
   Erasmus levantou uma mo.
   -Hugh, vem aqui. Quero falar uns minutos com voc.
   Hugh se aproximou do fogo, Com o corao pesado de pesar.
   
   Alice examinou com olhar crtico a cozinha calorosa e alvoroada. Dois caldeires macios de ferro, carregado com diversos guisados, frangos cheios e saborosos 
pudins, buliam sobre o enorme fogo. As frontes das moas da cozinha que faziam girar as manivelas das torneiras estavam cheias de suor. Sobre Umas fontes quentes, 
ao bordo das chamas, douravam-se uns bolos de carne.
   -Elbert, Controle que os caldeires sejam esvaziados, limpos e bem esfregados todas as semanas -disse Alice com vivacidade-. No estou de acordo com o costume 
de uso contnuo durante meses sem lav-los bem.
   -Sim, senhora.
   O rosto do Elbert estava carrancudo de concentrao e ardor.
   
   Nos cinco dias que durava a ausncia de Hugh, o castelo de Scarcliffe tinha sido limpo de cima abaixo. Esvaziaram-se todos os bas com roupa branca e os guarda-roupas, 
sacudiu-se o p e colocaram dentro bolsas com ervas aromticas. Cada habitao, do quarto que Hugh usava para dormir at a mais pequena despensa, abriram e revisaram. 
Elbert a acompanhou durante todo o processo. Tomou notas em um tablete de cera enquanto Alice disparava uma interminvel lista de indicaes.
   Deixou a cozinha para o final.
   -Cuida que s moas troquem de tarefas de maneira regular. No quero que passem muito tempo perto do fogo.  uma tarefa pesada.
   -Outras tarefas -anotou Elbert-. Sim, senhora.
   As moos empapadas de suor, sorriram.
   Alice percorreu a cozinha detendo-se em vrios lugares para observar algumas coisas, mais de perto. Sorriu s cozinheiras, evidentemente maravilhadas e excitadas 
com sua presena. Alice sabia. Era a primeira vez que as visitava. At ento, o nico contato com elas foi atravs de Elbert, que lhes levava instrues precisas 
e os menus que Alice confeccionava para suas prprias comidas.
   Alice observou a mesa sobre a qual a cozinheira cortava cebolas.
   -Quero que sirvam todos os dias a lorde Hugh e a todos outros habitantes do castelo a mesma sopa verde que fazem para mim.
   -Sopa verde especial -repetiu Elbert-. Que se sirva a todos. Sim, milady.
   - muito saudvel -explicou Alice-. Tambm, quero que se sirvam ao menos trs pratos de verduras no almoo.
   -Trs pratos de verduras. Sim, milady.
   
   -Que as cabaas no fervam muito tempo.
   Elbert tomou nota.
   -Sim, senhora.
   Alice observou a mescla de trigo e leite que se cozia em um recipiente de barro.
   -Que adocem a nata com mel. Sem ela,  insossa.
   -Mel na nata.
   O estilete de Elbert deslizou pelo tablete. 
   -Darei-te uma lista de ingredientes para um molho que se faz com tomate e cardamomo, e outra com gengibre e aafro. Muito saborosa. Usaro-se para pratos de 
pescado cozido ou carnes assadas.
   -Sim, milady. -Elbert a olhou com repentina ansiedade-. Quanto s especiarias, senhora, o que faremos para consegui-las?
   Alice o olhou surpreendida.
   -O que diz? Aqui, no castelo, sir Hugh tem uma grande quantidade de especiarias excelentes armazenadas.
   Elbert clareou voz.
   -Sua senhoria guarda as chaves dos armazns.

   
   Deu estritas instrues de que tenho que ir a ele cada vez que se necessitem especiarias na cozinha. Mas as duas vezes que recorri a ele para pedir as especiarias 
que necessitava a cozinheira, estava muito zangado.
   -Por que?
   -Bem, queixou-se da quantidade que pedia -respondeu, abatido-. Disse que eu no tinha idia de economia, e que estimulava  cozinheira a esbanjar.
   
   -J vou ver isso. -Alice riu-. lorde Hugh gosta de comer bem, mas nunca teve que preparar seu prprios mantimentos, por no mencionar o que significa planejar 
comidas para uma casa destas dimenses. Aqui, as cozinheiras devem alimentar a quarenta pessoas todos os dias. E em ocasies especiais, mais.
   -Sim -respondeu Elbert.
   -Talvez sir Hugh seja muito bom para fazer clculos, mas no tem idia da quantidade de ingredientes que se utilizam para preparar pratos.
   -No, milady, no tem idia -apoiou Elbert com ardor.
   -No se preocupe, Elbert. Sir Hugh me deu as chaves dos armazns antes de partir. Quando retornar, eu seguirei as tendo em meu poder. a partir de agora, procura 
que me enviem todas as manhs uma lista das especiarias que se necessitam. Eu as pesarei para as cozinheiras.
   A esperana iluminou os olhos do Elbert. 
   -No terei que recorrer a lorde Hugh para conseguir as especiarias?
   -No. Eu me ocuparei.
   Foi visvel o alvio do Elbert.
   -- Agradeo, milady.
   -Bom, agora, os menus. Eu prepararei vrios.
   Pode altern-los a seu parecer. -Alice sorriu s duas mulheres que mexiam um pudim-. No esquea de me levar qualquer sugesto que faam as cozinheiras. Estou 
segura de que sero  teis para variar a lista de pratos.
   As duas mulheres ficaram radiantes.
   Alice se aproximou de uma mesa carregada de ovos.
   -Os pratos com ovos fortalecem. Quero que sirvam pelo menos um em cada almoo.
   -Sim, milady. -Elbert contemplou o grande monto de ovos-. Como quer que os preparem?
   -So muito saudveis se se cozinharem com...
   -Milady -chamou um criado da porta-. Rogo-lhe me perdoe, .senhora.
   Alice se voltou.
   -O que acontece, Egan?
   -Lamento incomod-la, mas h um moo aqui -respondeu-,. Diz que tem que falar com voc. Afirma que  assunto de vida ou morte.
   -Um menino? -Uma das cozinheiras franziu o sobrecenho-. Dispense-o. Lady Alice est ocupada com coisas mais importantes.
   

   Alice contemplou a pequena figura que aparecia detrs do Egan. Viu um menino de cabelo escuro e olhos castanho claro, parado na entrada da cozinha.
   Ao parecer, tinha ao redor de oito anos. No o reconheceu como um dos meninos da aldeia. e embora a roupa estivesse manchada e suja, era de excelente qualidade.
   -Devo falar com a senhora. -O ouvia sem flego-.  muito importante. No irei at ter falado com ela.
   -Isso  o que voc acha. -Uma das moas de cozinha brandiu uma fogaa larga de po com gesto algo ameaador-. V, menino. Cheira como um privada.
   
   A brisa que entrava pela porta confirmou o que dizia. No se podia negar a pestilncia de descuido que emanava do menino.
   - Deixe -disse Alice com firmeza, ao tempo que lhe sorria ao recm-chegado-. Eu sou lady Alice.
   -Quem  voc?
   O menino endireitou os ombros e levantou o queixo. O simples gesto lhe outorgou um orgulho to inato que fazia esquecer o traje sujo e o aroma ruim.
   -Sou Reginald, milady. Meu pai  sir Vincent de Rivenhall.
   Elbert conteve o flego.
   -Rivenhall!
   De repente, na cozinha se fez um grande silncio. A mandbula pequena de Reginald se esticou, mas o menino se manteve firme. No apartou o olhar do rosto da Alice.
   - de Rivenhall? -perguntou-lhe, cautelosa, avanando para ele-. O filho de sir Vincent?
   
   -Sim. -O menino lhe dedicou uma reverncia algo rgida e logo levantou o olhar, com uma expresso que continha partes iguais de desespero e resoluo- Vim para 
rogar que me ajude a salvar o imvel de meu pai e a honra de minha me.
   -Por todos os Santos. De que fala?
   -Minha me disse que no tinha sentido apelar a Scarcliffe, mas no tenho a quem recorrer. Voc  a nica est o bastante perto para ajudar. Ouvi dizer meu pai 
que ele e Hugh o Implacvel so primos. Por isso, estou hoje aqui.
   -Se acalme, Reginald -disse-lhe, em tom tranqilizador.
   -Disseram-me que sir Hugh est em Londres, mas voc est aqui, e tambm muitos de seus soldados. Vocs poderiam ajudar-nos. Por favor, senhora.
   -Tem que me contar tudo desde o comeo -disse-lhe Alice, com firmeza.
   
   Mas deu a impresso de que algo se quebrava dentro de Reginald. Foi como se houvesse se sustentado muito tempo por pura fora de vontade, e j no podia mais. 
Os olhos se encheram de lgrimas.
   -Se no nos ajudarmos, estamos perdidos.
   -As palavras lhe brotavam como uma corrente-. Meu pai est longe, em uma justa no sul. Diz que necessitamos do dinheiro. E quase todos os soldados e cavalheiros 
esto com ele.
   - Reginald...
   
   -Ontem chegou sir Eduard e irrompeu  fora em nosso salo. Minha me est aterrada. No sei como fazer chegar uma mensagem a meu pai com tempo para salv-la.
   -Calma. Eu me ocuparei disto. -P-lhe uma mo no ombro e o guiou a uma bacia de gua apoiada junto ao lar-. 

   Primeiro, temos que liberarmos desse aroma espantoso. -Jogou um olhar ao mordomo-. Elbert, envia a algum a procurar uma muda de roupa.
   -Sim, senhora.
   Elbert fez gestos a uma das moas da cozinha.
   S levou uns minutos para lavar e trocar a Reginald com roupa limpa. Quando estava limpo, Alice o fez sentar junto a uma das mesas da cozinha.
   -Por favor, algum de vs poderia trazer para nosso convidado uma terrina de minha sopa verde especial?
   Uma das cozinheiras serviu um concha de sopa do fino caldo de verduras em uma terrina, e o levou a mesa. Elevou-se a fragrncia reconfortante da raiz de salsinha 
com a que se fez a sopa.
   -Tome um pouco -indicou-lhe Alice, sentando-se em frente-.  Le dar foras.
   Reginald tragou a sopa como se estivesse morto de fome. Mas parou bruscamente depois e fez uma careta enquanto deixava a terrina.
   -Obrigado, milady -disse com forada cortesia-. Tinha muita fome.
   Comeou a limpar a boca com o dorso da manga, mas se interrompeu, envergonhado pelas maus maneiras. ruborizou-se e aspirou uma baforada de ar.
   -Agora, me conte quem  sir Eduard e como entrou a fora no salo de seu pai.
   -Eduard de Lockton  um cavalheiro sem terras -disse Reginald-.  um mercenrio, que vende sua espada onde pode. Minha me diz que no  melhor que um salteador.
   -Por que foi sir Eduard a Rivenhall?
   -Segundo minha me, porque sabia que meu pai estava ausente e que levou com ele a quase todos os homens. Diz que sir Eduard est seguro de que Hugh o Implacvel 
no ir em ajuda a Rivenhall pela rivalidade que existe entre ambos os feudos.
   
   -Eduard de Lockton entrou no salo e se apropriou de tudo?
   
   -Sim. Ontem, quando chegou, afirmou que vinha em misso de amizade. Exigiu albergue para a noite para si mesmo e seus homens. Minha me no se atreveu a negar-se.
   
   No existia maneira de defender-se com os poucos homens que deixou meu pai.
   
   -E o deixou entrar, com a esperana de que partisse pela manh?
   
   -Sim. Mas ficou. -Reginald adotou um ar desventurado-. Ps  seus prprios homens nos muros. Atua como se fosse o senhor de Rivenhall. Apropriou-se do castelo 
sem siti-lo, sequer.
   -Sem dvida, o suserano de seu pai, Erasmus de Thornewood, adotar medidas contra sir Eduard quando se inteirar.
   -Minha me diz que sir Erasmus est morrendo.  muito provvel que esteja morto quando pudermos lhe avisar
   - Um fato consumado -murmurou Alice.
   -Isso diz minha me.
   Alice recordou como o tio tinha instalado a seu prprio filho no salo de seu pai. Estava muito bem que os clrigos discutissem sobre os detalhes pontuais da 
lei real e a lei de costumes, mas a verdade estava na posse. Uma pessoa que no pudesse defender o que tinha, logo o perdia  mos de algum mais poderoso. Assim 
era a vida.
   -Sei como se sente, Reginald.
   O menino a olhou com expresso afligida.
   -Ontem  noite, depois de comer, sir Eduard tentou obrigar a minha me a ir ao quarto com ele. Estava espantada. Acredito que tentou machuc-la.
   Alice sentiu um calafrio.
   -Deus meu! Sua me? Esta bem? Que aconteceu?
   -Soltou-se dele, agarrou-me pela mo e me disse que tnhamos que correr para o quarto da torre. 
   Conseguimos entrar nele e fechar a porta.
   -Graas aos cus! -suspirou Alice.
   -Eduard estava furioso. Golpeava a porta e lanava toda classe de ameaas. Por fim, foi, mas antes jurou que nos deixaria morrer de fome nesse quarto. Minha me 
ainda est ali. No tem nada de comer nem de beber desde ontem  noite. -Olhou a terrina vazia-. Isto  tudo o que eu tomei desde ontem.
   
   Alice jogou um olhar  cozinheira.
   -Traga para nosso convidado um bolo de carne, por favor.
   -Sim, milady.
   A cozinheira, fascinada, tomou um bolo de uma forma quente e o ps diante de Reginald.
   Alice o observou.
   -Como fugiu?
   -No quarto da torre h um velho buraco. -equilibrou-se sobre o bolo com muito mais entusiasmo que o demonstrado diante da sopa-. O conduto  um pouco mais largo 
que a maioria.
   -Como para um menino de seu tamanho? Reginald assentiu.
   -Em alguns lugares, foi difcil. O aroma era horrvel.
   -Imagino. Como desceu?
   -Minha me e eu fizemos uma corda com a cortina velha da cama. Usei-a para descer pelo conduto.
   Assim se explicava a pestilncia que se desprendia das roupas do menino. O pobre tinha sado do castelo pelo buraco do esgoto. Alm do aroma, deve ter sido uma 
experincia aterradora.
   - muito valente, Reginald.
   O menino ignorou o elogio.
   -Ajudar-nos, lady Alice? Se no fizermos algo, tenho medo de que sir Eduard machuque a minha me.
   Nesse momento, Dunstan irrompeu na cozinha.
   -Que diabos acontece aqui? --quis saber-. O que um menino de Rivenhall est fazendo aqui?
   -Este  Reginald, o filho de sir Vincent. -Alice se levantou-. O castelo de Rivenhall foi tomado por um cavalheiro mercenrio de nome Eduard de Lockton. Temos 
que salvar o castelo e  me de Reginald, que est ali, cativa.
   Dunstan deixou cair a mandbula, atnito.
   -Salvar Rivenhall? Senhora, est louca? Se for verdade que o castelo ficar em mos de um estranho, sir Hugh ordenar um grande banquete para celebr-lo.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   -No seja ridculo, Dunstan. Uma coisa  manter um conflito dentro da famlia, e outra muito distinta permitir que um forasteiro se aproprie das posses de um 
primo.
   -Mas, milady...
   -Por favor, ordene aos homens que preparem as armas e montem a cavalo. Faa selar um potro para mim. Partiremos para Rivenhall dentro de uma hora.
   
   Os olhos do Dunstan lanaram fascas. -No posso permiti-lo. Sir Hugh me penduraria como traidor se fssemos em ajuda do Rivenhall.
   -Se lhe temer tanto, fique aqui, em Scarcliffe. Iremos sem voc -respondeu Alice, com calma.
   
   -Por Deus, senhora, se Hugh me pendurar, eu serei o mais afortunado dos dois. No quero pensar o que far com voc, que  a prometida. Nunca a perdoaria por trai-lo 
assim.
   -No penso em tra-lo. -ficou firme, sem fazer caso do frio desassossego que lhe atendia o estmago-. Irei em ajuda de seu parente sangneo.
   -O senhor despreza a seu parente sangneo.
   -Certamente, no despreza nem ao pequeno Reginald, nem a sua me.
   -Est referindo-se ao herdeiro e  esposa de Vincent. -Dunstan a olhava incrdulo-. Sir Hugh no pode ser mais caridoso com eles que com o Vincent.
   -Sir Hugh me deixou ao comando deste feudo, no  assim?
   -Sim, mas...
   -Tenho que fazer o que me parece correto. J lhe dei suas instrues, sir Dunstan
   As feies de Dunstan se converteram em uma mscara de ira e frustrao. Elevou um pote de barro e o jogou contra a parede da cozinha, onde se rompeu em mil pedaos.
   -Disse-lhe que voc lhe traria problemas. Nada mais que problemas.
   Girou sobre os ps e saiu a passos largos da cozinha.
   
   
   
   
   
   
   Duas horas depois, Alice, vestida com um vestido de cor verde intensa, o cabelo preso em uma rede prateada, presa com um anel de prata, entrou a cavalo pelas 
portas do castelo de Rivenhall. O pequeno Reginald ia a seu lado, montado em um pequeno e manso ponei cinza. Ningum tentou det-los o entrar no ptio. Alice soube 
que Eduard no se atrevia a desafiar a Hugh o Implacvel.
   
   Sentiu que a percorria uma descarga de tenso. Podia sentir as olhadas cautelosas dos homens que custodiavam o muro. Sem dvida, calculavam a fora que tinha 
levado consigo.
   Consolou-se pensando que a companhia tinha um aspecto que intimidava, impressionante. Sir Dunstan e o contingente de cavalheiros e soldados que Hugh tinha deixado 
em Scarcliffe cavalgava atrs dela. At o Julian os acompanhava. Explicou-lhe que todo homem empregado por sir Hugh tinha a obrigao de saber usar uma espada ou 
um arco, sem importar se cuidava ou no a elegncia de seu traje.
   A luz cinza do nebuloso dia resplandecia sobre os elmos reluzentes e faiscava nas pontas e as folhas das armas. As bandeiras negras ondulavam no vento.
   -Saudao, milady. -Um homem grande e corpulento, de cabelo castanho descuidado, barba hirsuta e olhos brilhantes, deteve-a na escada de entrada ao castelo-. 
Agrada-me conhecer qualquer um que cavalgue sob a insgnia de Hugh o Implacvel.
   -Esse  sir Eduard -disse-lhe Reginald a Alice-. Olhe-o,comporta-se como se fosse o amo, aqui.
   Alice observou as feies de sir Eduard enquanto freava ao cavalo. O mercenrio recordava a um javali. 
   
   
   Tinha pescoo grosso, mandbulas largas, e olhos pequenos e apagados. Certamente, teria um crebro similar a seu aspecto.
   Olhou-o de cima abaixo, enquanto Dunstan e os homens se desdobravam atrs dela.
   -Por favor, relate  senhora do castelo que a nova vizinha veio visit-la.
   Eduard riu, mostrando vrios buracos entre os dentes amarelados.
   -E de quem se trata?
   -Sou Alice, a prometida de Hugh o Implacvel. 
   
   -A futura esposa, n? -Eduard deu uma olhada para os homens que a respaldavam-. Por sua causa faltou  justa contra sir Vincent, na feira do Ipstoke. No estava 
muito contente com voc esse dia.
   -Asseguro-lhe que sir Hugh est muito contente com a noiva que escolheu. Tanto que, em rigor, no vacilou em me deixar ao comando de suas terras e de seus homens.
   -Isso parece. E onde est sir Hugh?
   -De volta a Scarcliffe de Londres -respondeu com frieza-. Logo retornar. Penso visitar lady Emma at que ele chegue.
   Eduard lhe lanou um olhar matreiro.
   - sir Hugh sabe que voc est aqui?
   -No se preocupe: logo saber. Eu, em seu lugar, no estaria em Rivenhall quando ele chegar.
   -Acaso me ameaa voc, senhora?
   -Considere-o uma advertncia.
   
   - voc a que deveria tomar cuidado, senhora -disse Eduard arrastando as palavras em tom desagradvel-.  evidente que no compreende como esto as coisas entre 
o Rivenhall e Scarcliffe. Possivelmente seu futuro amo no explicou a voc seus assuntos pessoais.
   -Lorde Hugh me explicou isso tudo, senhor. Gozo de toda sua confiana.
   O rosto do Eduard se contraiu de ira.
   -Isso mudar logo. Sir Hugh me agradecer por ocupar este castelo. Sei que o suserano lhe proibiu vingar-se de Rivenhall. Mas lhe asseguro que no se incomodar 
quando souber que outro o faz em seu lugar.
   
   - voc o que no compreende a situao -disse Alice com suavidade-. Voc se misturou nos assuntos familiares. Sir Hugh no lhe agradecer por isso.
   -J o veremos -replicou Eduard.
   -Assim ser. -Sorriu com frieza-. Enquanto isso, acompanharei  lady Emma. Ainda est na habitao da torre?
   Eduard entreabriu os olhos.
   -Foi isso o que o menino lhe contou, n? A mulher se fechou ali e no quer sair.
   Alice se voltou para o Reginald.
   
   -V procurar a sua me na torre. Diga-lhe que estou impaciente por conhec-la. Diga-lhe que os soldados de sir Hugh esto aqui para garantir a segurana de vocs.
   -Sim, senhora.
   Reginald desceu do cavalo cinza. 
   
   
   Lanou a Eduard um olhar colrico ao mesmo tempo que corria escada acima e desaparecia no interior.
   Eduard plantou uns punhos enormes nos quadris e se dirigiu a Alice.
   -Est arriscando-se mais do que imagina ao meter-se nisto, lady Alice. Sim, muito mais.
   -Esse  meu problema, no o seu.
   -Quando sir Hugh voltar, estar furioso com voc por esta traio. No  um segredo que a lealdade  o principal para ele. 
   -O mnimo que far ser romper o compromisso. e ento, onde estar voc, pequena tola?
   -O tolo  voc, Eduard. -Alice olhou para Dunstan-. Ajuda-me a desmontar, senhor, por favor?
   -Sim, senhora -resmungou Dunstan.
   Enquanto se apeava, no tirava a vista de cima de Eduard. Aproximou-se do palafrn de Alice e a ajudou a desmontar.
   A jovem viu a tenso nas linhas da boca e lhe sorriu, tranqilizadora.
   -Tudo sair bem, sir Dunstan. Confie em mim.
   -Pelo que estou fazendo hoje, sir Hugh querer minha cabea -murmurou, em voz baixa para que s o ouvisse Alice-. Mas antes, direi-lhe que sua prometida tem tanta 
coragem quanto ele.
   -Bom, obrigado, senhor. -O elogio surpreendeu e encantou a Alice-. Trate de no ficar nervoso. No permitirei que lorde Hugh o culpe disto.
   -Sir Hugh atribuir a culpa a quem quer. A expresso de Dunstan era de turvo fatalismo.
   -Lady Alice, lady Alice -chamou-a Reginald da entrada-. Queria lhe apresentar a minha me, Emma.
   
   Alice se deu a volta e viu junto ao Reginald a uma encantadora mulher loira, de olhos tenros e expresso gentil. Tinha aspecto de esgotamento pela preocupao 
e, sem dvida, por uma noite acordada, mas a atitude conservava muito de orgulho, e o olhar, um fio de esperana.
   
   -Saudao, lady Alice -disse, ao mesmo tempo que lanava  um olhar fugaz de desgosto a Eduard-.
   -Lamento a triste bem-vinda que recebe. Como v, estamos obrigados a suportar a presena de um hspede indesejado.
   
   -Esse  um problema passageiro. -Segura pelo amparo dos soldados de Scarcliffe, Alice subiu os degraus-. Fique tranqila, que meu futuro esposo logo a liberar 
deste verme.
   
   
   
   Hugh pensou que Elbert estava  louco. Desde o comeo, teve dvidas sobre o moo. 
   -O que lady Alice fez?
   Elbert tremeu, mas no retrocedeu.
   -Levou  sir Dunstan e a todos os soldados, e foi resgatar o castelo de Rivenhall das garras de um indivduo chamado Eduard de Lockton. Isso  tudo o que sei, 
milorde.
   -No posso acreditar.
   
   Depois dele, os cavalos fatigados chutavam e sopravam ruidosamente, ansiosos por chegar aos estbulos.
   Tambm Benedict e os dois soldados estavam cansados.
   J tinham desmontado e esperavam inteirar-se do que tinha passado.
   Esse dia, Hugh apressou  pequena companhia para chegar a Scarcliffe um dia antes do previsto. Imaginava um quadro agradvel: Alice esperando-o na escadaria de 
entrada ao tempo que ele se aproximava do lar.
   
   Teria que ter sabido que algo estava mau.
   Quando se tratava de Alice as as coisas nunca eram conforme o planejado. Mesmo assim, no podia convencer-se de que tinha ido a Rivenhall.
   - verdade, senhor-confirmou Elbert-. Pergunte a qualquer um. Esta manh chegou aqui o pequeno Reginald e lhe suplicou ajuda para ele e sua me.
   -Reginald?
   
   -O filho e herdeiro de sir Vincent, senhor. Estava desesperado por proteger a sua me, e tambm a propriedade de seu pai. Lady Alice lhe disse que sabia que se 
voc teria querido que cavalgasse para Rivenhall para ajud-los.
   
   -No se atreveria a ir a Rivenhall-disse Hugh baixo-. Nem sequer Alice se animaria a me desafiar assim.
   Elbert engoliu saliva.
   -Acreditou necessrio, milorde.
   -Pelos fogos do inferno. -Olhou o moo que tinha vindo a levar o cavalo--. Me traga outro cavalo. -Sim, milorde.
   A moo correu para os estbulos.
   -Senhor. -Benedict lhe deu as rdeas a outro moo-. O que acontece? Acontece- algo a Alice?
   -Ainda no -respondeu Hugh-. Mas logo lhe acontecer. Ocuparei-me disso em pessoa.
   Alice percebeu a tenso que se abatia sobre o salo principal do castelo de Rivenhall, mas fingiu no not-la. sentou-se com Emma perto do fogo e conversaram 
tranqilamente. Reginald estava encarapitado em um tamborete, perto da chamin.
   
   De vez em quando, via o olhar zangado de Emma posar-se em Eduard, que vagabundeava com ar insolente na cadeira de sir Vincent. O intruso mastigava groselhas ao 
gengibre que havia em uma terrina como se tivesse direito a faz-lo. Trs de seus detestveis homens estavam sentados em um banco prximo, e no tiravam a vista 
de cima de Dunstan e aos dois cavalheiros que este colocou no salo, perto de Alice. O resto dos homens armados de Scarcliffe tinham substitudo aos de Eduard no 
ptio amuralhado.
   
   -No se ofenda, Alice -murmurou Emma-, mas tenho a sensao como se este castelo tivesse sido tomado duas vezes nos dois ltimos dias. Uma vez, pelos homens de 
Eduard e, agora, pelos de sir Hugh. 
   -Voc recuperar o castelo assim que Hugh retorne de Londres. -Tomou um punhado de nozes de uma tigela-. Meu senhor enfrentar  Eduard.
   -Quem dera tivesse razo. -Emma suspirou-. Mas se me atenho  histria da famlia que me contou meu marido, no estou segura de que seja to simples. E se sir 
Hugh decide apoiar a ocupao do castelo por Eduard?
   -No o far.
   
   -E tambm estou preocupada com voc, Alice. O que dir sir Hugh quando souber o que voc tem feito hoje, aqui?  muito provvel que o considere uma traio. 
   -No, quando explicar o entender. -meteu trs nozes na boca e mastigou-. Sir Hugh  homem de grande inteligncia. Escutar.
   Ansioso, Reginald mordeu o lbio.
   -E se sir Hugh est muito furioso para escutar suas explicaes, senhora?
   -S o domnio de si que possui meu senhor ultrapassa a sua inteligncia -afirmou Alice, orgulhosa-. No adotar nenhuma medida at ter avaliado a situao.
   Do ptio chegou um grito surdo. Cascos de ao ressoaram contra as pedras. Dunstan se moveu, ergueu-se e olhou a seus homens.
   
   -Ah, j era hora. -Eduard ficou pesadamente em p e lanou a Alice um olhar triunfante-. Ao que parece, sir Hugh ao fim chegou. Logo veremos o que opina da presena 
da futura esposa no castelo de seu inimigo.
   Alice no fez conta.
   Fora estalou um trovo, anunciando a chegada da tormenta que esteve ameaando toda a tarde. Um momento depois, a porta do salo se abriu de repente. 
   
   Dunstan olhou a Alice.
   -Milady, diz-se que  mais fcil provocar ao diabo que faz-la desaparecer. Est claro que voc tem habilidade para o primeiro. Roguemos que a tenha tambm para 
o outro.
   
   
   
   Captulo 15
   
   Hugh entrou no grande salo de seu inimigo jurado com graa letal e deciso. Trouxe consigo a fria da tormenta e a sombria promessa da noite que se morava. A 
capa negra parecia um torvelinho que se formava redemoinhos em volto das botas de couro da mesma cor. O cabelo da cor do nix estava despenteado pelo vento. Os olhos, 
eram mbar fundido.
   
   No levava armadura, mas as dobras da capa entreaberta deixavam ver o cinturo de couro negro de que pendia a bainha da espada, na parte baixa dos quadris. Uma 
das mos grandes se apoiava no punho.
   
   Ningum se moveu. Todos os presentes contemplaram essa apario que parecia ter desatado a tempestade. Hugh percorreu a habitao com um olhar abrasador. Alice 
soube que tinha avaliado a situao nesse instante. E que  velocidade do raio, calculou o que faria e decidiu o destino de cada um dos presentes.
   
   O modo em que dominou imediatamente esse salo foi algo que tirava o flego. Hugh incitou o temeroso respeito de todos os que estavam na habitao da mesma maneira 
que uma grande tormenta domina os cus.
   
   De repente, Eduard de Lockton pareceu bem menor e menos terrvel que antes. Por desgraa, seguia tendo a mesma aparncia malvada e cruel.
   Os olhos de Hugh posaram nos de Alice.
   -Devo buscar a minha noiva. A voz foi um sussurro, mas chegou at o ltimo rinco do silencioso salo.
   -Meu Deus!
   Emma levou a mo  garganta. Reginald contemplou  Hugh, encantado. - muito grande, no?
   Eduard se levantou de um salto como se livrasse de um feitio invisvel que o tivesse prisioneiro por um momento.
   -Sir Hugh. Bem-vindo a este salo. A dama Alice  minha hspede de honra.
   Hugh no fez conta.
   -Alice, venha aqui.
   -Hugh! -levantou-se de um salto e correu cruzando o salo para dar-lhe as boas-vindas como era devido-. Milorde, me alegro muito de ve-lo. Acreditei que estaria 
um dia a mais no caminho. Agora, poder endireitar esta situao.
   
   -O que  o que faz aqui, Alice?
   Os olhos do homem refletiam as chamas da chamin.
   -Milorde, rogo que me escute um momento, e tudo ficar esclarecido. -deteve-se bruscamente diante dele, e fez uma profunda reverncia, baixando a cabea-. Posso 
explicar tudo.
   
   -Sim, no o duvido. e o far depois. -Hugh no estendeu a mo para ajud-la a incorporar-se, coisa que fez com lentido-. Vem. Vamos.
   Girou sobre os ps.
   Detrs da Alice, Emma lanou uma exclamao se desesperada.
   -Tudo sair bem, me -murmurou Reginald-. J ver.
   -Um momento, milorde-disse Alice-. Senhor, temo-me que ainda no podemos partir.
   Hugh parou, deu a volta com lentido, e a olhou de frente.
   -Por que no?
   Alice reuniu coragem. No era fcil. Compreendeu que teria que proceder com cautela para conjurar o diabo que havia nele. Nesse momento, como nico aliado tinha 
sua prpria inteligncia.
   -Antes, ter que dizer a Eduard de Lockton que saia deste castelo junto com seus homens. 
   - certo isso?
   Eduard lanou uma gargalhada spera e se adiantou.
   -A sua prometida  uma criatura encantadora, milorde, mas sem dvida, obstinada e voluntariosa. -Olhou com desprezo para Alice-. Admito que o invejo pelo prazer 
de domestic-la. Tarefa que ser interessante.
   Alice girou de repente para o intruso:
   -Basta, pedao de homem odioso. Quem acredita que ? Aqui, neste salo, no tem direito algum. Sir Hugh logo se livrar de voc.
   Os dentes amarelados do sujeito apareceram entre a barba, e olhou de soslaio a Hugh com expresso confiante.
   
   -Milorde, se quiser minha opinio, voc  muito indulgente com a senhora. Ao  que parece, acredita que pode lhe dar ordens como se fosse um criado. Certamente, 
uma carcia com o cinto lhe ensinar a conter a lngua.
   -Um s insulto mais a minha noiva -disse Hugh com muita suavidade-, e o cortarei a onde est. Compreende-me, Eduard?
   Alice ficou radiante de satisfao. Eduard se encolheu, mas no demorou para recuperar-se.
   -No quis ofender, senhor. Foi s uma observao. Eu tambm, s vezes,  gosto das mulheres insolentes.
   Alice lanou  um olhar de desagrado e se voltou para Hugh.
   -Diga-lhe que se v imediatamente, senhor. No tem nada que fazer aqui.
   
   -Ora, mulheres. -Eduard moveu a cabea-. No entendem nada da vida, no  certo, senhor? 
   Hugh o examinou com a vaga curiosidade com que um falco satisfeito mostraria para a comida.
   -Por que voc est aqui?
   Nos olhos maliciosos de Eduard apareceu um resplendor matreiro.
   
   -Bom, isso  bvio, no senhor? Ningum ignora que o senhor de Rivenhall j no conta com dinheiro nem homens para defender suas terras.
   -Por isso lhe ocorreu apropriar-se enquanto ele est ausente? -o tom de Hugh era de fria curiosidade.
   
   -Sabe-se que voc jurou no tom-las diante de Erasmus de Thomewood. -Eduard abriu as mos-.  legendria a sua reputao de no quebrar um juramento, senhor. 
Mas o juramento a seu suserano no se aplica ao resto de ns, os pobres cavalheiros que temos que abrimos caminho na vida, no  certo?
   -Certo.
   Eduard riu.
   -De qualquer maneira, Erasmus de Thomewood est morrendo. e no vir em defesa de Rivenhall.
   Emma abafou uma exclamao.
   -No se apropriar da herana de meu filho, sir Eduard.
   Os olhos do sujeito brilharam.
   -E quem me impedir isso, lady Emma, me diga?
   -Sir Hugh o far -exclamou Reginald-. Lady Alice  prometeu.
   Eduard soprou com desprezo.
   -No te faa de tolo, moo. Lady Alice no manda em seu senhor, por mais que ela o ache.  ao contrario, e logo descobrir por si mesmo.
   Reginald apertou os punhos e se dirigiu a Hugh.
   -Sir Eduard tentou machucar a minha me. Lady Alice disse que voc no lhe permitiria ficar em Rivenhall.
   -Claro que no permitir -confirmou Alice.
   Emma deu um passo adiante e elevou as mos em pose de splica.
   -Milorde, sei que voc no sente carinho por esta casa, mas lhe rogo que honre o juramento de sua prometida de defend-la.
   -Far-o -assegurou-lhe Alice-. Lorde Hugh me deixou ao comando. Concedeu-me autoridade para atuar em lugar dele e, portanto, apoiar-me.
   
   -Ela prometeu que voc me ajudaria a salvar a propriedade de meu pai.
   Reginald cravou em Hugh um olhar espectador. 
   Eduard deu uma palmada na coxa como se estivesse ouvindo uma boa brincadeira.
   -O moo tem muito que aprender, n? Dois de seus homens, riram, inquietos.
   
   -Basta. -Com uma s palavra, Hugh conseguiu silenciar outra vez o salo. Olhou ao Eduard-. Rena a seus homens e v-se.
   Eduard piscou vrias vezes. -O que significa isto?
   -J me ouviu -disse Hugh sem alterar-se-. Saia imediatamente deste salo ou darei ordem a meus homens de que recuperem o castelo. -Percorreu outra vez a habitao 
com o olhar, sem dvida para verificar as posies de Dunstan e dos homens armados de Scarcliffe-. No levar mais de uns minutos faz-lo. 
   Eduard estava indignado. 
   -Perdeu o juzo, homem? Salvar este salo por ordem de uma mulher?
   -Lady Alice diz a verdade. Deixei-a no comando durante minha ausncia. Apoiarei a deciso dela nesta questo.
   -Isto  uma loucura -resmungou Eduard-. No pode ser verdade que queira me tirar daqui  fora.
   Hugh deu os ombros.
   -Quando entrava, no pude deixar de notar que, junto ao muro, meus homens so mais que os seus.
   Tenho a impresso de que sir Dunstan tem o controle nesta estadia. Quer comprov-lo?
   
   Eduard ficou vermelho de fria, mas logo, em seus olhos apareceu uma expresso sagaz.
   -Por todos os diabos, agora compreendo. Quer apropriar-se voc mesmo deste lugar, no  certo? Pense ao juramento que fez a Erasmus, pensa em se aproveitar da 
situao para tomar estas terras e vingar-se de Rivenhall. Isso  respeitvel, senhor, mas, que lhe pareceria aliar-se comigo?
   
   -Milorde Hugh --exclamou Emma, desesperando-se-. Rogo-lhe que tenha piedade.
   -Por todos os Santos -Alice ps os braos na cintura e dirigiu a Eduard um olhar furioso-. No seja mais estpido que o necessrio. Lorde Hugh no quebraria o 
juramento. -Olhou carrancuda para Hugh-. .No  certo, senhor?
   
   Hugh olhou a Eduard.
   -A honra de um homem  to slida como seu juramento. Lady Alice atuou em meu lugar quando lhe ordenou que se fosse deste salo. A autoridade que exerce emana 
de mim. Compreende?
   -No pode falar a srio, milorde -protestou Eduard-. Deixar que uma simples mulher d ordens em seu nome?
   - minha noiva -respondeu Hugh com frieza.
   -Sim, mas...
   -Por isso, sou a scia -informou- Alice a Eduard.
   -Parta imediatamente -disse Hugh-. Ou prepare-se para lutar.
   -Pelos dentes do demnio -vociferou Eduard-. No posso acreditar
   Hugh apertou o punho da espada. Eduard retrocedeu depressa.
   -No quero brigar com voc, sir Hugh. 
   -Ento, v.
   -Ora. Quem acreditaria que Hugh, o Implacvel, tem cansado sob o enfeitio de uma ruiva de lngua afiada que...?
   -Basta -disse Hugh.
   Eduard cuspiu no cho. -Lamentar o dia em que se submeteu aos caprichos de uma mulher, lembre-se disso.
   -Pode ser, mas esse  um problema meu, no seu. -J me cansei destas tolices.
   Eduard deu a volta e se encaminhou a passos largos para a porta, indicando a seus homens que o seguissem.
   Hugh olhou para Dunstan.
   -Acompanha-o at a porta.
   Dunstan relaxou um pouco.
   -Sim, milorde.
   Fez um sinal aos homens de Scarcliffe.
   Alice observou, satisfeita, enquanto Eduard e seus homens partiam.
   -Viu, Reginald? Disse que tudo sairia bem.
   -Sim, senhora.
   Reginald contemplou Hugh encantado.
   Emma juntou as mos, e seu olhar ansioso passou de Alice a Hugh.
   
   
   
   
   
   -Milorde, rogo-lhe... quero dizer, devo lhe perguntar se pensa... se...interrompeu-se vacilante.
   Alice soube o que preocupava a Emma. Para Hugh seria muito fcil apropriar-se do que acabava de deixar Eduard de Lochon.
   -Tranqilize-se, Emma. Rivenhal est a salvo de lorde Hugh.
   -No ficarei com o castelo, milady -confirmou Hugh sem sinal de emoo-. Jurei-o diante de Erasmus de Thornewood, apesar dos que alguns acreditam, ainda est 
vivo. Enquanto viva, conta com minha lealdade. 
   Emma lhe dirigiu um sorriso trmulo.
   -Obrigado, ,.milorde. Sei que o juramento no o obrigava a defender Rivenhall. Para voc teria sido mais conveniente deix-lo nas mos de Eduard de Lockton.
   -Sim. -Hugh lanou a Alice um olhar inescrutvel-. Mais conveniente.
   Reginald se adiantou e fez uma breve reverncia a Hugh.
   -Senhor, em nome de meu pai, dou-lhe obrigado por sua ajuda.
   -No me agradea. Foi mrito de minha noiva.
   -Esteve magnfica -suspirou Emma-. Estaremos eternamente agradecidos. Sem ela teramos estado perdidos.
   Alice sorriu, ditosa.
   -No foi para tanto. S invoquei o poder da legendria reputao de lorde Hugh.
   -Certo. -Os olhos do Hugh ardiam-. E logo aprender que todo poder tem um preo.
   
   
   -Teve boas intenes, milorde. -Dunstan contemplava com admirada fascinao como Hugh fazia girar a taa de vinho entre as mos-. Afinal de contas,  uma mulher. 
 de corao generoso. Quando o pequeno Reginald lhe rogou que salvasse  sua me, no teve coragem para negar. Rivenhall estava a beira do desastre. Vincent hava 
despojado as suas prprias terras do pouco que seu pai lhe deixou, para poder pagar essas justas interminveis. No deixou nem homens suficientes para guardar o 
castelo. Estava destinado a cair nas mos de um sujeito como Eduard de Lockton.
   Hugh fixou a vista nas chamas. Assim que retornaram de Rivenhall com a Alice e os soldados, tinha ido diretamente para seu prprio estudio. No houve oportunidade 
de falar com Alice enquanto durou a louca volta sob a tormenta.
   
   Fora, a fria desatada do vento e a chuva castigavam os muros negros de Scarcliffe. O nimo do senhor refletia a tempestade. Tinha estado to perto. Por um instante, 
crispou a mo ao redor da taa de vinho. To perto. A vingana esteve ao alcance da mo.
   -Me lembro bem o que opinava a princpio.. de minha noiva... fico assombrado com o modo que a defende, Dunstan.
   Dustan ruborizou.
   -No podia estar inteirada de seus planos, senhor.
   -Tinha que ser to oportuno... -Fixou a vista no centro das chamas-. Rivenhall estava a bordo do desastre. Vincent tinha despojado a suas prprias terras do pouco 
que seu pai lhe deixou, para poder pagar essas justas interminveis. No deixou nem mesmo homens suficientes para custodiar o castelo. Estava pronto para cair em 
mos de um sujeito como Eduard de Lockton.
   Dunstan exalou um pesado suspiro.
   -Eu sei que voc esperava que Rivenhall casse por seu prprio peso.
   -Era um plano muito simples, Dunstan.
   -Sim.
   -Mas ela se meteu onde no era chamada. Estragou tudo.
   Dunstan clareou a voz.
   -Voc a deixou ao comando de Scarcliffe, senhor. 
   -De Scarcliffe, no de Rivenhall.
   -No lhe esclareceu quais eram os limites de sua autoridade, senhor -insistiu Dustan.
   - um engano que daqui em diante no repetirei.-Hugh bebeu da taa-. Sempre aprendo com meus enganos, Dunstan.
   -Senhor, devo dizer que a senhora atuou com grande coragem. Nunca vi outra como ela. Entrou a cavalo pelas portas de Rivenhall, com os soldados atrs como se 
fosse uma rainha ao mando de um exrcito.
   -Ah, sim?
   -Deveria ter visto a expresso de Eduard de Lockton quando viu que quem cavalgava sob suas bandeiras era uma mulher. Ficou muito nervoso. No sabia o que pensar. 
Abrigou a esperana de que voc no a apoiaria quando se inteirasse do que tinha feito.
   
   -No tive mais alternativa que apoi-la. No me deixou outra opo. Atuou em meu nome. -Fez uma careta-. No, foi mais  frente, sabe? Considera-se minha scia. 
Uma scia nos negcios.
   
   -Diga o que for, tem que saber que possui uma coragem similar ao de qualquer homem. -Fez uma pausa significativa-. Na realidade, uma coragem como sua, milorde.
   -Acha que no sei? -perguntou com muita suavidade-.  um dos motivos pelos que decidi me casar com ela, se por acaso no se lembra. Queria passar essa coragem 
a meus herdeiros.
   -Senhor, ouvi-lhe dizer que o poder exige um preo. Possivelmente, a coragem tambm.
   -Sim, assim parece. Est claro que se ocupou de que eu pagasse um alto preo por isso, no  assim? E pensar que eu me considerava hbil para negociar e regatear...
   Dunstan suspirou outra vez.
   -Milorde, peo-lhe que tenha em conta que lady Alice no podia saber at que ponto chegam os seus sentimentos para o Rivenhall.
   Hugh afastou a vista das chamas e a fixou nos olhos de seu antigo amigo:
   -Ah, nisso est equivocado, Dunstan. Alice sabia o que eu sinto com respeito a Rivenhall. Sabia muito bem.
   
   
   
   -Asseguro-o que era um espetculo impressionante, Alice --disse Benedict, golpeando com a bengala o cho manifesto entusiasmo. Estava junto  janela, e deu a 
volta com o semblante iluminado de excitao-. Havia caixas com especiarias empilhadas at o teto. Canela, gengibre, pimenta e aafro. Cada vez, lorde Hugo tinha 
que contratar guardas para guardar os armazns. 
   -No me surpreende.
   Alice uniu as mos sobre a mesa, tentou prestar ateno a Benedict, que relatava a viagem a Londres. No era fcil. Tinha a mente fixada nos sucessos do dia anterior.
   A tormenta se desvaneceu com o sol da manh. Uma luz clida que se derramava pelas Janelas banhava a coleo de cristais, conferindo-lhes um resplendor interior 
inclusive  feia pedra verde. 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Alice desejava que o clima estranhamente agradvel se refletisse no nimo de Hugh, mas no confiava muito nessa possibilidade. No o tinha visto nem falado com 
ele desde que chegaram ao castelo na noite anterior. e no estava totalmente segura de querer faz-lo.
   Sabia que tinha atiado o fogo do passado dentro dele. S faltava ver quanto tempo arderia antes de apagar-se outra vez. Enquanto isso, pareceu-lhe prudente evitar 
a fonte de conflito.
   -Tem muitos empregados, Alice. Escrivos, empregados e mordomos. Negocia com membros da Associao das Especiarias e fazem contratos com os capites dos navios. 
Trafegam com garbosos comerciantes. Uma tarde, fomos aos porto e vimos como descarregavam um navio. Traziam do Oriente as mercadorias mais exticas.
   -Deve ser fascinante.
   -Sim. Mas o mais interessante foi a biblioteca onde se guardam os registros das viagens e das cargas. O administrador dessa sala me mostrou como se anota cada 
item da carga em um registro. Emprega um baco, igual a lorde Hugh, mas trabalha muito mais rpido. Faz somas enormes em um momento. Sir Hugh diz que  perito no 
negcio.
   O entusiasmo de Benedict conseguiu atrair a ateno de Alice, e o olhou, pensativa.
   -Parece-me que gosta desse trabalho.
   -Se pudesse trabalhar com lorde Hugh, sem dvida que o adoraria -admitiu-. Ele afirma que emprega s pessoas mais capazes, e logo lhes d autoridade para levar 
a cabo suas tarefas como lhes parece melhor. Diz que  o melhor.
   Alice fez uma careta.
   -O que faz se alguma pessoa empregada por ele excede a autoridade?
   -Suponho que a despede -respondeu o moo, indiferente.
   -Despedir-se de uma futura esposa com a mesma facilidade? -perguntou-se.
   
   Atraiu sua ateno um leve rudo no corredor. Olhou, ansiosa, para a porta, esperando que os passos abafados que ouvia anunciassem a chegada de Elbert ou outro 
dos criados. Uma hora antes, tinha mandado o mordomo  falar com Hugh que queria falar a ss com ele. At ento, no tinha tido resposta.
   
   Os passos seguiram at a porta do estudio de Alice sem deter-se, e se perderam pelo corredor. Exalou um breve suspiro.
   Benedict a olhou:
   -O que disse?
   -Nada. Me fale mais de sua viagem a Londres. Onde lhe alojaram?
   -Em uma estalagem que sir Hugh gosta. A comida era simples, mas a cozinheira no tentava dissimular a carne velha nos guisados, e a roupa de cama era limpa. Sir 
Hugh diz que isso  o que algum tem que pedir a uma estalagem.
   -Havia alguma mulher nesse lugar? -perguntou, com cautela.
   -Sim, algumas que trabalhavam no botequim. Por que o pergunta?
   Alice levantou a pedra verde e fingiu examin-la. -O senhor Hugh falava com elas?
   -Claro, quando pedia que trouxessem comida ou cerveja a nossa mesa.
   -Foi com uma delas?
   -No. -Benedict adotou um ar confuso-. Aonde iria com uma empregada de botequim?
   Dentro de Alice, algo se distendeu. Deixou a pedra e falou a seu irmo.
   -No tenho idia. Era pura curiosidade. Conte-me mais a respeito de Londres.
   - um lugar assombroso, Alice. H tanta gente, e negcios. Muitos edifcios.
   -Deve ser fascinante.
   -Sim. Mas sir Hugh diz que prefere a comodidade de seu prprio salo. -deteve-se junto a uma mesa de trabalho e brincou com o astrolbio-. Alice, estive pensando 
em meu futuro. Acredito que j sei o que quero fazer.
   Alice ficou carrancuda.
   -J escolheu sua carreira?
   -Queria me converter em um dos homens de sir Hugh.
   Olhou-o atnita:
   -Fazendo o qu?
   -Quero entrar no comrcio de especiarias -afirmou, entusiasmado-. Quero aprender a trabalhar com a contabilidade e a fazer contratos com os capites dos navios. 
Quero fiscalizar a descarga dos navios e a venda de especiarias.  fantstico, Alice, no imagina.
   -De verdade acha que gostar desse tipo de atividade?
   -Seria muitssimo mais interessante que a de leis. Alice sorriu um pouco triste.
   
   -Vejo que sir Hugh obteve o que eu no pude.
   Benedict a olhou:
   -O que?
   -Deu-lhe uma amostra do que  o mundo, e vontade de construir seu prprio futuro.  um magnfico presente.
   "E enquanto Hugh teve a bondade de brindar com semelhante presente a meu irmo -pensou Alice, triste-, eu o privei de sua desejada vingana."
   
   
   
   Naquela tarde, quando Alice desceu pela escada da torre para o almoo, fez-se um assombrosso silncio no salo principal.
   O tinido de jarras e facas cessou por um instante. Criadas atarefadas se detiveram para olhar. Os homens sentados nos bancos das longas mesas de cavalete calaram. 
Gargalhadas se cortaram de repente.
   Todos a contemplaram atnitos. Alice sabia que estavam emocionados, no s por sua presena mas tambm por sua aparncia com o novo vestido negro e mbar.
   A ningum escapou o significado desse traje. A noiva de Hugh levava as cores do futuro esposo.
   Um murmrio em surdina de curiosidade e assombro percorreu o salo.
   Alice sorriu com certa ironia: sua entrada suscitava uma sensao s superada pelo tipo de impacto que Hugh gostava de provocar.
   Percorreu o salo com os olhos at onde estava sentado sob o novo dossel negro e mbar.
   
   Apesar da tenso no salo, Alice no pde evitar a satisfao pelo efeito que Julian tinha criado. Havia toalhas nas mesas, tapearias nas paredes, ervas aromticas 
frescas sobre os tapetes limpos. Muitos dos criados j vestiam as novas cores.
   Hugh estava muito arrumado, sentado  mesa principal, na enorme cadeira negra.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Tambm parecia muito frio e distante. A sensao fugaz de prazer que percorreu Alice se dissipou: no a tinha perdoado por ir em auxlio de Rivenhall.
   -Milady. -Elbert apareceu junto  Alice com expresso nervosa-. Comer hoje conosco?
   -Sim.
   O semblante de Elbert irradiou um inconfundvel orgulho.
   -Permita-me acompanh-la  mesa principal. 
   -Agradeo-lhe isso.
   " evidente que Hugh no vai conceder-me a cortesia", pensou.
   
   Hugh a contemplava com arrepiante intensidade enquanto caminhava para a mesa principal. No se levantou da cadeira de bano at que Alice esteve quase junto a 
ele. No ltimo minuto, ficou de p, inclinou a cabea com gesto gelado, e tomou a mo para faz-la sentar. Sentiu os dedos como argolas de ferro ao redor da palma 
suave de sua mo.
   -Que amvel  aos honrarnos com sua presena, lady Alice -murmurou.
   O tom a fez estremecer-se, e soube que ele percebeu a reao. Tratou de aquietar o pulso acelerado enquanto se sentava.
   -Espero que goste da comida, senhor.
   Alice se apressou a soltar a mo.
   - claro que sua presena dar certo realce ao sabor dos pratos.
   Embora entendesse que o lacnico comentrio no pretendia ser uma adulao, decidiu fingir que o era:
   - muito gentil, senhor.
   Hugh voltou a sentar-se. reclinou-se contra o respaldo esculpido da cadeira, apoiou um cotovelo em um dos braos macios, e observou a Alice com expresso perigosa.
   -Poderia perguntar por que, uma mulher de to refinada sensibilidade decidiu comer em to grosseira companhia?
   Alice sentiu que se ruborizava de vergonha. -No considero que a companhia seja grosseira. -Fez um gesto  para Elbert, que ficou precipitadamente em ao-. Estava 
impaciente por comer na presena  com milorde.
   -Srio?
   No pareceu notar o vestido novo.
   
   Alice compreendeu que no seria fcil. Mas, assim eram as coisas com Hugh. Olhou ao redor em busca de algo que a ajudasse a mudar de tema e sua vista se posou 
em um homem desconhecido sentado no outro extremo da mesa. Estava vestido com vestimentas religiosas.
   -Quem  o nosso hspede? -perguntou, corts. 
   -O sacerdote que trouxe comigo.
   Hugh lanou um olhar de moderada curiosidade a uma elegante travessa de pescado em molho que punham diante de si. O pescado estava banhado com uma nata de cor 
aafro.
   -Amanh celebrar o casamento. 
   Alice engoliu em seco.
   -O casamento?
   -Nosso matrimnio, senhora. -A boca de Hugh esboou um sorriso frio-. Ou o tinha esquecido?
   -No, claro que no.
   
   Alice ergueu a colher e a apertou com tanta fora que as ns dos dedos impalideceram. "Por todos os Santos, est furioso -pensou-. Muito mais do que esperava." 
Alice no sabia o que fazer.
   No tinha idia de como dirigir a Hugh quando estava daquele jeito. Sentiu que a abatia o desespero, e o combateu com toda sua vontade.
   -No respondeu  minha pergunta.
   Hugh se serviu de uma fatia de bolo de queijo e que uma criada levou a mesa.
   -O que pergunta, milorde?
   -Por que decidiu a comer com seu futuro senhor e seus homens?
   -No  uma atitude condescendente. S queria desfrutar da comida em sua presena.  isso to estranho, acaso?
   Hugh o pensou um momento, enquanto provava um pedao do bolo.
   -Sim, muito estranho.
   "Est brincando comigo -pensou Alice-. Me provocando. "
   -Bom,  verdade, senhor. -concentrou-se em uma travessa de verduras com molho de amndoas--. Queria dar-lhe as boas-vindas por sua volta de Londres.
   -Dar-me as boas-vindas ou me aplacar?
   A fria de Alice seagitou e deixou  cair a colher com um golpe:
   -No estou aqui para aplac-lo, senhor.
   
   -Est certo disso? -Nas comissuras da boca de Hugh brincou um sorriso sem humor-. observei que, freqentemente, quando procura um benefcio, suas maneiras melhoram 
muito. Poderamos ver seus atos de hoje como os de uma mulher que sabe que passou dos limites.  possvel que queira compensar o que fez ontem?
   Alice compreendeu que no poderia comer mais nenhuma poro. Levantou-se bruscamente e o enfrentou . 
   -Fiz o que acreditei necessrio.
   -Sente-se.
   -No, no me sentarei, senhor. Vim hoje comer com voc  porque queria ver se voc gostava das melhorias que fizemos no castelo. -Indicou com uma mo o dossel 
negro e mbar que tinham sobre a cabea-. No h dito uma palavra dos adornos.
   -Sente-se, Alice.
   -Nem tampouco se dignou a prestar ateno na excelente comida. -Olhou-o colrica-. Passei horas organizando esta casa enquanto esteve ausente, e no se dignou 
a pronunciar uma simples palavra amvel. Diga-me, voc gosta do bolo, milorde? Percebe que est quente, no frio?
   Hugh entreabriu os olhos.
   -Neste momento, interessam-me mais outros assuntos.
   -Provou a cerveja? Est recm feita.
   -Ainda no a provei.
   -Gosta do perfume agradvel das toalhas? O que me diz dos tapetes novos que cobrem o cho? Notou que as roupas foram lavados com muita gua e agora exalam uma 
agradvel fragrncia?
   -Alice...
   -O que acha  das novas cores que Julian e eu escolhemos com tanto esmero? Adicionei o mbar para combinar com seus olhos.
   -Senhora, asseguro-a que se no se sentar imediatamente v...
   Sem lhe fazer caso, agitou as dobras da saia.
   -E meu vestido novo? As donzelas trabalharam at a noite para terminar o bordado. Voc gosta?
   Hugh abrangeu com um olhar o vestido negro e mbar.
   -Acaso acha que v-la usando minhas cores me suavizaria? -Apertou a mo com ferocidade no brao da cadeira-. Demnios, acha que me imporo mais com as roupas limpas 
do que com a vingana?
   Alice estava indignada.
   
   -No fiz outra coisa alm do que voc faria se estivesse aqui, quando o pequeno Reginald veio em busca de ajuda.
   Os olhos do Hugh brilharam de fria.
   -Espera desculpar seus atos com uma lgica to pobre?
   -Sim, milord, assim . Nunca me convencer de que teria deixado a lady Emma, ao filho pequeno e toda a propriedade cair nas garras desse espantoso Eduard de Lockton. 
Deixando de lado o que sente por Rivenhall,  muito nobre para permitir que os inocentes sofram por causa de uma vingana.
   -No me conhece.
   -Est enganado. Conheo-o o bastante, senhor. E, em minha opinio,  desafortunado que sua nobreza s seja superada por sua monumental obstinao.
   Alice recolheu as saias, girou e se afastou correndo da alta mesa. Quando chegou  porta, as lgrimas ardiam em seus olhos. Desceu correndo as escadas e saiu 
ao sol.
   No se deteve nem olhou atrs, ao sair pelas portas do castelo.
   
   
   
   Captulo 16
   
   No soube por que foi  caverna. Certo motivo oculto fez que Alice encontrasse consolo nas sombras da grande caverna onde ela e Hugh tinham feito amor. Foi uma 
longa carreira enlouquecida. O que acreditava conseguir fugindo do castelo de maneira to vergonhosa?
   Sentou-se em um penhasco que aparecia perto da entrada, e inspirou profundas vezes para recuperar-se da louca carreira. Estava desarrumada e exausta.
   O adorno que prendia os cabelos deslizou para o lado. Sobre as faces se agitavam mechas frisadas de cabelo acobreado. Os sapatos de macio couro negro estavam 
arruinado. As saias do vestido novo, manchadas de terra.
   Estava certa de que quando Hugh se acalmasse compreenderia por que Alice foi ao resgate de Rivenhall. Segura de que a perdoaria. depois de tudo, era um homem 
inteligente, no um bruto como Eduard de Lockton.
   "Por outro lado, no eraa toa que lhe chamavam,  Hugh o Implacvel", recordou-se. Os que o conheciam, asseguravam que nada podia lhe fazer mudar de atitude uma 
vez que se decidia. E havia, decidido vingar-se desde o dia do nascimento.
   
   Alice sentia o corao pesado. Seu habitual otimismo se converteu em profunda melancolia, sentimento que no lhe resultava familiar. Estava to acostumada a fazer 
planos para o futuro que pensar que podia estar sem planos a impressionou.

   Contemplou a paisagem de Scarcliffe e se perguntou, pesarosa, como podia casar-se com um homem sem corao. Possivelmente tinha chegado o momento de voltar a 
pensar em uma vida tranqila, encerrada entre os muros de um convento.
   Possivelmente era hora de esquecer-se dos ingnuos sonhos de amor.
   Compreendeu com estranheza que at conhecer Hugh nunca a tentaram tais sonhos. Alice tentou pensar com calma e lgica na situao: ainda no estava casada, ainda 
havia tempo para escapar do compromisso.
   Podia obrigar a Hugh a cumprir sua parte do acordo. Podia dizer e fazer muitas coisas, mas era um homem em quem era possvel confiar em relao  a palavra empenhada. 
Na noite anterior, em Rivenhall, teve prova suficiente. Cumpriu a promessa que lhe tinha feito, embora tenha lhe custado a vingana.
   Claro que existia a possibilidade de que se alegrasse de romper o compromisso. Alice demonstrou ser para Hugo muito menos conveniente do que tinha pensado.
   Ao pensar nisso seus olhos encheram-se de lgrimas. Comeou a limp-las com a manga, hesitou, e ao fim sucumbiu a vontade de chorar. Apoiou a cabea sobre os 
braos flexionados e se entregou  tormenta emocional que a arrasava.
   Nunca na vida se havia sentido to sozinha.
   Passou um tempo at que a mar de sentimentos se esgotasse por si mesmo. Por fim, deixou de soluar e permaneceu sentada, a cabea apoiada nos braos, at que 
recuperou a calma.
   Ento, dedicou-se a si mesma uma srie de repreenses silenciosos. "Nada resolve com lgrimas" -disse-se-. "No se pode perder tempo lamentando o passado. "
   Para falar a verdade, se tivesse que fazer tudo outra vez, no mudaria nada do que fizera ontem. No podia dar as costas ao pequeno Reginald e a Ema.
   Tinha estado segura de que Hugh compreenderia, de que ele tivesse feito o mesmo que ela.
   
   
   Mas, sem dvida, enganara-se ao julgar aquela escura lenda que era Hugh.
   Aspessoas tinham que deixar os enganos para trs. Era hora de seguir adiante. Se algo aprendera na vida, era que uma mulher tinha que ser forte se queria controlar 
seu prprio destino.
   A dificuldade com que se deparava nesse momento residia no fato de que se tratava de um homem que tinha aprendido a mesma dura lio.
   Enxugou os olhos com as dobras da saia, exalou um profundo suspiro para acalmar-se, e ergueu lentamente a cabea.
   
   A primeira coisa que viu foi Hugh. Estava apoiado, como descuido, na parede da caverna; os polegares enganchados no cinturo, a expresso inescrutvel.
   -Conseguiu impressionar o sacerdote -disse sem nfase-. No acredito que tenha presenciado antes um espetculo semelhante em um almoo.
   Alice sentiu seu estmago contrair-se.
   -A quanto tempo est ai, me espiando? No o ouvi chegar.
   -Eu sei. Estava muito ocupada chorando.
   Alice afastou a vista daquele rosto duro, implacvel. -Veio para continuar me provocando? Se for assim, advirto-o que no estou com humor para continuar brigando.
   -Que estranho. Nunca a vi cansada de combater.
   Alice lhe lanou um olhar furioso.
   -Por todos os Santos, Hugh, j foi suficiente.
   -Se devo dizer a verdade, para mim tambm.
   O tom irnico a desconcertou, e sufocou imediatamente a fasca de esperana que tinha surgido.
   -Veio pedir desculpas, milorde?
   Hugh apenas sorriu.
   -No abuse muito da sorte, Alice.
   -No,  obvio que no veio por algo to sensato e lgico. Bom, milorde, ento, se no foi para pedir desculpas, para que me seguiu?
   -Disse para no vim sozinha s cavernas.
   "Est evitando o assunto -pensou, surpreendida-. Isso no  prprio de Hugh."
   - verdade, disse-o. No dia em que me deu o anel. -olhou-se a larga pedra negra que parecia lhe pesar no polegar. Uma nova sensao de tristeza a arrasou-. Mas, 
sem dvida, esta transgresso empalidece em comparao com meu terrvel pecado de ontem -murmurou.
   
   -Sim, assim .
   Teria gostado de adivinhar o que era o que Hugh estava pensando. Seu humor era indecifrvel, mas no parecia muito furioso. De repente, lhe ocorreu que talvez 
o prprio Hugh no soubesse bem o que sentia. A fasca de esperana renasceu.
   -Veio me dizer que deseja desfazer o compromisso? -perguntou com frieza. 
   -Se o fizer, me perseguir nos tribunais? 
   Alice se irritou:
   -No seja ridculo. Fizemos um acordo, recorda? 
   -Sim. -ergueu-se e se separou da parede. inclinou-se, agarrou-a pelos ombros e a fez levantar-se com delicadeza-. No me submeterei a julgamento por romper a 
promessa, verdade?
   -No, milorde.
   -Mas bem, ficar muito contente de escapar e se encerrar em um convento. No  assim?
   A jovem ficou rgida.
   -Milorde, sei que est muito zangado pelo que fiz, mas quero que saiba...
   -Silncio. -Os olhos do homem reluziram-. No falaremos mais do que passou ontem.
   Alice piscou:
   -No?
   -Depois de muito pensar, tive que chegar  concluso de que o ocorrido ontem em Rivenhall no foi por sua culpa.
   -No?
   -No. -Retirou as mos dos ombros da Alice-. Foi minha culpa, e s minha.
   -Srio?
   Sentiu-se como se tivesse passado por uma janela mgica e estivesse em um pas estranho, onde a lgica corrente estivesse um pouco desviada.
   -Sim. -Cruzou os braos sobre o amplo trax-. No fixei com claridade os limites da autoridade que concedi a voc. No levei em conta seu tenro corao.
   -No poderia hav-lo feito, senhor. -Alice comeou a sentir-se um pouco irascvel- Ter que ter em conta que no parece saber o que  possuir um corao. E poderia 
adicionar que embora me tivesse proibido estritamente de ir a Rivenhal, eu o teria desobedecido.
   Hugh esboou uma leve sorriso.
   -No sabe quando se calar, no , Alice? E pensar que me chamam o Implacvel! Voc poderia me dar lies nesse sentido.
   
   -Insisto, milorde, em que se tivesse estado aqui e visto o pequeno Reginald suplicar ajuda, at a pedra que tem no  lugar do corao teria se abrandado.
   -No acredito. No teria perdido de vista minha meta final.
   -Senhor, esse menino  de seu sangue, voc goste ou no. Mais ainda, nem ele nem a me tm nada que ver com o que aconteceu no passado. Nenhum dos que vivem hoje 
tem nada que ver. Deixa descansar os pecados antigos.
   -Basta. -Hugh cortou o fluxo de palavras lhe pondo um dedo sobre os lbios-. Surpreenderia-te saber que no vim aqui brigar com voc.
   -No?
   Olhou-o com assombro zombador.
   -No. -A mandbula de Hugh se tensionou-. Nenhuma palavra mais sobre o que passou ontem em Rivenhall, Alice. O fato, est feito.
   
   Alice o olhou, emudecida, percebendo com plena intensidade a excitante aspereza do dedo contra sua boca suave. Por um momento, Hugh se limitou a contempl-la, 
como se procurasse nesses grandes olhos alguma sinal.
   -Alice, a ltima vez que estivemos nestas cavernas, disse-me que at ento nunca tinha feito amor porque no conheceu um homem que a atrasse.
   -Era a verdade. -"No toda a verdade. O certo nunca conheci um homem que pudesse amar", adicionou para si-. E ento?
   No lhe respondeu, mas sim a atraiu para si, segurou-lhe a cabea desalinhada com uma mo enorme, e a beijou.
   A sombria paixo do abrao aflorava muito perto da superfcie, e Alice tremeu sob seu ataque.
   Sempre tinha tido conscincia do limites a que chegava o controle de Hugh quando a tinha nos braos. Mas esse dia sentiu que lutava contra os laos de ao que 
imps a si mesmo. Perguntou-se que fora terrvel o teria levado to perto dos limites de seu controle.
   No beijo, percebeu o resto do aborrecimento e a irritao. A boca se moveu sobre a dela, sem retroceder em sua exigncia. Acreditou ouvir, quase, a tormenta que 
soprava uivando na alma de Hugh.
   Mas de sbito, Alice compreendeu que no a machucaria, que no queria nem podia faz-lo. Rodeou-lhe o pescoo com os braos.
   Hugh ergueu a cabea no mesmo instante em que Alice gemia e abria os lbios. Contemplou essa boca entreaberta com desejo:
   - hora de que voltemos para o castelo. Temos muito que fazer antes do casamento de amanh.
   
   Alice abafou um gemido. Exalou um profundo suspiro e tratou de serenar-se.
   -Milorde, possivelmente teramos que esperar um pouco mais antes de fazer nossos votos.
   -No, senhora. -O tom se endureceu-.  muito tarde.
   -Se para voc no  mais que uma questo de honra cavalheiresca, fique tranqilo. Eu no...
   -S uma questo de honra? -de repente, os olhos ambarinos se tornaram ferozes-. Minha honra  tudo para mim, senhora. Tudo. Entende? Tudo o que sou provm dela.
   -No quis dizer que no lhe dou importncia a sua honra. Ao contrrio, sempre me impressionou muito...
   Interrompeu-se, pois com a extremidade do olho captou um objeto. Girou a cabea para esquadrinhar na escurido da caverna.
   Hugh ficou carrancudo.
   -O que houve?
   -Por todos os Santos -exalou-. Isso no  uma sandlia?
   Hugh olhou para a entrada e entreabriu os olhos. -Sim, . -Soltou Alice e foi a passos largos para o escuro passadio-. Se esse maldito monge ainda est rondando 
por aqui, juro que o expulsarei de Scarcliffe com minhas prprias mos.
   -Mas, por que quereria ficar aqui se j no pode pregar? -perguntou, enquanto ia atrs de Hugh. 
   -Excelente pergunta.
   -O que ? -Alice correu atrs dele e olhou por cima do largo ombro. Transbordou-a um profundo desassossego. De sbito, o ar que saa do passadio pareceu muito 
frio-. Por todos os Santos!
   
   A sandlia estava ainda no p de Calvert. O monge estava imvel, sobre o cho de pedra da caverna. A tnica castanha estava amontoada sobre o corpo ossudo como 
se fosse roupa suja.
   Nessa penumbra se podia ver que o corpo de Calvert estava extranhamente contrado. Parecia que tinha sofrido intensa dor durante um tempo, mas era evidente que 
j estava alm de qualquer sofrimento. -Est morto -disse Hugh com voz baixa.
   
   -Sim, pobre homem. -Alice se fez o sinal da cruz-. Embora no me agradasse, lamento que tenha morrido aqui, sozinho. O que acha que lhe aconteceu?
   -No sei. Possivelmente caiu e golpeou a cabea contra o penhasco.
   Agarrou com uma mo o tornozelo do monge.
    -O que faz?
   -Quero olh-lo mais de perto. H algo estranho em tudo isto.
   Arrastou o corpo fora da caverna. Alice se apressou em retroceder. Ento, viu o estranho tom azul ao redor da boca de Calvert, e um estremecimento de temor a 
sacudiu.
   
   Recordou algo que tinha escrito sua me a respeito das poes feitas com o suco de uma erva estranha. Olhou as unhas do Calvert. As mos estavam rgidas, em forma 
de garras, mas mesmo assim pde distinguir a cor azul debaixo das unhas.
   -Milorde.
   -O que? -perguntou-lhe, distrado.
   Estava concentrado em estirar o corpo do monge para v-lo a luz na entrada da caverna.
   Quando terminou, incorporou-se e observou ao Calvert com expresso especulativa.
   -No acredito que tenha morrido por causa de uma queda -murmurou Alice.
   Hugh lhe dirigiu um olhar perspicaz.
   -A que se refere?
   -Acredito que isto  obra de veneno.
   Hugh a olhou por momento.
   -Est certa?
   Alice assentiu.
   -No livro de minha me h vrias pginas com notas sobre o tema.
   -Nesse caso -disse em tom imparcial-, no dir nada relacionado com o modo em que morreu. Compreende-me, Alice?
   -Sim. -A intensidade da voz a enfeitiou-. Mas no entendo. Por que  to importante que no diga nada?
   -Porque toda a aldeia foi testemunha de seu aborrecimento em relao a ele na igreja. -apoiou um joelho junto ao cadver-. E porque todos sabem que  perita em 
poes de ervas.
   
   Alice ficou gelada. Sentiu nuseas. Respirou rpido, tentando controlar as reviravoltas no estmago.
   -Meu deus. As pessoas poderiam acreditar que eu tive um motivo para assassinar o pobre Calvert e que sei o suficiente de venenos para faz-lo.
   -No quero que minha esposa seja manchada por esses rumores, se posso evitar. -Desatou e tirou o saco de couro que Calvert levava no cinturo-. Esta regio j 
teve muitas lendas e maldies. No quero que se somem outras novas.
   Alice estava aturdida. Quase no registrou o que Hugh fazia. Suas pernas tremiam, e se apoiou com uma mo na parede da caverna.
   -E se no pudermos evitar esses rumores? 
   Hugh encolheu os ombros ao  mesmo tempo que levantava com a bolsa do Calvert em uma mo. -Nesse caso, eu os enfrentarei. - obvio. - Abraou Alice para aliviar 
o frio que a envolvia-. Parece que estou condenada a lhe causar dificuldades sem fim, milorde.
   -Sim, mas estou seguro de que haver compensaes. -Abriu a bolsa de couro e examinou o contedo-. Interessante.
   Por fim, a expresso de Hugh penetrou na mente confusa de Alice, e a dominou sua natural curiosidade.
   -O que ?
   Hugh tirou uma lmina de pergaminho enrolado e o desdobrou com cuidado:
   -Um mapa.
   Alice se aproximou.
   -Do que?
   Hugh observou um momento o desenho. Quando, ao fim, ergueu a vista, brilhavam-lhe os olhos como se fossem de ouro.
   -Acredito que deve ser um desenho das cavernas de Scarcliffe. Ou, ao menos, as que Calvert teve tempo de explorar. 
   Alice correu aonde estava Hugh. Olhou as linhas do mapa.
   -Olhe, milorde, marcou vrios tneis. V?: Aqui indica que estas duas passagens esto vazias. -Olhou-o- Do que acha que esto vazios?
   -Eu no acredito que nosso monge tenha passado todo o tempo orando nas cavernas. Ao que parece, esteve procurando algo. Existe apenas um tesouro que poderia atrair 
a um homem a estas cavernas.
   -As pedras de Scarcliffe -murmurou Alice, maravilhada.
   -Claro. Possivelmente por elas o tenham assassinado.
   
   
   ***
   
   -Voc me chamou, senhor?
   Julian se deteve na entrada do estudio de Hugh.
   -Sim. -Deixou a um lado o jornal de contas-. Entra, Julian. Quero falar com voc.
   -Espero que no me envie a Londres com uma mensagem antes do banquete de bodas desta tarde. -Julian entrou no aposento e parou diante da mesa-Estive esperando 
ansioso esse banquete. Aqui, a comida melhorou muito ultimamente. Notou-o?
   Hugh entreabriu os olhos.
   -Notei-o. Mas no te chamo para falar dos pratos bem preparados que agora alegram minha mesa.
   -Claro que no. -Julian sorriu lisonjeador-. Confio em que saiba a quem agradecer as excelentes comidas que desfrutamos.
   -Tampouco precido de  mais observaes a respeito de como est bem organizada minha casa ultimamente. Tenho uma boa proviso de tais comentrios. Sou muito consciente 
de que essas melhorias so resultado da habilidade de minha noiva no manejo do lar.
   -Certamente -murmurou Julian-. Ento, no que posso lhe servir, milorde?
   Hugh tamborilou com os dedos sobre a mesa:
   -Tem certa facilidade para os elogios gentis e palavras floridas, no  assim, Julian?
   O jovem adotou um ar modesto.
   -Sim, rabisco um pouco de poesia e tenho escrito vrias canes, senhor.
   -Magnfico. Necessito uma lista de elogios. 
   Julian pareceu confuso.
   -Uma lista?
   -Com trs ou quatro estar bem.
   Julian clareou  a voz.
   -Bem, que tipo de elogios prefere, milorde? Gostaria que se limitasse a sua habilidade com a espada ou a seus triunfos em batalha? Posso escrever um algumas  
linhas sobre sua lealdade e sua honra.
   Hugh o olhou fixo.
   -De que demnios est falando?
   -Diz que quer elogios, milorde.
   -Para mim no -retorquiu Hugh-. Para minha noiva.
   
   Aos olhos do jovem apareceu uma expresso risonha. -Ah, entendo.
   Hugh uniu as mos em cima da mesa e franziu o cenho, em um gesto de concentrao.
   -Tenho talento para muitas coisas, mensageiro, mas no para inventar a classe de adulaes que agradam s damas. Quero que me faa uma lista de frases bonitas 
que eu possa memorizar e dizer a minha noiva. Compreende-me?
   -Sim, milorde. -Julian sorriu, estava deliciado.- E poderia adicionar, milorde, que falou com o mais talentoso arteso para esta tarefa, como sempre. Prometo-lhe 
que no se decepcionar.
   
   Na noite seguinte, Alice caminhava pelo tapete do imenso dormitrio de Hugh, tratando de acalmar o formigamento que sentia no ventre. Nunca na vida havia se sentido 
to inquieta como nesse momento. Ela e Hugh j no eram scios segundo um acordo, e sim marido e mulher.
   Passou junto ao fogo e se deteve uma vez mais diante da porta, prestando ateno ao rudo de passos no corredor. J fazia quase uma hora que tinha se despedido 
das criadas. Hugh j teria que estar ali.
   Perguntou-se se a fazia esperar de propsito para elevar sua paixo at um ponto mximo. "Se esse for seu propsito -pensou-, ter uma surpresa."
   No se sentia mais apaixonada, e sim irritada. "J me fartei dos ardilosos planos de Hugh -pensou, ressentida-. Este foi um dia muito longo."
   Comeou com o enterro de Calvert de Oxwick.
   
   Foi sepultado em um pequeno cemitrio, detrs da igreja da aldeia. Os nicos presentes foram Alice, Benedict, Hugh e Joan. Geoffrey, o sacerdote que acompanhou 
a Hugh e a Benedict a Scarcliffe, disse as preces pelo defunto sobre a tumba. Ningum derramou uma lgrima
   Umas horas depois, pouco antes do meio-dia, Geoffrey tinha concludo o servio de bodas frente  porta da igreja.
   Depois, seguiram interminveis celebraes e um complicado banquete. Alice estava to cansada de sorrir e de ser amvel com todos que acreditou que cairia desmaiada 
assim que se aproximasse de uma cama.
   Mas no momento em que ficou sozinha no dormitrio para esperar  Hugh, uma profunda inquietao tomou lugar da fadiga. Deixou de andar de uma lado a outro e foi 
sentar se a um tamborete frente ao fogo. Com a vista cravada nas chamas, tentou imaginar o futuro.
   
   Parecia envolto em uma nvoa, no muito diferente da que velava Scarcliffe esse dia. S havia uma certeza.
   Era a esposa de Hugh.
   Sacudiu-a um pequeno calafrio. Envolveu-se melhor na bata de noite. Todos os planos para o futuro ficavam para trs. No havia possibilidade de arrependimento 
nem de mudar de opinio. Estava comprometida.
   Sem aviso prvio, abriu-se a porta atrs de Alice.
   Girou a cabea de repente quando Hugh entrou no quarto.
   -Bem-vindo, milorde.
   Aliviou-a comprovar que estava sozinho. Ao que parecia, tinha decidido evitar o costume de chegar com uma comitiva buliosa ao leito nupcial.
   -Boa noite... esposa.
   Demorou na ltima palavra, como se fosse algo muito interessante.
   As botas de couro negro no faziam rudo sobre o tapete enquanto caminhava para ela. Sem dvida nenhuma, era uma criatura noturna, um feiticeiro negro que absorvia 
a luz do fogo e emanava sombras.
   Vestia uma das novas tnicas negras, bordada com fio mbar, que Alice lhe tinha feito. O cabelo negro estava escovado para trs, deixando limpa a fronte alta. 
O olhar se fixou no fogo.
   Alice se levantou em um salto. Deu uma olhada para a mesa onde havia duas taas de vinho e um frasco.
   -Voc gostaria de beber um pouco de vinho?
   -Sim, obrigado.
   Hugh se deteve de frente ao fogo, estendeu as mos para o calor e contemplou Alice, que servia vinho. Clareou a voz.
   -Havia dito alguma vez que seu cabelo  da cor de um entardecer brilhante, no momento em que o envolve a noite? -perguntou parecendo compenetrado.
   O frasco tremeu nas mos de Alice, e sentiu que a cor subia s bochechas.
   -No, milorde. Nunca me disso isso.
   - verdade.
   -Obrigada, milorde.
   Ao ver  enchia precipitadamente a taa de vinho, Hugh levantou as sobrancelhas.
   -Est nervosa.
   -Nestas circunstncias, parece estranho, meu senhor?
   Hugh encolheu os ombros.
   -Possivelmente no o seria para quase todas as mulheres, mas voc no  como a maioria, Alice. 
   
   -E voc no  como a maioria dos homens, senhor.
   Girou para ele com a taa na mo.
   Os dedos roaram os dela ao tomar a taa.
   -No que me diferencio de outros homens?
   "Esta no  a conversao que pensava ter na noite de nupcias", pensou Alice. perguntou-se se esperaria uma resposta sria ou se estaria desenvolvendo um novo 
plano para desconcert-la.
   - mais inteligente que outros homens que conheci -respondeu, cautelosa-. Mais profundo. Mais difcil de entender, s vezes, e outras, muito mais claro.
   -Por isso se casou comigo? -Olhou-a por cima da borda da taa-. Porque sou mais inteligente que outros homens? Mais interessante? Excito sua curiosidade? Seu 
temperamento inquisitivo? V-me como a um objeto estranho, digno de adicionar a sua coleo, talvez?
   Alice sentiu um espasmo de inquietao e, de repente, sentiu-se muito desassossegada.
   -No, no  isso.
   Com a taa na mo, Hugh comeou a percorrer o aposento.
   -Casou-se comigo porque demonstrei ser til?
   Alice franziu o sobrecenho.
   -No.
   -Resgatei, voc e seu irmo, do domnio de seu tio.
   -Sim, mas no me casei com voc por isso.
   - para ficar com a posse permanente da pedra verde, possivelmente?
   -Claro que no. -Alice se irritou-. Que idia absurda, milorde. Como ia me casar para possuir essa estranha pea de cristal...
   -Est segura?
   -Muito segura -insistiu, entre dentes.
   Hugh se deteve perto de um das colunas da enorme cama negra e esboou sua perigosa pergunta.
   -Ento,  por paixo?
   O aborrecimento da Alice explodiu:
   -Est me provocando outra vez, senhor.
   -S procuro informao.
   -Acaso acha que me casaria com voc pelo simples prazer de uns beijos?
   -Pelos beijos apenas, no, mas sim pelo que segue a eles. Tem uma natureza muito apaixonada, senhora.
   
   -Senhor, isto foi muito longe.
   -E tambm ter que considerar sua grande curiosidade. -A voz ficou spera-. despertou seu apetite sensual, e quer experimentar mais. O nico modo prtico de faz-lo 
 no leito matrimonial, no  verdade?
   Alice ficou atnita.
   -Fez de propsito, no  assim? Foi tudo um plano. J estava suspeitando-o.
   -O que foi o que suspeitou?
   -Que me beijou, acariciou-me e me fez amor at me deixar sem flego porque quis me apanhar por meio da paixo.
   -Se o que sentiu at agora lhe pareceu interessante, espere at descobrir quanto mais poderia aprender nesta matria. Talvez queira ter pluma e pergaminho junto 
 cama para registrar suas observaes.
   -Oh,  um demnio, milorde. -Deixou a taa com um golpe sobre a mesa e apertou os punhos-. Mas se equivoca se acha que seria capaz de me casar com voc para estar 
segura de que me far amor.
   -Est segura?
   -No sei o que pretende com esta desagradvel conversao. E no penso em continuar participando dela. 
   Decidida, encaminhou-se para a porta.
   -Aonde acha que vai?
   -Ao meu prprio quarto. -Apoiou a mo no trinco de ferro-. Quando tiver passado este estranho comportamento, pode me avisar.
   -O que tem de estranho que um homem queira saber por que sua esposa se casou com ele?
   Alice girou, indignada.
   - muito inteligente para fazer-se de estpido. Sabe muito bem por que me casei. Fiz porque o amo.
   Hugh ficou imvel. Em seus olhos passou algo sombrio e desesperado.
   -Srio? -murmurou, ao fim.
   Alice viu a vontade faminta em Hugh, e esqueceu todo propsito de escapar de seu dormitrio. Conheceu as ondas das emoes do homem, porque ela mesma as tinha 
experimentado.
   -Milorde, no est to sozinho no mundo como acha -disse com suavidade.
   
   
   
   
   
   Soltou o trinco e correu para ele.
   -Alice!
   Tomou- a nos braos, apertando-a com tanta fora que no a deixava respirar.
   Depois, sem uma palavra, abriu a camisola de noite e a deixou cair ao cho. Alice tremia quando a deitou sobre os lenis brancos de linho.
   Hugh se arrancou a puxes sua prpria roupa e a rancou formado um descuidado monto.
   Quando parou diante dela, Alice conteve o flego ao ver a enorme ereo, e a invadiu uma corrente de emoes. sentia-se perturbada, excitada e apreensiva ao mesmo 
tempo. Esteudeu-se lhe para segurar as mos.
    -Minha esposa. 
   Jogou-se sobre ela, esmagando-a contra a cama. 
   
   Alice percebeu um fio da abrasadora necessidade e a crua paixo nos olhos ambarinos quando inclinava a cabea para apoderar-se de sua boca. Nesse instante soube 
que, ao fim, os turbulentos vendavais que uivavam no centro de seu ser, liberaram-se.
   Perdeu-se na tormenta de seu abrao. No se parecia com nada que tivesse conhecido at o momento com ele. Daquela vez, no foi seduo calculada e lenta. Foi 
uma cavalgada furiosa dos ventos de uma tempestade selvagem. Sentiu-se sacudida at um ponto em que quase no podia respirar.
   Percebeu a dura mo em um seio. Assim que o mamilo se ergueu, Hugh o apanhou na boca. Os dentes roaram com delicadeza o casulo sensvel, e Alice estremeceu.
   Um gemido rouco ressoou no peito de Hugh.
   Sua mo desceu, passando pelo ventre, procurando a suave mata enredada. Alice exalou uma exclamao e fechou com fora os olhos ao sentir que o homem molhava 
os dedos na umidade que apareceu entre suas pernas.
   E ento, antes de que pudesse recuperar o flego, estava lhe separando as pernas, e acomodando-se entre elas. Era to grande. E quente. E duro. Alice sentiu como 
se estivessem tragando-a viva. Evocou as palavras do belo elogio: um entardecer brilhante, antes de que o envolva a noite.
   Hugh se apoiou nos cotovelos para contempl-la.
   
   
   
   
   Tinha as feies duras, os olhos brilhantes  luz das chamas. Tomou o rosto de Alice entre as mos.
   -Repete que me ama.
    -Amo-te.
   Sorriu, trmula, sem temor. Nesse momento, pde ver os segredos da alma desse homem. "Precisa de mim -pensou-, tanto como eu a ele. Algum dia, compreender a 
verdade."
   Penetrou-a com fora arrebatadora.
   
   
   
   
   
   Captulo 17
   
   Alice o amava.
   Muito tempo depois, Hugh, deitado de costas sobre os macios travesseiros, contemplava as brasas da lareira. Era consciente de uma estranha paz. Era como se os 
sombrios ventos de tormenta que sopravam em sua alma desde fazia tanto tempo, ao fim se aquietaram.
   Ela o amava.
   Hugh gozou da lembrana da apaixonada declarao de Alice. "E no  o tipo de mulher que diria semelhantes palavras se no fossem verdade", disse-se. No as diria, 
a menos que fossem certas.
   Moveu-se, e se estirou com cuidado na enorme cama, pois no queria despert-la. Estava deitada perto dele, com os quadris acomodados na curva de seu corpo.
   "Tem a pele suave", pensou. Tocou-lhe a curva da coxa, maravilhado. To morna. E o perfume  mais embriagador que a mais extica das especiarias.
   Alice se moveu um pouco, reagindo ao contato at em sonhos. Apertou o brao com que a rodeava quando ela se aproximou mais. "Escolhi bem", pensou. Alice era tudo 
o que aparentava ser aquela noite em que o enfrentou com valentia, no salo de seu tio, e se atreveu a regatear por seu prprio futuro e o do irmo.
   Tudo isso e mais. Era o mais afortunado dos homens. Tinha esperado encontrar uma esposa que tivesse essas qualidades: coragem, honra e inteligncia, to importantes 
para ele. Alm disso, topou-se com uma que o amava com uma paixo to doce e ardente que lhe tirava o flego.
   
   -Parece contente consigo mesmo, milorde -murmurou Alice com voz sonolenta-. No que est pensando?
   Olhou-a.
   -Que, ao contrrio do que temia ao princpio, no corri perigo de ser enganado quando paguei o preo de seu dote. Sem dvida, valia esses dois cofres cheios de 
especiarias.
   Alice abafou uma risada.
   - um descarado e um vadio pouco cavalheiresco.
   Ajoelhou-se, agarrou um travesseiro e comeou a golpe-lo sem piedade.
   Hugh caiu na gargalhada enquanto fingia defender-se.
   -Rendo-me.
   -Quero mais que uma rendio. -Golpeou-o outra vez com o brando projtil-. Quero uma desculpa. 
   Arrebatou-lhe o travesseiro e a jogou em um lado. -E o que parece um elogio em troca?
   
   Alice apertou os lbios, pensando na proposta. -Primeiro, tenho que ouvi-la para saber se me satisfar tanto como uma desculpa.
   -Seus seios so redondos, frescos e doces como os pssegos do vero.
   Colocou a mo sobre um deles.
   - um verso muito formoso -admitiu. 
   -Tenho mais -prometeu.
   -Mnnn.
   Atraiu-a para ele, e Alice se tombou sobre seu peito, morna, suave, tentadora e feminina. Acariciou-lhe o contorno da face de ossos finos. Evocou o dia em que 
a tinha salvado dos ladres, no Ipstoke. Recordou como tinha deslocado para ele. Como se j ento soubesse que seu lugar era est em seus braos.
   -Muito mais -murmurou.
   Alice dobrou os braos sobre o peito dele. -Bom, milorde, sem dvida os versos so muito bonitos, e eu adorarei ouvir mais, mas acredito que neste caso no serviro.
   -Segue preferindo uma desculpa?
   -No. -riu-. O que quero  um benefcio. 
   -Um benefcio?
   -Sim.
   
   -De que tipo? -perguntou, alerta.
   Passou os dedos por entre o cabelo revolto. Era adorvel, deitada na cama. estremeceu-se ao pensar que, se no tivesse sido por uma antiga lenda e pelo capricho 
do destino, jamais a teria conhecido.
   "Mas talvez estivesse destinado a encontr-la desde o dia em que nasci."
   -Ainda no sei. Queria mant-lo em reserva, por assim dizer, at que chegue um dia em que tenha que cobr-lo.
   -Sem dvida vou lamentar, mas no estou de humor para regatear com voc esta noite. Pode contar com minha promessa de um benefcio futuro, senhora.
   Alice ofendida agitou as pestanas. 
   - muito gentil, milorde.
   -Sei.  por certo, um de meus grandes defeitos.
   
   Na manh seguinte, Dunstan cuspiu sobre a terra com seu acostumado entusiasmo, e contemplou a porta que pendurava do armazm.
   -        Belo dia, milorde.
   -Sim. -Hugh olhou a porta quebrada com sensao de profunda satisfao-. No h sinais de chuva. Isso significa que poderemos terminar o trabalho aqui, no ptio, 
sem demora.
   Estava contente com o progresso que se realizou nas terras de Scarcliffe em to pouco tempo.
   J estavam prontas todas as cabanas dos aldeos. A nova sarjeta de guas residuais j estava terminada, e a ponte que cruzava o arroio estava firme outra vez. 
Completaram-se os primeiros pontos de sua lista de prioridades.
   
   Era hora de atender assuntos menos urgentes no castelo. Coisas como a porta do armazm, que pendia rota. Em todo o ptio ressoavam os golpes das ferramentas.
   -Temos abundncia de pessoal -comentou Dunstan.
   No princpio, a Hugh surpreendeu com a quantidade de aldeos que chegavam a cada manh para ajudar nos reparos, pois ele no lhes tinha ordenado que fossem. S 
mandou dizer que havia trabalho para aqueles que tivessem tempo de sobra depois de trabalhar em suas respectivas terras.
   Quase todos os vares fisicamente aptos de Scarcliffe se apresentaram, ferramentas em mo, no trmino de uma hora. Imediatamente comearam a trabalhar com expresso 
alegre.
   
   -Temos que agradecer  minha esposa pela quantidade de trabalhadores que temos hoje aqui -disse com secura-. Ao que parece, causou uma impresso favorvel nos 
aldeos enquanto eu estive em Londres.
   -Lady Alice est convertendo-se com rapidez em uma lenda, como voc, milorde. No passou desapercebido que salvou o Jovem John, o filho do moleiro, quando a curandeira 
j tinha desistido.
   -J me inteirei.
   -E tampouco esqueceram a cena na igreja, quando tirou a Calvert do Oxwick do plpito.
   -Certamente, foi memorvel.
   -Dedicou-se com esforo no controle para que as reparaes que  tinham mandado fossem feitas enquanto esteve ausente.
   Hugh sorriu com expresso irnica.
   -Alice  muito eficaz para conseguir que se faam as coisas. 
   -Sim. Mas me parece mais concreto pensar que o que a transformou em uma lenda foi o resgate de Rivenhall.
   Hugh, sentindo que o humor plcido se dissipava em um instante, resmungou:
   -Quer dizer que os aldeos ficaram maravilhados com sua valentia?
   -Sim, milorde. Maravilhados,  o trmo justo.
   

   -Admito que  minha esposa no falta coragem, mas no resgatou a Rivenhall sozinha. Acompanharam-na voc e a maioria de meus homens. Eduard de Lockton sabia que 
no poderia brigar contra essa fora, nem me teria desafiado empunhando as armas contra minha prometida.
   -No foi a audaz ida a Rivenhall o que lhe conquistou a admirao de todos. -Dunstan riu entre dentes-.  o fato de ter sobrevivido  sua fria o que assombrou 
a todos.
   -Por todos os diabos -resmungou Hugh. Dunstan lhe lanou um olhar perspicaz.
   -H quem diga que exerce um poder mstico sobre voc.
   -Srio? -Na mente de Hugh se acenderam ardentes lembranas da noite passada e sorriu. Possivelmente os que falam de seus poderes mgicos, tenham razo.
   Dunstan ergueu uma sobrancelha.
   -Tenho a impresso de que o casamentpo provocou um interessante efeito sobre seu nimo, milorde.
   
   Hugh se salvou de replicar por um grito que chegou de uma das torres de vigilncia.
   -Aproximam-se visitantes, milorde -gritou um dos homens de um posto elevado.
   - Visitantes? -Hugh ficou carrancudo-. Quem poderia visitar Scarcliffe?
   -Voc no carece por completo de amigos -respondeu Dunstan, marcando as palavras.
   -Ningum viria sem mandar antes uma mensagem. -Olhou o guarda que estava na torre-. Homens armados? 
   -No, milorde. -O guarda observou o caminho que chegava a Scarcliffe-. Um homem com uma espada, nada mais. Vem acompanhado por uma mulher e um menino.
   -Maldio! -Hugh se sentiu invadido por um fundo pressgio, e virou para a porta aberta-. No ser to estpido para fazer uma visita de bom vizinho.
   -Quem? -perguntou Dunstan.
   Instantes depois, a pergunta foi respondida quando Vincent de Rivenhall entrou cavalgando no ptio.
   Junto a ele, estavam lady Emma e o pequeno Reginald.
   Hugh grunhiu aborrecido.
   -Acaso um homem no pode desfrutar em paz a manh seguinte a sua noite de nupcias?
   -Parece que as coisas mudaram na histria de Scarcliffe -murmurou Dunstan.
   
   Todos os que estavam perto deram a volta para olhar os recm chegados, e o trabalho se interrompeu. Os rapazes correram a fazer cargo dos cavalos das visitas.
   Hugh observou Vincent enquanto desmontava e dava a volta para ajudar Emma a desembarcar da gua. O pequeno Reginald saltou dos arreios e sorriu para Hugh.
   Vincent, com o semblante marcado por uma expresso de sombria determinao, enlaou o brao da esposa e se adiantou como se fosse a caminho da forca.
   -Sir Hugh.
   Deteve-se frente ao relutante anfitrio, e executou uma rgida reverncia.
   
   -Vejo que, por fim, deixou as justas pelo tempo suficiente para visitar suas terras -disse Hugh, lacnico-. Que pena que no o fez antes: teria economizado muito 
tempo a minha esposa.
   Vincent se ruborizou intensamente e apertou a mandbula.
   -Sei que estou em dvida com voc, sir Hugh.
   
   -Com quem estaria em dvida, seria com minha esposa. No quero que atue convencido de que tem uma maldita dvida comigo.
   
   -Eu no tenho o menor desejo de ficar em dvida com voc, milorde -disse entre dentes-. De todos os modos, devo lhe agradecer pelo que fez por minha esposa e 
meu filho.
   -Economize seus agradecimentos. No as quero.
   -Nesse caso, as darei a sua senhora -resmungou Vincent.
   -Isso no ser necessrio. Esta manh, lady Alice est trabalhando em seu estudio. -lhe ocorreu que era prefervel livrar-se dos do Rivenhall antes de que Alice 
soubesse que tinham visitas-. No gosta que a interrompam.
   Emma se apressou a falar.
   -Sabemos que se casou ontem, milorde. viemos a felicit-lo.
   Dirigiu-lhe um sorriso trmulo mas gentil.
   Hugh fez uma leve inclinao de cabea, aceitando a felicitao.
   -Desculparo-me se no organizar um banquete para celebrar a inesperada presena de vocs em meu recinto, senhora. Para falar a verdade, neste momento no podemos 
recebe-los. Estamos ocupados com questes mais urgentes.
   O semblante da Emma se escureceu.
   Vincent comps uma expresso furiosa. -Maldito seja, primo, liberarei-me desta dvida, embora seja a ltima coisa que faa.
   -Pode continuar se ocupando da segurana de seu prprio castelo, de modo que nunca mais Scarcliffe tenha que ir em defesa das terras de Rivenhall. -Dirigiu-lhe 
um sorriso tenso-. Estou seguro de que compreende meus sentimentos nesse aspecto. Resgatar Rivenhall vai contra a corrente deles.
   -O mesmo que, para mim, receber a assistncia de Scarcliffe -replicou Vincent.
   
   -Lady Emma, lady Emma! -A voz alegre de Alice chamou a ateno de todos os que estavam dentro do recinto amuralhado-. Bem-vinda. Que alegria que tenha vindo.
   
   -Maldio! -balbuciou Hugh.
   Agora sim que no poderia desfazer-se de Vincent e sua famlia antes de que Alice se inteirasse de sua presena.
   Todos ergueram a vista para a janela da torre.
   Alice apareceu pela estreita abertura e agitou entusiasta um leno, a modo de saudao. Inclusive mesmo deto longe, Hugh viu que tinha o rosto iluminado de regozijo.
   -Chegam bem a tempo para almoar conosco - Emma gritou-lhe de cima.
   -Obrigado, milady -respondeu Emma-. ns adoraremos poder almoar com vocs.
   Desapareceu da janela. 
   -Pelo sangue de Sat -exclamou Vincent, amargurado-. Temia isso.
   -Sim -murmurou Hugh.
   Era bvio que Alice e Emma tinham travado uma rpida amizade.
   - de homens sbios saber quando retroceder -insinuou Dunstan, tratando de ajudar.
   Hugh e Vincent o olharam furiosos.
   Dunstan abriu as mos em gesto apaziguador.
    -Irei ocupar-me dos cavalos.
   
   Duas horas depois, Alice estava com a Emma diante da janela do estudio, e observavam nervosas como Hugh e Vincent cruzavam o ptio juntos. Os dois se encaminhavam 
para os estbulos.
   -Bom, ao menos, durante o almoo, no se atacaram com as facas -comentou Alice.
   Tinham comido em um clima de tenso que no foi saudvel para a digesto, mas no se produziram exploses de violncia, para alvio de Alice. Ela e Emma fizeram 
o esforo de sustentar a conversao animada, enquanto Hugh e Vincent engoliam em turvo silncio. Alguns  comentrios que intercambiaram foi de cunho irnico e corrosivo.
   -Sim. -Emma franziu as sobrancelhas, compondo uma expresso de inquietao, enquanto os olhava entrar nos estbulos-. Ambos so vtimas inocentes de um antigo 
conflito de famlia. Nenhum dos dois teve nada que ver com o que aconteceu h tantos anos, mas sim os antecessores, que os carregaram com seu prprio dio e seu 
desejo de vingana.
   
   
   Alice a olhou.
   -O que sabe sobre a histria do conflito?
   -Nada mais que o que sabem todos. Matthew de Rivenhall estava prometido a outra quando seduziu a lady Margaret, a me de seu marido. Foi a Frana durante quase 
um ano, e nesse lapso nasceu Hugh. Parece que quando sir Matthew retornou, foi ver a Margaret. 
   -E morreu?
   -Os homens de Rivenhall esto convencidos de que lhe deu veneno para beber e depois bebeu ela mesma.
   Alice suspirou.
   -Ento,  muito improvvel que tivesse ido v-la para dizer que pensava  em se casar com ela.
   Emma sorriu com tristeza.
   -Lorde Vincent me assegura que seria impossvel que o tio rompesse seu compromisso com a herdeira. Era uma unio conveniente, e ambas as famlias o desejavam, 
mas talvez sir Matthew pensasse conservar  lady Margaret como amante.
   -E ela foi muito orgulhosa para ser a amante enquanto ele se casava com outra. -Alice moveu a cabea-. Posso compreend-la.
   -Sim. -olharam-se aos olhos-. Mas no acredito que uma mulher de sua gentileza tivesse recorrido ao veneno para obter vingana. E tampouco acredito que voc mesma 
tivesse bebido o veneno, deixando assim seu filho sem me.
   -No, eu no teria feito isso, por mais zangada que estivesse.
   Tocou-se o abdmen com os dedos. Era provvel que j levasse em suas vsceras o filho de Hugh e, ao pens-lo, sentiu-se ferozmente protetora.
   -Nenhuma de ns teria feito algo semelhante -murmurou Emma.
   Alice pensou em Calvert do Oxwick, morto por veneno, e estremeceu como se a tivesse acariciado uma brisa gelada.
   -E se lady Margaret tampouco o tivesse feito?
   Emma a olhou perplexa.
   O que quer dizer? No h outra explicao do se que passou naquela noite.
   -Engana-se, Emma -respondeu lentamente.-H outra possibilidade. E se foi outra pessoa a que administrou o veneno a sir Matthew e a Margaret?
   -Com que motivo? No tem sentido. Ningum tinha um motivo.
   -Suponho que esteja certa e, de qualquer maneira, a estas alturas j no podemos saber a verdade.
   
   "A menos que, depois de tantos anos, o envenenador tenha voltado para o Scarcliffe -pensou-. Mas, por que escolheu o monge como vtima?"
   O crebro de Alice bulia com esses pensamentos inquietando-a. Afastou-se da janela, cruzou o aposento at a mesa e levantou o cristal verde.
   -Voc gostaria de ver minha coleo de pedras, Emma?
   -Pedras? Nunca conheci ningum que colecione pedras.
   -Penso escrever um livro descrevendo vrias classesdelas.
   -Srio? -Emma olhou para o ptio amuralhado e se paralisou-. Deus do cu, o que esto fazendo?
   -Quem?
   -Nossos maridos. -Abriu bem os olhos, e levou as mos  boca, horrorizada-. Tiraram as espadas e esto lutando.
   -No seriam capazes.
   Alice correu para a janela e se inclinou para ver melhor.
   
   Imediatamente, verificou que Emma estava certa. No centro do ptio, Hugh e Vincent enfrentavam-se. As espadas reluziam ao sol. Nenhum dos dois levava elmo nem 
cota, mas sim um pequeno escudo.
   Os aldeos que tinham estado fazendo reparos e vrios homens armados deixaram as ferramentas.
   Logo, juntou-se uma multido para olhar.
   -Terminem logo com essa tolice -gritou Alice, da janela-. No  tolerarei, ouvem-me? A multido reunida no ptio a olhou. Vrios homens dissimularam sorrisos. 
Alice viu que muitos deles se olhavam entre si, e murmuravam, tampando a boca com as mos. Soube que estavam fazendo apostas.
   Hugh olhou interrogante para a janela.
   -Volte para suas pedras e a seus escaravelhos, senhora. Isto  jogo de homens.
   -No quero nenhum jogo de espadas entre voc e nosso convidado, milorde. -Apertou com fora as mos no batente-. Encontre outra coisa para entreter sir Vincent.
   Vincent ergueu a vista. Inclusive dessa distncia, notava-se o ar selvagem de seu sorriso. 
   -Milady, asseguro-lhe que estou muito satisfeito com este entretenimento. Para falar a verdade, no me ocorre nada que pudesse desfrutar mais que de um pouco 
de prtica com a espada com seu senhor.
   Emma olhou furiosa para seu marido.
   
   -Meu senhor, somos hspedes nesta casa. Ordeno-o que respeite o desejo de lady Alice. 
   -Mas foi seu esposo que sugeriu este jogo-exclamou-. Como posso me negar?
   Alice apareceu mais pela janela.
   -Sir Hugh, tenha a amabilidade de informar a nosso convidado que deseja praticar outr tipo de esporte com ele.
   -O que outro esporte sugeriria, senhora? -perguntou com inocncia-. O que acha de praticarmos com as lanas?
   Alice se enfureceu.
   -Mostre a sir Vincent a nova sarjeta se no lhe ocorrer nada mais divertido. No me importa o que faa, mas no permitirei que os dois enredeis em uma justa neste 
castelo. Fui clara, senhor?
   Do recinto ascendeu um silncio espectador. Todas os olhares estavam presas  janela da torre.
   Por um momento, Hugh a contemplou com grande concentrao.
   -No  permitir? -repetiu, ao fim.
   Alice inspirou fundo, e cravou os dedos no batente.
   -J me ouviu. No  uma maneira apropriada de entreter  um convidado.
   -Senhora, talvez no o tenha advertido, mas o senhor deste castelo sou eu. Entreterei  meu convidado como me parecer melhor.
   -Lembra o benefcio que me prometeu ontem  noite?
   -Alice!
   -Reclamo-o agora, milorde.
   A expresso de Hugh foi mais turva que durante o almoo. Permaneceu imvel durante uns segundos tensos, e logo, com um rudo sibilante e letal, colocou a espada 
outra vez na bainha.
   -Est bem, senhora -disse, sem entonao alguma-. Reclamou o benefcio, e o concedo. -Sorriu com frieza-. Mostrarei a sir Vincent a sarjeta da aldeia.
   Vincent caiu em gargalhadas, embainhou a espada e estapeou o ombro de seu primo. -No se preocupe, senhor -disse, no sem certa simpatia-. Tenho total confiana 
em que logo se adaptar  vida de casado.
   
   Pouco depois, Hugh passava a cavalo diante do convento, acompanhado pelo homem que tinha aprendido a odiar desde que nasceu. Nem ele nem Vincent falaram desde 
que saram do castelo de Scarcliffe.
   
   -Vai mesmo me mostrar a sargeta da aldeia? -perguntou Vincent, com secura.
   Hugh fez uma careta.
   -No. Para falar a verdade, h um assunto que, sem dvida teremos que comentar.
   Esteve pensando como dizer a Vincent sobre o assassinato de Calvert, e por fim chegou a uma concluso.
   -Se pensa em me exortar outra vez a respeito de meus deveres para com o Rivenhall, pode economizar o flego. Por fim, reuni dinheiro suficiente nas justas para 
me ocupar de minhas terras. No tenho intenes de abandon-las outra vez.
   Hugh encolheu os ombros.
   -Esse  seu assunto. Mas como vizinhos que somos, gostemos ou no, tem que saber que, recentemente, cometeu-se um assassinato nesta regio.
   -Assassinato? -Jogou um olhar de alarme-. A quem mataram?
   -Encontrei o cadver de um monge peregrino chamado Calvert do Oxwick em uma das covas dos escarpados. Acredito que uns ladres o mataram.
   -Por que mataria um monge?
   Hugh hesitou um instante.
   -Porque estava procurando as Pedras de Scarcliffe. Vincent lanou uma exclamao incrdula. -Esse no  mais que um conto antigo. Se existiram alguma vez as pedras 
de Scarcliffe, faz tempo que desapareceram.

   
   -Sim, mas sempre existe os que acreditam nessas lendas. O monge deve ter sido um deles.
   -E o assassino?
   -Tambm deve acreditar -disse Hugh, em voz baixa. Vincent franziu o cenho.
   -Se um ladro assassinou um monge por um tesouro inexistente, no cabe dvida de que agora j sabe seu engano.  muito provvel que se partiu desta regio.
   -Sim. Mas tendo em conta que decidiu voltar para seu imvel e assumir suas responsabilidades, acreditei conveniente que estivesse informado deste incidente. Ningum 
gosta de ter um assassino prximo ao lar.
   -Dirige o sarcasmo to bem como a espada, sir Hugh.
   - a nica arma que minha esposa julgou conveniente me deixar usar hoje.
   
   Vincent guardou silncio um momento. Os cascos dos cavalos no faziam rudo sobre a terra. Vrias freiras que trabalhavam nos jardins do convento observaram ao 
casal. O filho do moleiro saudou entusiasta com a mo da cabana dos pais.
   -Sir Hugh, sir Hugh -gritou, alegre.
   Hugh ergueu a mo em sinal de saudao, e o Jovem John riu, encantado.
   Vincent viu como desaparecia o menino no interior da cabana e depois olhou para Hugh.
   -Dizem que Erasmus de Thornewood est prximo da morte.
   -Sim.
   - Sentirei sua falta-disse com sinceridade-. Deixando de lado a exigncia de que voc e eu no lutassemos entre ns, foi um bom suserano.
   -Muito bom.
   Vincent observou as cabanas.
   -Obteve muito nos ltimos meses aqui, Hugh.
   -Claro, com a ajuda de minha esposa.
   Hugh sentiu uma flamejante sensao de orgulho e satisfao. Em Scarcliffe reinavam a ordem e a estabilidade. Na primavera, tambm comeariam a conhecer a prosperidade.
   -Diga-me -disse Vincent-, ainda cobia Rivenhall, ou est satisfeito com estas terras?
   Hugh ergueu as sobrancelhas.
   -Pergunta a mim se darei procurao a Rivenhall quando a morte de Erasmus quebra meu juramento?
   -Pergunto se o tentar -corrigiu-o cortante.
   -Tentar?
   Dentro de Hugh, transbordaram as gargalhadas, que vinham do mais profundo de seu ser. Ressoaram na rua, atraindo a ateno das freiras do outro lado do muro do 
convento.
   -Alegra-me que a pergunta o divirta. - Vincent o olhou com expresso cautelosa-. Mas ainda aguardo sua resposta. .
   Hugh conseguiu controlar a risada. -Suspeito que Rivenhall est a salvo enquanto minha esposa se considere amiga da sua. No gostaria de contemplar uma eterna 
expresso de ira, que seria o que teria que suportar se fosse sitiar Rivenhall.
   
   
   
   
   
   Vincent piscou e logo comeou a sorrir.
   -Algo me diz que j se acostumou as maravilhas da vida de casado.
   -Existem destinos piores.
   -Sim,  verdade.
   
   A manh seguinte amanheceu carregada de nuvens ameaadoras. Hugh teve que acender uma vela sobre a mesa para que ele e Benedict pudessem trabalhar. Estava na 
metade da tarefa de examinar uma lista de especiarias quando percebeu que a chama da vela piscava de uma maneira estranha. Deixou a pluma e esfregou os olhos com 
o polegar indicador. Quando os abriu outra vez, viu que a chama se alargara muito.
   -Passa mau, senhor?
   Benedict se inclinou sobre a mesa com expresso preocupada.
   -No.
   Hugh sacudiu a cabea para limpar as teias que parecia ter na mente. As feies de Benedict comearam a deformar-se. Os olhos se uniram com o nariz e a boca.
   -Lorde Hugh?
   Hugh fez esforos por concentrar-se. O rosto de Benedict voltou para a normalidade.
   -Terminou essas somas?
   -Sim. -Benedict afastou as taas de caldo verde que lhes tinham levado ao estudio pouco antes-. Terei as quantidades preparadas para que Julian possa levar amanh 
a Londres. Senhor, est seguro que est bem?
   -Por que diabos a chama dana assim? Aqui no h nenhuma corrente.
   Benedict olhou a vela.
   -A chama est firme, senhor.
   Hugh a olhou. A chama saltava loucamente. Tambm estava tomando uma estranha cor rosada. Chamas rosadas?
   Afastou a vista da chama e a fixou na tapearia que pendurava na parede. O unicrnio bordado no centro ganhou vida enquanto o observava. Voltou a cabea graciosa 
e o olhou com expresso de curiosidade.
   -A sopa -murmurou Hugh.
   -Como diz, milorde?
   
   Hugh olhou a tigela meio vazia que tinha na frente e uma terrvel premonio rasgou o vu que lhe turvava o crebro.
   -Voc bebeu algo?
   A voz era um murmrio rouco.
   -Da sopa verde? -As feies de Benedict resplandeceram igual  chama-. No. Eu no gosto. Sei que Alice est convencida de que  muito boa para os humores, mas 
me desagrada. Geralmente, jogo-a pelo desge mais prximo.
   -Alice! -Hugh se agarrou a borda da mesa, ao mesmo tempo que o aposento comeava a girar lentamente ao redor-. A sopa.
   -O que aconteceu, milorde?
   - Traga-a. Fale para a Alice. Lhe diga... lhe diga... veneno. 
   Benedict se levantou de um salto.
   -Senhor,  impossvel. Como se atreve a acus-la de envenen-lo?
   -Alice no -conseguiu a dizer-. Este  trabalho de Rivenhall. Minha culpa. Nunca devia deix-lo entrar no castelo.
   Enquanto caa pesadamente no cho, Hugh teve turva conscincia dos passos de Benedict que foram para a porta e percorriam o corredor. E ento, o unicrnio desceu 
da tapearia, cruzou a habitao e o olhou com ar solene.
   -Assim foi com seu pai e sua me -disse-lhe o unicrnio com gentileza.
   
   Captulo 18
   
   -Milorde, vou colocar os dedos na sua garganta. Rogo que no me morda.
   Abaixada junto a Hugh, Alice lhe fez girar a cabea e lhe abriu a boca.
   Um instante depois, Hugh gemeu e vomitou o contedo do estmago no urinol que sustentava Benedict.
   Alice esperou at que comeassem a alivi-los os primeiros espasmos, e voltou a meter-lhe os dedos na garganta.
   Hugh se convulsionou com violncia, e expeliu o pouco que ficava.
   Benedict olhou a sua irm com expresso temerosa. -Morrer?
   -No -prometeu-lhe Alice em tom feroz-. No morrer, se eu puder evitar Traga-me gua, Benedict. Uma jarra grande. E leite. Rpido.
   -Sim.
   Benedict agarrou a bengala, ficou de p e correu fora do quarto.
   -Benedict!
   O moo se deteve com uma mo no marco da porta.
   -O que?
   
   -No conte isto a ningum, compreende? Diga que eu lhe pedi a gua e o leite para lavar o rosto.
   -Mas, e se a sopa est envenenada? Todos tero bebido sua taa matinal.
   -A sopa no estava envenenada -disse Alice em voz baixa-. Eu bebi uma taa cheia recentemente. E minha servial tambm.
   -Mas...
   -Depressa, Benedict.
   Saiu correndo do quarto.
   Hugh abriu um instante os olhos de cor mbar, que ardiam.
   -Alice.
   - um grande homem, e no bebeu toda a sopa, milorde. O fiz devolver quase toda a que consumiu. Viver.
   -Matarei-o -jurou, e fechou outra vez os olhos-. Depois disto, meu juramento a Erasmus no o proteger.
   -A quem se refere?
   -A Vincent. Tentou me envenenar.
   -Hugh, disso no pode estar certo disso. 
   -Quem outro? -Um novo espasmo o dominou.

   O corpo poderoso estremeceu, mas j no restava nada dentro-. Tem que ter sido ele.
   Benedict entrou pela porta, sem flego por ter descido correndo at as cozinhas. Trazia dois frascos em uma mo.
   -Aqui esto o leite e a gua.
   -Magnfico. -Alice recebeu o primeiro frasco-. Ajude-me a faz-lo beber isto.
   Hugh entreabriu os olhos.
   -No se ofenda, senhora, mas neste momento no tenho muito apetite.
   -Minha me escreveu que convm administrar grande quantidade de lquido a uma vtima de envenenamento. Devolve o equilbrio aos humores corporais. -Acomodou a 
cabea de Hugh em seu colo-. Por favor, milorde, rogo que o beba.
   A testa de Hugh estava coberta de um filete de suor, mas em seus olhos brilhou fugazmente o humor ao divisar a curva dos seios de sua mulher.
   -Sabe que quando usa suas maneiras elegantes, estou perdido. Muito bem, senhora, beberei qualquer coisa que deseje, a menos que seja verde.
   Alice olhou para Benedict.
   
   -Acredito que j se sente muito melhor. Procura sir Dunstan. Necessitaremos de ajuda para levar a meu senhor a seu dormitrio.
   -Sim.
   Benedict voltou a sair pela porta.
   -Por todos os diabos -murmurou Hugh-. No me levar como se fosse um menino.
   Ao final, conseguiu percorrer o corredor por seus prprios meios, mas Alice, Benedict e Dunstan tiveram que sustent-lo. 
   
   Quando por fim se derrubou sobre a macia cama de bano, caiu dormido imediatamente.
   -Veneno? -Aos ps da cama, Dunstan fechou os punhos nas laterais do corpo-. Deram veneno a sir Hugh? Est certa?
   
   -Sim. -Alice o olhou carrancuda-. Mas, por agora, no tem que dizer nada, sir Dunstan. At o momento, os nicos que sabemos a verdade somos ns quatro. Por um 
tempo quero que siga assim.
   -Que no diga nada? -Dunstan a olhou como se estivesse louca-. Porei este maldito castelo abaixo. Pendurarei todos os criados da cozinha um por um, at que descubra 
 pessoa que ps a beberagem na taa de sir Hugh.
   -Sir Dunstan...
   -Sem dvida, proveio de Rivenhall. -Enquanto ruminava o problema a sua satisfao, Dunstan contraiu a frente-. Sim, isso o explicaria. Ontem, antes de partir, 
sem dvida sir Vincent subornou  um criado de Scarcliffe para que lhe pusessem as ervas venenosas na sopa.
   -Sir Dunstan, j  suficiente. -Alice se levantou do tamborete junto  cama-. Eu me ocuparei disto.
   -No, senhora. Sir Hugh no permitiria que voc se ocupasse de um assunto to sangrento.
   -J estou metida nele-disse entre dentes, para no elevar a voz-. E sei mais sobre venenos que voc, senhor. Descobrirei como se cometeu este fato. S ento saberemos 
a quem culpar.
   - a sir Vincent de Rivenhall que ter que culpar -afirmou Dunstan.
   -No podemos estar seguros. -Alice comeou a caminhar  pelo quarto-. Bem, s sabemos que a sopa de sir Hugh foi envenenada. Isso significa que puseram as ervas 
em sua tigela quando o levavam a estudio, ou que...
   
   
   
   
   
   -Descobrirei esse criado traidor -a interrompeu furioso-. E o farei confessar antes do meio-dia.
   Alice se apressou a continuar:
   -Ou o veneno j estava na taa quando verteram nela a sopa.
   No semblante de Dunstan se refletiu a perplexidade.
   -Como assim j estava na taa?
   -Sim, senhor. A cozinha  um lugar concorrido. Certamente, um par de gotas de um veneno muito forte no fundo de uma taa passariam inadvertidas quando servissem 
a sopa nela.
   -E um par de gotas bastariam para matar a um homem?
   -Existem beberagens de certas ervas que conservam suas propriedades letais embora estejam destiladas. E a sopa quente pode ter reativado uma beberagem assim.
   "Alguns, no todos", adicionou Alice para si. E segundo o tratado de sua me, as ervas usadas em tais preparados no eram comuns.
   Benedict olhou para Alice por cima da forma adormecida de Hugh.
   -No  um segredo qual  o recipiente usado por sir Hugh. Seria bastante fcil para um envenenador distinguir sua taa das outras.
   -Sim. -Alice continuava caminhando com as mos unidas  costas-. Sir Dunstan, eu levarei adiante esta investigao, compreende-me? Muitas coisas dependem do resultado. 
A guerra contra Rivenhall custaria muitas vidas. Se essa for a alternativa, no as queria ter sobre minha conscincia.
   -Senhora, esteja segura de que, quando sir Hugh despertar, no haver outra alternativa -afirmou Dunstan com expresso selvagem-. Assim que puder montar a cavalo, 
cobrar vingana.
   Alice lanou um olhar para Hugh. At no sonho, tinha aspecto de implacvel. Ningum sabia melhor que ela que, uma vez decidido, nada poderia det-lo.
   Deu a volta, para encarar Dunstan e Benedict. -Ento, devo atuar com rapidez.
   Alice fechou o livro de sua me, cruzou as mos sobre a mesa e olhou para a jovem ajudante de cozinha que estava frente a ela.
   -Luke, esta manh, voc levou a sopa a sir Hugh?
   
   -Sim, milady --respondeu, sorrindo orgulhoso--. Atriburam-me a tarefa de lhe levar a sopa todas as manhs.
   
   -Quem te atribuiu essa tarefa?
   Luke a olhou, intrigado.
   -Elbert,  obvio.
   -Diga-me, Luke, hoje, quando foi levar a sopa para sir Hugh, no trajeto, deteve-se para conversar com algum?
   -No, milady. -Nos olhos de Luke apareceu uma expresso alarmada-. No me detive para nada, juro. Fui diretamente para o quarto, como me ordenaram. Se a sopa 
ainda estava quente quando cheguei! Se estava fria quando sua senhoria a bebeu, no  por minha culpa, milady.
   -Tranqilize-se, Luke. A sopa estava bem quente -assegurou-lhe Alice com doura.
   Luke se reanimou.
   -Lorde Hugh est de acordo com meu servio?

   -Eu diria que ficou atnito com o desta manh.
   -Ento, pode ser que Elbert logo me deixe servir no salo principal -disse Luke, contente-.  minha maior ambio. Minha me ficar orgulhosa.
   -Estou segura de que, um dia destes, cumprir seu objetivo, Luke. Parece um moo decidido.
   -Sou-o, milady -afirmou com ardor-. Lorde Hugh me disse que o segredo da verdadeira fora de um homem, sem ter em conta sua posio na vida,  a deciso e a fora 
de vontade. Se forem intensos, pode obter o que se prope.
   Apesar da angstia que sentia, Alice sorriu ao imaginar a Hugh dando conselhos a uma moo da cozinha.
   -Sem dvida, isso parece algo prprio de sir Hugh. Quando te deu de presente essa partcula de sabedoria?
   -Ontem pela manh, quando lhe perguntei como podia suportar a sopa verde todos os dias. Eu no o tocaria jamais.
   Alice suspirou.
   -J pode voltar para suas tarefas, Luke. 
   -Sim, milady.
   
   Esperou a que Luke tivesse sado do escritrio antes de abrir outra vez o livro de notas. Chegou  concluso de que uma das perguntas tinha ficado respondida. 
Luke era um rapaz honesto. Acreditou-lhe quando assegurou que no se cruzou com ningum quando foi ao escritrio de Hugh.
   
   Isso significava que o veneno no foi vertido na taa depois de ter sido servida a sopa.
   O que, por sua vez, significava que estava procurando um veneno que pde ter sido vertido inadvertidamente no fundo da taa limpa. Requereria uma preparao to 
forte que umas gotas bastassem para provocar enfermidade ou morte.
   Fechou com fora os olhos ao pensar que esteve a ponto de perder a Hugh, e a sacudiu um terrvel calafrio de temor.
   Tinha que descobrir o assassino antes de que pudesse voltar a atacar. Tinha que encontrar o envenenador antes que Hugh sitiasse seu parente consangneo e destruisse 
para sempre toda esperana de paz entre Rivenhall e Scarcliffe.
   
   Alice fez um esforo para concentrar-se nas notas feitas por sua me com respeito  erva beladona.
   Se prepara de acordo com esta receita, uma pequena quantidade alivia a dor intestinal. Mas em grande quantidade, mata... 
   Um discreto golpe na porta anunciou outra visita.
   -Adiante -disse Alice, sem apartar a vista da pgina.
   Elbert apareceu a cabea por detrs da porta.
   -Mandou me buscar, senhora?
   -Sim, Elbert. -Levantou a vista-. Quero que se ocupe de que hoje se limpem todas as taas e pratos que h na casa antes de servir outra comida.
   -Mas se lavam todos os pratos e taas depois de cada comida, como voc indicou -balbuciou Elbert, muito confuso pela ordem.
   -Sei, Elbert, mas quero que hoje, antes do almoo, lavem-se outra vez. Est claro?
   -Sim, milady. antes da comida. Darei a ordem em seguida. Algo mais?
   Alice hesitou.
   -Hoje, lorde Hugh no comer com outros. Est no dormitrio, e no quer ser incomodado.
   Elbert se alarmou:
   -Passa mau, milady?
   -No. Tem um leve resfriado. Dei-lhe um tnico e amanh estar bem.
   O semblante de Elbert se abriu.
   -Quer que leve mais da sopa verde  habitao?
   -No acredito que seja necessrio, obrigado, Elbert. Pode ir. No se esquea de que lavem imediatamente pratos, jarras e taas.
   
   -Sim, senhora. Far-se em seguida.
   Fez uma reverncia e saiu a cumprir as ordens. Alice tentou espantar oa mrbidos temores que ameaavam sufoc-la. Deu a volta a outra pgina do livro de notas 
e se concentrou na letra pulcra de sua me.
   O relgio de gua que havia sobre a mesa de trabalho gotejou lentamente. Passou outra hora.
   Muito tempo depois, Alice fechou o jornal e permaneceu imvel um longo momento. Refletiu no que tinha lido.
   Como suspeitava, os segredos para preparar um veneno o bastante forte para ser administrado como tinha sido este, estavam envoltos no mistrio.
   Embora o medo do veneno fosse generalizado, na realidade no era to perigoso. Na verdade, a maioria dos venenos no funcionavam bem.
   
   Ao contrrio do que muitas pessoas acreditavam, a preparao de venenos letais no era fcil. S um jardineiro experiente conhecia as ervas apropriadas. Era preciso 
muito estudo e experincias para preparar uma poo. S um herbanrio pouco comum, que tivesse estudado os venenos e seus antdotos para descobrir, as freiras, por 
exemplo, ou um alquimista que perseguisse conhecimentos sobre as artes do mal, dedicaria tanto tempo a procurar poes capazes de matar.
   
   Havia uma quantidade de problemas prticos que resolver para preparar poes venenosas. Era muito difcil determinar a dose exata. Tambm era muito difcil refinar 
o veneno at chegar ao ponto em que bastasse uma pequena quantidade para conseguir resultados. E era mais difcil ainda chegar a certo grau de confiana. A maioria 
dos venenos tinham efeitos altamente imprevisveis.
   Como tinha escrito sua me no livro, era muito mais provvel que uma pessoa adoecesse e morresse por causa de mantimentos ranosos que de um autntico veneno. 
   Tirou concluses mentais. No havia muitas pessoas nas cercanias de Scarcliffe capazes de preparar um veneno mortal e depois achar o modo de fazer o administrar 
 vtima escolhida.
   No, s vtimas.
   "Porque foram dois: Calvert do Oxwick tambm tinha sido envenenado", pensou.
   
   Mas, quem quereria matar a um monge fastidioso e a um cavalheiro legendrio, de uma vez? Qual era o vnculo entre os dois?
   Alice o pensou por um momento.
   Quo nico conectava s vtimas, at onde podia discernir, era o interesse pelas Pedras de Scarcliffe. Mas assim que Hugh teve em seu poder o cristal verde, deixou 
de procurar o resto do tesouro. Nem mesmo acreditava na existncia das demais gemas.
   Calvert, por sua parte, sim acreditava na velha histria.
   At tal ponto acreditava, que se arriscou a meter-se nas traioeiras cavernas de Scardiffe para procurar o tesouro. No existia nenhum vnculo que Alice pudesse 
discernir entre os dois homens.
   Perguntou-se se a verdade estaria no passado. De fato, nessa regio, em outra poca, houve outro caso de envenenamento.
   
   
   Mais avanada essa mesma tarde, uma novia alegre e de curta estatura deu passagem a Alice para o escritrio de Madre Joan. 
   Joan se levantou sorrindo ao outro lado da mesa. -Lady Alice, rogo-lhe que se sente. O que a traz aqui a esta hora?
   -Lamento incomod-la, senhora.
   Alice esperou a que a novia tivesse fechado a porta e logo se deixou cair sobre um tamborete de madeira. 
   -Veio sozinha?
   Joan voltou a sentar-se.
   -Sim. Os criados acreditam que sa para dar um passeio de ltima hora. Devo retornar ao castelo o antes possvel. -Queria voltar antes de que Hugh despertasse-. 
No lhe farei perder muito tempo.
   -Sempre me agrada v-la, Alice, voc sabe. -Uniu as mos e a observou com tenra preocupao-. H algo que a aflige?
   -Assim , senhora. -Alice reuniu foras-. Preciso fazer-lhe algumas pergunta.
   -Com respeito a que?
   - irm Katherine, sua curandeira.
   Joan franziu o cenho.
   -Far as perguntas a ela, diretamente. Mandarei procur-la imediatamente.
   
   
   -Isso  impossvel. -Enquanto caminhavam rapidamente pelo corredor, o hbito de Joan sussurrava.- A irm Katherine  uma curandeira perita. No envenenaria ningum.
   -No  suspeito que tenha desaparecido? -perguntou Alice.
   -Deve estar em alguma parte, nos campos que rodeiam o convento.
   -J olhamos na capela, o jardim e a sala de orao. Em que outro lugar poderia estar?
   -Possivelmente est meditando em seu quarto e no ouviu bater na porta a novia  que  mandei. Ou talvez esteja em meio de um de seus ataques de melancolia. s 
vezes, o remdio que ingere, a faz cair em um profundo sonho.
   -Isto  muito inquietante.
   -As suas suspeitas tambm -reps Joan com brutalidade-. Faz quase trinta anos que irm Katherine est neste convento.
   -Sim, esse  um dos fatos que me impulsionou a pensar se, de algum modo, no estaria envolvida nisso.
   Alice contemplou a fileira de portas de madeira que havia no corredor. Em cada uma delas havia uma janela e se abria a uma cela pequena e austera.
   O corredor estava muito tranqilo e silencioso. A maioria das celas estavam desocupadas a essa hora. 
   As freiras estavam ocupadas em diversas tarefas nos jardins, nas cozinhas, no escritrio e na sala de msica.
   Joan olhou por cima do ombro.
   -Disse-me que os pais de lorde Hugh foram envenenados faz quase trinta anos.
   -Sim. Todos supuseram que a me tinha sido a envenenadora. A considerava uma mulher despeitada. Mas agora comecei a questionar essas hipteses.

   
   -Por que acredita que a irm Katherine poderia saber mais do incidente que os rumores que corriam naquela poca?
   -Recorda o dia que a conheci, no convento do jardim?
   -Certamente.
   -Naquela ocasio, disse como era fcil  para um homem romper um voto de compromisso. Chamou-me a ateno sua amargura.
   -J lhe disse que Katherine padece de melancolia. Freqentemente a vemos triste ou amargurada.
   
   -Sim, mas acredito que nessa ocasio houve algo pessoal em sua reao. Me advertiu  que no adiasse meu casamento pois, do contrrio, seria abandonada.
   -E o que? -Joan se deteve diante da ltima porta gradeada-. No era mais que um conselho prtico.
   -Falava como algum que passou pela humilhao de um compromisso rompido -insistiu-. comecei a pensar que ela mesma se converteu por causa de um compromisso desfeito.
   -Isso  bastante freqente. -Joan golpeou com vivacidade na pesada porta de carvalho-. Muitas mulheres entraram em um convento pela mesma razo. -Eu sei, mas 
queria lhe perguntar  irm se esse foi seu motivo.
   Joan a olhou aos olhos.
   -E se foi?
   -Nesse caso, queria saber se o homem que desfez o compromisso foi sir Matthew de Scarcliffe, o pai do Hugh.
   Joan ficou carrancuda.
   -Mas, segundo o que contam, sir Matthew jamais rompeu a promessa. Segundo o que sei, tinha toda a inteno de casar-se com a dama que a famlia tinha escolhido. 
Todos pensam que queria manter a pobre me de Hugh como amante. Dizem que por isso a moa se encolerizou e lhe deu ao amante uma taa envenenada.
   -Isso diz a histria -admitiu Alice-. Mas, e se no foi isso o que ocorreu? E se Matthew, ao retornar da Frana, descobriu que tinha um filho e decidiu casar-se 
com a mulher a que tinha seduzido?
   -Quer dizer que a dama a que estava prometido pde ter procurado vingana?
   - possvel, no?
   - um pouco extremo -disse Joan, tensa. -Voc mesma disse que a irm Katherine padece de estados de nimo alterados -recordou-lhe. Joan ficou nas pontas dos ps 
e espiou pela grade. -A cela est vazia. No est aqui. Em tudo isto h algo estranho.
   -Parece que se foi do convento.
   -Mas, onde pde ter ido? Algum a teria visto se tivesse levado algum dos cavalos do estbulo do convento.
   Alice olhou pela grade.
   -H um pergaminho sobre a cama.
   -A irm Katherine  muito ordenada. No deixa objetos pessoais esparramados.
   
   Alice a olhou.
   -Salvo que tivesse intenes de que algum os encontre.
   A expresso do Joan se tornou mais inquieta ainda. Sem falar, levantou o pesado anel que levava preso ao cinturo. Selecionou uma das chaves de ferro e a meteu 
na fechadura da porta de Katherine.Em um momento, Alice entrou na diminuta cela. No havia muito, alm de uma cama estreita, um pequeno ba de madeira e a lmina 
de pergaminho enrolada sobre o colcho de palha.
   
   Alice foi tomar o pergaminho, mas se deteve e olhou a Joan, que lhe fez um gesto mudo de autorizao.
   Levantou o pergaminho e o desenrolou com cuidado. Sobre a cama caiu um anel de ouro com uma pedra verde incrustada, que Alice examinou de perto.
   -Acaso pertence  irm Katherine? -Se for assim, manteve-a oculta todos estes anos. Nunca a tinha visto.
   -Me  conhecida. -Alice levantou a vista-. Acredito que lady Emma usa uma muito parecida. Disse que sir Vincent a deu de presente quando se comprometeram.
   -Cada vez pior -murmurou Joan-. O que diz a carta?
   - uma breve nota.
   -Leia-a.
   Alice franziu o cenho, concentrada na escritura muito precisa:
   
   O filho bastardo pagou pelos pecados do pai e da me. Est acabado.
   
   -Cus, o que quer dizer? -murmurou Joan. -Sem dvida, Katherine acredita que conseguiu vingar-se. -Voltou a enrolar o pergaminho-. No pode saber ainda que fracassou.
   Quando Joan se voltou para a porta, as chaves que havia no aro de ferro tilintaram.
   -Pedirei a uma das freiras que fale com os aldeos. Talvez algum tenha visto Katherine.
   Alice olhou pela janela estreita da cela.
   Fora, a nvoa cinza estava mais escura.
   -J  tarde. Tenho que voltar para castelo antes de que algum se impaciente por minha ausncia. Ou seja, Hugh, que talvez j esteja acordado e tenha comeado 
a planejar a vingana contra Rivenhall.
   Joan saiu da cela de Katherine. -Se localizar  curandeira, o farei saber. 
   
   -Obrigado -disse Alice em voz baixa-. Acredito conveniente no mencionar o veneno, madre. Sabe quanto essa gente o teme.
   -Sim, no o mencionarei -prometeu Joan-. Deus sabe que no precisamos difundir rumores a respeito de envenenamento na regio.
   -Estou de acordo. Amanh falarei com a senhora. Agora, tenho que me apressar em voltar para minha casa para resolver esta situao antes de que se desate uma 
tormenta nestas terras.
   Benedict estava esperando Alice no salo principal. Saudou-a com significativa urgncia.
   -Graas a Deus que retornaste -disse-. Lorde Hugh despertou faz menos de uma hora, e imediatamente perguntou por voc. Quando lhe disse que tinha sado, no gostoude 
saber.
   Alice desatou a capa.
   -Onde est?
   -Em seu escritrio. Disse que tinha que ir v-lo em seguida.
   -Isso  o que penso fazer.
   Encaminhou-se s escadas.
   -Alice.
   Deteve-se, com um p no primeiro degrau. 
   -O que ocorreu?
   -Queria te dizer algo. -Benedict olhou ao redor para assegurar-se de que nenhum dos criados poderia ouvi-lo. Deu um passo para a irm e baixou a voz-. Eu estava 
com sir Hugh quando ele passou mal. 
   -Sei. E?
   -A primeira coisa que disse quando compreendeu que tinha bebido uma taa envenenada foi seu nome.
   Alice se encolheu como se a tivessem golpeado, e sentiu que um grande peso a esmagava.
   -Pensou que tinha tentado  mat-lo?
    -No. -Benedict sorriu sem alegria-. A princpio, eu acreditei que isso era o que queria dizer. Disse-lhe que isso era impossvel. Ento, esclareceu-me que perguntava 
por voc, porque sabia que era a nica capaz de comer a sopa. Desde do incio, jogou a culpa em Vincent de Rivenhall. Em nenhum momento suspeitou de voc.
   O esprito da Alice se livrou da pesada carga, e dedicou a seu irmo um sorriso trmulo.
   -Obrigado por me dizer isso irmo. Alivia-me o corao mais do que imagina.
   
   Benedict ruborizou-se.
   -Sei quanto o ama. Sir Dunstan afirma que um homem do carter de lorde Hugh no deveria permitir-se emoes tenras. Disse-me que lorde Hugh se burla do amor e 
que jamais entregaria o corao a uma mulher. Mas me pareceu que, ao menos deveria saber que confia em voc. Sir Dunstan diz que  muito pouco comum que milorde 
confie em algum.
   -J  algo para comear, no?
   Alice girou e correu escada acima.
   Espremia com fora a nota de Katherine e o anel enquanto corria pelo corredor que estava no final da escada. Deteve-se frente a porta de Hugh e golpeou. 
   -Entre.
   A voz do Hugh tinha um matiz que gelava os ossos.
   Alice deu um suspiro e abriu.
   Hugh estava sentado diante o da mesa, com um mapa estendido diante de si. Levantou a vista quando Alice entrou. Ao v-la, ficou de p e apoiou as mos na mesa. 
Tinha uma expresso selvagem.
   -Senhora, em nome do diabo, onde estava? 
   -No convento. -Alice o observou com ateno-. D a impresso de que se recuperou. Como se sente?
   -Recuperei o apetite -respondeu-. E parece que adquiri gosto pela vingana.
   -No  o nico que anseia saborear esse prato, milorde -disse Alice, atirando o pergaminho e o anel sobre a mesa-. Hoje parece que foi vtima de uma mulher cuja 
sede de vingana  maior ainda que a sua.
   

   
   Captulo 19
   
   -A curandeira era a envenenadora?
   Hugh levantou a vista da breve nota deixada por Katherine sobre a cama. O que Alice acabava de dizer o deixou atnito. Mas no podia negar a evidncia que lhe 
trouxe a esposa do convento.
   -A julgar pelo anel e o que diz a nota, suspeito que foi a mulher a que seu pai estava prometido. -Alice se sentou em um tamborete-. Arriscaria-me a dizer que 
quando sir Matthew voltou da Frana, mandou-lhe dizer que romperia o compromisso.
   
   -Para poder casar-se com minha me, voc acha? Hugh se esforou para manter a voz serena e fria. Mas uma emoo desconhecida lhe percorria as veias. Possivelmente, 
seu pai tinha tido intenes de reconhec-lo
   -Sim. -O olhar de Alice era clido e tenro-. Estou convencida de que  muito provvel que assim fosse, milorde.
   Hugh a olhou e soube que ela entendia tudo. No tinha que tentar explicar o que essas notcias significavam para ele. 
   Como sempre, Alice compreendia o que pensava sem que ele tivesse que achar as palavras para diz-lo.
   -E Katherine vingou-se, envenenando meus pais. -Hugh soltou as bordas do pergaminho e observou como voltava a enrolar-se-. Assassinou-os.
   -Isso parece.
   - como se a histria de minha vida voltasse a ser escrita -murmurou.
   -Foi uma grande pena que a verdade ficasse oculta todos esses anos.
   -E pensar que me ensinaram a odiar a Rivenhall, por cima de todas as coisas, do bero...
   Interrompeu-se, incapaz de terminar a frase. "No esquecerei, av."
   Hugh sentiu como se os trmulos pilares de pedra nos quais apoiava toda sua existncia, de repente tivessem sido removidos por debaixo dele.
   O pai havia retornado da Frana com a inteno de casar-se com a me de seu filho. No tinha seduzido e abandonado a jovem Margaret de Scarcliffe.
   -Igualmente  sir Vincent ensinaram a odi-lo-disse Alice em tom suave, irrompendo no sonho do Hugh.
   -Sim. Acredito que as duas famlias e tambm estas terras pagaram um alto preo pelo crime dessa mulher. -O olhar de Hugh se topou com o de Alice, fez um esforo 
para considerar a situao presente  luz de certa lgica-. Mas, por que Katherine esperou at hoje para tentar me envenenar? Por que no empregou essa maldita beberagem 
quando eu cheguei a me fazer cargo de Scarcliffe?
   Com gesto de intensa concentrao, Alice respondeu:
   -No estou do todo certa. Neste assunto, h muitas coisas que falta responder.
   -Teria sido muito mais fcil me assassinar h algumas semanas. -Tamborilou com o cilindro do pergaminho sobre a mesa-. A casa estava muito desorganizada.
   Devia haver muitas oportunidades para que atuasse um envenenador, e no havia ningum com capacidade de me salvar. Por que esperou?
   
   Alice apertou os lbios.
   -Possivelmente a agradasse a confuso que tinha feito. Enquanto durasse, poderia saborear a taa da discrdia e a rivalidade que tinha provocado.
   -Sim.
   - provvel que a encolerizasse a visita de ontem de sir Vincent e sua famlia. Todos viram voc e Vincent cavalgando pela aldeia.
   -Claro. -perguntou-se por que isso nolhe ocorrera: parecia que no pensava com clareza. As novidades sobre o passado desequilibravam sua capacidade de raciocnio-. 
Pode ser que o visse como o primeiro passo para o fim da rivalidade entre Scarcliffe e Rivenhall.
   -Sim.
   Alice tamborilou com os dedos sobre o joelho. -O que o preocupa?
   -Ainda no compreendo por que envenenou o monge. No tem sentido.
   -Possivelmente nunca saberemos se no a encontrarmos. -Com repentina deciso, Hugh se levantou-. E tenho intenes de fazer precisamente isso.
   Comeou a rodear a mesa.
   -Aonde vai, milorde?
   -Falar com Dunstan. Quero que se reviste Scarcliffe de um canto ao outro. A p, a envenenadora no pode ter ido muito longe. Se nos movermos com rapidez, a acharemos 
antes de que se desate a tormenta.
   O estalo de um trovo e a breve luz de um relmpago acabou com esse plano antes de que tivesse terminado de falar.
   -Muito tarde, milorde. -Maldio!
   Hugh foi at a janela.
   O vento e a chuva aoitavam com fora os muros negros do castelo de Scarcliffe e quo escarpados o rodeavam com cega intensidade. Em meio dessa tormenta, as tochas 
seriam inteis. Hugh fervia de irritao enquanto fechava os janelas.
   -No tema -disse Alice-. A encontrar pela manh.
   -Sim -afirmou-. Encontrarei-a.
   Ao voltar-se, viu que Alice o observava com ateno; tinha o olhar obscurecido por uma sria aflio. Preocupao por ele. "Assim olha quando est angustiada 
por algum que  importante para ela -pensou-. A algum que ama."
   A esposa.
   Por um instante, extasiou-o o simples fato de que estivesse al sentada, em seu escritrio. As saias caam com graa ao redor de seus ps. O resplendor do braseiro 
intensificava o fogo escuro do cabelo. Cabelo da cor do entardecer, antes de que o envolva a noite.
   A esposa.
   Esse dia, tinha-lhe salvado a vida e lhe brindou com o dom da verdade sobre seu prprio passado.
   Era muito o que lhe dava.
   Outra onda de emoo o encheu. E a fora dessa onda era mais forte que os ventos enlouquecidos que aoitavam Scarcliffe essa noite.
   
   No podia pr nome no sentimento que o inundava, que o enchia de um fundo desejo. De repente, desejou com toda a alma contar com outra lista de elegantes versos. 
Necessitava do dom da palavra como possuia Julian. Queria dizer algo memorvel, digno de um poeta. Um pouco to belo como a prpria Alice.
   -Obrigado -disse-lhe.
   
   Horas depois, na maciez da enorme cama, Hugh se movia sobre  Alice e penetrava em sua brandura mais uma vez. Sentiu primeiro os tenros estremecimentos. A suave 
maciez que se apertava ao redor dele. Depois, ouviu a exclamao de alvio.
   Por um instante, percebeu uma sensao de prazer e gratido: no estava sozinho na tormenta. Alice estava com ele. Podia toc-la, senti-la e abra-la.
   Era parte dele.
   A intensa sensao passou to rpido como chegou.
   Outra vez, perdeu-se no doce resplendor da paixo de Alice. Arrasava-o e o elevava. Rendeu-se a esses ventos selvagens com um rouco grito abafado de satisfao 
e xtase.
   Al, na escurido, com Alice, no controlava a tormenta. Mas bem, cavalgava nela com a liberdade de um grande falco, a um lugar onde o passado no projetava 
sombras.
   Quando acabou, permaneceu quieto por um momento, gozando do prazer que lhe brindava a proximidade de Alice.
   -Hugh.
   -O que?
   -No dormiu.
   Sorriu na escurido.
   -Parece-me que voc tampouco.
   
   -Que profundos pensamentos lhe mantm acordado a esta hora?
   -No pensava. Escutava.
   -O que?
   -A noite.
   Alice guardou silncio uns segundos.
   -Eu no ouo nada.
   -Escute. O vento cessou e a chuva tambm. J no h tormenta.



   - um dia estranho. -Joan se deteve na entrada do convento. Colocou as mos nas mangas do hbito e olhou pensativa a espessa nvoa que se abatia sobre o Scarcliffe-. 
Alegrarei-me quando terminar.
   -No  a nica que se alegrar quando isto termine. -Alice colocou o livro da me sob o brao e se acomodou o capuz do manto-. Confesso que, uma parte de mim, 
prefere que lorde Hugh no encontre a curandeira.
   Hugh tinha partido pelo amanhecer em busca de Katherine. levou do castelo a Benedict e a quase todos os vares em bom estado fsico. E desde que saiu, no havia 
notcias dele.
   Inquieta, ansiosa e cheia de angstia, Alice passeou pelos corredores do castelo at que j no pde suportar sua prpria companhia. Pensando em manter-se atarefada 
com algo til, recorreu ao livro de notas de sua me e foi  aldeia.
   Havia trabalho o suficiente na enfermaria do convento. Quando terminou de dar remdios para a tosse e tnicos contra as dores das articulaes, compartilhou com 
as freiras as preces e a comida do meio-dia.
   -Entendo-a -murmurou Joan-. Seria mais fcil que Katherine desaparecesse, mas no  muito provvel.
   - o mais acertado. Meu senhor a perseguir at as portas do inferno, se for necessrio. -Contemplou a nvoa-. S espero que, quando a encontrar, tambm encontre 
a paz.
   Joan lhe dirigiu um olhar tenro e sbio. -Nenhum de ns pode encontrar a verdadeira paz no passado, Alice. Temos que procur-la no presente.
   Alice apertou com mais fora o livro de notas de sua me.
   - voc muito sbia, senhora.
   Joan esboou um sorriso melanclico.
   - uma dura lio que aprendi, como deve ocorrer a todos.
   
   Pela primeira vez, Alice pensou nos motivos que teria tido Joan para abraar a vida de religiosa. "Algum dia o perguntarei -pensou-. Hoje no,  obvio." Era muito 
prematura a ocasio para um assunto to ntimo. 
   Mas no futuro teria vrias oportunidades para conversaes desse estilo. Algo lhe dizia que essa amizade crescente com a madre seria importante para as duas. 
   
   E apesar do lgubre dia, Alice sentiu que uma genuna calidez se aninhava nela. Seu futuro estava em Scarcliffe. Seria bom. 
   -Bom dia senhora.
   Encaminhou-se para a entrada.
   -Bom dia, milady.
   Alice ergueu uma mo em despedida, e saiu pela entrada de pedra.
   A nvoa era agora to densa que quase no via os rastros da carreta na rua. Soube que devia ter dificultado muito a busca de Hugh. Tambm soube que no abandonaria 
de qualquer jeito seu propsito. Pentearia Scarcliffe e as terras vizinhas com a implacvel determinao que o caracterizava.
   
   "Entendo-o -pensou-. Ter que ter em mente que est perseguindo  pessoa que, quase com absoluta certeza, assassinou a seus pais." Alice sabia que, no que se 
referia a Hugh, o fato de que Katherine tivesse tentado envenen-lo, era insignificante em comparao com os crimes cometidos trinta anos antes.
   Katherine tinha lhe tirado o direito a ter sua me e seu pai. Privou-o das terras que deveriam ser de Hugh por direito de herana. Fez que ficasse aos cuidados 
de um velho ressentido que o via como um instrumento de vingana, e no muito mais.
   Alice tremeu ao pensar no que poderia ter acontecido se o destino no tivesse levado Hugh ao lar de Erasmus de Thornewood. Algum dia, gostaria de poder agradecer 
a essa figura nebulosa que, com somente sua fora, impediu que as ferozes tormentas que formavam sua natureza consumissem por completo a Hugh.
   Alice no o culpava pela deciso com que procurava encontrar a sua presa, mas agora que estava sozinha outra vez, a inquietao voltou. Nessa situao havia algo 
que no estava bem. Havia muitos pontos escuros. Muitas perguntas sem responder.
   
   Por que assassinou o monge? Refletiu sobre isso pela ensima vez naquele dia enquanto passava diante da ltima cabana da aldeia. A nvoa silenciava tudo. Os homens 
no estavam trabalhando nos campos nem as mulheres nos jardins. Os meninos se esquentavam junto s chamins. Alice tinha o caminho ao castelo do Scarcliffe para 
ela sozinha. 
   O monge. Tinha que haver algum lao entre Calvert e o envenenamento dos pais de Hugh. Uma figura escura, encapuzada, emergiu da nvoa diante da Alice. paralisou-se. 
O temor a assaltou como uma onda retumbante.
   -J era hora de que aparecesse. -O homem se aproximou-. Perguntvamo-nos se pensaria vagabundear no convento at amanh.
   Alice abriu a boca para gritar, mas j era tarde. 
   Imediatamente, uma mo rude tampou sua boca.
   Soltou o livro e esperneou, desesperada-se. As pernas lhe enredaram nas dobras do vestido, mas as agitou para golpear o atacante com a ponta da bota branda.
   -Maldita seja -murmurou o homem-. Sabia que isto no seria to fcil. No diga uma palavra.
   Baixou-lhe o capuz da capa, cegando-a.
   Alice se debateu ferozmente. agitou-se  s cega, procurando um branco qualquer, enquanto o atacante a levantava.
   Depois, ouviu passos abafados no caminho e soube que o homem que a tinha aprisionado no estava sozinho.
   -No a deixe gritar, Fulton, no -resmungou o outro homem-. No estamos longe da aldeia. Seno algum a ouvir.
   Alice redobrou os esforos para gritar pedindo ajuda. Conseguiu cravar os dentes na palma do Fulton.
   -Maldio! -protestou Fulton-. A mulher me mordeu.
   -Tampe-lhe a boca com um trapo.
   Alice lutou, enlouquecida de pnico, enquanto lhe colocavam um trapo sujo, sobre a boca e o atavam na parte de atrs da cabea.
   -Apresse-se com isso, Fulton. Temos que sair do caminho. Se sir Hugh e seus homens tropeam conosco em meio desta nvoa, estaremos mortos antes de saber o que 
aconteceu.
   -Sir Hugh no se atrever a tocarnos enquanto tenhamos prisioneira a sua esposa -protestou Fulton.
   Mas em sua voz ressoava um matiz de ansiedade.
   -Em seu lugar, eu no esperaria sobreviver a um encontro semelhante -murmurou o outro. 
   
   -Mas sir Eduard diz que Hugh o Implacvel est muito afeioado com sua flamejante mulher.
   Sir Eduard. Alice ficou to perplexa que, por um momento, ficou imvel. Esses dois sujeitos, refeririam-se ao Eduard de Lockton? Impossvel. Eduard no se arriscaria 
a provocar deste modo a ira de Hugh. O mesmo Hugh estava seguro de seu prprio domnio sobre o desagradvel Eduard.
   -Pode ser que sir Hugh queira  empregada -respondeu o outro homem-, mas no foi sem motivos que Erasmus de Thornewood fez gravar Provocadora de Tormentas na 
espada do escuro cavalheiro. Apresse-se. Temos que movermos rpido, se no quisermos que tudo esteja perdido.
   Alice compreendeu que se colocou em uma armadilha.
   Alice piscou vrias vezes quando, ao fim, tiraram-lhe o capuz. Imediatamente soube que estava nas cavernas de Scarcliffe. A luz de uma tocha projetava sombras 
incertas nas midas paredes de pedra. Em algum lugar, longe, gotejava gua.
   Fulton lhe tirou a mordaa. Alice fez uma careta e limpou os lbios com a manga da capa.
   Katherine saiu caminhando lentamente da escurido e parou diante dela. O rosto da curandeira estava marcado por uma melancolia sem tempo. Os olhos revelavam os 
farrapos sombrios de sua alma.
   -Embora ache que no, lamento tudo o que aconteceu, lady Alice. Acredito que era inevitvel. Uma vez lhe adverti que os pecados do passado produzem ervas amargas.
   -No  o passado o que produziu o veneno, Katherine. Foi voc. Mas seu ltimo esforo fracassou, sabe? No ter outra oportunidade. Neste mesmo momento, sir Hugh 
est verificando a regio. Cedo ou tarde, a encontrar.
   Eduard de Lockton apareceu no passadio.  luz da tocha, suas feies eram como as de um gnomo demonaco. Os pequenos olhos resplandeciam de malevolncia.
   -J examinou o exterior da caverna. No vai lhe servi de muito. Pois, no sabia onde procurar, no , Katherine?
   Katherine no virou-se para olh-lo. Continuou com os olhos cravada em Alice, como se quizesse faz-la entender.
   -Eduard  meu primo, lady Alice.
   -Seu primo? -Alice olhou perplexa ao Eduard-. No entendo isto.
   - bastante bvio. -Os dentes amarelados de Eduard apareceram entre a barba-. 
   
   Mas o entender. Fique tranqila, logo entender tudo. E tambm esse marido bastardo que tem, antes de que o divida em dois com minha espada.
   O estmago Alice revolveu ao perceber o amargo ressentimento que emanava de Eduard.
   -Por que odeia tanto o meu marido?
   -Porque ao nascer arruinou tudo. Tudo! -Irritado, aproximou-se de Fulton e do outro homem, e os dois retrocederam nas sombras do tenebroso passadio. Eduard se 
aproximou de Alice-. Katherine ia casar- se com Matthew de Rivenhall, entende? Eu mesmo acertei o compromisso.
   -Meus pais morreram quando eu no tinha mais que treze anos -murmurou Katherine-. Eduard era meu nico parente masculino. Meu destino estava em suas mos.
   -Tinha um grande dote que os parentes de sua me tinham lhe deixado, e eu tinha planos com respeito a ela -resmungou Eduard-. Matthew de Rivenhall era herdeiro 
de vrios imveis. A famlia queria o dote do Katherine. Estavam dispostos a vender uma das propriedades por ela. Era um excelente casamento.
   -Esperava se aproveitar do matrimnio de sua prima -acusou-o Alice.
   - obvio. -Eduard levantou um ombro em gesto zombador-. O matrimnio  um negcio. As mulheres s servem para duas coisas: deitar-se com elas e casar-se. Qualquer 
empregada de botequim serve para a primeira. Mas unicamente uma herdeira satisfaz a segunda. .
   -De modo que se props ter suas prprias terras -afirmou Alice, zangada.
   A boca de Katherine desenhou uma careta amarga. -Ambicionava ter seu prprio imvel.
   Eduard franziu o cenho.
   -Meu plano era me livrar de sir Matthew depois das bodas. Viva, Katherine seria uma presa ainda mais cobivel. Poderia ter pedido mais terras e uma magnfica 
fortuna em troca de sua mo.
   -O que pretendia fazer? --quis saber Alice-.Pensava seguir envenenando os futuros maridos para poder continuar oferecendo-a em matrimnio uma e outra vez?
   -Juro-lhe que eu no sabia o que ele pretendia-disse Katherine, triste-. No era mais que uma menina inocente. No sabia nada dos acertos dos homens.
   -Ora. -Eduard lhe lanou um olhar depreciativo-. Tudo terminou em nada. Matthew voltou da Frana resolvido a casar-se com Margaret, essa rameira. Ele sabia que 
a famlia no estaria de acordo, e por isso pensava faz-lo em segredo. Mas eu me inteirei de seus planos na noite do casamento.
   -Por isso assassinou Matthew e a Margaret?
   -Sir Matthew no devia morrer --estalou Eduard- Tinha que casar-se com Katherine, como eu tinha planejado. Mas o tolo bebeu da mesma taa que Margaret.  provvel 
que brindasse com a amante. Isso o matou.
   Alice o olhou fixamente.
   -Onde aprendeu tanto sobre venenos?
   O rosto de Eduard se contraiu por um instante em uma careta de satisfao feroz.
   -Aprendi a preparar a beberagem h muitos anos, quando vivi um tempo em Toledo. Ao longo dos anos o usei mais de uma vez.  uma arma excelente, pois todos supem 
que o assassino  uma mulher.
   -Como ocorreu h trinta anos -concluiu Alice. O sorriso de Eduard era quase insuportvel.
   -Claro. Todos pensaram que Margaret tinha assassinado  seu amante e depois havia se suicidado. 
   Ningum pensou em procurar o verdadeiro assassino.
   -Os homens sempre esto convencidos de que o veneno  uma arma feminina -murmurou Katherine.
   Alice se abrigou melhor com a capa para resguardar do frio espantoso que reinava na caverna.
   -Por que me seqestra? A que se prope?
   - simples, senhora --disse Eduard em voz baixa-. Penso em pedir um resgate.
   Alice enrugou o sobrecenho.
   -Que espera que faa sir Hugh? Que lhe d um cofre com especiarias em troca?
   -No, senhora. Quero algo muito mais satisfatrio que um cofre de gengibre ou de aafro.
   Alice o olhou aterrada. -E ento, o que?
   -Vingana-murmurou Eduard.
   -Mas, por que?
   -Hugh o Implacvel ficou com o que devia ser para mim, embora tenha nascido bastardo -respondeu, afogando-se de fria-. Tem terras. Terras onde est enterrado 
um tesouro.
   -Mas ningum sabe onde esto as Pedras de Scarcliffe -disse Alice, desesperada-se-. Para falar a verdade, lorde Hugh as considera uma simples lenda.
   
   -So muito mais que uma lenda -assegurou-lhe-. Calvert do Oxwick sabia. Contou-lhe o segredo um cavalheiro ancio que tomou os votos sagrados quando estava muito 
velho para empunhar a espada. Tempo atrs, tinha servido a um senhor de Scarcliffe. Esse senhor, descobriu uma antiga carta onde se dizia parte da verdade.
   Alice retrocedeu um passo.
   -No que consiste essa grande verdade?
   -Que a chave est no cristal verde. -Os olhos do sujeito reluziram-. por que acredita que j matei duas vezes por ele, senhora?
   -O camel e o pobre monge?
   -Claro. E quase tive necessidade de matar ao estpido do trovador, Gilbert. Mas ento, voc ajudou  sir Hugh a recuperar a pedra, e tudo mudou. Asseguro-lhe que 
todo este assunto  como uma partida de jogo de dados.
   -Assassino!
   -Assassinar  um esporte muito gratificante -admitiu-. E desta vez, constituir um prazer muito particular. Hugh o Implacvel, ao nascer, arrebatou-me tudo.
   -Ele no teve a culpa de que seu pai resolvesse romper o compromisso com Katherine.
   -OH, sim  teve, sabe? -A boca de Eduard se esticou-. Estou convencido de que o que fez com que sir Matthew quisesse casar com sua lady Margaret foi que a garota 
tinha concebido um filho. Queria um herdeiro robusto. No me ocorre nenhum outro motivo para querer casar-se com uma mulher com a que j se deitou.
   -Talvez, de verdade a amasse -retorquiu Alice.
   -Ora, o amor  para poetas e para damas, no para cavalheiros da reputao de sir Matthew. -Fechou a mo em punho-. H trinta anos, eu perdi muito, mas agora 
terei a minha parte. Por fim, obterei uma grande riqueza e me vingarei ao mesmo tempo.
   Alice deu um profundo suspiro para serenar-se. -O que  que far?
    muito simples. Mandarei uma mensagem a sir Hugh, lhe dizendo que se quiser que voc volte s e salva tem que me dar a pedra verde.
   Alice tratou de manter a voz firme.
   - bem sabido que lorde Hugh no confia  em mitas pessoas, sir Eduard. Mas est muito afeioado comigo.
   -Isso sei muito bem, senhora. De fato,  a base de meu plano.
   
   -Se o convencer de pagar o resgate, primeiro ter que convenc-lo de que ainda estou viva. Se acreditar que estou morta, no pagar nada.  muito bom negociante 
para deixar-se enganar deste modo.
   Eduard a olhou enfurecido.
   -Por que duvidaria de minha mensagem? Logo se inteirar de que voc desapareceu.
   Alice encolheu os ombros.
   -Talvez ache que, simplesmente, perdi-me na nvoa e que algum malfeitor, informado de meu desaparecimento, aproveitou-a para fazer acreditar que estou cativa.
   Eduard o pensou um momento, e logo, adotou uma expresso matreira.
   -Mandarei-lhe algo seu para provar que a tenho.
   -Uma excelente idia, sir Eduard.
   
   
   
   -Quando isto terminar, o mandareiembora para sempre deste salo, Elbert -assegurou-lhe Hugh.
   -Sim, milorde. -Elbert baixou a cabea-. S posso dizer que lamento profundamente. Mas  verdade que lady Alice vai caminhando  aldeia todos os dias. No vi 
motivo para mandar hoje um guarda com ela.
   -Maldio!
   Elbert tinha razo, e Hugh sabia. Deixou andar para um lado e outro e se deteve frente  lareira do grande salo.
   No tinha sentido desabafar no mordomo. Ningum sabia melhor que Hugh que o acontecido no era culpa do rapaz. "Se algum tem a culpa, sou eu -pensou-. Fracassei 
em proteger a minha esposa."
   -Pelo sangue do diabo.
   Contemplou o livro que tinha nas mo. Era o livro de conhecimentos sobre ervas que Alice tinha deixado cair no caminho. Encontrou-o quando voltava de sua intil 
busca.
   -Talvez s esteja perdida na nvoa -sugeriu Benedict, preocupado.
   Hugh esticou o queixo.
   -Difcil. A nvoa  densa, mas no tanto como para ocultar as marcas a algum que conhece o caminho. No, a levaram pela fora.
   Benedict abriu bem os olhos.
   -Acredita que a seqestraram?
   
   -Sim.
   Soube nesse terrvel instante em que viu o livro caido no caminho.
   Hugh fechou um momento os olhos e se esforou por conservar a calma. Tinha que pensar com clareza e lgica. Tinha que dominar a tormenta de raiva e medo que ameaava 
varrer o seu controle, pois do contrrio tudo estaria perdido.
   -Mas, quem seqestraria a lady Alice? -Elbert parecia desassossego-. Todos a amam.
   Os olhos de Benedict se encheram de alarme. -Devemos sair imediatamente. Temos que encontr-la.
   -No -disse Hugh-. No podemos nem encontrar  assassina nesta nvoa. No temos possibilidades de descobrir Alice at que o seqestrador mande uma mensagem.
   -Mas, e se no o faz? -perguntou Benedict, zangado-. O que far se no recebermos notcias?
   -Chegar uma mensagem. -Hugh levou a mo ao cabo da espada e rodeou com os dedos o punho forrado de couro negro-. O nico interesse de um seqestrador  um resgate.
   A mensagem foi levado at a entrada no mesmo momento em que a capa da noite se posava sobre as terras nebulosas de Scarcliffe. Um guarda de expresso aflita levou 
as exigncias diretamente a Hugh.
   
   
   -Milorde, chegou um homem  entrada. Pediu-me que lhe dissesse que se queria ter de volta a Lady Alice, tinha que levar o cristal verde ao extremo norte do velho 
canal da aldeia. Deve deix-lo al e voltar para o castelo e esperar. Pela manh, a pedra ter desaparecido e lady Alice ser enviada de volta.
   -A pedra verde? -Hugh se inclinou para frente na cadeira de bano em que estava sentado, apoiou o cotovelo em na coxa e olhou ao guarda-. Esse  o resgate?
   -Sim, milorde. -Inquieto, o guarda tragou saliva-. Rogo-lhe que recorde que eu no fiz mais que trazer a mensagem, senhor.
   -Quem o enviou?
   -O homem diz que seu amo  Eduard de Lockton.
   -Eduard. -Hugh olhou as chamas em seu lareira -. Ento, ao final de contas me desafiou. 
   
   O mensageiro, disse algo mais? Algo? Pense, Caran.
   Caran assentiu com presteza.
   -Disse que seu amo lhe ordenou dar a voc uma mensagem especial de lady Alice para lhe demonstrar que  verdade que a tem cativa.
   -O que ?
   Caran retrocedeu, embora Hugh no se levantasse. Estendeu a mo, abriu os dedos e mostrou o conhecido anel com a pedra de nix.
   -Lady Alice lhe envia o anel de compromisso e lhe roga que recorde bem o que lhe disse no dia em que o deu de presente.
   Hugh contemplou o anel. No era poeta. Esse dia no lhe havia dito palavras de amor. Esforou-se por recordar cada palavra que lhe houvesse dito.
    No tente ir sozinha s cavernas.
   -Claro -murmurou.
   Benedict piscou.
   -O que , senhor?
   -Eduard tem a Alice em alguma parte das Cavernas de Scarcliffe.
   
   
   
   Captulo 20
   
   Quando se inteirou da estratgia, Benedict ficou furioso.
   -Como  isso de que no pagar o resgate? Pelo amor de Deus, milorde, no pode deixar a minha irm a merc de Eduard de Lockton! J ouviu a mensagem: a matar.
   Dunstan lhe apoiou uma mo no ombro sem muita delicadeza.
   -Tranqilize-se, Benedict. Sir Hugh j lutou com homens como Eduard muitas vezes. Sabe o que est fazendo.
   Benedict golpeou a bengala contra o cho.
   -Mas diz que no lhe dar o cristal a sir Eduard.
   -Certo.
   Benedict se voltou para Hugh.
   -Voc mesmo disse que a pedra verde  de pouco valor. Que  s um smbolo, parte de uma velha lenda. Sem dvida, a vida de minha irm vale bastante mais que essa 
pedra endemoniada.
   
   
   
   
   
   Hugh no ergueu a vista do plano das cavernas que tirou de Calvert.
   -Acalme-se, Benedict.
   -Acreditei que abrigava sentimentos tenros para a Alice. Voc disse que a cuidaria, que a protegeria.
   "Sentimentos tenros", pensou Hugh. Essas palavras, nem roavam, sequer, as emoes que estava tentando controlar. Ergueu lentamente a vista para o rosto ansioso 
e tenso do rapaz.
   -Como disse, a pedra no tem valor _disse com calma-. Essa no  a questo.
   -Senhor, tem que pagar o resgate -suplicou Benedict-. Se no o fizer, esse sujeito a matar.
   Hugh observou Benedict em silencio , sem saber o quanto lhe dizer. Olhou para Dunstan, e este encolheu os ombros. O gesto significava que nada ganharia mentindo 
ao rapaz.
   -No compreende a situao --disse, sem alterar-se.
   Como explicaria ao irmo de uma mulher que a vida de sua irm pendia por um fio? E alm disso, como confrontava um homem ao fato de que sua esposa estava a merc 
de um assassino?
   Hugh desprezou seus temores com esforo. No poderia fazer nada por Alice se se entretinha com imagens horrveis e vises tenebrosas do futuro sem ela.
   -No  verdade -gritou-. Entendo muito bem o que est passando. A minha irm foi sequestrada por Eduard de Lochon, que exige um resgate para devolv-la. Os cavalheiros 
pedem resgates um por outro com freqncia. Pague, milorde. Tem que faz-lo.
   No servir para nada Hugh_. Se deixa-se a pedra verde no canal velho da aldeia, como me indicaram, sem dvida Eduard assassinar  Alice.
   Dunstan assentiu srio.
   -Sir Hugh tem razo, Benedict.
   Benedict os olhou, desesperado, primeiro a Dunstan, logo a Hugh.
   -Mas... mas pediu um resgate. Diz que a liberar se pagar esse preo.
   -Isto no  uma justa ou um torneio amistoso, em que os resgate formam parte do jogo. -Hugh voltou a estudar o mapa da caverna-. No cometa o engano de acreditar 
que Eduard de Lockton jogar de acordo com as regras da honra.
   
   -Mas  um cavalheiro -protestou Benedict-. Participou das justas no Ipstoke, eu o vi.
   -Com este ato, Eduard demonstra que no  um verdadeiro cavalheiro -murmurou Dunstan.
   -At agora se comportou como uma raposa ardilosa que se oculta no matagal, at que vislumbra a oportunidade de apanhar o que deseja. -Hugh percorreu uma passagem 
com a ponta do dedo. No campo de batalha, mostra-se bastante civilizado, pois h ali muitos h cavalheiros que se indignariam se fizesse armadilhas ou atuasse em 
forma desonesta. Mas isto  diferente.
   -A que se refere? -perguntou Benedict. -foi muito longe. -Hugh apoiou o cotovelo na mesa e a mandbula no punho-. Invadir Rivenhall foi uma coisa. Sabia que no 
me importaria o que acontecesse com essa propriedade. Se as circunstncias tivessem sido diferentes...
   Deixou a frase sem terminar, prendendo no ar. A expresso de Benedict comeou a limpar-se. -Quer dizer que se Alice no tivesse cavalgado at Rivenhall para defend-lo, 
voc no o teria feito?
   -Claro. Se ela no fizesse cargo de salvar essa propriedade, Eduard poderia  ficar com ela, com meus melhores desejos. Ele sabia. Mas isto... isto  algo muito 
diferente.
   Neste assunto intervinha um elemento novo. Hugh especulou com as possibilidades.
   O que saberia Eduard a respeito da pedra verde que o impulsionava a provocar a ira de um homem ao que, at ento, tinha tratado com a maior precauo?
   O que sabia do cristal que o impulsionava a arriscar-se a morrer por ele?
   Porque no instante em que apanhou Alice, Eduard tinha assinado sua prpria sentena de morte. Certamente, devia ser consciente desse fato.
   -Est claro que  um assunto muito diferente -disse Benedict, golpeando com o punho sobre a mesa-. por que est to seguro de que Eduard matar Alice embora pague 
o resgate?
   -Ao raptar a Alice, desafiou-me diretamente. -Franziu o cenho enquanto estudava outra passagem-. Isso significa que, por alguma razo, j no me teme o bastante 
para ser precavido. Se for assim, j no  uma raposa e sim um javali. E no h criatura to perigosa e imprevisvel quanto um javali.
   
   Benedict paralisou-se. sabia-se que o javali era a besta mais selvagem, que s os caadores mais destros se atreviam a perseguir. Dotado de um corpo macio, de 
msculos pesados, grandes presas e uma ferocidade cega, era capaz de matar um cavalo e o desafortunado homem que estivesse sobre os arreios. Os sabujos mais valorosos 
no podiam derrub-lo sem a ajuda de uma matilha completa de ces fortes e as flechas dos caadores.
   -O voc vai fazer? -perguntou por fim o moo, com voz abafada pela impresso.
   Hugh enrolou a pequena folha de pergaminho em que Calvert tinha esboado o mapa.
   -Farei o nico que pode fazer-se com um porco selvagem: caarei-o e o matarei.
   
   
   O olhar sombrio de Katherine posou em da Alice.
   -Depois da morte de sir Matthew, meu primo gastou quase toda a minha herana e no pde negociar outro matrimnio proveitoso para mim. Deixou-me entrar no convento 
de Scarcliffe. Durante anos, vi-o pouco, para minha alegria.
   -Estava contente no convento?
   -Tanto como pode estar uma mulher de meu temperamento.
   Apesar do duro da situao, Alice sentiu certa simpatia.
   -A madre Joan me contou que voc padece de ataque de melancolia.
   - certo. Embora trabalhar com jardinagem seja bom para os doentes desses humores. E gosto de mesclar ervas. No geral, estive contente.
   Incmoda no duro cho de pedra, Alice trocou de posio. Pareceu-lhe que fazia um sculo que estava sentada com Katherine em um rinco da vasta gruta. A tranqila 
conversao com a curadora era a nico que lhe impedia de sucumbir ao medo que ameaava domin-la.
   Naquela noite, estava muito mais nervosa que o dia em que enfrentou Eduard no castelo de Rivenhall.
   A diferena no residia no fato bvio de que, naquela ocasio, tinha a Dunstan e ao contingente de homens armados respaldando-a, e sim em outra coisa. Tinha que 
ver com uma mudana no mesmo Eduard. Uma mudana aterradora.
   Essa noite, Eduard tinha um ar frentico, de violento desespero; Alice sentiu que era muito mais perigoso desta vez do que estava quando tentou apropriar-se de 
Rivenhal. Na ocasio temia Hugh.
   Na situao presente, a ansiedade por obter a pedra verde parecia ter varrido todo sentido de precauo.
   Para alvio da Alice, Eduard tinha sado da caverna um momento antes. Levou uma tocha e avanou por um passadio escuro com a confiana do homem que conhece o 
caminho entre um labirinto de tneis.
   Era a terceira vez que Eduard saa das cavernas para esquadrinhar no velho canal da aldeia.
   Alice teve a sensao de que as paredes da caverna se fechavam. Uma tocha fixa a uma das paredes ardia com chama baixa. A fuligem das chamas obscurecia a pedra 
por cima dela. As sombras vacilantes foram tornando-se mais escuras e densas.
   Uns tinidos contra o cho de pedra atraram o olhar de Alice ao outro lado dessa cmara. Fulton e o outro sujeito, de nome Royce, conforme soube, estavam sentados 
com as pernas cruzadas, jogando aos jogo de dados. Tinham as armas ao alcance da mo.
   -Meu -resmungou Fulton, e no pela primeira vez. Tinha ganho vrias vezes.
   -Ora, me d o jogo de dados. -Royce arrebatou os pequenos cubos de osso e os jogou no cho, enfurecendo-se com o resultado-. Por todos os Santos. Como  que tem 
tanta sorte?
   -D-me, mostrarei-te como se joga.
   Fulton se apoderou dos jogo de dados.
   -Sir Eduard j teria que ter retornado. Porque ser que demora?
   -Quem sabe? -Fulton atirou os dados-. Esta noite est de um humor estranho.
   -Sim. No pode pensar em outra coisa que nessa maldita pedra verde. Para mim, isso no  natural. Qualquer um sabe que esse cristal carece de valor.
   -Sir Eduard est convencido de que vale.
   Alice se rodeou com os braos e olhou a Katherine. -Est tarde.
   Ali, nas vsceras das cavernas, era impossvel conhecer a posio do sol, mas se podia notar o passar do tempo de outra maneira.
   -Sim. -Katherine juntou as mos-. Sem dvida, terminar logo. Ambas estaremos mortas e Eduard ter o cristal verde.
   -Meu marido nos resgatar -prometeu Alice, em voz baixa.
   Recordou que, em uma ocasio, fez- a mesma promessa a Emma. "Pobre Hugh -pensou, com ironia e fugaz bom humor-, sempre tem que cumprir minhas promessas."
   Katherine moveu a cabea, pesarosa.
   -Ningum pode resgatarnos, lady Alice. As razes da erva que envenenou o passado deram flores malvadas.
   -No se ofenda, Katherine, mas s vezes voc consegue me desanimar.
   A expresso de Katherine se fez mais lgubre ainda.
   -Prefiro enfrentar a verdade e os fatos. Se voc quer consolar-se com falsas esperanas, dane-se voc.
   -Minha me acreditava muito no poder da esperana. Considerava-a to importante como uma medicina. E eu tenho esperanas fundadas de que meu senhor enfrentar 
Eduard com xito . J ver.
   -Certamente, tem muita f no poder de seu marido -murmurou Katherine.
   -Tem que admitir que ainda no me falhou. -Alice endireitou os ombros-. E se acreditar que Eduard  rival digno de sir Hugh, equivoca-se.
   -No que a mim respeita, nunca tive o menor motivo para depositar minha confiana nos homens.
   Era evidente que Katherine estava resignada a um triste final.
   Alice chegou  concluso de que no conseguiria trocar a sombria atitude de Katherine e, portanto, resolveu trocar de tema
   -Sabe quem roubou o cristal verde do convento, faz umas semanas?
   Katherine se retorceu as mos sobre o regao. -Fui eu.
   -Voc?
   A freira suspirou.
   -Quando Eduard soube que o cristal era a chave para encontrar as Pedras de Scarcliffe, mandou-me uma mensagem de que eu devia tir-lo da abbada. Me... me fez 
certas ameaas.
   -Que tipo de ameaas?
   -Assegurou-me que, se no lhe obedecesse, envenenaria  algum aldeo ou uma das freiras.
   -Meu deus!
   -No quis me arriscar. Fiz o que me ordenou. Uma noite, tarde, apropriei-me da pedra e a dei ao homem que Eduard mandou  entrada do convento para peg-la.
   -Por que Eduard esperou tantos anos para roubar a pedra?
   Katherine levantou os ombro em um gesto de indiferena.
   -Faz apenas alguns meses que conheceu seu verdadeiro valor.
   -Quando descobriu que Calvert de Oxwick sabia que as Pedras de Scarcliffe realmente existiam? 
   -Claro.
   Alice franziu o cenho.
   -Esse incidente ocorreu mais ou menos ao mesmo tempo que sir Hugh recebeu o feudo de Scarcliffe.
   - Eduard alegrou saber que perder a pedra verde causaria muitas dificuldades a Hugh, mas no foi por isso que me ordenou que a roubasse. A verdade  que, quando 
soube que as Pedras eram algo mais que uma simples lendaficou  obcecado em descobrir esse tesouro.
   -O que aconteceu quando voc entregou a pedra verde ao homem de Eduard?
   -O imbecil traiu Eduard. -Katherine apertou os lbios-. Foi com ela, decidido a descobrir por si mesmo qual era seu valor. Mas como no pde averigu-lo, a vendeu 
a um camel. Da foi parar em suas mos e, por ltimo, restituda a seu legtimo dono.
   -Enquanto isso, Calvert estava aqui, disfarado de monge para explorar as grutas a seu desejo.
   -Sim. Eduard compreendeu que o monge tinha aprendido muito sobre as cavernas e era til. Fez um trato com ele, transformou-o em seu scio. Eduard prometeu encontrar 
a pedra verde enquanto Calvert explorava as cavernas.
   -Mas Eduard assassinou Calvert.
    Katherine assentiu.
   -Sim. Estou segura de que pensava em faz-lo desde o comeo, assim que tivesse o que queria. Mas quando sir Hugh recuperou a pedra verde e a encerrou no castelo 
de Scarcliffe, Eduard e Calvert discutiram.
   -Porqu?
   -Calvert acusou Eduard de fracassar em sua parte no trato. Eduard se enfureceu e chegou  concluso de que o monge j no lhe servia. Quando Calvert morreu, Eduard 
compreendeu que teria que executar um plano diferente.
   -E me seqestrou -murmurou. 
   -Claro.
   - um tolo.
   -No,  um sujeito cruel e perigoso -sussurrou Katherine-. Para falar a verdade, sempre foi malvado. Mas esta noite, percebo algo mais nele. Algo que me aterra.
   -Um fio de loucura?
   Jogou um olhar ipquieta ao Fulton e Royce. -Sim. -Katherine se olhou as mos-. Odeio-o, sabe?
   -Seu primo?
   Katherine olhou sem ver a parede da caverna. -Quando meus pais morreram, levou-me para  viver com ele. Queria controlar minha herana.
   Alice fez uma careta.
   - uma histria bastante freqente. H poucos homens que conseguem resistir,  ocasio, de controlar a fortuna de uma herdeira, e a lei os estimula a faz-la.
   - certo, mas o tratamento de meu primo era pouco freqente... e pouco natural. -Katherine olhou outra vez as mos crispadas-. Me... forou.
   Alice a olhou, atnita.
   -OH, Katherine! -Com grave delicadeza, tocou o brao da mulher-. Sinto-o tanto...
   -E depois, tratou de me casar com sir Matthew para obter terras prprias. -O rosto da mulher estava rgida de dor-. Que Deus me perdoe, odeio a Eduard com a paixo 
que outras mulheres reservam ao amor.
   O roar de uma bota sobre a pedra fez que Alice ficasse tensa. Girou a cabea para esquadrinhar na escurido da passagem. Na entrada, cintilou a luz de uma tocha 
e, pouco depois, Eduard apareceu  vista. O semblante era uma mscara de fria.
   Fulton ficou de p desajeitadamente e fixou a vista na mo vazia de Eduard.
   -Sir Hugh ainda no pagou o resgate?
   -O canalha est me provocando. -Colocou a tocha na mo de Fulton-. J amanheceu, e no deixou a pedra verde no extremo norte desse canal pestilento. E a maldita 
nvoa piora a cada minuto.
   -Talvez no ache que a dama vale esse preo. -Fulton lanou a Alice um olhar preocupado-. No  difcil imaginar que prefira livrar-se dela.
   -Esfregou-se a palma da mo, onde Alice lhe tinha mordido-. A garota  fastidiosa.
   Eduard girou para ele, furioso.
   - Idiota. No sabe nada desta questo.
   -Possivelmente -murmurou Fulton-. Mas sei que eu no gosto muito.
   -Sir Hugh valoriza  sua esposa. -Eduard coou a barba com os dedos-. A agrada ao ponto de parecer idiota. O viram aquela noite no castelo de Rivenhall. Como lhe 
deu sua palavra com respeito a um capricho, permitiu-lhe que a dama o privasse de uma vingana que ele desejava.
   -Sim, mas...
   -S um homem enfeitiado permitiria que uma mulher o manipulasse assim. Sim, o tolo a aprecia muito. Trar-me a pedra, acreditando que a trocar pela vida de 
sua mulher.
   Royce franziu o cenho.
   -Eu opino como Fulton. Eu no gosto desta situao. Sem dvida, a pedra no vale o risco de ser abandonados como ratos pelo Hugh o Implacvel.

   -Deixem de se queixar. -Eduard comeou a andar pela cmara-. Estamos seguros nessas grutas. Agora que Calvert est morto, o nico que conhece o caminho sou eu. 
Nem sir Hugh se atreveria a meter-se neste labirinto.
   -Sim. Isso  o que voc diz. -Royce guardou os jogo de dados em uma pequena bolsa que levava no cinturo.- Mas isso no muda nada. Esta caverna ser um bom lugar 
para ocultar-se no momento, mas tambm poderia transformar-se em uma armadilha.
   Eduard deixou de passear-se e girou com os olhos entreabertos como ranhuras.
   -Est pensando em me desafiar, Royce?
   Royce no se acovardou. Ao contrrio, olhou-o com expresso especulativo um momento. Ento pareceu chegar a uma deciso.
   -Acredito que j me cansei deste plano intil.
   -O que? Voc est a meu comando -vociferou Eduard, e se levou a mo ao punho da espada-. Se pensar em me abandonar, matarei-te imediatamente.
   -Tente-o.
   Royce jogou mo a sua prpria espada.
   Fulton retrocedeu.
   -Pelo sangue do demnio, isto  uma verdadeira loucura!
   -Traidor!
   Eduard tirou a espada da bainha e se lanou adiante.
   -Volte atrs -advertiu-lhe Royce, levantando sua pesada folha.
   -Deixem este absurdo -gritou Fulton-, ou estar tudo perdido.
   Alice agarrou a mo de Katherine.
   -Venha -sussurrou-lhe-. Talvez esta seja nossa nica possibilidade.
   Katherine ficou imvel sobre a rocha, com os olhos iluminados de horror.
   -No podemos fugir pelas grutas, perderamo-nos.
   Impaciente, Alice lhe puxou.
   -No, seguiremos o rastro de Eduard. -Que rastro?
   -Como j aconteceu muitas vezes, deixou os passadios bem marcados com a fuligem da tocha.
   Alice rogou que fosse verdade. Mas uma coisa era certa: a briga que estalou entre Eduard e Royce era uma oportunidade que ela e Katherine no podiam desperdiar.
   -De verdade acredita que poderemos escapar?
   Katherine parecia confusa. Evidentemente, estava resignada a morrer. No melhor dos casos, a esperana era um conceito difcil de captar para ela.
   Nesse momento, estava perturbada e confusa. -Venha.
   Alice no afastou a vista de Eduard e Royce, que gritavam e caminhavam em crculos, um ao redor do outro. Fulton no prestava ateno s mulheres, pois se esforava 
em vo para acalmar aos outros dois.
   Alice no soltou a mo de Katherine enquanto andavam, cautelosas, a parede, at a seguinte tocha. Lhe arrepiou o cabelo da nuca quando a tocha esteve a seu alcance, 
e a percorreu um estremecimento.
   
   Nenhum som anunciou a chegada de Hugh, mas Alice soube que estava perto. Deu a volta para olhar para o passadio pelo que entrou Eduard instantes antes.
   Um vento gelado, fantasmagorico, soprou do corredor escuro, levando consigo uma promessa de fatalidade. As tochas da enorme caverna cintilaram e chisparam.
   -Hugh -sussurrou.
   No tnel negro apareceu um plido resplendor ambarino. Segundos depois, recortou-se a silhueta de um homem.
   Os que brigavam detrs de Alice no a ouviram nomear ao inimigo, mas a voz era inconfundvel. Cortou tenso o ambiente com o impacto de um raio que atravessa o 
cu noturno.
   -Basta! -A palavra retumbou nas paredes da caverna-. Soltem as armas ou morrero a mesmo.
   Na ampla cmara, tudo se imobilizou um instante. Todos olharam fixamente a Hugh, cuja silhueta se perfilava na entrada de pedra do corredor.
   Alice estava igualmente estupefata, embora ela esperasse que aparecesse. Sem que ningum o dissesse, sabia que nesse momento Hugh era mil vezes mais perigoso 
que nunca, desde que o havia conhecido.
   Katherine fez o sinal da cruz.
   -A Provocadora de Tormentas!
   Hugh era a vingana encarnada, um vento escuro que varreria tudo o que lhe interpor. Os olhos eram gelados e careciam de piedade. A capa negra o envolvia dos 
ombros at a borda das botas negras de couro. No levava elmo, mas a luz faiscava no ao da espada.
   Dunstan e Aleyn, um dos guardas, apareceram rapidamente atrs dele, e o flanquearam com as reluzentes espadas. Detrs, apareceu Benedict com uma tocha no alto. 
O olhar do rapaz esquadrinhou, ansioso, a caverna at que viu a Alice. Quando a viu, o semblante lhe iluminou de alvio.
   Eduard foi o primeiro em recuperar-se da paralisia que afetou a todos os que estavam na cmara.
   -Bastardo! -gritou-. Arruinou tudo. Desde o dia em que nasceu tratou de me arrebatar o que por direito me pertence. Pagar-o.
   Equilibrou-se, mas no para Hugh. Girou e se jogou sobre Alice. Com apavorado assombro, a moa compreendeu que tentava mat-la. Por um instante, paralisou-se 
de medo.
   -Alice, mova-se. 
   Hugh se lanou adiante, mas estava a vrios passos de Eduard.
   A ordem rompeu o feitio de terror que apanhava  Alice. Saltou para o lado no mesmo momento em que a pesada espada de Eduard se abatia sobre ela, golpeando o 
cho onde tinha estado um segundo antes. O mortfero golpe do metal sobre a pedra ressoou na caverna.
   O estmago de Alice se contraiu. Teve uma sensao fria e viscosa na pele. Se no se movesse, a fora do golpe a teria cortado em dois
   No mesmo instante, virou-se para ela outra vez, erguendo a espada com ambas as mos. 
   Alice cambaleou para trs, o p enganchou na prega da saia.
   -Pelo sangue dos Mrtires!
   Lutou, desesperada, para livrar-se das dobras do novo vestido, negro e mbar.
   -Rameira do demnio! Isto  culpa dela.
   Quando cercou Alice contra a parede da caverna, os olhos de Eduard eram os de um animal selvagem.
   A fria arrasou o medo de Alice.
   -Afaste-se de mim. No se aproxime. 
   -Morre, rameira!
   Pela extremidade do olho, Alice viu que Hugh tinha percorrido a metade da caverna, mas ainda estava muito longe para atacar  Eduard.
   Fortaleceu-se, e se preparou para evitar o golpe seguinte.
   Mas, no ltimo momento, o raciocnio moderou a ira de Eduard.
   -Fique onde est, ou a mato -advertiu a Hugh.
   Hugh colocou a mo entre as dobras da capa e tirou um objeto: em sua mo brilhou a pedra verde.
   -Isto  o que queria, no, Eduard?
   -A pedra. -passou-se a lngua pelos lbios-. Dem-me isso e deixarei viva a sua esposa.
   -Agarre-a, se puder.
   Jogou-a em um ponto da parede da caverna,  direita de onde estava Eduard.
   Os olhos deste se dilataram e gritou:
   -No! .
   Lanou-se sobre a pedra, mas no pde alcan-la. O cristal verde se chocou contra a parede e se transformou imediatamente em migalhas. Um resplandecente arco 
ris caiu em cascata ao cho. Rubis, berilos dourados, prolas, esmeraldas, safiras e diamantes reluziram e chisparam entre os fragmentos do estojo verde que os 
ocultava.
   -As Pedras de Scarcliffe! -murmurou Alice.
   De sbito, compreendeu que a pedra era feita de cristal grosso, e disse-se que devia t-lo suspeitado muito tempo atrs. E, entretanto, acreditou que era um objeto 
natural, igual a todo mundo. Ento entendeu que foi criado por um arteso muito habilidoso, que tinha encontrado um modo de simular o aspecto e a textura de um grande 
cristal verde.
   Eduard chiou: -As Pedras!
   Por um segundo, permaneceu olhando, fascinado, o reluzente montculo, e recordou muito tarde a presena de Hugh.
   Girou para confrontar a gelada tormenta que era a espada de Hugh, mas a obsesso pelas pedras lhe custou muito cara.
   Os aos chocaram.
   Eduard caiu de joelhos pela fora dos golpes de Hugh. Este ergueu  uma e outra vez a espada, golpeando a de Eduard.
   Quando Hugh ergueu a espada para dar o golpe fatal, a chama-a que ardia em seus olhos era da mesma cor que as das tochas. .
   Alice se apressou a virar, incapaz de presenciar o que sabia que ocorreria. Viu que Katherine olhava mais  frente, fascinada pela fatdica cena. Do outro lado 
da caverna, Dunstan e Aleyn mantinham imobilizados os dois homens a ponta da espada. Benedict observava tudo da passagem em sombras.
   Alice reteve o flego, mas no se ouviu nenhum grito mortal a suas costas.
   Passaram os segundos, dois, trs, quatro, cinco. Ergueu o olhar, e viu que todos cravavam a vista no lugar onde Hugh mantinha Eduard de joelhos
   Girou lentamente, para ver o que tinha acontecido.
   Eduard estava estendido de costas, bem vivo, e contemplava fixamente a llmina que se apoiava em sua garganta.
   -Por que vacila? -perguntou Dunstan-. Termine de uma vez com isto. A noite foi muito longa para todos.
   -Quero que responda a algumas pergunta -disse Hugh-. Amarre-o e leve-o ao castelo, Aleyn. Ponha-o no calabouo. Falarei com ele amanh.
   -Sim, milorde.
   Aleyn se precipitou em encarregar-se do prisioneiro. Por fim, Hugh prestou ateno em Alice. Os olhos ainda reluziam, mas alm disso, parecia to sereno como 
se acabasse de sair do banho.
   -Bom, senhora, no cabe dvida de que voc fortalece minhas lendas.
   -E voc, milorde, confirma as lendas. 
   -Lanou um olhar s pedras brilhantes esparramadas pelo cho de pedra-. Est claro que, nunca perde quando se trata de seu patrimnio.
   -Alice.
   -OH, Hugh! -Sentiu que os olhos se enchiam de lgrimas de alvio e a garganta se apertava-. Eu sabia que me salvaria. Na realidade, sempre o faz, milorde.
   Correu para ele. Hugh a esmagou contra seu peito. A capa negra a envolveu.
   
   
   Muito tempo depois, Alice estava sentada com Hugh diante do fogo do salo, e tratava de se esquentar. Tinha a sensao de que no podia se livrar do frio. Cada 
vez que evocava as horas passadas na caverna, percorria-a um calafrio. Possivelmente teria que tomar uma dose do remdio que tinha enviado a Erasmus d Thornewood.
   Assolou Hugh com outra pergunta, uma das muitas que se formulou desde que tinham voltado para castelo, duas horas antes.
   -Quando descobriu que as Pedras de Scarcliffe estavam dentro do cristal verde?
   -Quando se fez migalhas contra a parede da cova. Estirou as pernas e fixou nas chamas um olhar pensativo
   Alarmada, Alice contemplou o perfil austero.
   -Quer dizer, que no suspeitava antes que o cristal era um simples cofre para guardar as gemas?
   -No. Nunca tive muito interesse pelas Pedras de Scarcliffe, e por isso nunca observei bem o cristal verde. Enquanto estivesse em meu poder, bastava-me.
   -Entendo. -Guardou silncio um momento-. Acredito que me sinto mau, Hugh.
   O marido a olhou aflito.
   -O que ? Est doente?
   -No, ao menos no tenho febre. Mas no posso me acalmar. Tenho os nervos alterados.
   -Ah, entendo.  a conseqncia natural de um acontecimento violento, meu amor. Passar com o tempo.
   Rodeou-lhe os ombros com o brao e a atraiu para si.
   -No parece lhe afetar -murmurou, aconchegando-se a seu calor.
   -Asseguro que meus nervos se alteraram bastante quando soube que lhe tinham seqestrado. Estive a ponto dedesmaiar.
   -Estranho. Custa-me acreditar que alguma vez tenha padecido de uma alterao nervosa.
   -Alice, todos os homens vem seus nervos alterados alguma vez -disse, com grande seriedade.
   Como no soube o que dizer, Alice mudou de tema.
   -Obrigado por no matar Eduard diante de Katherine. Embora no goste dele, ao final de contas  seu primo.
   -No  decoroso executar a um homem diante de mulheres, sobre tudo curandeiras, se pode evitar-se.
   Por outro lado, quero que responda a algumas pergunta.
   -Katherine respondeu a uma enquanto passavamos as horas esperando que fizesse sua grandiosa apario.
   -Qual foi?
   -Perguntava-me quem foi o que ps veneno em sua taa. Katherine me disse que Eduard lhe contou como o fez. Mandou a um de seus homens ao recinto, disfarado de 
granjeiro, o dia em que os aldeos deveriam fazer as reparaes no castelo.
   Hugh contemplou as chamas. -Foi no mesmo dia em que veio Vincent de Rivenhall. Essa tarde, havia muita confuso na casa. Era fcil que algum entrasse disimuladamente 
na cozinha. 
   -E tambm foi simples identificar sua taa depois do almoo.  a maior de todas.
   -Sim.
   -Hugh.
   -O que?
   -O que pensa perguntar a Eduard?
   Hugh fixou a vista nas chamas.
   -Ainda no estou certo. Pensarei em algo. 
   Mas Alice entendeu: queria saber o que foi o que se passou naquela noite, trinta anos atrs, quando Eduard envenenou outra taa de vinho.
   Hugh queria que Eduard lhe dissesse com suas prprias palavras que sir Matthew tinha a inteno de casar-se com Margaret e reconhecer  seu filho.
   
   
   
   Captulo 21
   
   Embora as botas macias de couro de Hugh no fizessem nenhum rudo quando percorreu a passos largos o corredor escuro, a capa de cor bano cortava o ar. Estava 
furioso.
   -Maldito calabouo. Est seguro de que est morto?
   -Sim, milorde. -Dunstan inclinou a tocha quando giraram na esquina do corredor-. Um dos guardas o encontrou recentemente.
   -Por que no  revistaram?
   Hugh seguiu a Dunstan pela curva do corredor.
   Os passadios do castelo de Scarcliffe no eram muito diferentes dos tneis e cavernas das covas naturais. Eram escuros, estreitos e sinistros.
   A luz natural no chegava a essa parte do castelo, onde se armazenavam especiarias, gros, mercadorias e, de vez em quando, um prisioneiro.
   -Foi revistado -respondeu Dunstan-. Mas os guardas procuraram facas, e armas neste estilo.
   Deteve-se diante da cmara fechada por uma grade de ferro.
   Hugh olhou o corpo contorcido de Eduard de Lockton, que jazia no cho da cmara, e lhe subiu a irritao como blis. Tinha tantas perguntas que lhe fazer, tantas 
coisas que queria dizer ao homem que tinha assassinado a seus pais...
   Sobre tudo, tinha o propsito de saborear tanto a justia como a vingana. Tinha esperado tanto tempo para gozar dessas ricas especiarias, que levou tempo em 
aceitar que lhe tinham escapado da mo.
   -Ningum achou o veneno que ingeriu, conforme vejo -murmurou Hugh.
   -No, milorde. Possivelmente seja o melhor. -Dunstan olhou a Hugh-. Agora, de verdade terminou tudo.
   Hugh subiu os degraus de pedra que levavam ao interior do castelo. No se deteve pensar aonde ia. Cruzou o salo principal, onde estavam em marcha os preparativos 
para o almoo. Quando chegou  escada da torre, subiu dois lances mais de degraus ptreos.
   Chegou ao nvel superior da torre, girou e percorreu o corredor at o escritrio de Alice. Abriu a porta sem incomodar-se em chamar.
   Surpreendida, Alice levantou o olhar quando seu marido entrou, e ao vr-lhe a expresso, franziu o cenho.
   -Milorde. -Fechou o livro que tinha aberto sobre a mesa-. O que aconteceu?
   -Eduard de Lockton bebeu veneno em algum momento da noite. Est morto.
   Alice se levantou do tamborete e saiu de atrs da mesa. Sem dizer uma palavra, aproximou-se de Hugh e o abraou. Apoiou a cabea no ombro dele, mas no disse 
nada.
   "Alice sempre me compreende bem -pensou-. No tenho que traduzir as coisas em palavras."
   Abraou-a apertadamente por um momento. Depois desse tempo, a sombria frustrao que o arrasou ao saber que Eduard tinha escapado para a morte, comeou a ceder.
   Passaram uns minutos mais em silncio. Sentia a Alice muito suave e morna nos braos.
   Em um momento determinado, Hugh sentiu que o banhava uma sensao de paz e serenidade. A porta aberta do passado, pela que sopravam os ventos gelados de tormenta, 
por fim se fechou.
   
   
   
   Um ms depois, uma manh clara de outono, o guarda da torre  gritou o que via para o recinto bulioso.
   -Milorde, chegam cavaleiros. Um cavalheiro e cinco homens armados. Tambm criados, e uma carreta com bagagem.
   Hugh fez sossegar o estrpito das armas de prtica com um rpido sinal e ergueu a vista para o guarda.
   -Quais so as cores do cavalheiro?
   -Verde e amarelo, senhor.
   Hugh olhou ao Dunstan.
   -So as cores de Erasmus de Thomewood. -Sim. -Dunstan ficou carrancudo-. Certamente, ser um de seus homens que vem a informarmos da morte do senhor.
   Hugh se sentiu invadido pela tristeza. Embora esperasse essa notcia, era de todo os modos, uma surpresa no desejada. Nesse momento, compreendeu que tinha albergado 
a esperana de que a receita de Alice tivesse aliviado Erasmus.
   
   Protegeu os olhos do sol matinal, e olhou outra vez para o posto de guarda.
   -Est seguro das cores do cavalheiro? -Sim, milorde. -O guarda observou o caminho- Um senhor muito rico, a julgar pela aparncia do contingente que o acompanha. 
E bem armado. Uma dama vem com eles.
   -Uma dama? -Pensou que seria Eleanor, a viva de Erasmus, que tinha vindo  trazer em pessoa a notcia da morte do senhor. Dirigiu-se a Benedict-.Procure  Alice. 
Rpido. lhe diga que teremos vrios convidados para almoar, e entre eles, uma senhora.
   -Sim, milorde.
   Benedict entregou a Dunstan o arco com o que estava praticando, pegou a bengala e correu para os degraus de entrada.
   Minutos depois, a comitiva de cavaleiros deteve-se frente  entrada do castelo de Scarcliffe, e pediu, cortesmente, permisso para entrar. O guarda os fez passar 
ao recinto.
   Alice apareceu na porta do castelo e olhou interrogante para Hugh.
   -Quem vem, milorde?
   -Sem dvida, algum que traz a notcia da morte de meu suserano -respondeu, em voz baixa.
   -Por que acha que morreu? -perguntou-lhe com expresso de recriminao-. Acaso esqueceu lhe dar a receita da poo sedativa que te mandei para ele quando foi 
a Londres?
   -No.
   -Disse a sua esposa que se assegurasse de que os mdicos no continuassem sangrando-o, no?
   -Sim, Alice, dei-lhe suas instrues, mas todos, inclusive Erasmus, sentiam que se aproximava o fim. Freqentemente, um homem sente a morte iminente.
   -Isso  ridiculo. Segundo o que me disse, s padecia de uma intensa excitao nervosa.
   Os visitantes passaram a cavalo pela porta antes que Alice pudesse continuar repreendedo-o. Hugh olhou o cavalheiro que encabeava a companhia. Primeiro, contemplou 
incrdulo o rosto to familiar, e logo com crescente regozijo.
   -Milorde -murmurou.
   -E bem? -perguntou Alice, impaciente-. Quem ?
   -Erasmus de Thomewood.
   -Por todos os Santos! -murmurou Alice-. Temia isso. Julian acaba de chegar esta mesma manh. por que no nos informou que sir Erasmus pensava em  visitar-nos? 
Do que serve um mensageiro se no trazer as mensagens importantes?
   Hugh comeou a rir.
   -No seja muito dura com o Julian. Ele tem suas vantagens.
   Adiantou-se a receber a seu suserano.
   
   Erasmus freou ao musculoso potro no centro do recinto. O sol brilhava sobre as ricas vestimentas e os polidos aos.
   -Bem-vindo, milorde. -Hugh se aproximou de tomar as bridas-. Por seu aspecto, apostaria a que j no o diverte fazer acertos para seu prprio funeral.
   -Descobri que os funerais no so to divertidos como os batismos. -Erasmus sorriu para Eleanor, que tinha detido o palafrm junto a ele-. E me agrada te dizer 
que pensamos ter um ou dois no futuro.
   O semblante de Eleanor resplandecia de felicidade ao olhar para Hugh.
   -Venho a lhe dar graas a sua esposa por faz-la possvel.
   - Alice adorar saber que sua poo deu to bom resultado. -Hugh no podia deixar de sorrir-. E a mim tambm. Sempre disse que meu senhor tem talento para criar 
filhos. Permita-me lhe apresentar a minha senhora esposa.
   Atice baixou os degraus com um sorriso de boas-vindas.
   -Alegra-me verificar que algum seguiu minhas instrues.
   
   
   Essa noite, quando Erasmus levantou a vista do tabuleiro de xadrez, os perspicazes olhos cinzas se iluminaram admirados:
   -Acredito no que falam de voc, senhora.
   -Sim.
   -Hugh estava certo:  uma rival muito inteligente.
   -Obrigado, milorde. -Alice levantou um pesado bispo de nix. Com o cenho franzido de concentrao, moveu a pea pelo enorme tabuleiro-. Eu gosto deste jogo.
   - evidente. Acredito que at pense no risco de perder esta escaramua. .
   -No leve a mal, senhor. Meu senhor esposo  a nica pessoa capaz de ,me ganhar. Tem um grande talento para as estratgias.
   -Sei muito bem.
   A risada de Eleanor fez girar a cabea de Erasmus. Sorriu ao ver sua esposa sentada perto de Hugh. Dividiam uma terrina com figos adoados com mel enquanto conversavam 
frente a lareira. Perto, Julian tocava uma melodia com o harpa.
   -Mova voc, milorde -recordou-lhe Alice. 
   -Sim. -Erasmus se concentrou outra vez no tabuleiro. Tocou uma torre, mas vacilou-. Felicito-a, senhora. No existem muitas mulheres capazes de acalmar as tormentas 
que se moviam dentro de meu amigo Hugh
   -Eu?
   Alice levantou a vista, estupefata, e olhou para Hugh. Os olhares de ambos se encontraram e seu marido sorriu, para logo voltar para a conversao com a Eleanor.
   -Voc lhe deu paz -disse Erasmus-. No deve ter sido fcil nem simples.
   -Sir Hugh desfruta sendo senhor de suas prprias terras -disse Alice-. Freqentemente observo que as pessoas esto contentes quando o trabalho que fazem lhes 
brinda prazer. Meu marido  muito hbil para dirigir estas propriedades. Mas voc conhece bem sua habilidade em questes de negcios.
   -Para mim, a inteligncia de Hugh foi evidente no primeiro dia que foi viver no meu lar.
   -Foi bondoso de sua parte lhe dar uma boa educao e lhe permitir, assim, a oportunidade de desenvolver o comrcio em especiarias. -Lanou-lhe um olhar direto-. 
Muitos senhores em sua posio se teriam aproveitado do talento natural de meu marido para o combate e no teriam feito caso de sua aguda inteligncia.
   -Para mim foi conveniente no ignorar essa inteligncia -respondeu com secura-. Ao longo dos anos, muitas vezes necessitei das ardilosas estratgias de Hugh como 
sua habilidade com a espada.
   -Recompensou-o bem.
   -No lhe entreguei Scarcliffe nem por sua inteligncia nem por sua destreza como cavaleiro -disse Erasmus-. O dava porque ele me deu algo imensamente mais valioso, 
algo que no tivesse podido comprar a nenhum preo.
   -Do que se trata, senhor? 
   -Seu inegvel lealdade.
   Alice sorriu.
   -Entendo.
   -Houve muitas ocasies em que gostaria de poder lhe dar um presente to esplndido como o que me deu .
   -Pode ficar tranqilo: est muito satisfeito com sua propriedade.
   -No acredito que sejam s as terras as que lhe deram satisfao, senhora. -Olhou-a com acuidade-.  voc a verdadeira razo nesta questo.
   Alice sentiu-se sobremaneira incmoda.
   -Duvido, senhor.
   -Falou-me muito de voc quando foi ver-me em Londres. Disse-me que tinha grande coragem e audcia. Assegurou que o abordou com uma proposta atrevida.
   - certo. -Considerou o seguinte movimento com as sobrancelhas unidas-. formamos uma excelente sociedade.
   -Sem dvida,  algo mais que um acordo de negcios.
   Alice se ruborizou.
   -Bom, ao final de contas estamos casados, milorde. 
   -E voc o ama com todo o corao, no  certo? 
   Alice apertou muito forte uma das peas de xadrez. -Como sabe destas coisas, senhor?
   -Eu tampouco careo de perspiccia. Quando a gente passa tantas semanas como eu acreditando que est a beira da morte; compreende certas coisas. Fiacamos mais 
perceptivo, diramos.
   -S um homem muito inteligente se volta mais consciente e perceptivo em semelhantes circunstncias. -Suspirou-. Na realidade, tem razo. Quero muito meu marido. 
Mesmo que, s vezes, seja muito obstinado.
   -Bom,  um homem. H coisas que so imutveis. E falando de meu recente contato com a morte, queria lhe agradecer a poo, senhora.
   -No  necessrio. Era uma receita de minha me. Ela me deixou um livro no que deixou anotadas as descries de muitas enfermidades. Eu me limitei a aplicar o 
remdio que ela prescreveu para os seus sintomas. Alegra-me que o tenha provado e lhe resultado eficaz.
   -Muito eficaz. -Erasmus sorriu-. Conta com minha mais profunda gratido. Devo-lhe mais do que nunca poderei lhe pagar, senhora. 
   
   -Tolices, milorde. Asseguro-lhe que as contas esto saldadas.
   -Como  isso?
   -Voc salvou a vida de meu marido quando no era mais que um pequeno de oito anos.
   Erasmus ficou carrancudo.
   -No recordo que Hugh tenha estado em perigo de morrer aos oito anos. Embora teve uma ou duas quedas srias enquanto praticava com a armao de madeira, e tambm 
houve um desafortunado incidente com uma ponte e um arroio bastante profundo, pelo resto foi bastante saudvel.
   -Nisso se equivoca, senhor. -Sorriu-lhe com doura-. Talvez tenha tido uma excelente sade no relacionado com os humores corporais, mas h coisas que morrem dentro 
de um menino embora continue vivendo.

   
   -Ah, j entendo a que. refere-se. -Erasmus a olhou com expresso pormenorizada-.  voc perigosamente perceptiva, senhora.
   -No, milorde, s fao uma observao -respondeu, sem lhe dar importncia-. Embora no o seja para voc,  claro para mim que  as tormentas que assolavam seu 
corao e sua alma o teriam esmigalhado.
   -Pode ser que eu tenha lhe ensinado a conter e controlar esses ventos sombrios, lady Alice. Mas voc obteve muito mais: sossegou-os com a alquimia de um corao 
amante.
   
   
   Uma manh, semanas depois da partida de Erasmus e Eleanor, Hugh entrou no escritrio de Alice.
   Tinha pedido a Julian outra lista de versos e estava impaciente por prov-los.
   Mas ao ver a Alice de p diante da janela, deteve-se, encantado. As elegantes palavras que tanto o custou memorizar um momento antes, fugiram-se por um momento. 
Perguntou-se se alguma vez se acostumaria ao fato de que Alice era sua esposa.
   As feies vivazes esboavam uma expresso de concentrao intensa, enquanto examinava um pedao de cristal de rocha que tinha na mo. O sol da manh fazia o 
cabelo brilhar. As linhas suaves do corpo lhe provocaram uma familiar excitao.
   No se voltou para saud-lo, e soube que no o tinha escutado entrar no aposento.
   Hugh pigarreou e procurou  na mente, recordando o primeiro verso da lista.
   -Senhora, o fogo glorioso de seu cabelo brilha tanto que no precisa mais que essas mechas sedosas para me enfraquecer as mos, at na manh mais fria.
   -Obrigado, milorde. -Alice no o olhou.
   Levantou a pedra que tinha na mo para que recebesse mais luz.
   Hugh franziu o cenho, pensando que talvez elogiava muito o cabelo de sua esposa. Possivelmente a aborrecesse. Tomou nota mental para indicar a Julian que fosse 
mais criativo.
   -Seu pescoo tem a graa do de um cisne. 
   -Obrigado, senhor.
   Alice apertou os lbios e examinou o cristal com mais ateno.
   Hugh golpeou a coxa com o pergaminho enrolado que tinha.  Os versos de Julian no surtiam o efeito desejado.
   -Sua pele  suave como as plumas de uma ave inundadas em nata.
   - muito amvel em diz-lo.
   Deixou o cristal de rocha sobre a mesa, levantou uma grande pedra cinza e a olhou atentamente.
   Hugh desenrolou com dissimulao o pergaminho que tinha na mo e leu depressa a lista de elogios:
   -Impressiona-me que seus ps sejam to pequenos e delicados como as folhagens das pequenas corujas.
   Alice titubeou:
   -Corujas, senhor?
   Hugh se irritou diante do som da palavra. Maldito esse Julian e sua confusa escritura.
   -Ah, samambaias. Pequenos e delicados como as folhagens das samambaias recm-nascidas.
   Apressou-se a enrolar outra vez o pergaminho. Este ltimo no foi fcil de pronunciar.
   -Claro, samambaias. Continua, milorde, por favor.
   -Bem, bom, isso  tudo o que me ocorre no momento.
   O que acontecia a Alice naquele dia? No reagia como sempre. O talento de Julian estaria deteriorando?
   -E o que me diz de meus olhos, senhor? Parecem que so verdes como esmeraldas ou, como a malaquita?
   Hugh mudou a posio de seu apoio, incmodo. E se no fosse o talento de Julian o que fracassava, a no sim ele  prprio? E se no dizia os versos como era devido?
   -Como esmeraldas" acredito. Embora a malaquita tambm tenha um belo tom verde.
   -Obrigado. O que acha de meus seios?
   Hugh engoliu a saliva que acumulou em sua boca.
   -Seus seios?
   Geralmente, deixava esse tipo de versos para o dormitrio.
   -Diria que ainda tm a curva delicada dos pssegos amadurecidos?
   -Sem dvida.
   -E minha cintura?
   Hugh entreabriu os olhos. 
   -Sua cintura?
   -Sim. -Alice deixou a pedra cinza e levantou uma mais escura, ainda com o rosto voltado-. Diria que minha cintura  esbelta como a haste de uma flor?
   Na ltima lista de Julian houve algo relacionado com caules de flores e cinturas estreitas. Hugh estava a ponto de repetir o velho elogio, quando se deu conta 
de que Alice estava um pouco mais redonda em algumas parte do que estava semanas anteriores.

   Chegou  concluso de que gostava muito mais assim, mas no estava certo selhe agradaria ouvir que estava um pouco mais rolia.
   -Bem, eu no pensei muito em sua cintura -disse, precavido-. Mas, agora que o menciona...
   Interrompeu-se para olhar com maior ateno.
   No era sua imaginao, concluiu. Recortada a contraluz, a silhueta da Alice no era to esbelta como antes, quando a levou do salo do tio. Recordou a forma 
sob suas mos, na noite anterior, e suspirou.
   -E bem, milorde?
   -Para ser justo, senhora, no diria que sua cintura  esbelta como o caule de uma flor, mas esta nova forma me parece muito atraente. Na realidade, vejo-a muito 
saudvel e em bom estado, com um pouco mais de carne sobre os ossos. -interrompeu-se preocupado ao ver que os ombros de sua esposa sacudiam-. Alice, no chore. Sua 
cintura  igual ao caule de uma flor. Juro, desafiarei at a morte a qualquer um que afirme o contrrio.
   - muito galante, milorde. -virou-se e o olhou. Os olhos brilhavam risonhos, no de lgrimas-. Mas prefiro que seja sincero nestas questes.
   -Alice!
   -Tem muita razo. Minha cintura j no  to estreita como o caule de uma flor. E, para ser sincera, ultimamente, meus seios esto um pouco maiores que os pssegos 
amadurecidos. E por um motivo muito vlido: estou grvida, milorde.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Por um instante, Hugh no pde mover-se: estava grvida. De seu filho.
   -Alice!
   A sorte o arrastou com a fora do sol quando sai depois da tormenta.
   Hugh se liberou do fugaz feitio das palavras de Alice. Equilibrou-se sobre ela e a elevou com muito cuidado. Alice lhe rodeou o pescoo com os braos.
   -Sabe, milorde?, eu no dava muito crdito s lendas, at que o conheci.
   Hugh a olhou aos olhos e pde divisar algo do que seria o futuro dos dois. Estava carregado de promessas de amor e felicidade.
   -Ento, estamos iguais. Eu nunca acreditei na alquimia do amor, at que a conheci.
   O sorriso de Alice foi glorioso.
   -H dito amor, senhor?
   -Sim. -Hugh riu, mais feliz que nunca na vida-. Amor.
   
   Captulo 22
   
   Um morno dia de fins de outono, Hugh levou ao filho recm-nascido s muralhas do castelo do Scarcliffe, e lhe mostrou as terras que no futuro seriam dele.
   Hugh acomodou o menino em um brao e contemplou o prspero feudo com uma profunda sensao de prazer. A colheita tinha sido boa. A l esse ano era de excelente 
qualidade. E sempre contava com o ingresso do negcio das especiarias.
   -Tem muito o que aprender -disse-lhe ao pequeno-, mas sua me e eu estaremos aqui para te ensinar tudo o que precise saber.
   
   O pequeno Erasmus babou, feliz, e segurou o grande polegar do pai.
   -V essas terras que se estendem para o leste? Pertencem a Rivenhall. O filho de sir Vincent est aprendendo a dirigi-las. O pequeno Reginald  seu parente sangneo. 
Nunca o esquea.
   -Seu pai est certo, Erasmus. -Alice saiu do topo da escada, na torre de guarda-. A famlia  muito importante.
   Hugh a olhou, carrancudo.
   -Est segura de que pode estar aqui?
   -Como v, estou muito bem de sade. Na realidade, recuperei-me muito bem do parto durante umas semanas. Se preocupa muito, milorde.
   "Parece saudvel, inclusive radiante", pensou Hugh. O nascimento de seu filho esteve a ponto de enlouquec-lo, mas Alice passou pela batalha com o aprumo de um 
guerreiro experiente que participa de uma justa.
   -Falou a Erasmus das Pedras de Scarcliffe?
   Alice sorriu para o  menino.
   -Ainda no. H coisas mais importantes que tem que aprender primeiro -disse Hugh.
   O menino o contemplava com infinito interesse. Hugh estava convencido de que j podia detectar uma aguda inteligncia no olhar de seu filho.
   -Bom -continuou Alice- falou sobre  a lenda de Hugh o Implacvel?
   Hugh gemeu.
   -No,  um tema muito aborrecido. Logo o instruirei no comrcio de especiarias.
   Alice riu.
   -Muito bem, senhor, farei um trato com voc. Voc lhe ensinar questes de negcios. Eu, ensinarei-lhe o que tenha que saber sobre as lendas da famlia. Est 
de acordo?
   Hugh a olhou aos olhos transbordantes de amor. Recordou aquela escura noite, no salo do tio, quando Alice lhe props um acordo que os ligaria para toda a vida.
   -Sabe que no h ningum com quem eu goste mais de fazer um trato que com voc, meu amor.

   
   
   FIM

Traduzido e corrigido por
Projeto_romances
Projeto_romances@yahoo.com.br

A Alquimia do Amor                Amanda Quick

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